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Bruno Vieira Amaral, por que é que tu irias atrás? Quem é que te faria chegar ao computador, entrar numa daquelas filas virtuais, gastar um balúrdio em bilhetes antes, se quer, de fazeres o telefonema para casa a perguntar se era boa ideia?

Ninguém.

Sejam muito bem-vindos a mais um PopUp, o melhor festival de opiniões sobre cultura popular da rádio portuguesa. Os cabeças de cartaz são os do costume: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Boucherie Mendes. Esta semana estamos aqui para falar de lendas em palco. A culpa imediata desta conversa é de duas lendas. Escolham a vossa favorita. Por um lado, Rod Stewart e por outro, Pedro Boucherie Mendes. O cantor britânico está no cartaz do Rock in Rio, vai atuar este fim de semana e o nosso amigo Pedro. Pedro, eu vou dizer isto, na verdade, não te perguntei. Eu ia dizer: o nosso amigo Pedro vai lá estar. Isto confirma?

Sim, a princípio, sim.

É claro. É verdade, tu és um tipo cauteloso e, portanto, vamos com cuidado.

Mas por motivos profissionais também.

Claro. Certo. Mas aprecias?

Mesmo que fosses tu a atuar, eu teria que lá estar.

Muito bem. Assim se começa um programa vencedor de prêmios. Estas duas lendas trouxeram-nos aqui esta conversa esta semana sobre o estatuto de rockstar, concertos, antiguidade em palco, etc. Pedro Boucherie Mendes, vamos voltar a ti. Eu ia te perguntar, isto é sempre muito perigoso, se estás entusiasmado com este concerto, com Rod Stewart. Já viste o Rod Stewart ao vivo?

Não, creio que não.

É a primeira vez. Olha, eu já vi. Não é nada mau.

Estou interessado em ver o GN'R.

Muito bem.

Porque eu gosto muito de ver o GN'R ao vivo. Aqui o tema são os legends.

Exato. Tu sugeriste que aproveitássemos a boleia deste terceiro dia de Rock in Rio deste ano, que tem esse apelido, dia das lendas ou legends, não sei bem qual é a palavra que devemos usar. Usamos a que...?

Velhos.

Os clássicos, talvez?

Antigamente eram os veteranos.

Exatamente. Veteranos é uma boa palavra.

Veio o veterano, Rod Stewart, e eram coisas mais ou menos de cassino. Essa malta ia ao cassino.

O Adamo.

Estavam sempre em Portugal. O Tony Bennett quando vem, a voz lendária, não sei o quê. Mas este lado legends é mais ou menos recente, creio eu. E distingue acts, artistas, que os mais novos também podem ir ver. Portanto, os mais velhos vão ver numa nostalgia ou de lembrança.

Ou de primeira vez, como é o teu caso.

Sim, e os mais novos vão para ver uma lenda viva, como dizem por lá, qualquer coisa que não estavam à espera de ver, mas da qual também fazem parte. Ou seja, não estou a ver os jovens a irem ver o Adamo ao cassino, mas estou a ver os jovens a irem ver o Adamo, passo aqui o exemplo, a um Rock in Rio. A um certo espírito legend. Porque eu acho que estes artistas que se posicionam assim, por exemplo, Bruce Springsteen, não é uma legend.

Achas que não?

Não, acho que é um artista ainda no ativo.

Ok, também depende da produção, da criação.

Sim, ao Bruce Springsteen será permitido fazer um espetáculo só com músicas do último álbum? Imagina que ele faz um espetáculo de hora e meia.

É aquilo que os ingleses e americanos chamam legacy act.

As lendas são obrigadas a cantar os hits. Quer dizer, ninguém das pessoas que vai ao Rod Stewart quer ouvir o seu último álbum, nem sei se ele tem o último álbum.

Terá o último. A questão é qual é que se ouve.

Queres ouvir o "Do Ya Think I'm Sexy?"

Sim.

É o best of.

E é uma bela canção.

Mas esse trade off.

Roubada, mas pronto. Roubada!

Mas esse trade off, e eu já estou nessa idade, eu quando vou ver um espetáculo, salvo algumas exceções, como fui ver agora recentemente o Tom Smith dos Editors, salvo algumas exceções, se me dou ao trabalho de ir ver um espetáculo, de comprar bilhete, é porque quero ouvir os hits. Não quero ouvir o teu último disco.

Tu não queres a novidade, não queres a surpresa, não queres descobrir.

E a última vez que isso me aconteceu, fui ver os Radiohead ali no Alive, já há uns anos valentes.

Aos 10, se não me engano.

Só tocaram coisas que não sabias bem o que era.

Ficaste muito desiludido.

Não é desiludido, mas ao mesmo tempo é: "Então quando é que eles tocam uma que..."

Aconteceu uma coisa interessante que foi da última vez, entretanto acho que foi ao Coliseu do Porto. Lembro-me daquele concerto do Bob Dylan no Alive.

Sim, esse também fui ver.

Ele toca muitos clássicos, mas tocou aquilo de uma forma completamente diferente. A maior parte das canções não eram reconhecíveis e muita gente ficou: "O que eu vim aqui fazer?"

Portanto, ele não é uma legend. O Bob Dylan, sendo uma lenda viva, não é uma legend.

Bob Dylan tem uma galáxia à parte.

Não, e continua a inovar no seu repertório.

Legends é o GN'R cantar "Eu Vi de Maria".

Chute, e os U2 também são uma legend, ou não? É diferente?

São, mas ainda se mantêm no ativo. Por exemplo, os Iron Maiden ainda fazem álbuns novos. Apesar de em palco Tocarem hits, os êxitos, mas ainda adiciona o repertório ao seu já longo repertório.

Eu gosto do lado intrincado da tua categorização. Eu gosto disso.

Por exemplo, a Madonna recusa-se a ser uma legend.

É verdade, luta contra isso.

Mas eu, se calhar, gostaria de ver a Madonna ao vivo só a cantar o "Papa Don't Preach" e o "Like a Virgin".

Mas ela canta muitos hits. Além das outras coisas.

Para dizer que eu, curiosamente, eu nunca esperei dizer isto e talvez possa ir para dentro, eu gosto de boas bandas tributo.

Gostas?

Não gosto de más bandas tributo, porque é uma seca, mas gosto de boas bandas tributo.

Muito bem.

Porque aí, de certeza absoluta, vão cantar os-

Tu vais ouvir exatamente aquilo que tu queres. Vou ouvir o "Like a Virgin".

O Pedro naqueles bares de banhos.

Desculpa, eu não sei se já contei aqui, mas eu estive recentemente em Ipswich a ver uma banda tributo ao Bob Marley.

Nada disto era previsível.

Não, fui visitar um amigo e ele achou uma ideia levar-me.

E tu gostaste?

E pelos vistos foi boa ideia. Pelos vistos marcou-te.

Não.

Havia muito fumo?

Não, porque já não se pode fumar dentro dos recintos, mas foi enjoyable.

Foi ok. Muito bem. Maria Ramos Silva, falar em enjoyable, ficamos a saber que aqui há poucos dias, um dia depois de cancelar um concerto por motivos de saúde, um concerto na Califórnia, Rod Stewart foi a um jogo do Mundial ver a Escócia.

E bem.

Ele disse que tinha uma laringite e no dia a seguir, pronto.

Eu acho que ele já surviveu para aí a três cancros diferentes, incluindo o da laringe.

Deixa-me só completar, Maria, desculpe.

Lembrou-se.

É porque isto é importante. Eu acho que a maioria de nós quer, no fundo, ou mesmo à superfície, quer que a legend se comporte como uma legend.

Sim.

É isso que eu vou perguntar. O comportamento de uma legend implica aqui um lado "enfant terrible", de rock and roll, bandido e fazer coisas inesperadas? Porque nós adoramos esta história de que o Rod Stewart falhou um concerto, disse que estava doente e no dia a seguir estava num jogo do mundial, mas se fosse conosco, se calhar-

Mas se estiver escalado no jogo do mundial, não pode deixar de estar a cantar. Não dá muito jeito, mas eu percebo que traga aqui algum gosto a isto.

Traz salero.

Traz. Há essa resistência no repertório que a Madonna faz, e quanto a mim bem, porque de facto acaba por ser um pouco ingrato também para os artistas. Quando esperas que eles só toquem temas do baú, eles querem continuar legitimamente no ativo. Se calhar também temos essa expectativa dessa resistência depois na vida pessoal, como é o caso do Rod Stewart, que tem essa vida cheia de colorido. Não sei quantos filhos, não sei quantas mulheres, não sei quantos casamentos, histórias do mundial. Eu recordo, mas que não cometo nenhuma inconfidência, uma amiga que há muitos anos ficou no Copacabana Palace e recorda-se do porteiro dizer: "O Rod Stewart quando passou por aqui destruiu o quarto a jogar a bola" e não havia bola. Agora imagina, ele deve ter andado aos pontapés com cadeiras, camas, mesas de cabeceira.

Mas em parte foi isso que construiu este mundo pop rock onde nós vivemos.

E mais do que isso, eu acho que estas lendas, como o Pedro falava, onde se inclui obviamente o Rod Stewart, fazem parte de um conjunto de nomes que nos últimos anos têm vindo a ser reabilitados daquela via dos piros.

Deixaram de ser flares.

Exatamente. Era um mercado para o qual não havia, ainda não tínhamos chegado a essa fase, porque não havia distância suficiente. Os mais novos, lá está, podem descobrir através de um festival, mas não vão de propósito comprar bilhete.

Os mais novos eu acho que ajudaram esse sentimento.

E não é só isso. Repara, até aqui há uns anos, provavelmente o Rod Stewart ia ser atirado para o meio de um lineup qualquer. Era ali o tal velhadas que estava ali metido, alguém podia eventualmente descobrir, os nostálgicos. Mas o Rock in Rio também sempre fez uma coisa que é interessante, e que eu acho de alguma forma um pouco o caminho natural dos festivais, que é esta segmentação por dias. Tu tens o dia mais pop, o dia mais metal, o dia do hip-hop, e depois tens este dia dos legends, onde de facto já há cada vez mais nomes da velha guarda, e tu consegues fazer um festival só com estas pessoas. Não só os GNR, tens os Xutos, tens os Foreign Bloods, tens a Cindy Lauper, que eu nem sei como é que ela vai cantar, mas é extraordinário. De facto, as pessoas continuam com mais ou menos recursos do baú a estar no ativo, aguentar-se em palco com mais de 80 anos, que é uma coisa absolutamente extraordinária. Vimos de jogos de futebol, de tudo e mais alguma coisa. E de facto eu acho que é interessante esta capacidade de reabilitarmos os nomes, porque repara, o Rod Stewart, nós esquecemos disto, mas teve ali várias falsas partidas na música, mas é um tipo que trabalhou com o Jeff Beck, era o rod da mod, tinha imensa pinta ali nos anos 60.

Fez aqueles discos incríveis com os Faces.

E depois há de facto essa travessia no deserto que nós vivemos em termos de música ou a que associámos estes nomes durante muito tempo, nomeadamente nos anos 90 e início de 2000, que eram de facto aquelas figuras de casino. Um pouco como nós associamos naquela fase mais decadente do Elvis. O tipo está ali a tocar nuns formatos, lá está, quase bandas tributo deles próprios, meio decadentes. Mas eu acho que de alguma forma estes nomes conseguiram esbofetear o destino e aqui estão. E Deus os ajude de saúde.

É uma boa imagem essa, esbofetear o destino.

É, porque eu acho que, de facto, até do ponto de vista físico, eu acho absolutamente extraordinário. Eu, que não tenho já resistência para estar ali horas no público, nem consigo imaginar. Aliás, acho que o Rod Stewart disse num destes concertos: "Não se importam que eu cante sentado?"

Sim, esteve ali um bocadinho. Vacilou.

Mas de facto as pessoas vão ver e há ali qualquer coisa que ainda funciona, e eu acho absolutamente extraordinário, que é haja vida e que haja público para estas pessoas.

Vida depois da morte.

Ainda em vida, que haja vida em vida e público para essa vida.

Bruno Vieira Amaral, desde já correndo o risco de ter de que interromper o teu raciocínio a meio por razões de intervalo.

Não interrompe, que eu não tenho grande coisa para dizer.

Não, mas recomeçaremos. Esta questão da idade e não só.

Conheci.

Aqui há poucos dias.

Mas deixa-me falar da idade, já agora.

Então avança. É um tema que te é sensível.

É a idade. Começa a ser cada vez mais. Mas se olharmos pra alguns nomes, estamos a falar do Bob Dylan, mas se pensarmos, por exemplo, no Leonard Cohen, que já não está entre nós.

Sim. Em corpo.

Mas quando estava e dava os concertos, não era uma legend, mesmo que cantasse as canções mais conhecidas.

Lendárias.

Lendárias. Mas não tem este estatuto de ressurreição. Ele sempre esteve ali e sempre foi velho, por assim dizer.

Ele gravou o primeiro disco, já tinha 30 e tal anos.

São almas velhas, já por si.

Pronto, e então tu não sentes aquela sensação de estar a desenterrar um gajo. "Onde este gajo andava?" Ele sempre esteve ali, sempre com aquela idade, portanto não está nesse campeonato. Agora, quando pensas no Rod Stewart, no Lionel Richie, nos Duran Duran.

Vem cá.

Tu pensas: "Epa, este pessoal ainda está".

Mas não os The Cure. Os The Cure também não são legend.

Nesse sentido, também não.

Seguindo o teu critério, não.

Não, mas os James já são.

Acho que sim.

Sempre foram. Parece que sempre foram.

Sempre foram.

Eles a partir de meados dos anos 90 entraram no modo legend. Tu tens aqueles cantores e bandas que têm um período de hibernação, que ninguém sabe o que estão a fazer, se a banda ainda existe, e reaparecem uns anos depois, com ou sem novo álbum, e aí estão eles. E há outros que não, que de alguma forma, mesmo que não tenham lançado novos álbuns, estão aí, mas com um estatuto diferente. Não é aquela coisa só pelo prazer da nostalgia. Eu acho que os Cure, por exemplo, estão nesse patamar. Eles estiveram muitos anos sem lançar um álbum novo, mas não sentiste, mesmo quando eles voltaram: "Estão a desenterrar estes gajos".

E é bem bom esse álbum. Esse novo álbum é bem bom.

O último.

"Unicorn".

E eu acho que há essa distinção, não tem a ver só com a idade, tem a ver também com a própria carreira que eles foram fazendo. E depois também uma coisa, que é: tiveram picos de popularidade muito elevados, como o Rod Stewart, o Lionel Richie, e que mesmo que depois tenham continuado a fazer algumas coisas, nunca voltaram a atingir esse pico. Enquanto tens outras bandas e artistas que vão mantendo-se num certo patamar de popularidade, nem são os maiores artistas do mundo, nem os mais incógnitos. Normalmente, estas legends tiveram um pico de popularidade estratosférico e tudo o que fizeram depois parece pouco em relação a esse pico de popularidade. E quando voltam e quando vêm pra estes concertos, está toda a gente a pensar nesse pico de popularidade, porque chegou a muita gente nessa altura.

Muito bem, eu tenho aqui uma outra questão pra te fazer, mas como chegamos aqui ao final da primeira parte.

Guarda.

Vamos ter que esperar.

Não gastes tudo.

Vamos voltar depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes. Esta semana estamos a falar de concertos, bandas e músicos de muito sucesso, antiguidade e outros derivados deste tema. Bruno Vieira Amaral, a pergunta que ficou aqui pendurada da primeira parte que tenho pra te fazer. Há bocado estávamos a falar sobre a idade, a passagem do tempo, como isso não é o único critério que define ou não uma lenda ou uma legend ou o que quiserem. Mas há aqui uma outra questão que tem a ver com a vontade dos fãs e até que ponto os fãs podem ter aqui alguma palavra a dizer. Aqui há uns dias, também no Rock in Rio, tivemos a atuação dos Linkin Park, ou da versão 2026 dos Linkin Park. Portanto, sem o vocalista original, com uma cantora a ocupar esse lugar, uma cantora nova na banda. Sendo que neste caso, parece-me pertinente a discussão, porque é um caso em que um vocalista era, de facto, o carisma da banda e era fundamental. Não é a primeira vez que isso acontece, naturalmente.

Sim, há bandas que sobrevivem, os AC/DC.

Os AC/DC talvez sejam o caso mais paradigmático, porque o vocalista era, de facto, muito importante e muito carismático, e a banda reinventou-se e alcançou ainda mais sucesso. A questão é: se por um lado achas que os fãs têm legitimidade para dizer quando é que uma banda ou um artista deve parar ou não, e se isso é uma questão que se coloca quando acontecem estas mudanças.

Os fãs têm sempre legitimidade.

Pra dizer o que quiserem.

Pra dizer o que quiserem. Imagina, uma banda regressa e não tem o vocalista, mas esgota os bilhetes, tudo bem. É só por nostalgia, é só porque nunca tiveram a oportunidade de ver aquela banda ao vivo e queriam muito. E agora não é porque um gajo morreu que vamos deixar de ter essa oportunidade. Aí é o mercado a funcionar. Agora, claro que muitas bandas é muito difícil de imaginar serem a mesma coisa Com outro membro, normalmente o vocalista, desaparecido, ou porque deixou a banda, ou porque morreu. Muitas vezes aqui funciona o desejo dos fãs e também a capacidade da banda de encontrar equilíbrios. Uma banda é um organismo que, pra mim, supostamente é de curta duração e envolve um equilíbrio cósmico entre todos os elementos. E normalmente isso são coisas que duram pouco, não só porque a vida de uma banda com concertos e gravações, se estiverem no ativo, é muito desgastante, é muito exigente, cria muito desgaste entre todos os elementos e supostamente deveria durar pouco. Claro que há bandas que têm uma grande longevidade, conseguiram sobreviver e ultrapassar essas dificuldades próprias de se estar numa banda. E há outras que eu já não sei se serão a mesma coisa sem um determinado elemento, mas os que sobram ou os que ficam lá, permanecem na banda, conseguem ultrapassar também a falta desse elemento, que em alguns casos é essencial, e reinventar-se, encontrar novos equilíbrios e às vezes vão apenas ao encontro daquilo que os fãs esperam.

Há modelos híbridos, e que o Pedro deve gostar, porque ele gosta de bandas tribute, que é aqueles formatos, os Queen com o Rogers.

Por exemplo.

Os Doors com o Ian Astbury.

Com o Adam Lambert.

Ou com o Adam Lambert.

Com o Adam, que estiveram.

Foi um ótimo concerto no Rock in Rio.

Rock in Rio. É possível imaginar os Queen sem o Freddie Mercury? Na verdade, aquilo já não são os Queen.

Mas ultrapassada essa questão.

Ok, pronto, tu faz um concerto, aquilo esgota e claro que os fãs estão ali a ouvir as canções que toda gente conhece, mas os Doors também continuaram. E depois até faziam concertos sem o Jim Morrison, mas aquilo já é outra coisa. Imagina os Nirvana. Tu consegues imaginar os Nirvana com o Kurt Cobain, o Dave Grohl e outro gajo qualquer, ou com o Krist Novoselic e outro gajo qualquer?

Não sem o Kurt Cobain.

Podia acontecer.

Mas se calhar nem vem acontecer.

Já estás a falar de outra coisa.

Agora vi o Pedro acenar.

Quando uma banda tem a inteligência suficiente, na minha opinião, de ter uma relação de adaptabilidade com o público, torna-se uma legend, normalmente.

Muito bem.

As pessoas quando foram ver os Coldplay em Coimbra, houve imensos concertos seguidos.

Três ou quatro, já não me lembro.

As pessoas foram à procura dos êxitos e os Coldplay foram inteligentes, depois até haviam umas bolas e umas pulseiras coloridas. Isso faz dos Coldplay um curiosíssimo exemplo de uma banda contemporânea que já é uma banda com inteligência para ser legend. Eu acho que o público tem o direito a ter aquilo de que gosta por parte do artista. Quer dizer, quero crer que os U2 um dia ainda hão de fazer uma turnê com os seus êxitos. E lá vamos nós ouvir o "Sunday, Bloody Sunday", mas se calhar é isso que os fãs mais velhos querem ouvir. Ou seja, há o lado em que a própria banda ou o artista faz um tributo a si próprio e ao público. Portanto, eu, Rod Stewart, tenho aqui estas são as músicas da minha carreira de décadas, são as músicas favoritas. Eu vou me divertir a cantar e vocês, público, vão gostar ainda mais, porque não vieram cá pra me ouvir a fazer uma cover de uma coisa qualquer do Jacques Brel. E eu acho isso uma indústria em crescendo, porque uma coisa dos festivais que nós sabemos é que os grandes artistas são cada vez menos e esses que são grandes artistas preferem, obviamente, ir pra um estádio sozinhos, onde ganham o dinheiro todo, do que estar de partilhar. No fundo, se eu comprar um bilhete pro Rod Stewart, pro Rock in Rio, vejo também as outras bandas, as outras bandas também receberam cachê, do que estar em festivais, que o festival é uma coisa que, pelos vistos, está a esmorecer a adesão aos festivais.

Mas se calhar depende dos festivais. Continua a haver festivais repletos e cheios de gente.

O Glastonbury ou Coachella têm esse estatuto e o Rock in Rio, de alguma forma, creio que também tem.

Mas entre nós também, ainda agora tivemos há pouco tempo o Primavera Sound e estava cheio de gente.

Sim, mas o Primavera Sound não é um festival de 90 mil pessoas.

Também é ok.

É um festival pequeno de propósito.

Até 40, mais ou menos.

Sim, e gosta de ser assim. Portanto, o seu posicionamento e identidade tem a ver com isso. O do Porto. Nós temos o Alive, talvez até mais do que o Rock in Rio, que já tem uma marca tão forte que não depende bem do cartaz, mas ainda assim tem que ter um cartaz forte.

Sim, e quando convoca um nome como os Foo Fighters, sabe o que está a fazer, porque os Foo Fighters, de acordo com o teu critério, não são uma legend, mas pra lá caminham. Ou quando fazem um acordo de exclusividade com os Buraka Som Sistema pra um regresso, fazem aquilo de propósito pra garantir que esgota o dia e conseguiram.

Mas talvez o Rod Stewart não estivesse no Alive.

Certo.

E ou talvez o Alive do futuro vá ter que ter um concept legends algures num dos dias.

Certo. Mas eu acho que essas coisas às vezes acontecem.

Mas eu não acho isso E isto é importante. Não acho que seja uma cedência. "Que remédio temos nós senão fazer um legend?" Não, acho que faz parte do que é a adesão das pessoas aos espetáculos, porque é mais fácil. Ou tu és o Bad Bunny, tens aquele aparato todo, aquelas coisas todas que ocorreram dentro do concerto dele, já não é um concerto. O Bad Bunny não é um concerto, é qualquer coisa que se vai ver. É um espetáculo, é quase um musical. Ou então é melhor, de facto, ouvir o Rod Stewart ou os Bon Jovi. Um dos melhores concertos que eu vi na vida foram os Bon Jovi no Rock in Rio. "Ah, mas é porque eu sou fã dos Bon Jovi". Não, mas porque houve um match perfeito entre o público, o palco, a luz, a temperatura ambiente, o repertório da banda e a própria performance da banda. Portanto, são várias coordenadas que quando acontecem ao mesmo tempo, tornam a experiência muito maior do que a soma das partes. Em sentido inverso, há muitos concertos que vais com grande expectativa e adoras a banda, mas depois ficaste a ver num canto e o som era péssimo. Enfim, tipo espetáculos de Camaras das Fitas. Mas só para acabar este conceito da legend. A mim parece-me que legend é uma coisa positiva e não uma espécie de prêmio consolação, ele está velhote. Por falar nisso, há dois anos estiveram os Scorpions no Rock in Rio e foi penoso, porque o tipo devia estar doente e mal se mexia. Mas eu vi um anúncio, eles vêm ao Pavilhão Atlântico.

E vais ver?

Quer dizer, vai há dois anos mais velho.

Pois é. Deve ter sido uma má noite, Pedro.

Exato.

Foi tão penoso que houve uma parte instrumental de meia hora, com solos de guitarra e solos de bateria. Ele devia estar doente.

Eu, por acaso, esta indústria dos hits preocupa-me um bocado, sinceramente. Eu percebo que em termos de que seja, de facto, mais do que um objetivo lucrativo, em termos de espetáculo e de adesão massiva, de facto funciona.

Resposta do público.

Sim, mas eu acho que para quem gosta verdadeiramente de música, é um pouco complicado, porque já me aconteceu o oposto. O Pedro tem esta expectativa de ir lá para ouvir o best of. Aquelas canções mais ouvidas, que toda a gente conhece. Eu compreendo isso, eu também há momentos quero isso, mas também já me aconteceu o oposto. Eu recordo-me de um caso.

Queres ser desafiada.

Não é ser desafiada. É, por exemplo, essas pessoas que ainda não estão na fase de reforma absoluta. Eu vi um concerto do Iggy Pop há uns anos. O Iggy Pop tem, obviamente, uma quantidade-

720 anos.

E 720 hits. Mas depois também tinha um álbum acabado de sair, que era um belíssimo álbum, e eu não consegui ouvir uma única canção do álbum novo. Ouvi uma ou duas, porque depois, obviamente, foi "Lust For Life" dali adiante.

Exato.

E eu acho que para quem segue, de facto-

Sim, esse é um bom ponto

...os músicos, tu quase já tens que fazer o oposto hoje, que é aqueles concertos muito restritos, sentados, mais intimistas, em que a banda vai apresentar o álbum e só vai tocar o álbum. Que, aliás, já tens um pouco isso.

Acontece cada vez mais, para quem tem essa bagagem.

O álbum que saiu há 20 anos ou o álbum que saiu há 30 anos.

O Billy Corgan vem agora fazer isso a Lisboa com o Melancoly.

Precisamente. E eu acho que isso acaba por ser depois um caminho paralelo que vai complementar este, porque na verdade tu estás sempre em modo blockbuster. Porque o Pedro falava dos Coldplay. De facto, aquilo é 50% música, mas depois os outros 50% são luz, espetáculo, bolas, confetes. Acredito que as pessoas gostem, evidentemente, das canções, mas vão mais do que só escutar canções. Vão fazer parte daquela experiência. E hoje os espetáculos ao vivo, e eu percebo isso, estão montados, de facto, para tu teres essa experiência 360. Não ser só aquela coisa que era, nós íamos a um concerto, o que é que havia? Se houvesse um bar a vender garrafas de água, já era uma sorte. Tu tinhas um palco e hoje tens uma estrutura absolutamente completa. Aliás, eu recordo com algumas pessoas que foram ao Rock in Rio neste último fim de semana e que me diziam que às tantas estão a fazer tanta coisa. Quando perguntas, na verdade, quantos concertos viram, é praticamente meio concerto, porque há muita coisa para fazer. E de facto, as canções estão ali metidas, são obviamente o gancho, acredito eu, mas tu tens depois ali uma série de espaços e de coisas que podes fazer pelo caminho. Desde que entras até ao momento que sais. Portanto, podes estar na roda gigante a ver a Katy Perry.

Uma questão que é importante, e isto fala-te ao coração, Maria. Que há poucos dias os Rolling Stones, julgo que foi o Keith Richards que disse que havia dúvidas sobre uma futura nova digressão, mas que falam eventualmente numa residência.

Uma residência sênior.

Aquilo que tem acontecido muito. Como o Bad Bunny em Madrid, como o Harry Styles em Nova Iorque, a Shakira vai fazer isso em Madrid no fim do ano.

Eu acho que se cada um deles abrisse a porta de casa e vendesse bilhetes para as pessoas irem lá. Nós íamos!

Nós íamos, claro. A minha questão é: fazer 10 ou 20 concertos numa só cidade e esperar que os fãs vão, porque as digressões estão cada vez mais caras de fazer e há mais restrições e dificuldades, etc. A questão é: isto resulta? Os fãs vão, há sempre gente disposta a ir, daquilo que tens visto?

Sim, resulta.

Sim, porque lá está-

Mesmo que seja longe, mesmo que tenhas que comprar viagem, estadia.

Mas isso é o next step. Eu falava disto a uma escala local, mas depois ainda tens o upgrade, que é de repente compras o bilhete e vais viajar e vais passar umas férias e portanto isto massificou-se. E portanto, sim, eu até acho que é bastante sensato e não sei como é que não fazem mais, para te ser sincera. Acho que é péssimo para quem tem que gastar isto tudo, mas do ponto de vista de quem organiza, é montar ali um quartel-general e venham cá ter, obviamente. Fazer ali alguma coisa, sei lá, no centro da Europa ou noutro sítio qualquer, e teres uma espécie de residência, sim, como tu tens em Las Vegas há anos. Ou noutros destinos e as pessoas vão lá e tens uma grande temporada aberta, grande ou pequena. Quer dizer, não sei o que é que eles conseguiriam fazer. Também não estou à espera que depois estejam 100 noites consecutivamente, porque aquilo é altamente exigente ao mesmo tempo. Agora Esta questão do prazo, e há pouco o Bruno também falava sobre isto, é de facto difícil apurar para cada caso. O que faz ou não faz sentido, porque nós enquanto fãs em tempo de vida temos a expectativa de que as coisas provavelmente durem para sempre. Um pouco como os restaurantes. É engraçado, estava a pensar, noutro dia entrevistei o chef Kiko Martins e ele dizia-me uma coisa que nós muitas vezes não pensamos, porque quando um sítio fecha só pensamos: "Bolas, perdi aquele restaurante que gostava tanto". Mas ele lembrava uma coisa óbvia, que se calhar ao fim de 40, 50 anos é normal que um espaço feche, por múltiplas razões, simplesmente porque tem um tempo de vida, porque as pessoas que vão lá estão fartas, mas as pessoas que estão à frente do negócio, porque os filhos, os netos não querem ficar com aquilo. Portanto, se calhar as coisas, de facto, assim como nós, também têm um tempo útil de vida. E as coisas são boas e acontecem e vai chegar uma altura em que nós não estamos preparados para isso, eu não estou, mas vamos receber a notícia de Mick Jagger, e o mundo vai ser certamente um mundo diferente e eu não consigo imaginar que façam um casting para substituir Mick Jagger.

Estou a sentir toda uma bala aqui nervosa com essa notícia.

E quem diz Mick Jagger, diz Keith Richards. Mas temos que aprender a viver com isso. Quer dizer, se nós não formos todos antes deles, que é a minha teoria.

Claro, talvez seja a maior probabilidade. Bruno Vieira Amaral, por quem é que tu irias atrás? Quem é que te faria chegar ao computador, entrar numa daquelas filas virtuais, gastar um balúrdio em bilhetes, antes sequeres de fazeres o telefonema para casa a perguntar se era boa ideia?

Ninguém.

Eish, que duro.

Eu mais estou com o Bruno.

Neste momento.

Neste ponto da tua vida.

Nem no deste formato.

Estou muito concentrado a fazer a coleção de cromos.

É verdade, eu queria-te perguntar sobre isso, não tem nada a ver.

Não pode ir a lado nenhum.

Ainda não está.

Ainda não conseguiste.

Mas estou a um bom ritmo.

Era só porque era interessante acabar antes da final.

Muita gente tem esse objetivo. Não sei se é uma coisa supersticiosa do gênero. Se não acabar antes do mundial, não conta. É como se não conseguiste.

É fora de época.

Então já não fazes depois. Mas está a correr bem.

Mas pode acontecer em casa que alguém mais novo que tu te venha dizer: "Pai, olha que eu vou ver este..." E aí vais ter que te aguentar.

Sim, ok. É possível que isso aconteça nos próximos tempos. Já houve alguns pedidos. Quando nós começámos este programa, lembro-me-

Há 25 anos.

Lembro-me de ir ver um concerto da Bárbara Bandeira.

Nós falámos sobre isso.

Falámos sobre isso.

Na altura.

Falámos sobre isso na altura. Isto em 2019, quando nós começámos, e fui ver um concerto. Aliás, depois acabei por ir ver ainda outro concerto da Bárbara Bandeira, porque a minha filha, na altura, devia ter uns sete, oito anos, queria muito ir ver a Bárbara Bandeira. Mas era um concerto de borda. Deixa-me dizer aqui uma coisa.

Diz.

Se a Bárbara Bandeira nos está a ouvir. Há cantores e artistas que tratam muito mal os seus seguidores. A minha filha, na altura, mandou um vídeo pelas redes sociais a pedir que ela mandasse uma mensagem, porque era superfã e aquelas coisas todas, e nunca teve uma resposta.

Não podes levar isso a peito. Os artistas quando são muito famosos recebem muitas mensagens dessas.

Na altura, ela não era assim tão famosa.

Ok.

E há artistas que sabem muito bem gerir estas coisas e manter o sonho vivo no coração dos públicos.

Mas eu acho que ainda vai acontecer.

Bárbara, se nos estás a ouvir, vai lá ver as mensagens que tens aí, que nunca abriste em 2020.

Queria só terminar com uma pergunta aqui ao Pedro. Estamos em época de festivais e grandes concertos, etc. E continuo a ver, o Pedro saberá melhor do que isso, porque não sei se tem voto na matéria ou não, mas trabalha numa dessas firmas que transmite concertos ao vivo e festivais. Na televisão, esta é que é a questão, o que eu te queria perguntar é se isto é um bom negócio, se resulta, se as pessoas veem.

Olha, foram as televisões, mais exatamente a SIC, que fizeram os festivais. Este fizeram está em itálico, obviamente. Na medida em que levaram aos portugueses que não estavam lá, o que era os festivais. Se calhar um miúdo viu o primeiro Sudoeste na SIC Radical.

Eu lembro-me de vários Paredes de Coura há muitos anos.

E com vontade de ir. Quando eu digo fizeram é nesse sentido. A SIC sempre esteve no Rock in Rio, esteve muito tempo no Alive, no Super Bock, nos Paredes de Coura, nos Vilares de Mouros, nalguns, no Sudoeste, claro. E essa dinâmica de evento ao vivo que chega à casa das pessoas através do televisor é uma parte importante do que são hoje os festivais, pois as marcas comerciais, as EDPs, antigamente a Óptimus e a TMN.

Cervejeiras, deve ser.

Cervejeiras. Temos aqui uma oportunidade, chegamos à casa das pessoas, então estamos no festival. Mas depois o apresentador também tem uma t-shirt a dizer Sagres ou Óptimus, ou o que for. E, portanto, criou-se uma dinâmica comercial em torno dos festivais, também. Para as televisões é uma oportunidade de negócio, é uma oportunidade de programação. Nós, por exemplo, agora a SIC transmitiu este sábado à tarde alguns espetáculos e foi líder de audiências no Rock in Rio. A SIC generalista, quero eu dizer. A SIC Radical teve as suas melhores audiências da história transmitindo concertos, bem como a SIC Mulher, curiosamente, porque as pessoas, de facto, querem ver. A questão é: quanto melhor é o palco e a luz, sobretudo, portanto, o Rock in Rio, quanto mais cénico é, melhores são as audiências, porque as pessoas quando veem televisão, as pessoas estão a ver televisão, não estão propriamente a ver o seu artista, salvo os fãs. Esses até veriam com uma câmara de vídeo a preto e branco, veriam as músicas. Mas sim, são oportunidades para as televisões. Estes grandes festivais, nomeadamente, nós temos agora o Alive e o Rock in Rio, que são os maiores, é indiscutível, terão sempre uma televisão associada e neste ano é a SIC, espero que para o ano também. E é uma parte importante, enfim, há detalhes que não podem ser revelados, digamos assim, mas há um acordo com os promotores e com as bandas e com as marcas comerciais.

Pedro, é importante para as pessoas que não podem ir, porque nós também temos uma ideia, que eu acho que é curioso quando falamos dos festivais, que toda a gente vai e pode ir aos festivais. E isso não é verdade. Isso não é rigorosamente verdade e portanto, há aí um trabalho que permite levar ali uma série de coisas que as pessoas, muitas delas, só conseguem ver através do ecrã.

Os festivais, e talvez possamos falar nisso num programa um dia destes, os festivais são muito importantes para a geração millennial portuguesa, a vossa geração. São muito importantes.

Eu sou millennial.

Nasceste em que ano?

80.

Então és millennial.

Estou sempre muito perdido em relação a isto. Muito bem.

És do primeiro ano dos millennial.

Foi com esta possibilidade de identificação pessoal que terminamos mais um "PopUp". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.