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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso baile semanal pelas ondas da cultura popular, sempre com estes trovadores Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos inevitavelmente mais musicais. Vamos falar de Luís Represas e dos Trovante.
Já começaste mal.
Já comecei mal?
Já começaste mal.
O Trovante?
Peço imensa desculpa, têm toda a razão. Ainda bem que ficámos. Eu acho que os comuns mortais podem dizer os Trovante sem ninguém levar a mal. A própria banda autodenominava-se O Trovante. Tem toda a razão.
E corrigia sempre nas entrevistas.
E por isso é que vocês aqui estão.
Sim.
Muito obrigado, amigos. Voltando a Luís Represas, não sei se vou dar a notícia a alguém, mas é para isso que também aqui estamos. O músico morreu esta quarta-feira, dia 22 de julho, tinha 69 anos. Cantor e compositor, foi um dos fundadores, escolham, dos Trovante ou do Trovante.
Do Trovante, vamos dizer do Trovante.
O grupo que sobretudo na década de 80, cruzou como poucos a tradição portuguesa com a pop e prosseguiu, Luís Represas, já nos anos 90, com uma obra a solo. Entretanto, houve vários momentos de reunião. O mais recente foi aqui há poucos meses, cinco meses, mais coisa, menos coisa. Pedro Buchinho Mendes.
Houve menos desses momentos do que agora parece.
Claro, verdade. Sim. É um sentimento habitual quando acontecem essas coisas. Que era uma coisa constante? Não era constante.
Até pelo contrário, actually.
Vamos começar por ti, porque tal como os Trovante, és um clássico e mereces isso.
O Q U E.
Clássico.
Olha, várias coisas para dizer antes que me esqueça.
Vamos embora. Os clássicos são assim, nós temos que dar a palavra antes que...
A morte de Luís Represas, e naturalmente creio que falo por todos, os sentimentos à família.
Com certeza.
E aos amigos. A morte de Luís Represas surpreende muita gente, obviamente. Provavelmente surpreende o próprio e seu entourage, já que eles tinham concertos marcados para o Coliseu para assinalar os 50 anos de carreira de Luís Represas. As salas estavam marcadas.
E no Porto também.
Sim, mas estavam marcadas.
Estavam. 2027.
Portanto, ainda que Luís Represas estivesse doente, acharia provável poder atuar. E os sentimentos refletidos pelas personalidades ao longo do dia de ontem também surpreenderam muita gente, pelo menos a mim surpreenderam. Luís Represas nasceu no mesmo ano que José Pedro. Se bem se lembram, José Pedro foi uma morte completamente Marcelo Rebelo de Sousa. Não sei se se recordam dessa parte.
Como assim?
O Marcelo Rebelo de Sousa, então presidente da República, tomou conta da morte do José Pedro.
Estou a perceber o teu ponto de vista.
Lembro que Marcelo Rebelo de Sousa e os seus assessores lamentavam a morte também de George Michael no site da presidência.
Uma nota que entrou.
Mas não tomaram conta da morte. Mas eu também lamentei a morte de George Michael. Não oficialmente.
O presidente da República Portuguesa a lamentar a morte de um músico pop inglês, foi um acontecimento.
Se fosse do Lloyd Cole, ainda se percebia.
Ou da Bonnie Tyler. Há aqui alguma ironia, mas não há muita, porque existe a sensação por parte dos políticos de que estas mortes têm que ser vividas, passo a expressão, de mão dada com o público normal.
Certo.
E então José Pedro e Luís Represas nasceram no mesmo ano, portanto, são da mesma geração. E esta morte de Luís Represas é a primeira morte, creio eu, sem Marcelo e com um novo presidente da República, que se emocionou em Cabo Verde onde estava.
Quando diz primeira morte, primeira morte midiática ou de alguém do espectro artístico?
Nós estamos a falar livremente, espero que as pessoas compreendam. Não há nenhum desrespeito pelas personalidades, mas é a primeira morte pop em que não é Marcelo presidente. Quer dizer, podíamos fazer agora uma pausa e imaginar que se Marcelo ainda fosse presidente, como teria sido a reação do próprio à morte de Luís Represas. Ele, Marcelo, o cidadão, agora cidadão, fez um comunicado. Espera reencontrar-se no futuro com Luís Represas. Ele disse isto mesmo no comunicado. Alguns dos momentos mais felizes da vida dele, Marcelo, foram a ouvir Luís Represas e os Trovante. Mas aqui o que eu acho mais relevante é que Luís Represas era mais gostado pelas pessoas do que se calhar se pensava.
Sim.
Não estou a falar da música exatamente.
Certo.
O impacto que ele deixou nas pessoas, e isto me parece-me ser um sinal muito positivo para a família e um motivo de conforto. Bolas, afinal gostavam muito mais de Luís Represas do que nós pensávamos. E eu acho isso interessante, tentar saber porquê. E o Luís Represas, que fez parte do Trovante, tinha uma voz com um timbre muito específico e muito identificável.
Muito característico.
Muito característico. Um excelente cantor, um excelente executante com a voz.
Como dizem os técnicos, excelente aparelho.
Não sei se há outra voz assim Não era uma voz do fado.
Sim, era muito particular, tinha características muito particulares.
Aqui no bom sentido.
Também não era aquela voz
Tinha uma voz-
Não sabemos o que isso quer dizer.
Não sabemos o que quer dizer aquela voz .
Conseguias perceber o que ele dizia, o que ele dizia quando cantava.
E não parecia estar zangado.
Exatamente, furioso.
Sim.
Eles começaram com a música de intervenção. E mesmo quando enveredaram por aquela temática mais tradicional, havia ali uma doçura, de facto, na voz dele, que amenizava, se calhar.
Era uma voz caricatura do Herman.
Não era a voz do Rafa.
Exatamente. E depois, tinha duas características que eu acho que as pessoas vão perceber, embora não sejam conceitos acadêmicos, nem da mais alta filosofia. Ele tinha o ar do nosso colega da escola, dos mais velhos. Ele era dos mais velhos da escola. Na nossa escola, há sempre assim um, e nós sabemos quem é. E tinha um ar de tipo porreiro, que eu acho que é uma categoria de pessoas que nós em Portugal, e provavelmente no mundo inteiro, apreciamos particularmente. A pessoa que parece ser um tipo porreiro. E Luís Represas era isso, além dos seus méritos artísticos, naturalmente. E pelos vistos, o lamento nacional, e eu vi muitas pessoas nas redes sociais, não só famosos ou pessoas também artistas, ecoa isso, que a presença de Luís Represas na vida das pessoas era uma presença mais forte do que, se calhar, elas próprias julgariam.
Ou consideravam. Bruno Vieira Amaral, isto tem sido um dos tópicos que, pelo menos entre nós, fora dos microfones, que é que estatuto, se calhar aqui mais focados no Estrvante, que estatuto tem hoje. Se por um lado é geracional, por outro há canções que toda a gente conhece e que conseguiram atravessar.
Pessoas de uma determinada geração. Todos conhecem, apesar de, chegam-me relatos, não posso comprovar isso, mas chegam-me relatos de que as novas gerações ou os filhos dos fãs iniciais da geração do Estrvante também aderiram, também gostam, também ouvem o Estrvante. Portanto, pode ter havido aí uma transmissão quase hereditária. O que reforça essa ideia, quanto a mim, de um fenômeno geracional e de uma geração muito específica, que era aquela geração que estava a chegar à idade adulta na altura do 25 de abril, que acompanha mais ou menos o percurso do Estrvante, mesmo depois da separação da banda. Daí, se calhar, haver essa ideia de que eles se reuniram muitas vezes, porque quando eles se reuniram, de facto, aquilo foi um acontecimento importante.
Impactante.
E as pessoas aderiam mesmo e falavam e queriam ir ver. Eu acho que é uma parte da sociedade portuguesa muito identificável. Eu imagino que em um concerto dos Estrvante, por exemplo, nestes últimos concertos, não tenha havido um único membro do público que não se tenha realizado profissionalmente. Acho que os Estrvante foram uma banda adotada e admirada por pessoas que se deram bem na vida. Saídas aí de uma burguesia lisboeta.
Não que tenhas dados empíricos.
Não tenho dados. Estamos aqui à base das impressões.
Para ratificar a tua teoria.
Não tenho, mas tenho essa impressão. Há pessoas que podem não ter tido carreiras excepcionais, geniais, mas que sentem que não ficou nada por cumprir do 25 de abril.
Não me oponho à tua teoria, mas há uma coisa que talvez o justifique, mais uma vez, é só uma teoria, que tem a ver com o lado puramente musical da banda.
Tem a ver com o lado musical, tem a ver com essa capacidade de pegar nas tradições musicais portuguesas e depois dar-lhe uma roupagem pop.
E as letras.
E as letras, também esse cuidado com as letras. E depois também o próprio aspecto das principais figuras da banda, o João Gil e o Luís Represas, porque tornavam difícil de classificar. Tu não sabias bem, eu pelo menos tenho essa noção de quando era miúdo, sabias bem se aquilo era uma banda de esquerda ou de direita, onde é que havias de classificar, se era uma banda de música tradicional ou é puramente pop, serão comunas ou serão betinhos. E isto permitiu que eles navegassem um oceano relativamente amplo e que tivessem sido, de alguma forma, transversais neste sentido de terem escapado dos rótulos da música tradicional. Eu lembro-me quando era miúdo, havia uma coisa que me assustava muito, que era as bandas ou músicos da música popular portuguesa, portanto, gente armada de cavaquinhos e bombos.
E de bigode.
E de bigode, e quando apareciam na televisão. E às vezes havia bandas que quando iam à televisão, normalmente havia ali um casal, que deviam ser professores de educação musical do distrito de Leiria, e um tocava cavaquinho e outro bombo. Lá vem o Júlio Pereira, até o Rão Queiroz, noutro gênero. Lá estão eles a recuperar a identidade musical perdida, mas era sempre muito afunilado. E enquanto os Estrvante tinham, de facto, essa ligação às raízes.
Se calhar fizeram o caminho contrário.
Exatamente. E passam para uma linguagem pop Que não vão copiar modelos do estrangeiro, modelos da pop internacional, como fizeram outras bandas no início dos anos 80, mas procuram uma terceira via, se calhar, uma via portuguesa, mas não completamente sujeita à tradição e essas raízes tradicionais. Isso explica, quanto a mim, esse apelo dos Trovante, de não terem ficado um pouco rotulados e limitados e ao mesmo tempo criarem esta dificuldade de os classificares, até do ponto de vista social.
Maria Ramos Silva, estamos a falar de quarta-feira, no dia em que se soube da notícia. Também falavas desta questão da comoção. Aquilo que chega aos média e às redes sociais, obviamente, não é tudo na vida, não é o mundo inteiro, mas ficaste relativamente surpreendida. É verdade que esta questão da comoção na hora da morte-
Há aí um mercado paralelo, não é?
Exato.
Aquilo que eu chamo o mercado da morte, um pouco mais vampiresco.
Atenção, há muita comoção genuína.
Obviamente. E eu acho que uma parte das pessoas faz isso na melhor das intenções. Não deixa, obviamente, de pôr também ali numa posição de exposição. Não interessa. O Bruno aqui falava de rótulos. Eu acho que há uma forma um pouco sem pinças, imagino que é chamada betada de esquerda. Não sei se o Pedro concorda aqui comigo, mas há aqui uma dimensão dos tais betinhos mais cosmopolitas, em que talvez se encaixe mais aqui do ponto de vista sociológico esta caracterização.
Sim, uma certa aura de hippies, livres.
Talvez, sim. Mas acho que conseguiu, apesar de transcender isso, sobretudo quando nós pensamos nos hinos que deixa também na fase.
Sim, e que entraram e foram verdadeiramente transversais. Entraram no património.
Mesmo que ainda hoje pessoas se surpreendam com o significado do 125.
Também, sim.
Que afinal não é uma estrada.
Ou que desconheçam.
Sim, mas lá está. Eu acho que o próprio Luís Represas dizia que a música de certa forma lhe caiu no colo. E eu penso que as canções do Trovante, inicialmente, depois o Luís Represas, também nos foram caindo no colo, mesmo que nós nos quiséssemos ir diferentes. Chegavam, fosse pela rádio, fosse por outros meios, mas essencialmente pela rádio, durante muito tempo.
Mesmo que não escolhesse.
Mesmo que não escolhesse. E acabaram por marcar, como se costuma dizer, por fazer um tempo. Acho que de facto fazem parte.
E a banda sonora desse tempo.
E de momentos da nossa vida. Eu imagino muito o Trovante como aquela banda de bar, mas sem qualquer sentido pejorativo, até porque o próprio Represas depois teve bares e bares de culto e que fizeram também esse tempo em Lisboa, particularmente. Aquela banda que nós muitas vezes se calhar nem ligamos muito, está ali em fundo, é boa, é competente, mas depois vamos buscar a certa altura, porque de facto foi determinante num momento da nossa vida em que nós estávamos ali com alguém a fazer alguma coisa. E eu acho que, eventualmente, todos nós teremos uma memória dessas, aqui neste caso em particular a banda os Trovante, mas também podia ser outro grupo deste tempo do boom do rock português. Que ao mesmo tempo é muito curioso, e o Bruno também falava disso, há aqui uma geração, de facto, que após 25 de abril é jovem, é uma fase de grande curiosidade, produção e vontade de fazer imensas coisas, está muito perdida ali entre o tal registo dos cavaquinhos e da música antiga portuguesa, que formatou muita gente durante muito tempo e que a certa altura vive ali num certo limbo entre o querer fazer novo e diferente e pôr um pé lá fora e estar também preso a esse Portugal, que ainda era um Portugal muito próximo.
E depois houve outro problema, que foi nessa altura também houve uma espécie mais decidida ou involuntária, que foi escolher não ouvir isto porque isto significa o tempo antigo. Não ouvir isto porque isto significa uma luta com a qual eu já não me identifico. E portanto, aqui foi também muito complicado.
Precisamente. Eu ainda há pouco tempo, e comentava isso convosco em off, tive uma conversa com uma pessoa e falávamos disso, de como hoje, felizmente, nós abraçamos o que é feito em Portugal, o que é português, não só na música, numa série de coisas. De uma forma muito mais desassombrada e até briosa. Mas a verdade é que durante muito tempo, fruto provavelmente desses anos de uma certa clausura em termos de escolhas culturais, de consumo e tudo mais.
E em que a política se intrometeu no meio de tudo, claro.
Tudo que era português lembrava o antigamente, calculo. Eu não vivi esses tempos, felizmente, mas lembro-me da forma como as pessoas de repente só queriam ter a oportunidade, assim que tiveram a oportunidade, de viver em pleno aquilo que vinha lá de fora. Não é por acaso que nós ainda hoje, eu penso que muitos portugueses trazem essa marca consigo, uma certa geração. Fazer as férias fora, consumirmos uma série de coisas fora, às vezes até de uma forma que eu considero um pouco provinciana, mas compreendo que essa marca identitária esteja lá, porque de facto são muitos anos em que tu estás refém ali de uma espécie de consumo quase obrigatório, de linha única.
E havia uma outra dificuldade.
Mais rapidamente.
Sim, rapidamente, em relação aos rótulos. O urbano e o rural.
Precisamente. Este lado é muito cosmopolita. Eles trazem-te aqui uma coisa.
Porque tu ouvias, sobretudo os primeiros álbuns, e parece muito folclore ou pseudo rural, que fosse, mas era uma banda muito urbana. Era uma banda urbana. Mas essa dificuldade em dizer o que eles são, eu acho que é também uma das razões do sucesso.
E uma das virtudes.
Da perenidade dos Trovante.
Pedro? Rapidamente.
Não pode ficar para a segunda parte?
Pode, com certeza. Então já cá voltamos, meu caro amigo. Final da primeira parte.
Ainda bem que temos um moderador.
Voltamos.
A gerir o tempo.
Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos e Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher de Mendes. Esta semana evocamos Luís Represas, que morreu aos 69 anos, naturalmente também os Trovante, que ainda há poucos meses se voltaram a juntar em concerto. Pedro, antes de qualquer pergunta, trazias aí uma reflexão da primeira parte.
Várias coisas. Em primeiro lugar, a música portuguesa não tocava na rádio. Isto durante muitos anos. Tanto não tocava na rádio que havia programas específicos ao fim de semana para a música portuguesa. Tinham sempre aqueles nomes, "Alma Lusitana", aqueles nomes inventivos. Muito menos tocavam na noite.
"Alma Lusitana" é péssimo.
Sim, têm esses nomes, "Orgulho Nacional" ou "Pátria não sei o quê". Mas isto incluindo nas rádios do Estado, o Estado tinha rádios naquela altura.
Ainda tem.
Sim, mas não é comercial, é do Estado.
Sim.
E nós tínhamos às 17h, 15h ou 16h, não me lembro bem, o "Rock'n'Stock", onde passava o Bryan Adams, mas não passava música portuguesa. Portanto, a cultura em Portugal sempre foi uma coisa que bem merecia uma reflexão. Bem merecia que a RTP fizesse uma série sobre esse tempo, sem serem as coisas habituais com as pessoas habituais. E não passava na noite. Nós íamos para a noite nos anos 90, se fôssemos a uma discoteca ali da 24 de Julho, fomos à discoteca Capital, não íamos com certeza ouvir o "Perdidamente" do Trovante, ou sequer o "Sangue Oculto", o "Gener", eram músicas tidas como qualidade inferior ao que seria a bitola aceitável. O Trovante tem uma vida curta como banda, acabam em 91, acho eu.
Sim.
E é interessantíssimo que o seu legado, ainda hoje estejamos a falar do Luís Represas enquanto alguém dos Trovante e não da sua carreira a solo, que para todos os efeitos, foi muito mais longa do que a sua carreira como vocalista e membro dos Trovante.
Mas se tu pensares, por exemplo, das músicas dos Trovante e do Luís Represas a solo que entraram no cancioneiro, se calhar a última que te lembras do Luís Represas já deve ter praticamente 30 anos.
Ou se calhar é nenhuma. Sim.
Sei lá, "Feiticeiro", "A Hora do Lobo", são canções que já têm duas ou três décadas.
Para dizer precisamente isso, a influência dos Trovante foi de tal forma no nosso imaginário, que nós ainda recordamos uma banda que acabou, para todos os efeitos, creio que em 91.
91, 92. Eu creio que a separação é em 92.
Eles voltam em 99, acho eu, a convite do então presidente Sampaio, por uma ocasião qualquer política nacional, e aceitam fazer. E depois só regressam aos palcos.
Deve ter sido os 25 anos do 25 de Abril, uma coisa assim.
Só regressam aos palcos, pagos a peso de ouro por uma marca comercial. Acho que é um banco ou marca de automóveis, não sei. Eu acompanhei isso na altura por amigos. Foram mesmo extraordinariamente bem pagos para voltar num concerto comercial, para todos os efeitos. E ainda bem que voltaram. O que é interessante é que os Trovante eram sempre o grupo que o teu irmão mais velho ou a tua mãe, ou a tua tia, ou a tua vizinha do quinto esquerdo, que era mais velha, ouvia. Nunca era a banda do nosso presente, era sempre a banda do presente das pessoas que eram ligeiramente mais velhas. Nunca foi uma banda cool e na altura em que tu és adolescente ou que és jovem, só queres estar ligado a coisas cool. É muito interessante observar que hoje em dia os miúdos, por exemplo, ainda agora no Alive, toda a gente a vibrar com os Buraka Som Sistema, que são uma banda portuguesa. Mesmo que alguns daqueles portugueses tenham origens noutros países. E ainda bem. Mas isso seria impossível no tempo dos Trovante.
E tirando o facto de cabeças de cartaz, com um concerto ao meio-dia.
Porque os Trovante e outros artistas portugueses, e isto podia estar no documentário da RTP que nunca foi feito, toda essa música portuguesa foi subsidiada pelas Câmaras Municipais. Nunca pela dinâmica do público. Ou seja, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão encomendava para este verão, Luís Represas, Rui Veloso, não sei quantas, o João Pedro Pais. E de facto, as pessoas jantavam, iam beber o café e iam ver esses concertos. Nunca houve em Portugal, durante esse tempo de alguns destes músicos que teriam merecido, quanto a mim, mais aplauso do público do que simplesmente passar no largo da vila e instalar um concerto que a Câmara passou. Não há aquela militância de comprar o bilhete, simplesmente passas lá e estão a atuar. Essas Câmaras Municipais, essa dinâmica autárquica, alimentou a música portuguesa, que é uma situação que agora não acontece, felizmente, em que os miúdos pagam bilhete para ir ver o Plutônio ao Pavilhão Atlântico, o que é uma coisa excelente.
Neste caso é o Estádio do Alvalade.
O Alvalade, sim. Vai ao Alvalade.
Para o ano. Mas esteve no Atlântico. Duas vezes.
Exatamente. Com bilhetes pagos, ou seja, não foi uma Câmara Municipal que pagou.
Bruno Vieira Amaral, continuando aqui o, como sempre, extraordinário raciocínio de Pedro Boucher de Mendes. Duas questões: há este lado do Luís Represas, que de facto teve uma carreira a solo de 30 anos, agora nem sei.
Sim, eu creio que é em 93 que ele lança o-
Portanto, mais até
...mais Cuba, aqueles álbuns de Cuba.
Álbuns de Cuba.
Referiu, ele esteve lá.
Sim. Na altura, ele dizia em entrevistas que esta coisa de fazer uma carreira a solo, para ele, até que ponto fazia sentido se ele tinha uma banda? Depois a história ditou o fim. E se calhar o fim Da banda. É o que acontece às vezes, as bandas acabam e ganham uma espécie de estatuto especial. Às vezes é preciso acabar.
Essa é outra das explicações para a aura do Estrunfante.
E depois o Luís Represas faz uma carreira a solo naquela transição 80/90, que foi um pouco ingrata para uma série de músicos ou bandas que ou se reinventaram, ou fizeram uma espécie de travesseio no deserto, ou caíram mais justo ou menos justamente no buraco negro da nacional fuleirice. Ainda assim, em que campeonato achas que conseguiu encaixar o Luís Represas, sendo que, mais uma vez, eu acho que foi um bocadinho difícil catalogar na maioria dos lugares.
Sim, por falares em campeonato, ficou ali no meio da tabela. Nunca teve um sucesso enorme, uma coisa tipo um Viagens do Albernosa. Nunca subiu, mas também nunca caiu para esse abismo da fuleirice. Eu acho que se manteve naquele território que é, na verdade, perigoso também para os artistas, que é aquele território daquela ideia de bom gosto. Música para ouvir com os sogros. Que não chateia e não ameaça, mas também não te pega pelos colarinhos e te arrasta. Está ali num meio-termo, quase easy listening.
E que pode eventualmente perder o lugar. Ou perder espaço.
É por aquilo que eu dizia há pouco, se tu pensares nas músicas, mesmo a solo, nas canções a solo do Luís Represas, se calhar as últimas que entraram lá no imaginário coletivo já têm quase 30 anos. Entendes? E todo o amor e que se viu, esta comoção, na morte do Luís Represas, dirige-se muito mais a essas memórias, a todas essas canções que já tinham entrado há décadas no cancioneiro, do que uma coisa propriamente ativa, de reação aos últimos álbuns. Eu acho que a maioria das pessoas, mesmo de quem conhece as canções do Estruvante e algumas do Luís Represas, se calhar nem faz ideia de quando é que o Luís Represas lançou o último álbum. Depois há aí uma outra questão, que é uma questão humana. Aquela velha questão quase filosófica, se a música pode encarnar o mal, a maldade, ao contrário de outras artes como a literatura, em que tu podes refletir e até podes criar personagens odiosas, será que a música, e música instrumental, pode incorporar, encarnar algum tipo de maldade? Claro que quando há uma voz, as coisas são um pouco diferentes. Mas há não só uma doçura na voz do Luís Represas, que é aquela ideia de que parece um tipo porreiro, isso estava nas próprias canções, na forma de interpretar. Ou seja, não é apenas uma perceção pública que tens da personagem.
Tu achas que isso é mais óbvio na música do que noutra expressão artística?
Noutras expressões artísticas-
É mais difícil de avaliar o tipo porreiro no escritor. Será que o Bruno Vieira Amaral é um tipo porreiro?
Porque não estás a ouvir a voz.
Há uma distância.
Eu não sei se isto corresponde à verdade. Como a maior parte das pessoas, não conhecia. Mas parece que há ali uma bondade intrínseca na forma, não só no timbre da voz, mas na forma de interpretar, que torna aquela pessoa gostável. Torna alguém digno da nossa admiração. Eu repito, isto não tem nada a ver com a pessoa em si, mas com aquilo que é projetado da pessoa nas canções.
Sim, mas mesmo sem conhecer a pessoa, esse efeito existe.
Eu acho que esse efeito existe. Também é um dos trunfos, dos pontos fortes do Estruvante e também do legado do Luís Represa.
Mas os Estruvante, atenção, não é atenção para te criticar a ti, Bruno, é para chamar a atenção. Eram muito ricos musicalmente.
Extraordinários músicos.
Tinham ótimos percussionistas e o Manuel Faria um excelente músico, e o João Gil também.
E álbuns incríveis.
Sim, mas eram bons musicalmente. A música portuguesa, até uma determinada altura, era vista como boa e mesmo incluindo esses concertos de intervenção, dou só aqui uma achega, que acho que é interessante. O Vicente Jorge Silva faz aquele célebre editorial da Geração Rasca em 1994, não sei se se lembram ou se têm ideia, para protestar contra a juventude portuguesa, que andava a partir tudo. E nesse editorial, uma coisa que muitas pessoas não se lembram, mesmo muito poucas, suponho eu, ele fala já do Quim Barreiros como de generiscência cultural. Estamos em 94, dois, três anos depois do fim do Estruvante.
E a um ano do Pimba.
Exatamente, a um ano do Pimba. O Estruvante, como a banda do Casaco, e outros projetos que andaram ali para aquela altura e que não sobreviveram, poderiam ter nos dado uma música à qual não tivemos direito ou não conseguimos ter direito.
Ou que não alcançou outra escala, se calhar.
Tivemos é uma Falta Veiga, cada um um bocadinho diferente, um bocadinho mais popular, um bocadinho mais comercial, desculpa.
Sim.
Mas não tivemos uma música world music, como o Bruno falava.
Eu acho que, só mesmo para concluir, antes de passar à Maria Creio que poderia haver ali, na filosofia musical dos Trovante, uma espécie de world music antes da world music.
E o Represas continuou.
Exatamente.
Sobretudo com o lado latino.
E que tinha a ver com o início da própria banda. Eles falaram disso em várias entrevistas, da participação deles logo no início, na Festa do Avante e em vários festivais internacionais nos países comunistas, não só na Europa de Leste.
Em Cuba também.
E eles poderiam estar no "Músicas do Mundo", por exemplo. Havia álbuns do início.
No Boom.
Não, no Boom, não. Mas havia álbuns que tinham aquele místico, aquela feitiçaria.
Pedro está sempre pronto pra farra.
No Boom ninguém ouve música.
Isso não é verdade.
Acho. Reparem como acho. Ainda vamos encontrar álbuns no Boom.
A bombar.
Pedro Boom Chirino.
Ser o não sei o quê de um palco, ser o cuidador de um palco. Vai ser extraordinário.
Eu acho que era uma ótima ideia o Boom entregar-se à curadoria do Pedro.
Deixa-me perguntar à Maria Ramos Silva sobre um tema. Eu vou avançar antes que o tempo acabe. É um tema que não é confortável, mas nós temos que o enfrentar, que é a questão da mortalidade, que eu não sei se vocês já repararam que é inevitável. Estamos tristemente a viver um período em que quem criou, e acho que já falamos disso, e transformou a cultura que hoje vivemos, sobretudo a cultura pop, desde os anos 50, 60 lá fora, se calhar desde o 25 de abril cá dentro, já não é jovem, no mínimo. E portanto, começamos a enfrentar estes momentos, estas notícias, estas datas infelizes. Isto também gera proximidade, identificação e comoção.
É, nós começamos a ver-nos ao espelho.
Exato. Vemo-nos ao espelho. Nós os dois, não, nós os quatro. Estou aqui a dizer mal pro Pedro.
Nós dois, nós os quatro.
Mas, isto também serve de amplificador pra isso tudo.
Não, serve. Eu estava a pensar numa coisa interessante que o Pedro estava a dizer, esta coisa de que tu a certa altura és um jovem, um jovem adulto, e de facto achas que tens coisas mais cool para ir ouvir. E conheces muito aquilo que era a música dos Trovante através do tio, o pai, a mãe. E eu penso também ter tido essa relação.
Aquele primo que também tinha discos dos Pink Floyd.
Sim, que na altura também não era cool.
João, grande generico.
Na altura, se calhar, também não achavas cool. E quando olho em termos de idade, quer dizer, o Luís Represas tem a idade da minha mãe, nasce no mesmo ano. Não é verdade. São pessoas que na altura em que estão a produzir a sua fase de maior intensidade, já estão a falar para adultos que já têm filhos, famílias. E portanto, a forma como também se vive e se viveu esta música é diferente. Dito isto, só voltando aqui um pouco atrás, eu acho que, de facto, nós temos cada vez menos pessoas que têm esta capacidade, seja pela voz, ou neste caso, particularmente pela voz, pela imagem. São estas figuras afáveis, são figuras que nos conquistam e que de facto nós achamos que são o primo lá de casa, que esteve sempre lá.
E achas que já não é a mesma coisa? O processo já não é igual, nós criarmos esse tipo de relação?
Não sei. Não quer dizer que os novos intérpretes, protagonistas, não consigam criar isso com as novas gerações. Não quero chegar a tanto, mas a forma como nós comunicamos e como chegamos a estas pessoas tinha um filtro e tinha um distanciamento, é curioso, que de alguma forma nos aproximava mais, julgo eu, do que hoje, em que tudo é muito efémero e volátil. E de facto construía as relações talvez mais sólidas, ainda que relações muitas vezes apenas na tua cabeça. Eu ainda há pouco cruzei-me, eu penso que foi o Pedro ontem que me falava desta geração falatória. Eu ainda há muito pouco tempo cruzei-me com o vídeo.
Que é um programa da RTP 2.
Da RTP 2, sim. Aquilo seria um nicho, mas tu olhas pra aquilo e é um nicho absolutamente extraordinário, em que de repente tens na mesma mesa Miguel Esteves Cardoso, Clara Ferreira Alves, Agustina Bessa-Luís e José Saramago. E está encerrado. Fecha a casa. Tu olhas pra aquilo e tu hoje imaginas o que é que seria um programa hoje com esta dimensão de figuras, que conversa é que se teria. Enfim, não vale a pena chorar sobre o leite derramado, é o que é, os tempos são o que são. Mas é extraordinário, porque o Trovante e o Represas ainda vêm, de facto, de um tempo que nós temos dificuldade em catalogar em termos de música. Mas que acho que deixa essa saudade, sobretudo quando vamos ouvir os álbuns de trás pra frente e vemos que há ali intensa qualidade. Nas letras, musicalmente. E se calhar nós é que não merecemos muitas vezes aquilo que temos. Somos um pouco como temos aquelas injustiças e só agora que estamos a fazer este trabalho de elogio fúnebre é que pensamos: "Olha, valia a pena termos ouvido mais cedo".
Usaste a palavra saudade e não foi por acaso. Tu és uma sacana.
Saudostalgia, sim.
Pedro, os sentimentos, diz lá.
Deixa eu fazer uma coisa que nunca ninguém faz em Portugal. Eu vou fazer pela primeira vez, que é eu aproveitar a morte de alguém pra falar de mim.
Vocês hoje estão muito safados.
Eu publiquei um livro sobre os anos 80, há dois anos.
O quê?
E a minha motivação inicial foi perpetuar a importância que Esteves Cardoso e Herman tiveram na consolidação da democracia em Portugal. Onde é que eu quero chegar com isto? Quero chegar que nós muitas vezes, depois nestes momentos, neste caso de dor, por causa da morte do Luís Represas, damos por nós a dizer não sei o quê. E isso, de facto, é verdade. Nós não somos muito bons a reconhecer e depois a registar a importância que certas figuras tiveram na nossa cultura. O Represas, como outros, embora eu tenha achado ontem muito curioso que o Abrunhosa também se tenha mostrado muito consternado, quando, na verdade, o Abrunhosa só aparece em 94. Já tinha passado o verão quente, já tinha passado o boom do rock português, os Trovante já tinham acabado. Não é uma crítica ao Abrunhosa, estou apenas a dizer que o Abrunhosa e os Silence Four, por exemplo, já são de um outro tempo. Mas que houve uma série de figuras das quais os Trovante fazem parte, o Luís Represas faz parte, e outros elementos dos Trovante, o Gil, o Faria e o Judice. E depois alguns foram para os Madredeus Que fazem parte de um museu imaginário, depois há uma expressão associada ao Tintim, de figuras culturais, nem superlativas, nem péssimas. Alguns bons, outros muito bons, outros apenas bom pequeno. Era assim que se dizia na escola?
Sim, bom pequeno.
Mas que todos os países tiveram e que nós temos alguma dificuldade ou preguiça, e se me perguntarem, a palavra que eu escolho é preguiça, de homenagear condignamente. Ou seja, é fácil quando as pessoas morrem, dizer: "Não te vamos esquecer e a tua música vai continuar". Mas se calhar, quando as pessoas são vivas, teria sido mais interessante terem-nas homenageado ou terem registado a sua importância, que é mais importante do que a homenagem.
Boa, Pedro, conseguiste ser protagonista neste momento que não era sobre ti. Muitos parabéns. Pronto, é isto, meus amigos. Queres dizer mais alguma coisa?
Eu quero dizer uma coisa.
Mas tens que ser rápido.
Não é sobre mim.
Tens que ser rápido.
Então se não é sobre ti, não.
É sobre o Luís Represas. Deixem-me sublinhar outra característica do Luís Represas enquanto artista em palco, porque ele parecia um tipo normal que subiu ao palco para estar ali a cantar.
Olha, Leonir, deixa só dizer que ele atuou em maio na Chamusca. Portanto, é extraordinário. Alguém que também, para além de ter feito essa reserva em relação à doença, não explorou, que também acho que é absolutamente extraordinário.
Sim, hoje é muito raro.
Hoje é muito raro. De facto, atuou até há bem pouco tempo.
É que tu vias, e estamos a falar do Brunhosa, que vem depois, mas se pensares mesmo no Rei Reininho, com aquela atitude em palco, ou nos Heróis do Mar, com toda aquela encenação. Nos Trovante, vês o Luís Represas, mesmo nos concertos mais recentes e ontem até estava a passar.
E na carreira dele a solo.
E na carreira dele a solo. Parecia o primo ou tio que chega e sobe ao palco, e que é ele. É uma pessoa normal que está ali a cantar. E eu acho que isso também permite uma identificação com o Luís Represas e com a banda.
Muito bem. Final de mais um "PopUp". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.