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É o regresso de O Esplendor e a Infâmia com Pedro Jorge Castro. Bem-vindo, Pedro.

Olá.

Que longas férias.

Nem imaginam.

É verdade.

É verdade, mas todas estas quartas-feiras pelas 17h15 eu sentia um pequeno arrepio e não era vento, porque até esteve bom tempo, não era a sombra súbita do homem das bolas de Berlim, era mesmo saudades ternurentas de estar aqui convosco a esta hora no estúdio.

Acho bem, porque bolas-

Não trouxe as bolas de Berlim

Trouxe.

Isto parecia as férias grandes de antigamente.

Exato.

Judite, queres pegar?

Quero, porque parece de propósito, voltas e a atualidade fica logo muito mais esplendorosa, até com direito a buscas na Polícia Judiciária.

É o meu efeito.

É isso. Efeito buscas.

Um comunicado da Polícia Judiciária a confirmar que a própria Polícia Judiciária foi alvo de buscas. Isto é quase tão bizarro quanto, sei lá, um hospital anunciar que um médico se sentiu mal numa operação e o de ontem é que o salvou com uma respiração boca a boca, ou o primeiro-ministro e o ministro das Finanças anunciarem que não baixam os combustíveis e depois ouvirmos os próprios a dizerem, exigirem isso mesmo quando estavam na oposição. Espera, não, isto aconteceu também.

Isto aconteceu.

Isto também aconteceu. Recapitulando: nós temos neste momento a Ministra da Justiça a investigar os tempos do Ministro da Administração Interna quando era diretor da PJ. Temos o atual diretor da PJ a enganar a Ministra da Justiça sobre o custo da destruição dos bidões da droga do atrelado. Temos o Ministério Público a investigar o Ministro da Administração Interna em cinco processos diferentes, que eu creio que a contagem ainda vai aqui. E temos agora a Procuradoria-Geral da República a fazer buscas ao próprio diretor da Polícia Judiciária. Neste momento, está a ser dito que até o telemóvel foi apreendido. Atenção, carece de confirmação, vamos ver, ou se foi o computador ou o que é que foi.

Temos aqui a informação de que foi o computador de Carlos Cabreiro que foi alvo de buscas e o denunciante teve o telemóvel apreendido.

Tudo uma cena lamentável. Atenção que em condições normais, os investigadores da Polícia Judiciária são o braço armado do Ministério Público nas investigações. Espanta-me, com franqueza, como é que toda esta gente na cúpula das nossas autoridades continua a confiar uns nos outros. Parece-me difícil que não estejam todos de pé atrás uns com os outros. E mais difícil ainda, que o país, empávido a assistir a isto, não fique com os dois pés atrás.

E isto já é esplendor ou infâmia?

Bem perguntado. Não me esqueci da estrutura da rubrica. Podemos dizer que isto é uma infâmia que serve de aperitivo para outra infâmia. Duas infâmias pelo preço de uma, no regresso desta rubrica à tarde política.

Boa. Vamos então à infâmia.

Estamos em período de regresso às aulas. Acabamos de ter um debate no Parlamento pedido pelo PCP sobre o assunto. Isto continua a não correr muito bem ao ministro Fernando Alexandre.

Pois é. O Ministério da Educação parece enfrentar um dilema parecido com o do Sporting. Não era possível manter as coisas como estavam, porque os jogadores iam ficar mais velhos, mais caros e mais descontentes. Não é possível mandar embora os jogadores principais todos acusando-os de falta de ambição e manter o treinador que não os conseguiu motivar. E sobretudo, não é possível esperar mudar a equipa toda sem dar tempo pra toda a gente se adaptar. Atenção que eu estou a ser muito tolerante com tudo aquilo que está aqui a acontecer. O problema é que a educação não é um jogo da bola. Se o Sporting perde ou empate, eu fico muito irritado, mas depois lá estou no jogo seguinte a acreditar até o fim. Mas se a educação perde, estamos aqui a condenar demasiados miúdos a um futuro de ignorância, com menos capacidades pra enfrentar os desafios e menos possibilidades de lutar em prestações. Eu vou só dar aqui três exemplos muito rápidos. Creio que a maior parte das pessoas sabe, mas eu sei muito bem, por experiência própria, que foi criada uma agência pra gestão do sistema educativo. Isso foi substituir várias entidades, incluindo a DGEstE, que era quem geria essencialmente estas coisas. Ora, esta agência para a gestão do sistema educativo não existe. Quer dizer, podem estar fechados nos gabinetes a fazer muito trabalho, mas não respondem a ninguém. Não respondem a professores, a diretores de escolas, a pais. É impossível comunicar com esta agência e creio que isto é muito preocupante. Antes, apesar de tudo, não era assim. Tenho experiência própria de ter enviado comunicações à DGEstE e ter tido pelo menos uma resposta. Aqui, nada. E como vejo que há muita gente a queixar-se disto mesmo, acho que isto é bastante preocupante e não percebo como isto acontece. Outra coisa ainda mais extraordinária: esta agência, quando foi criada em 2025, o diploma que a criou prevê e previa, e está previsto, que os seus técnicos superiores recebam prêmios de desempenho consoante o seu contributo pra melhoria da escola pública. Isto é espetacular, por várias razões. A primeira das quais é que isto depois estava dependente dos detalhes, que ficariam pra um diploma regulamentar a ser publicado até o fim deste ano. Eu não encontrei nada disso, não encontrei nenhum registro disso. Imagino que não tenha acontecido. O que tem esta coisa boa, a incompetência, na verdade, tem esta coisa boa que é, pelo menos não nos vamos arriscar a que estas pessoas recebam prêmios proporcionais, mesmo que fosse 40%, que é uma nota negativa em relação àquilo que está a acontecer. Limito qualquer prêmio pela forma como estão a gerir o fim do ano letivo anterior, o regresso às aulas agora, enfim, pra todos os agentes educativos. Mas vamos chegar a esse momento. Possivelmente, como isto está previsto, vai haver um momento em que vão definir qual é o valor que cada um dos altos funcionários desta agência merece receber, consoante o seu contributo. O que é estranho, porque se calhar os professores, diretores de escolas que estão muito mais perto de todos os problemas educativos e contribuem muito mais efetivamente precisamente pra evolução dos alunos, não têm previsto nenhum tipo de incentivo deste ano. É esquisito que os burocratas beneficiem disto e os principais agentes de educação não tenham nada disto. E atenção que eu sou a favor de incentivos por mérito, sou mesmo a favor. Acho que é uma maneira ótima de depois avançar, mas pronto, se calhar vamos com critério e vamos ver a quem é que os atribuímos. Último exemplo só disto, muito rapidamente. Um aluno que tenha sido colocado numa escola que não é a sua primeira, nem a segunda, nem a terceira opção e que queira, tenha ousado pedir uma transferência Para outra escola. Enfrentou vários desafios e uma autêntica saga burocrática. Eu sei que há vários pais nesta situação. É impossível só se candidatar a entrar numa outra escola, tem que dar cinco opções outra vez. As cinco opções no início. Depois tem que dar outra vez cinco opções e não há nada a fazer assim que o processo é iniciado. Isto vai automaticamente de escola em escola e, portanto, o aluno arrisca-se a ir parar a uma dessas cinco, mesmo que não queira a segunda, nem a terceira, nem a quarta, nem a quinta. E estamos a falar de alunos que não têm disciplinas na escola em que ficaram colocados, que são fundamentais, se calhar, para os exames que dão acesso ao ensino superior, ficam longe de casa, enfim, toda uma série destas coisas. E aquilo que dizem as pessoas: esta agência não existe, não responde nada. E são as escolas que estão a gerir todo este caos, a aturar os pais, claro, e a dizer: "Pois, agora é assim, não faz muito sentido, não era assim no ano passado, mas tem que ser e pronto, vai perder o controle deste processo". Eu não discuto a necessidade de fazer reformas, aliás, exijo essas reformas de forma bastante assertiva, mas há aqui um problema que é: as reformas têm que ser feitas evitando um nível de turbulência tão grande. Este nível de turbulência parece-me amadorismo. E depois ainda há outro problema que é: é o único ministro que faz reformas. Se isto é o pioneiro das reformas do governo e se as outras reformas do governo vão ser feitas provocando este caos, então temos aqui um problema adicional. Não satisfaz quando faz reformas e não satisfaz quando não faz reformas. Eu creio que temos aqui um problema grande, não só para Fernando Alexandre e para o Ministério da Educação, mas para todo o governo.

Agora vamos ao Esplendor. E no Esplendor, queres falar de alguém cá da casa? O Eduardo Sá, que todos os dias entra na Rádio Observador às 16h45 com o José de França, com o "Porque Sim Não É Resposta" e que recentemente editou um novo livro.

É verdade, e que vocês ambos conhecem muito bem, porque ambos já foram os titulares do "Porque Sim Não É Resposta" com ele, durante muitos anos, cada um. E infelizmente, os lançamentos de livros são feitos à hora que a programação está no ar e, portanto, não puderam testemunhar o que foi a apresentação deste último livro. Eu estive lá a representar, salvo seja, não é a mesma coisa, claro.

Obrigado. Eu já estou a ler.

Pude testemunhar o quão especial foi aquele momento. Foi uma apresentação feita pelo José Alberto Carvalho e foi de facto bastante tocante e profunda sobre a vida. O livro que ele acabou de lançar é precisamente sobre o acidente que lhe aconteceu, aliás, não é sobre o acidente. Tem como ponto de partida o acidente e depois é toda uma reflexão sobre a vida a partir disso. Isto podia descambar para coisas se calhar filosóficas, assim um bocadinho esquisitas, e não, aquilo marca mesmo qualquer pessoa que leia. Acho que todos nós nos imaginamos a acontecer aquilo que lhe aconteceu, um acidente estúpido, daqueles que nos impede ou nos dificulta grandemente a mobilidade. E eu continuo a achar absolutamente impressionante que o primeiro instinto dele, logo passados dias depois, tenha sido continuar a fazer o "Porque Sim Não É Resposta" a partir de uma cama do hospital. Isto é uma coisa que não sei se os nossos ouvintes têm noção disso, mas quão marcante e quão especial isto foi. E a forma como ele tem continuado a furar a vida, como se não tivesse esta limitação e como tem conseguido continuar a tocar as pessoas. Eu não faço isto normalmente, isto não é por ele ser nosso colaborador, é de facto porque fiquei muito impressionado com a forma como ele tem continuado a viver e a transmitir-nos ensinamentos sobre a vida a partir daquilo que lhe aconteceu.

E deixa-me aproveitar para mandar também um grande abraço ao Eduardo Sá, que eu posso dizer que é meu amigo. Conhecemo-nos aqui na rádio e desenvolvemos uma boa amizade.

Somos uns sortudos.

Sim, somos mesmo sortudos. Agora vamos ao Baú. E no Baú, Pedro, Jorge Palma.

O que é que nos trazes?

Vocês têm uma música preferida dele?

Eu tenho uma lista.

É isso. É um bocadinho isso.

Lista não vale, lista todos temos.

Se tivesse que escolher uma, escolhia a "Canção de Lisboa".

Eu vou para duas muito óbvias, por razões distintas, o "Encosta-te a Mim" e a "Gente Vai Continuar", mas depois gosto também de muitas outras coisas e gosto sobretudo da forma como Jorge Palma tocava piano. É incrível, é um pianista incrível.

É mesmo.

Curso do conservatório.

Sim. Espetacular que sem termos combinado, não tínhamos coincidido em nenhuma, mesmo indo para escolhas mais ou menos óbvias, vamos dizer assim. Para mim é o "Bairro do Amor", sou um romântico, não há nada a fazer quanto a isso. E na verdade, isto hoje é um anti baú, porque com Jorge Palma, claro, podia haver muita coisa para aí ver, mas nunca nada teria o mesmo interesse do que a própria forma como ele contou as histórias mais embaraçosas e as aventuras mais hilariantes por que passou. E ainda agora isso foi muito recordado em todo lado. Na verdade, é hora para tirar disto do baú, se o Salvador Sobral não ficar muito irritado, ir ouvir ao Spotify a banda sonora e a discografia toda de Jorge Palma. E espanta, sobretudo, esta liberdade selvagem dele, da forma como ele vivia, quase de forma irresponsável, que nunca ninguém sabia quando é que ele ia aparecer ou quando é que não ia aparecer, mas depois como isto também se traduzia nesta genialidade das letras, nesta capacidade ao piano. Nós não vamos todos viver no Bairro do Amor abraçados a dançar o Cumbayá, mas na terra dos sonhos pode-se tudo e podemos celebrar isso com, se calhar, a melhor banda sonora para os nossos sonhos.

Fica essa homenagem também ao Jorge Palma no Esplendor e a Infâmia, que regressou hoje de férias, depois de uma longa férias.

Tiveste de contar.

Tive. O Pedro Jáscasto vai regressar na próxima quarta-feira.