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Mais uma dose de sugestões. Estamos sempre aqui, até nas semanas recheadas de feriados. Pedro Abrunhosa Mendes, vamos começar por ti, aquilo que tens para sugerir aos nossos caros ouvintes. Não sei se é esta a ordem, mas tens aqui uma série e um filme. Qual é que escolhes primeiro?

No dia 10 de junho, que é uma terça. Não é terça?

É uma terça.

É amanhã.

É, exatamente.

Amanhã. Às 19:15, no Cinema Nimas.

Ora, cá está.

Vai ser-

É um filme de jornalistas.

Não é devia ser. Vai ser exibido "A Bigger Splash", que é o nome de um quadro muito famoso de David Hockney. E este meio documentário também é sobre a pintura de Hockney. Digo isto porque eu fui lá a Paris visitar a exposição. Fui por ocasião.

Aproveitaste.

Foi extraordinário. Qualquer pessoa que tenha a possibilidade de ir, aconselho vivamente. Fiquei francamente grato por ter conseguido ir.

Pensaste em comprar um Hockney para pôr na tua sala?

Não, mas para mim é um pintor extraordinário, um artista extraordinário. Ainda bem que fui. É tudo aquilo que nos transcende. A arte apazigua-nos. Eu gostei muito de lá estar e aconselho vivamente. Mas aqui no Nimas, "A Bigger Splash", um filme que depois haverá uma conversa com João Sousa Cardoso sobre o filme. Aconselho vivamente às pessoas que gostam de Hockney, que foram ver a exposição a Paris ou querem ir, ou que gostavam de ir, ou que seguem nas redes sociais. Dia 10 de junho, terça, às 19h15, no Cinema Nimas, "A Bigger Splash".

Desculpe interromper, Pedro. Isso é uma coisa que me fascina. O porquê do David Hockney falar tanto à nossa geração, ao público. O que é que há ali que eu consigo olhar para trás e pensar em alguns pintores inquietantes, como o Kiriko. E eu acho que o David Hockney é dos raros pintores contemporâneos que consegue penetrar em vastas camadas sociais.

Eu não percebo muito de arte, é por ser muito figurativo. Tu consegues identificar.

Mas ao mesmo tempo há ali uma estranheza.

Eu reparei num quadro, que até publiquei uma story no meu Instagram, que é: há um quadro que ele tem, há um tipo que tem uns tênis Adidas. Nós temos uns tênis Adidas numa obra que deve custar, eu não sei, 50, 60 milhões de dólares, e que é um grande artista. É uma coisa que ficará para o futuro. E acho isso interessante, a apropriação que ele faz.

E é super pop. Acho que isso também.

Sim, mas não é aquela pop, pelo menos para mim, do Andy Warhol, da provocação. E os quadros dele, mesmo em fases más da sua vida, irradiam muita felicidade e têm muita cor. Quando me perguntas se eu gostei, sim, é como estar numa loja. Imagino que seja uma sensação que uma criança tem quando está numa loja de doces, ou também aquela referência que algumas vezes ouvimos falar das pessoas que foram a Nova York e foram à loja dos M&M's. Não sei se você já foram à loja dos M&M's.

Sim, já.

Tem muita cor.

E é reconhecível. Há ali uma coisa de identificação imediata. Reconheces o estilo. Estou a pensar se calhar nos quadros muito diferentes no tom do Hopper. Também criam logo uma identificação, até emocional. Bem, enfim, gostei muito desta etapa artística que estamos aqui a marcar.

Devemos falar mais sobre estas coisas. Na Netflix, uma série de quase jornalistas, "Department Q".

Está muito na moda.

Pois, eu ainda estou a decidir se gosto ou não.

E bem.

Mas a verdade é que continuo a ver.

Portanto, pelo menos não odeias. Isso aí já percebemos.

No fundo e à superfície, é um investigador com um mau feitio. Entre o Dr. House e o não sei quantas. A série começa bem, ele está a investigar um caso e aquilo corre muito mal. Alguém que mata alguém. E depois ele é transferido mais ou menos para casos antigos, cold cases. Onde pega num caso, vou repetir caso outra vez.

Que não está resolvido.

Isso. E entretanto sabemos, vamos nós espetadores sabendo o que é que aconteceu com essa vítima desse caso, e vamos acompanhando a investigação do nosso polícia mal-disposto e carrancudo. Pronto, e eventualmente haverá um desenlace. Depois tem um sidekick sírio, que é um bocadinho clichê, parece uma espécie de Dr. Watson.

Ou o Passepartout.

A série tem um design um bocadinho diferente. Não sei se já viste alguma coisa.

Ainda não, mas vou ver.

Um bocadinho diferente. Eu acho que há ali uma tentativa de criar uma identidade que não é completamente conseguida. Tem a vantagem de ter a Kelly McDonald como terapeuta do carrancudo. Também é outro tropo da ficção recente. Esses tipos estão sempre em terapia. É assim a vida deles.

Claro, é culpado do Anthony Soprano.

"Department Q" na Netflix

Maria Ramos Silva. Eu esqueci-me de tomar nota do que tu tens para sugerir, mas sei que são duas coisas.

Sim, são duas sugestões ainda de meados, final de maio. Primeiro, um pouco de rock alternativo.

Olha, viste.

Com o Allan Sparhawk. Ele perdeu a sua metade, os Low, a Mimi Parker.

Mas é o maior.

É verdade. Em novembro de 2022. Felizmente para nós, continuou a fazer coisas. Aliás, ela morreu e passado três semanas ele estava em palco a fazer o que sabe melhor, acompanhado pelos Trampled by Turtles, uma banda de bluegrass, que tinha lançado um álbum nos últimos dias da Mimi Parker e depois disseram: "Anda cá, que vamos tocar a Minnesota", e ele lá foi. E depois para este álbum, ele pensou: "Bem, é justo convidá-los", e acabou por fazer uma coisa com eles e é absolutamente extraordinário. O Trampled with Trampled by Turtles, Allan Sparhawk, que por acaso, ficam a saber, vai estar cá a tocar ao Viva Cores e de forma gratuita, no Porto, em jeito de aquecimento para o Primavera Sound. Eu penso que é dia 10, esta terça-feira, nos Jardins do Palácio de Cristal.

E ele faz parte do cartaz do festival também.

Pronto, mas vai estar a fazer isto.

Vai dar um bom-bom.

Vai dar um bom-bom para quem não estiver ou para quem estiver e quiser fazer uma dobradinha. Depois, "Reservado", que é uma série da Netflix. O título é um bocado esquisito, porque parece uma coisa de restaurantes, reservado, mas o original é "Secrets We Keep". Mas pronto, ficou assim. É um thriller com ricos dinamarqueses. Agora também é uma fórmula corrente estas histórias das famílias ricas.

A casa é impressionante.

A arquitetura, recomendo que vejam, nem que seja por isso.

Só pelos ângulos.

Aquilo é filmado nos subúrbios norte de Copenhague e, portanto, as estruturas são absolutamente fascinantes, com imensa luz, uns vidros espetaculares. É uma história de pelo menos dois casais, é o núcleo, que têm filhos adolescentes, pré-adolescentes, crianças tardias, e que trabalham com au pairs, que são, neste caso, filipinas, e que vêm para a Dinamarca ao abrigo de um programa especial de um, dois anos, salvo erro, e que tomam conta destes miúdos e corre tudo muito bem, lindamente, até que um dia uma delas desaparece de forma misteriosa. E eu não vou contar mais, porque depois é seguir a trama, mas só fazer a recomendação que, para quem gostou de "Adolescência", é capaz também de encher as medidas minimamente, porque tem ali uns toques. Toca numa série de questões e talvez, de certa forma, até mais complexo no desfecho e mais interessante do que o próprio "Adolescência". Portanto, se puderem ver, "Reservado", na Netflix.

Bruno, eu antes de ti, vou sugerir duas coisas que ainda não vi, nem li, mas estou curioso.

Mais uma razão para antecipares.

O primeiro é um livro que se chama "Para Lá do Muro", da jornalista e historiadora Katia Hoyer, e o subtítulo explica: é uma história da Alemanha de Leste.

Que bela sugestão.

Interessa-me muito.

É um bocadinho o "Goodbye, Lenin!" Já estás interessado.

Mas sem ficção, espero eu, porque é não ficção.

Eu estava a tentar explicar o teu fascínio por ser isso.

Interessa-me muito, gosto muito de saber. É como se fosse um outro mundo, que nós não vimos, nem vivemos.

É muito giro. E já que fazes essa recomendação, recomendo também "O Fim do Homem Soviético". Como é que se chama? Ganhou a Alexievich. Svetlana Alexievich.

Já que estás nessa.

Claro. Segue.

É belíssimo esse livro.

Vai em frente.

Naquele estilo de relato na primeira pessoa que ela usa. É maravilhoso para acederes a esse outro lado.

Exato. O livro é editado pela Vogais e depois sugiro um filme que vocês se calhar já viram. Se já viram, não me contem nada, porque eu ainda não vi, que é o tal "Mountain Head", que está na Max, que é do tipo que criou a série "Succession".

Jesse Armstrong.

Exatamente. E que conta a história de um grupo de tech bros que se reúnem lá numa casa milionária, numa estância de esqui, ou assim uma coisa, e que fazem planos extraordinários para dominar o mundo através da tecnologia, enquanto o mundo cai aos pedaços. Parece uma ótima premissa.

É a melhor altura para tomar conta disso.

Se é um bom filme ou não, não sei, porque ainda não vi, mas fica a sugestão. Bruno, agora arranca.

Eu estava aqui a olhar para este magnífico livro, esta magnífica reedição do "Folhas de Erva".

Estás aí a tratar isso como se fosse o Santo Graal.

Estás a fazer festinha.

Eu estava aqui: "O que eu posso dizer sobre isto?"

Faz a festinha, então.

Lembrei-me agora de uma coisa que podia dizer. Já alguém deve ter dito, porque isto é tão bom que eu acho que estou a roubar este de alguém. Se a América fosse uma religião, o "Folhas de Erva" era o evangelho.

Muito bem.

Pronto, e acabou. Eu não posso dizer mais nada, mas de certeza que alguém já deve ter dito alguma coisa parecida. É uma celebração do corpo, do mundo real, das coisas, da natureza também. É transcendente, mas no contacto direto com as coisas, com o mundo, com o sentir, com as sensações.

Ele está mesmo a sentir isto. Está a dizer.

Já é um clássico.

Eu descobri primeiro o Oswald Campos.

O Bruno está a demonstrar que-

É quase um standard da canção.

O Bruno está aqui a demonstrar que tem emoções.

Não é frequente. Eu descobri primeiro o Oswald Campos, mas depois quando percebes que muito do Oswald Campos vem trazido pelo Walt Whitman, quando percebes que é dito nos poemas do Oswald Campos, essa influência é assumida. Mas quando descobres o Walt Whitman Este é um livro que começou por ser um conjunto de 12 poemas na primeira edição e depois se foi alargando até a oitava ou nona edição, ainda em vida do Walt Whitman, e que já incluía 400 poemas. Portanto, é um livro vida, é um livro árvore e é uma coisa fascinante, cabe tudo aqui dentro e tu percebes o fascínio que o Pessoa tinha por ele e como é que tentou também transportar isso para a sua poesia. "Folhas de Erva" é poesia para todas as estações. O que pode não ser para todas as estações, mas para mim é true crime. Duas sugestões.

São duas?

São duas, é rápido.

Tudo bem.

Uma está na Disney+, que é o caso Melissa Witt, ou o que é que aconteceu a Melissa Witt. É uma série documental de quatro episódios sobre o desaparecimento e depois confirma-se a morte de uma jovem nos Estados Unidos, em New Orleans. Começa muito bem, com grande estilo, eu até disse: "Isto vai ser dos melhores." E os dois últimos episódios, porque ele são quatro, portanto 50% é fraco. Mas começa muito bem e entusiasma e depois não consegue esperar.

É como muitas coisas na vida, Bruno.

Como quase tudo, meu amigo. Tudo começa muito bem, depois não aguenta a bomboca. Gostei mais de um documentário que está na Netflix, "American Deadly Marriage". Também não é uma obra-prima do true crime.

Não é "Deadly American Marriage"?

Deadly, o que é que eu disse?

American Deadlys Marriage.

Marriage? Então pronto. Chegam lá com estas três palavrinhas.

Exato. Deadly, escrevam deadly.

É uma história americana, ainda que envolva um tipo irlandês, que é vítima desta situação. É daquelas coisas, enquanto vocês não se decidem, que é o que me acontece, a ver uma série, por exemplo, "Department Q", eu digo: "Vou já ou não? Ou espero, reúno aqui condições para ver aquilo de uma assentada?" Enquanto estou nessa dúvida, tendo de encontrar alguma coisa de true crime, é o que eu faço.

Para sustentar o vício.

Claro, para aguentar um bocadinho. É a metadona do pessoal das plataformas.

Muito bem, rapaziada. Sugestões Entregues estão sempre disponíveis em podcast, estas e as das semanas anteriores. Sigam-nos para não perderem nenhum episódio. Voltamos na quinta-feira. Até lá.