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Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop-Up", o vosso guia de leitura para o mundo complexo da cultura popular. Este é mais um capítulo com Maria Ramos Silva, Bruno Vera Amaral e o Pedro Bucher Mendes. Esta semana vamos tentar perceber o que a inteligência artificial anda a fazer à literatura. Já sabemos que a inteligência artificial, ou IA, ou AI, como vocês lhe quiserem chamar, ou chat qualquer coisa, nomes próprios. Nada disto é novidade. Ainda assim, aparecem notícias de vez em quando. Há umas semanas, um romance candidato ao Goncourt. Bruno, vou te pedir ajuda se me enganar aqui.

Não, é meu.

Um romance candidato ao Goncourt, que é o mais importante prêmio literário francês, foi recusado pela organização do troféu por suspeita de utilização de inteligência artificial. E mais recentemente, a editora do autor, Telison Relian, é assim, não é?

Do autor, sim.

Ele é canadiano-haitiano.

Exato.

É esta a nacionalidade. Cortou relações, que é uma expressão dramática, com o escritor em causa. Bruno, eu vou começar por ti por duas razões. Primeiro, vais acrescentar aqui a informação essencial que não esteja nesta introdução.

Sim.

E segundo, depois quero saber o que teria acontecido se um livro escrito por ou com IA tivesse ganhado o Goncourt.

Teria sido uma grande barraca.

Achas?

Para começar por aí, claro, porque estamos a falar do mais prestigiado prêmio literário francês, que tem um impacto enormíssimo nas vendas dos livros, uns mais do que outros, mas alguns dos vencedores chegam a ultrapassar 1 milhão de exemplares vendidos, e muito a reboque do prêmio. O prêmio acho que é 10 euros, prêmio monetário. É 10 euros, portanto é simbólico. E depois, o ganho está precisamente nas vendas que resultam daí, devido ao prestígio que o prêmio tem.

E que tem prestígio no mundo inteiro, não é só em França.

No mundo inteiro, no mundo editorial inteiro.

Obviamente.

Qual é que é o efeito disto? Ganhas o prêmio Goncourt, muito provavelmente, depois vais ter uma série de traduções.

Vai ser traduzido em todo o lado.

Edições. Neste caso particular, ainda antes do livro estar envolvido nesta polêmica, ele venceu o Prêmio Fnac, em França, e os direitos já tinham sido vendidos para 30 países, antes de rebentar toda esta polêmica. Isto quando já tinha sido anunciado também que era um dos finalistas do Goncourt. Portanto, só o facto de ser finalista já põe o livro aqui num patamar, numa atenção maior por parte até dos editores estrangeiros ao livro. Há uns dias estivemos aqui numa das rubricas da manhã, como convidado, o editor da Guerra e Paz, o Manuel S. Fonseca, e perguntamos-lhe acerca da utilização de inteligência artificial, e ele falou deste romance, precisamente, a dizer que tinha lido o romance. Portanto, este romance chegou aos editores.

Claro.

Porque os editores estão atentos.

Sim, como proposta, como negócio.

Proposta, exatamente. E ele diz que gostou muito do livro. E essa é a opinião, curiosamente, ou não, dos jurados do Prêmio Goncourt, que antes da Academia Goncourt tomar a decisão de excluir o livro, optaram por uma abordagem mais prudente, antes de haver qualquer confirmação. Dizer: "Bem, não vamos já lançar aqui um estigma sobre o autor antes de saber ao certo do que estamos a falar, se terá sido feita batota com a inteligência artificial ou não." Na altura, o autor acabou por reconhecer que tinha feito plágio. Não sei se nesta obra ou noutras obras anteriores. Creio que ele começa por admitir que plagiou-

Também não é saudável

...noutras obras, também não é saudável, mas até aí teve sempre o apoio da editora. Parece que houve depois uma confirmação, através também de modelos de inteligência artificial.

A inteligência artificial a combater ela própria.

Exatamente, a analisar, e chegou-se à conclusão de que aquilo tinha sido produzido.

Mas o próprio não admitiu ainda.

O próprio não admitiu, mas a editora, a partir do momento em que a editora acaba por cancelar a turnê promocional com este argumento.

Fica complicado.

A partir daí não tem já muito por onde se defender. Agora, claro que a Academia Goncourt e todas as instituições que atribuem prêmios, em princípio, querem reconhecer o talento, o trabalho de indivíduos.

Criatividade, etc.

E não de máquinas. Portanto, antes de chegarmos ainda à atribuição do prêmio, se estamos já a ver que os jurados, por eles próprios, sozinhos, não têm meios, não têm capacidade para distinguir o que é produzido por um ser humano e aquilo que tem-

Pois, essa parte é normal, nós não conseguimos. Ou achas que não?

É perigosamente normal. É perigosamente normal, porque tu começas a dizer: "Bem, por eles próprios, eles não chegavam lá e provavelmente nós também não."

Exato.

Como eu estava a dar aqui o exemplo do Manuel Fonseca, ele também não.

Claro.

Ele gostou, estava a gostar e não estava a pensar: "Olha, isto está tão bem escrito que é capaz de ter sido inteligência artificial." Não, disse: "Isto é um excelente autor." Isto levanta aqui uma série de questões éticas e acerca do próprio trabalho intelectual dos escritores e não só, que é muito problemático. Agora, quando tu tens o principal prêmio literário francês, que os próprios jurados Não conseguem e precisam de inteligência artificial para fazer essa detecção do uso da inteligência artificial. Estamos num caminho complicado. Independentemente de decidirmos já se o caminho é complicado ou não, é um novo mundo.

Sim, certamente. Maria Ramos Silva, por falar em novo mundo, tu que aprecias isso, ou não. Esta história, agora que falo contigo, tu és uma pessoa dada ao futebol e faz-me lembrar o VAR. É uma espécie de VAR, mas literário.

E vê bem os problemas do VAR.

E vê lá os problemas que aquilo está a trazer. Antes deste programa, eu tinha lançado uma questão que é: por que não faziam uma secção de literatura de inteligência artificial e atribuíam-se prêmios? E tu, bem, chegaste à frente e disse assim: "Atenção, que estás a ser pouco profissional, porque já existem prêmios."

Prémio Pascal, aliás, lembra-me uma coisa.

Que é um belo nome.

Bola, futebol, Jorge Jesus. Quem não se lembra também desse momento maravilhoso? Eu estava a ouvir o Bruno e não deixo de achar alguma graça, confesso, quando olho para a história do prêmio. Este tipo de perigo que hoje se corre, por quê? Essa pergunta inicial que fazias ao Bruno, eu devolvo-te com outro tipo de interpelação. Imagina tu se um autor que tivesse vencido o Goncourt, passado uns tempos, decidisse assim: "Eu vou tentar novamente ganhar o Goncourt."

Porque o Goncourt só se pode receber uma vez.

Pronto. Agora imagina que tu tinhas vencido uma vez e depois pensavas: "Eu vou tentar ver se ganho outra vez o Goncourt, escrevo um texto, uma obra, assino com um pseudônimo e depois, por acaso, até ganhei e enviei lá o meu primo." É que isso aconteceu em 75, o Romain Gary.

Emile Ajar era o pseudônimo.

Ou seja, há aqui uma série de notas que eu acho que são extraordinárias no próprio trajeto do prêmio. Aliás, não é por acaso que em 2004, quando o Bernard Pivot assume a presidência da Academia Goncourt, diz: "Desculpem dizer-vos isto, mas não sei se sabem, há ali muita gente que se junta no Drouant", que é o restaurante onde eles se juntam desde 1914 para almoçar e também decidir umas coisas. Há muita gente que não lê os livros todos. Há uns quantos tipos que leem as coisas pelos outros.

Diz que é lá sério?

Eu não sei se vão ler a IA, ou o que não é IA, ou a escrita analógica, ou a escrita digital. A própria origem da fundação, o Bruno falava aqui de um detalhe importante. Hoje, o prestígio é de facto superior ao valor pecuniário. O valor é simbólico, mas no início não era. Eram 5 mil francos. E 5 mil francos no final do século XIX era muito dinheiro. Isto é criado por basicamente um dos dois irmãos, os irmãos Goncourt, que escreveram. Escreviam insieme na altura, mas eram para além de tipos muito infrequentaveis, segundo diziam. Também não tinham uma obra propriamente extraordinária. Ninguém hoje lê nada remotamente parecido, tenha sido escrito por algum deles. Mas o que é que pensaram? "Vamos morrer, certamente, como todos os outros, temos que garantir a posteridade. E se nós criássemos um prêmio?" E assim, de alguma forma, nasce o Goncourt, também em ruptura com a Academia Francesa, portanto, com alguma normatividade. A própria história depois, em termos de atribuição de prêmios, se nós pensarmos no primeiro grande nome que hoje surge a receber o Goncourt, que é provavelmente o Proust, em 1919, no final da guerra, o trabalho de lobby que foi feito para que o Proust vencesse aquele prêmio. Se houvesse redes sociais naquela altura, aquilo tinha sido um escândalo absoluto, ainda por cima porque estávamos num contexto de saída de Primeira Guerra, o Proust a escrever aquelas frivolidades. Olhavam para aquilo, mas quem é que quer saber disto numa altura destas, à procura do tempo perdido, os problemas dele. Nós chegamos, de facto, a uma evolução que é muito engraçada, esta capacidade de um prêmio como o Goncourt e o próprio Renaudot, que nasce de uma botada, nasce de uma brincadeira. Enquanto estamos à espera do Goncourt, vamos aqui criar outro prêmio. Hoje são, de facto, muito respeitados no meio, até talvez tenham uma marca de um prestígio ali mais uma certa patinha de superior ao Nobel. Eu, por exemplo, ligo muito mais aquilo que sai de deliberações do Goncourt do que propriamente do Nobel.

É um prêmio de livro, o outro é um prêmio de carreira.

Mas, de facto, acho que sem querer, a própria inteligência artificial acaba por ser um desafio extra, mas uma nota que traz alguma graça. Acho que tem aqui uma dimensão um pouco provocatória, até, que é só mais uma etapa na vida do próprio prêmio. Dito isto, também me parece uma consequência natural que vão surgindo prêmios e segmentos à margem, paralelos, que vão complementando esta oferta. Este Pascal parece que as candidaturas abriram agora, portanto, também daí a novidade. E acho que vai ser um desafio interessante também nós tentarmos perceber o que é que sai daqui e que tipo de competição pode haver do ponto de vista da própria IA.

Pedro Boucher Mendes, eu não sei se isto da IA te preocupa, se tu achas graça. Eu diria que não estás muito preocupado. Sobre este aspecto em particular, se publicássemos os livros e na capa disséssemos logo: "Este livro foi escrito com IA." O problema não ficava resolvido? A responsabilidade ficava do lado do leitor, não era?

Não sei, vou fazer como o doutor Eduardo Barroso, que é falar do meu filho. Não sei se vocês acompanhavam os debates, mas ele falava sempre do filho.

Eu creio que ainda hoje. Eu há uns tempos estive com ele num debate.

Pronto, é isso.

Ele é sportinguista, não é?

O meu filho já só trabalha com IA e resolve problemas com essas coisas todas. Acabou o curso e agora foi trabalhar para um sítio achando que ia fazer uma coisa e dá por ele a fazer coisas com os LLMs. Eu tenho algumas coisas a dizer. Em primeiro lugar, uma coisa foi denunciada, uma denúncia anônima, este prêmio.

Que já se sabe quem é que está por trás.

O escritor é negro, supostamente a pessoa que foi atrás dele e denunciou anonimamente, mas depois descobriu-se, é um tipo que combate o wokeismo.

É o Samuel Fitoussi, o autor daquele livro, "Porque se Enganam os Intelectuais?" E é uma estrela conservadora.

Exatamente. Então há aqui esta dimensão

Terá o autor sido premiado por ser negro e por ser ativista? Mais preocupante para mim, e nunca me tinha ocorrido, e a mim, como sabes, ocorre-me quase tudo.

É verdade.

Foi ter lido esta semana, e já não me lembro onde, e tenho pena, que a maior parte dos livros que chegam ao mercado são escolhidos por mulheres, porque a maior parte das pessoas que trabalham em edição são mulheres, ligadas a uma certa ideologia woke, lógica do feminismo, etc. Porque a maior parte das mulheres que se formam nas grandes universidades americanas professam essa ideologia. Estou a usar a palavra ideologia aqui como chapéu de chuva para isto. Portanto, a maior parte dos livros que chegam ao mercado e que se tornam passíveis de serem muito vendidos e premiados, são já previamente escolhidos por um elemento humano condicionado. Só para enquadrar a questão, os livros sempre foram escritos por uma pessoa. Claro que há autores que são duplas.

Ou mais até.

Agora vai sair uma série na Apple do Lars Kepler, que na verdade é um casal, acho que são duas pessoas. Mas normalmente o autor de um livro é uma pessoa. E nós como que exigimos que seja uma pessoa o autor de um livro, enquanto que em uma série ou em um filme, nós temos perfeita noção que mesmo que seja realizado por um Scorsese, por um Spielberg, temos noção que depois houve um director de fotografia.

É uma vasta equipa.

E isso não nos faz confusão. Eu não consigo perceber bem onde é que se pode usar IA. Porque é dada uma trabalheira imensa estar a fazer os prompts, portanto, dadas as instruções. "Escreve-me aí os diálogos de uma cena romântica passada nas margens do Sena entre o Bruno Vieira Amaral e a Cindy Crawford."

Por exemplo. Podes pedir à inteligência artificial para desempenhar o papel de uma personagem.

Mas depois vais retocar, não é?

Claro, óbvio. À partida, sim.

Palavra de honra que eu não vejo problema com isso. Quando eu digo não vejo problema, não diria que ninguém está a apontar uma pistola à minha cabeça para eu ter que comprar ou ler aquele livro. Acho que os autores, caso o entendam, devem ser livres de usar jornais antigos, ir falar com o médico para saber quais são os melhores venenos para matar um personagem.

A questão é se este recurso ou esta ferramenta está ao mesmo nível dessas ferramentas.

Para mim, são tudo ferramentas. A internet é uma ferramenta. Imagina que eu publico um livro e digo: "Eu não fui à internet pesquisar nada, fiz tudo pessoalmente, montei uma tenda na Hemeroteca e estive lá 14 meses consecutivos." Isso tem algum valor? As pessoas ficavam a olhar e: "É pagando otário, em vez de ir à internet". Isto da IA é o grande tema contemporâneo, depois do wokismo, depois do ambiente, depois da Covid, etc. Não vejo sinceramente problema. Agora vamos ter um livro do Pedro Santa Clara, que é um livro de não ficção. É um livro que ele assume que dialogou, usou com a IA, a IA foi um assistente que ele usou, e eu conto comprar o livro e ler.

Mas a questão aí é precisamente esse detalhe, que é: se usamos a IA como ferramenta, não devemos dizer, não é mais honesto intelectualmente para quem vai ler? Entendes? Esta é que é a pergunta que muita gente faz.

Eu publiquei vários livros e nunca pus "usei a internet, usei livros antigos". Não sinto que seja no meu caso particular.

Sim, mas pões a bibliografia consultada.

Então deixa-me responder assim: no meu caso, falando por mim, não vejo qualquer necessidade disso.

Na minha opinião pessoal.

Exatamente. Não defendo.

Certo.

Provavelmente nós estamos em uma fase em que essa questão ainda se coloca. Aquilo que nos dá a ideia é que caminhamos para um ponto em que a diluição seja de tal forma, que essa questão provavelmente nem se põe.

O Elon Musk agora fez uma série sobre a Odisseia.

Acho que é uma porcaria.

Nem era isso que tu ias dizer, eu sei. E assumiu: "Isto vai ser feito totalmente com IA".

E houve um filme chinês também que eles fizeram com IA e que foi um fracasso no box office.

A questão é desse limite, porque aí a ferramenta, o que vai fazer? Apesar dos retoques ou da edição, seja o que for, vai efetivamente escrever. Não é a mesma coisa do que tu usares uma ferramenta para consultar ou adquirir informação.

Não estou a ver qual é o problema de escrever um diálogo no Sena.

A questão será sempre o resultado. Agora nós estamos a dizer: "Aquilo é muito mau". Então e se fosse bom?

Pois.

Daí eu perguntar: e se tivesse ganho o prémio?

Aquilo que tu estás a presumir é que aquilo que for feito pela IA é mau. Ok, então e se aquela Odisseia do Elon Musk?

E nós dois, de facto, estamos a decidir, imagina, qual é o problema de ter um bocadinho de IA na humanidade. Mas nós, de facto, não sabemos se vamos chegar a um ponto em que alguém se está a gabar dizer: "Epá, isto não teve nem uma gota de humano, isto foi tudo feito por máquinas."

Estamos a chegar ao momento em que vai haver um bocadinho de humanidade na IA.

Olha, isso já não é mau. Imagina.

Mas qual é o problema disso?

Não sei, vamos ver.

As pessoas quando têm um problema de saúde e vão ao hospital, as pessoas querem o maior número de máquinas possível. Temos aqui um curandeiro, temos aqui um senhor que lê folhas de chá ou temos aqui esta máquina que doaram à Fundação Champalimaud.

Mas espera um bocadinho, que a gente já vai continuar esta conversa um momento.

Será que o Pedro não gosta muito de pessoas? Será isso? É isso que estamos a detetar?

Final da primeira parte do "Pop-Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos a falar sobre literatura e inteligência artificial e o que se está a passar no cruzamento entre estes dois mundos. Eu trago aqui outra informação polêmica: dados, relatórios, porcentagens.

Isso, estatísticas.

Há poucas semanas, um relatório da Rakuten, que é a empresa que, entre outras coisas, fabrica o Kobo, que é um dos leitores digitais.

E patrocinou o Barcelona, acho.

Exato.

É o Spotify.

Agora é o Spotify?

Mais utilizados. Rakuten também tem plataforma de streaming.

Patrocinou antes.

A empresa revelava que rejeitou 45% dos livros que foram submetidos para publicação no ano passado, por suspeita de utilização de inteligência artificial. A Amazon também tem este tipo de plataforma, que é a autopublicação. Eu mando para lá um livro: "Meus amigos, querem publicar?" 45% destes foram recusados. Bruno Vieira Amaral, continuamos nesta questão, que é: se um dia, eu já sei qual é a resposta, se vamos ler IA e ninguém vai perceber, vamos inevitavelmente chegar a esse ponto. Que vai estar tudo misturado.

Sim, provavelmente sim.

E aí já não vai haver questão.

Vai atingir um nível de desenvolvimento em que não vais perceber. O que eu acho em relação à produção literária humana. Eu acho que se um mau escritor pedir a uma inteligência artificial para lhe escrever um livro.

Achas que vai ser sempre mau?

Acho que vai ser sempre mau, porque ele não sabe distinguir o que é bom.

Mas e se o autor disser assim: "Escreve-me este livro como se fosses o Bruno Vieira Amaral."

Sei lá, pode fazer isso. Eu próprio já pedi ao ChatGPT para escrever um texto como se fosse eu.

Como Bruno Vieira Amaral.

E não estava nada mal. Havia ali coisas que eu disse: "Eu era capaz de ter escrito assim."

Mas não te deixou preocupado? Porque isso quer dizer, no fundo, que qualquer pessoa pode escrever como tu. No limite, tu a exagerar.

Sim. Olha, o Rogério Casanova, o cronista do Público, tem muito jeito para fazer pastiche de escritores.

É verdade.

Ele quando faz o pastiche do Lobo Antunes, aquilo é uma pessoa se escangalhar a rir. E o Lobo Antunes não deixa ter as suas qualidades só porque é imitável. É a mesma coisa que tu fazeres uma caricatura, fazeres um boneco, uma imitação. Dizes: "Aquilo está mesmo bem apanhado."

Mas aí foi ele que fez com a sua mente criativa, não é?

E há aqui um bocadinho-

Mas quem é que nunca passou, numa certa altura da vida, desculpa, pediu a alguém mais esperto para lhe resolver um problema de uma coisa?

O Pedro.

Ando.

Essa é a mesa ao seu lado.

Eu acho que a tendência no futuro será para se utilizar, em certas tarefas mesmo da produção literária, recorrer à inteligência artificial. Eu acho que pedir à inteligência artificial: "Escreve-me aqui um capítulo inteiro" ou "Escreve-me um livro inteiro", isso tira todo o sentido ao que eu faço. Não quer dizer que a inteligência artificial até não possa fazer bem, mas deixa de dar sentido ao que eu faço. Tu podes pedir, se calhar, à inteligência artificial: "Pinta-me aí um quadro no futuro." Pode ser possível. Pinta-me aí um quadro assim assado, fazes os prompts. E então, eu quero pintar, quer ser eu a pintar. E a mesma coisa com a escrita. O que não significa que não possa utilizar a inteligência artificial como uma ferramenta que eu utilizo. E não acho que venha daí grande mal ao mundo. Eu estou a tentar desenvolver um projeto de ficção.

A palavra projeto é muito arriscada.

É um projeto. Estou a escrever um romance. Eu não digo projeto quando me refiro, por exemplo, às minhas relações sentimentais. Como algumas pessoas.

Às vezes são projetos.

O meu projeto sentimental, o meu projeto de vida. Não, mas aqui é um projeto, porque está em fase de projeto, ainda não está a ser executado. Mas é algo que se passa num futuro mais ou menos próximo, e eu dei por mim a bater bolas com a inteligência artificial, e aquilo é fascinante.

É, também é verdade.

É fascinante. Desculpem, se não querem utilizar, põe um selo a dizer: "Não utilizei." Aquilo é fascinante, porque aquele mundo que eu comecei a imaginar sem o auxílio de inteligência artificial, a partir do momento em que eu entrei em diálogo com a inteligência artificial, aquele mundo começou a se tornar extremamente real.

Mas vais colocar um autocolante?

Eu não sei onde é que aquilo vai parecer, que eu digo que é um projeto. Eu não sei onde é que aquilo vai dar, nem sei se vou usar aquilo. Estou te dizendo que aquilo que eu já tenho ali, de fato, criou-se uma base, um diálogo fascinante, porque aquele mundo, que é completamente saído da minha cabeça, completamente inventado, as bases desse mundo são completamente originais, adquiriram uma consistência a partir do momento em que eu entrei em diálogo com a IA, que não tinha. Em relação ao pormenor, eu disse: "Olha, o que poderia ser convincente aqui?" Por exemplo, que profissão é que esta personagem poderia ter neste futuro próximo, mais ou menos próximo. E as hipóteses, o grau de detalhe que a inteligência artificial te dá, não quer dizer que tenhas que fazer aquilo ou que tenhas que pegar naquilo e verter aquilo para uma obra, mas aquilo abre-te uma série de possibilidades que até estimulam a tua própria imaginação.

Deixa-me pegar aí nesse ponto que falaste, porque, Maria, eu acho que este aspecto, para mim, faz a diferença, que é: vou resumir muito rapidamente É como se houvesse um pingue-pongue para a tua criatividade ir a um sítio. Esta coisa de eventualmente a criatividade deixar de ir a um sítio sozinha, estou a exagerar, não terá más consequências? Isto, por exemplo, em relação à escrita. Não vamos ficar aqui em prejuízo de alguma forma?

Eu tendo a ser uma otimista, aliás, acho que isso é mais ou menos notório para a maior parte do programa em relação a isto, e subscrevo inteiramente aquilo que o Bruno estava a dizer. Eu acho que a história da humanidade é feita essencialmente de disrupção, é inevitável, e eu acho que chega a ser desejável, necessária. Acho que isso é fundamental também para a nossa sobrevivência. Eu acho que aquilo que nos deixa sempre em cheque permanente, também é aquilo que nos faz evoluir. E qualquer pessoa que tenha esta curiosidade de conversar, de bater umas bolas com a IA, eu acho que por mais cético que seja, tem pelo menos a obrigação de parar um pouco e de pensar: "Alto lá, aqui qualquer coisa de facto pode ser relevante." Até porque, mais uma vez, colocando as coisas em perspectiva, quer dizer, se nós vamos pensar em tudo aquilo que é visto como potencialmente ameaçador. Eu adorava, se pudesse recuar no tempo, estar ao lado do Gutenberg quando ele no século XV inventou a imprensa.

Pensava que ias dizer Bella Gutman.

Também, que também inventou coisas extraordinárias. Hoje, para nós é uma coisa completamente assumida como inabalável, como um feito absolutamente prodigioso, mas na altura as elites olhavam para aquilo como: "Meu Deus, a massificação da informação vai dar cabo do saber, do conhecimento."

Da memória.

Da memória.

Nunca mais vais precisar de decorar coisas.

Como é que nós vamos verificar os factos? Quer dizer, são questões que se mantêm até hoje, por outros motivos. Com a televisão veio mais uma hecatombe vinha por aí, íamos morrer todos. A internet então nem se fala, o hipertexto valha-nos Deus. A própria ficção, o boom do romance no século XIX, as pessoas achavam que ia ficar tudo completamente esvaziado de interesse, de conhecimento. Portanto, eu acho que há aqui uma série de coisas. O Bruno estava a falar também da questão da originalidade e da criatividade. Eu acho que isso é a nota, em última instância, absolutamente decisiva neste caso, que é, e citando aqui outro craque destas coisas, o Einstein: a imaginação, de facto, acaba por ser mais importante do que o conhecimento, porque o conhecimento é que o que nós dominamos e que sabemos que podemos conhecer. A imaginação é uma coisa que está para lá disso.

Entendo.

Portanto, em última instância, eu acho que o grande duelo que nós vamos ter sempre, se quisermos entrar nesta dicotomia de homem e máquina, vai ser ao nível da imaginação. Já nem é da manualidade. Eu na semana passada vi uma reportagem, eu creio que da BBC, que estava em fábricas no sudoeste asiático, em que tu já vês empregados, funcionários a montarem coisas com uma espécie de óculos, um equipamento que vai radiografando e compilando dados atrás de dados, os movimentos das suas mãos para reproduzir aquilo. Portanto, aquela ideia de facto de que a manualidade está garantida como última prova de uma coisa que de facto nos permite aqui retirar um valor em relação à IA, eu acho que já nem isso é garantido.

Deixe-me só, para já, notar aqui que ninguém se mostrou sequer surpreendido minimamente por eu ter feito uma referência futebolística com aquela rapidez com que fiz.

Do Bella Gutman.

Sim, mas está tudo bem. Segundo, Pedro Mexia Mendes, vamos falar contigo sobre uma coisa que tu aprecias muito, que é jornalismo. Tu que também és jornalista. Então e esta parte da escrita jornalística, a crônica, a crítica, o que é que vai acontecer? Não te preocupa?

Não, não muito. A maior parte das crônicas e das críticas têm um valor aproximado de zero. Mas também não tem que ser de outra maneira. Repara, não temos que ter a ambição de que nos jornais de todo o mundo, incluindo os portugueses, só escrevam o Lobo Antunes, o Saramago. Uma parte dos textos vale mesmo zero. Alguns já são escritos por IA, muitos escritos por IA. Sobretudo, caso não saibam, ficam a saber, muitos dos argumentos são colhidos através de diálogos com modelos LLM.

Quando dizes argumentos estás a falar da televisão, se calhar.

Imagina, hoje à noite vou debater com o Bruno Vieira Amaral o novo aeroporto de Lisboa. Dá-me argumentos, por favor. Dá-me argumentos contra. Imagina, o argumento contra: há uma espécie de gaivota, não sei o quê, e eu se calhar não sabia isso previamente. Pronto, e agora vou munido desse argumento, caso o Bruno venha para cima de mim com argumentos não sei o quê, eu meto-lhe a gaivota. Se eu acho isto mal? Não, não acho mal.

Se trabalhares com consultor de comunicação e fazer o media training, estás a fazer isso com uma pessoa.

Ainda ontem ou hoje li aqui n'"O Observador", não sei o quê, do desastre terrível que houve na alta velocidade em Espanha. E depois acaba assim: "Texto escrito por IA, editado por um jornalista do Observador." Não tenho nenhum problema com isso, que o acidente foi a tantas horas e que depois o Pedro Sanchez foi àquela hora. Não vejo nenhum problema com isso. A literatura e o jornalismo são vistas, e até a decisão dos juízes. Eu ouvia hoje de manhã, antes de vir para aqui, um debate na rádio sobre os acampamentos e depois a juíza vai decidir e o tribunal vai decidir, são vistos como instrumentos sagrados. Toda a gente aceita que a humanidade é imperfeita, mas o jornalismo, a literatura, a justiça, aí não, esses são perfeitos. Eu, por exemplo, acho a cobertura jornalística em Portugal, regra geral, facciosa, orientada para um dos lados ideologicamente. Não acho que seja por mal. É a única coisa que eu quero-- Não, é sério.

É assim.

Exatamente, é assim. A bússola moral do país está inclinada para a esquerda, por razões históricas. Noutros países estará inclinada para outro lado. Isso não é bom, nem é mau, agora não estou a discutir isso. Muito do jornalismo que é praticado neste momento em Portugal já é biased, já é condicionado a uma ideologia prévia. E o problema é a IA. Portugal é o único país do mundo em que todos os jornais são isentos. Nos outros países, os jornais assumem uma posição.

Sim, ou apoiam um candidato oficialmente.

O Observador apoia António José Seguro. Não sei se fez, acho que não fez, mas imagina que teriam feito. Eu não vejo nenhum problema com isso. Quanto muito, verei um problema em apoiarem o candidato fingindo que são independentes. A questão do chamado jornalismo e do ponto de vista é que as redes sociais têm este benefício de trazerem para o espaço público argumentos que não nos tinham ocorrido. E agora a IA vai, creio eu, tornar esse processo mais fácil. Eu estou a ler um livro, não sei se temos tempo, mas acho que temos tempo, porque isso vai ter graça. Estou a ler um livro em que dois dos personagens principais estão numa relação aberta. A parte da família decide ter uma relação aberta. E então eu perguntei à IA argumentos a favor ou contra das relações abertas.

Mas diz-me uma coisa, perguntaste antes de saberes que ias fazer este programa ou foi depois?

Não, foi até para fazer este número cinco que eu vou fazer agora. E não sei se sabes, mas os modelos de LA não falam de questões sexuais.

Não, não sabia.

"Eu não te posso dar nenhum conselho sobre questões sexuais, contudo, posso dizer as coisas." E eu: "Está bem, então diz lá." Isso é o modelo que diz, neste caso, o Copilot. "Algumas pessoas procuram modelos de relação menos convencionais porque valorizam", isto está descrito pelo Copilot, "maior autonomia individual, comunicação mais explícita, porque expectativas, limites e compromissos precisam ser verbalizados em vez de presumidos. Reavaliação do conceito de compromisso, distinguindo compromisso emocional de determinadas convenções sociais." Portanto, eu digo para a minha mulher: "Isto é tudo uma convenção social."

Claro.

Eu fui à IA. Menor sentimento de posse. Quando ambos entendem a relação como uma escolha continuada e não como controle um sobre o outro. Pegando o que o Bruno estava a dizer há pouco. Imagina que o autor deste livro que eu estou a ler, e que não me lembro do nome, tinha ido à IA buscar este tipo de argumentos e colocado os argumentos num diálogo entre os personagens. Eu não vejo nenhum problema com isso. De facto, eu não vejo nenhum problema com isso. Acho esta mania da IA e aquelas ficções que se fazem de um homem que se enamora por um modelo de IA. Quer lá saber.

Ou pelo Vieira Amaral.

Não me afeta.

E dirias que, apesar de tudo, há limites? Há um certo ponto a partir do qual se passar daqui, então já temos um problema.

É muito difícil saber quais são os limites se o resultado for bom.

Claro.

Percebes? Eu volto a este caso, a este exemplo.

E quando há livros péssimos publicados.

Claro. E que não precisaram de inteligência artificial.

Passaram por editores.

E que os próprios editores sabem que aquilo é mau.

Precisamente.

E publicam. Entendes?

E disso ninguém fala.

É uma discussão que acaba por ser quase cômica. Tu estás aqui a discutir se um livro, que pelos vistos foi mesmo feito com recurso à inteligência artificial, mas que é bom, deve ou não ser retirado de circulação, enquanto tens outros, que foram escritos por humanos, mas são uma valente porcaria. Mas como tu assumes que foram escritos por humanos, dizes: "Não, mas estes podem existir porque foram escritos por humanos."

Mas deixa-me só exagerar no meu papel de advogado do diabo.

Claro.

Que é para isso que me pagam, aliás.

Não, com certeza.

Não é a mesma coisa do que um atleta concorrer com um homem biônico? Entendes?

Ou atletas femininas concorrerem contra pessoas trans.

A questão é essa, que essas questões às vezes colocam, outros pontos, mas colocam-se.

Volto à questão inicial.

Quer dizer, com doping, não é preciso ir para o biônico.

Eu disse que ia exagerar.

Não, mas há quem defenda. Tu não há aqueles jogos, "Enhanced Games", que tomas aquilo que quiseres para melhorar o teu rendimento. Aqui não há antidoping.

A minha questão é: estávamos a falar de prêmios. Os concorrentes não têm que estar todos na mesma categoria.

Pois, e daí haver agora esse prêmio Pascal, que é precisamente para dizeres: "Não, nós utilizámos..."

O exercício é diferente. Em alguns aspectos, pelo menos.

Em alguns aspectos é diferente, mas todos os livros são diferentes. Quando tu fazes a investigação para um livro, eu, por exemplo, num dos meus romances, consultei um processo em tribunal relativo ao homicídio do meu primo. Retirei de lá muitas coisas, coisas que eu não saberia de outra forma. Também podes dizer: "Mas isso foi com o teu esforço, tiraste uma manhã ou duas tardes para ir ao Tribunal da Moita investigar esse processo."

Usaste a internet, provavelmente.

Provavelmente. Eu até poderia ter inventado tudo aquilo

Teria mais valor se eu tivesse inventado ou ter feito a investigação? E como o Pedro há pouco estava a dar o exemplo dos jornais, de ir à hemeroteca, também houve informação que eu recolhi dos jornais. Então o que é que tem mais valor? É bater umas bolas com a inteligência artificial e assumir e dizer: "Olha, uma parte deste livro foi escrito com ajuda"-

Bolas batidas

...com bolas batidas com a inteligência artificial, ou eu é que andei a investigar tudo sozinho, ou pedi, por exemplo, a uma assistente para fazer essa pesquisa na hemeroteca e ela foi fazer essa pesquisa na hemeroteca, ou ela é que transcreveu. Os limites tornam-se muito confusos, ou são muito ténues esses limites para tu conseguires encontrar aqui categorias completamente estancas. Que grau de utilização da inteligência artificial é que passa a ser então permitido ou aceitável para concorreres? É não ter qualquer tipo de ajuda da inteligência artificial? Então e se eu recurso à internet e recurso a fontes que de outra forma não terias? Eu acho que é muito nebuloso. Vai continuar a ser decisivo o resultado. Quanto a mim, o resultado final, a produção intelectual, a não ser que tenhas depois uma denúncia de alguém que diga: "Olha, esta pessoa utilizou a inteligência artificial."

Vou estar atento. Rapaziada, tínhamos aqui imensas coisas para falar, mas não temos tempo, como diz um dos maiores intelectuais da nossa existência. Chegamos ao fim de mais um "POPUP", já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.