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Não desesperem mais, as sugestões da semana estão de volta, o que quer dizer que o universo volta a ter alguma ordem. Susana Romana, tu que estás aqui esta semana, tens a honra de começar esta dose semanal e eu quero que tu comeces. Isto é uma ordem. Porque eu gosto muito deste título, é uma série que se chama "Kevin Can Fuck Himself".
Exatamente.
O que é isso?
A série é de 2021, 2022, mas apesar de já ter ouvido falar, só comecei a ver agora, porque descobri que está a primeira temporada na Amazon Prime. São duas temporadas, a segunda não está disponível em lado nenhum, mas a primeira está na Amazon Prime. O "Kevin Can Fuck Himself" é uma comédia negra misturada com uma sitcom muito convencional. Tem mesmo estes dois universos em paralelo, porque há sempre aquele chavão nas comédias de: o homem meio tonto, que tem uma mulher muito gira, que lhe está sempre a cortar as asas. Deixem-no ser uma criança grande à vontade. Aquela onda do "Everybody Loves Raymond", do "King of Queens". E aquilo mistura essa sitcom absolutamente convencional, nos diálogos, na maneira como os atores estão a representar, nos diálogos, em tudo. E de repente, sempre que ela fica sozinha, corta para outra série completamente diferente. E é como é que ela se sente perante aquilo tudo. Portanto, ao mesmo tempo que tu tens a correr uma sitcom clássica de gargalhadas enlatadas, tens a perspectiva da mulher que está tão farta daquela vida que começa a planear matar o marido. Portanto, de um lado tens uma comédia negra em que ela começa a consumir cocaína e está absolutamente derrotada, e é uma comédia muito negra misturada com esta sitcom. E a maneira como as duas estão entrosadas, porque parece mesmo duas séries diferentes, cosidas uma na outra, em tudo, na realização, na direção de fotografia, em tudo. Por isso, enquanto experiência para quem gosta sobretudo de formatos televisivos, é muito gira. A protagonista é a Annie Murphy, que entrava no "Schitt's Creek", é filha dos "Schitt's Creek". Tem duas temporadas, a primeira está na Prime Video da Amazon, a segunda, que eu saiba, não está ainda disponível em lado nenhum, mas vale muito a pena.
Mas tu vendes muito bem as coisas, Susana. Porque, olha- Se calhar viste metade da vida. Vou comprar. Muito bem. Sobre livros, tens pelo menos dois para sugerir.
Tenho. Tenho um no qual vou ser muito rápida, que é um livro que ainda estou a acabar de ler, mas pelo qual eu estou completamente obcecada, mas que é tudo o que o Tiago pede para não trazermos. Ou seja, o livro não está editado em Portugal e não é da Sche sos.
Não, eu não peço nada disso. Eu acho muito bem. Vocês são livres.
E eu acho que se a pessoa que vai perceber a minha paixão por este livro é provavelmente o Bruno. Chama-se "Cultish: The Language of Fanaticism", da Amanda Montell, que é linguista, e é sobre como é que a linguagem é usada nas seitas e nos cultos para convencer as pessoas não só a aderirem, como a manterem-se numa lógica de uma certa desculpa.
Não podem trazer esta mulher para aqui, porque não podes. Agora vais gastar dinheiro.
O livro está muito bem escrito, ela tem algum sentido de humor perante isto. O pai dela esteve num culto até aos 14 anos, portanto ela conhece, por interposto a pessoa, conhece esta realidade e ela fala sobre como é que a linguagem é usada, especificamente sobre como a linguagem é usada, mas ela vai desde exemplos da Cientologia e do Heaven's Gate e de Jonestown, até: será que nós quando estamos num ginásio de crossfit com determinadas regras, não estamos, de alguma maneira lá, porque há uma linguagem muito semelhante à dos cultos. Os esquemas de pirâmide não usam a linguagem de culto? E então é como é que a linguagem é usada para isto, e eu estou a adorar absolutamente este livro, por isso tinha que o trazer. O outro é um livro que saiu agora e que está em português. É de uma autora portuguesa.
Muito bem.
É da artista musical, e não só, a Luísa Sobral. É um livro de crónicas que se chama "Da Minha Janela", que são crónicas muito curtinhas, por isso eu não tenho muito o conceito de leituras de verão, mas se alguém quiser de facto ler uma coisa que se lê bastante depressa, é um bom livro para essa opção. Eu senti que a Luísa Sobral tem muito sentido de humor a escrever. Grande parte dos textos são inéditos, alguns estão nas redes sociais dela, mas os outros são inéditos, tem tudo, desde o que acontece a tentar usar a Vinted, o que é que acontece em TVDEs, viagens à China, o que é que se faz com grupo de WhatsApp que já está moribundo. Eu achei que tinha um ótimo sentido de humor e que estava muito bem escrito, por isso também recomendo o "Da Minha Janela", da Luísa Sobral, uma edição da Dom Quixote. E por último.
E ainda há, exato.
E por último, ainda há uma exposição, que eu ainda não fui ver, porque me baralhei com as datas e apareci lá no dia antes da exposição ser inaugurada.
Quem nunca?
Que se chama Autocolante: Iconografia da Liberdade. Já está agora, já podem ir à confiança. Está no MUDE, no Museu do Design, ali na Rua Augusta, em Lisboa, e é uma exposição sobre uma coisa que eu adoro, que são autocolantes. Tem 1800 autocolantes, desde o pós-25 de abril e a campanha eleitoral e os autocolantes que foram usados nessa altura, até autocolantes a ver com questões de hoje, habitação, emergência climática. Portanto, é como é que os autocolantes são usados ao longo dos anos como modo gráfico e distribuível e quase colado, quase tipo vandalismo, como é que eles são usados como modo de passar uma mensagem.
Se calhar não vão, é em dia de enchente no Terreiro do Paço com jogo da seleção.
Sim, ou então durante o jogo vão, porque durante o jogo está vazio.
Aí não vai estar ninguém. Muito bem, Bruno Vieira Amaral, eu não faço ideia do que é que tu trazeste, Susana, tu quiseste fazer uma surpresa.
E aqui está a surpresa. É um livro que comecei a ler, chama-se "Rua de Londres 38". É uma investigação, memórias também. É uma espécie de híbrido de Philip Sands, que é um advogado de direitos humanos inglês e que escreve este livro, "Rua de Londres 38", que era a morada da sede do Partido Socialista do Chile. E depois do golpe de Pinochet, em 11 de setembro de 1973, esse foi um lugar usado para prender, para deter e torturar pessoas, inimigos do regime, claro, comunistas, socialistas, tudo o que fosse de esquerda era para aí levado. E este livro conta a história De Pinochet, como Pinochet foi detido finalmente em 1998, com o mandado do juiz espanhol Baltasar Garzón.
Olha, também é uma popstar.
Uma grande popstar na altura, nos anos 90. Nessa altura da detenção do Pinochet, este livro conta todo o processo que levou à detenção do Pinochet, mas também conta a história de um tipo, um oficial das SS, Walter Rauff, que fugiu para o Chile, como muitos outros nazistas fugiram para a América Latina. E o livro também conta a história desta personagem e cruza as duas histórias, as ligações que existiam entre Rauff e o regime de Pinochet. Eu gosto muito de não ficção e toda a não ficção que traz esta capacidade de cruzar o registro mais factual, mais jornalístico, com memórias também, porque ele assume sempre a primeira pessoa. Quase sempre é um trunfo que joga a favor das histórias. Está publicado pela Penguin cá em Portugal. E eu ouvi falar muito bem deste autor, Philip Sands, e fiquei curioso. Outras coisas. Vamos lá. True Crime.
Ui! Saudades.
Na Netflix, duas coisas. Uma creio que é o homicídio de Rachel Nickell, que está na Netflix e que é a história de um homicídio que aconteceu nos anos 90 em Inglaterra. Uma mulher que estava com o filho de dois anos a passear no parque e foi assassinada. E a única testemunha do crime foi o filho.
De dois anos?
De dois anos.
Epa, isso não vai ser fácil.
Não é fácil. E esta é uma curiosidade, eu ainda não vi: ao mesmo tempo, está uma série de ficção baseada no caso. Eu só vi o documentário, recomendo o documentário. Recomendo também um que acho que estreou na Netflix na semana passada, que é "Instinto Maternal". Não sei se foi traduzido, mas acho que deve ser "Instinto Maternal", que também é uma história verdadeiramente inacreditável, esta passada nos Estados Unidos, passada como passada da cabeça, uma mitômana, uma mulher que inventou uma série de histórias, mas nada nas histórias que ela contava e enganava os outros levaria a prever depois o que ela acabou por fazer, mas têm de ver esse documentário. Por último, deixa-me só sugerir aqui uma coisa também na Netflix, uma coisa que vi por acaso, apesar de ter sido um filme muito falado, acho eu, na altura em que saiu há uns meses, com a Charlize Theron, na Netflix, o "Apex", que é com aquele tipo, o Terry, Terry Edgerton.
Esse é do Elton John?
Isso. Pronto, entre os dois. Normalmente, esse tipo de produções na Netflix é de muito baixa qualidade.
São uma charopada.
São.
E esta não é?
Esta consegue estar um bocadinho acima.
Ok.
Pronto, e é só por isso.
Mas também é só um bocadinho.
Não, mas é aqueles filmes que a Netflix faz com grandes estrelas.
Claro.
Mas que seriam ótimos como filmes de videoclube.
Agora há outra, que é a comédia com a Jennifer Lopez, escrita e protagonizada pelo tipo do "Ted Lasso".
O Brett Goldstein.
O Brett Goldstein, exatamente, que eu não me lembro do nome.
Que acho que é terrível, mas eu vou ver.
Eu este eu comecei a ver, mesmo daqueles: "Isso deve ser uma banhada". Não estejam à espera de uma obra-prima, atenção.
Mas para um sábado à tarde está incrível.
É ótimo. E de vez em quando a Netflix, não conseguindo fazer destes filmes coisas que fiquem, às vezes consegue.
Cumpra esta tarefa, que é importantíssima.
Não, isto seria um filme, sei lá, eu nem sei que atriz dos anos 90 é que poderia fazer este filme. Tem aquelas atrizes, a Kelly Lynch, não sei, estou pra cá a dizer um nome que pudesse fazer um filme destes, mas não era uma atriz topo. A Netflix faz com atores topo, paga-lhes um balúrdio, e as coisas normalmente são muito fraquinhas. Este eu acho que mesmo assim está dentro dos padrões da Netflix, está um bocadinho acima.
Muito bem, eu trago aqui três sugestões muito rápidas. Uma é um livro que não está publicado em Portugal, mas é uma história ótima, que vocês se calhar se lembram. O livro é de David Verdú. O livro chama-se "La Bola", que era a alcunha, um dos nomes pelo qual era conhecida uma mulher, que também era conhecida por Mar de Marquis. O nome dela era María Jesús Marhuenda Irastorza, que foi a fundadora de uma revista espanhola que se chamava "Jot Down" e que na altura, aqui há uns 20 anos ou 20 e tal, agora não sou certo da data, foi uma revista muito ambiciosa porque queria ser uma espécie de New Yorker e até certo ponto conseguiu, porque tinha esse lado de textos mais aprofundados e que tinha um lado cultural e social muito diferente daquilo que se fazia. Ninguém sabia quem era a senhora. Ela não falava com ninguém pessoalmente, era tudo feito e combinado à distância e telefonemas, etc. Até que depois em 2017, talvez, houve um jornalista que descobriu quem ela era. Foi revelada a sua identidade e, portanto, é toda uma história muito misteriosa, muito caricata. Lá está, daquelas coisas que se calhar o melhor guionista não se lembraria. Agora há um livro que está publicado pela Alfaguara em Espanha. Quem sabe será publicado em português ou não, não sei, mas pelo menos tem esta publicação. Chama-se "La Bola". Outra sugestão é teatro, chama-se "O Beijo no Asfalto", que é uma peça escrita pelo amigo aqui do Bruno Vieira Amaral, o Nelson Rodrigues.
Grande Nelson Rodrigues.
Dos anos 60. É uma história muito caricata que começa com um suposto beijo entre dois homens na rua
Com um a morrer.
E aquilo depois é uma enxurrada de situações, meus amigos. Não sei se conheces a história. Deves conhecer.
Conheço a história, mas nunca vi a peça.
Está no Teatro Nacional São João, no Porto. Até ao dia 5 de julho.
Boa!
A encenação é do Ton Anquito. Os atores são todos brasileiros, portanto mantém-se o português carioca. É uma das características da peça. E é uma proposta especialmente a pensar em ti.
Eu, por acaso, esta semana vou ao Porto. Talvez consiga ir.
Pensa nisso. E o que é que eu tenho mais para vos dizer? Ainda não acabei, estou sensivelmente a meio. Acho que alguém aqui já falou. Uma das séries do momento, "Widows Bay" na Apple TV+. Eu estava muito reticente, porquê? Porque ouvi dizer que metia meio bruxaria. Normalmente isso aborrece-me.
É, aborrece-me. Mete medo.
Não mete nada. Aquilo não me mete necessariamente medo, porque aquilo tem muita comédia pelo meio.
Mas depois assusta. Eu não gosto.
O cruzamento está muito bem feito entre "o que se passa aqui?" com "isto tem muita graça". E o elenco é ótimo e, de facto, se isto continuar assim, digo eu que vai ser uma das melhores do ano. Mas o que é que eu sei?
Nada.
Maria Ramos Silva.
Trago-
Trás muita música.
Na verdade, é tudo música.
Mas não necessariamente música.
Não necessariamente em formato de disco. Primeiro, um livro, chama-se "Lusitana Música".
Trás partituras.
Quase. "Lusitana Música" é uma obra de Tiago Manuel da Hora, que aborda a história da edição fonográfica e toda a gravação da música erudita em Portugal. Enfim, eu acho que não será um spoiler da minha parte se disser que isto não é propriamente uma coisa de massas. Mas para quem se interessa por este tipo de nicho, eu acho que é um precioso contributo. É uma edição MPMP, Património Musical Vivo, que é uma plataforma de música e de músicos portugueses. E na verdade, este livro parte de uma matriosca de ideias, porque primeiro foi uma tese de doutoramento, depois dali teve ramificações para artigos na revista Glosas e, por sua vez, episódios na Antena 2 e agora tudo isto compilado numa edição que, ainda por cima, tem uma capinha ótima, porque tem um relevozinho, conquista-me logo. Não gostas?
Sim, é um bocadinho ASMR de capas.
É um bocado.
É muito. Depois isto reproduz a borrachinha do disco de vinil.
E nota que estás a usar sempre diminutivos, nota-se um certo carinho sobre a peça.
É mais fofinho. Mais a flor ao coração. Depois trago também para uma coisa fofinha.
Velhinhos.
Velhinhos, quentinhos. Que se resolveram todos agora juntar-se e dar provas da sua vitalidade infinita. O Paul McCartney, que os seus 83 anos lançaram um álbum novo, o "The Boys of Dungeon Lane", que saiu no final de maio, que vai muito à ideia dos anos em Liverpool, os primeiros anos de vida, um dueto com o Ringo Starr. E depois, claro, Rolling Stones, que continuam a dar uma lição de juventude aos miúdos que andam por aí a fazer música.
Agora só faltava o Dylan aparecer também com um disco novo.
We never know. Chama-se "Foreign Tongues", sai a 10 de julho. Já andam por aí umas canções, ainda por cima uma delas tem um belo vídeo em que eles aparecem supernovos, calculo que seja graças à IA, estas coisas.
Primeiras reações muito entusiasmadas com este novo disco.
Eu gostei daquilo que ouvi.
Vamos ver.
É daquelas coisas que ainda por cima são super atuais, porque como se recordam, quando se fala de Mundial, é impossível não falar de Mick Jagger, que ficou conhecido por ser o famoso pé frio desde 2010. Temos aqui um problema adicional, porque ele parece que não é só pé frio para a Inglaterra, entretanto também diz que gosta de outras seleções como o Brasil.
Argentina, acho eu.
Não, ele estava no sete a um que o Brasil sofreu, portanto também ficou associado imediatamente a esse pé frio.
Mas ele tem uma relação emocional com o Brasil.
Mas também diz que gosta de Portugal, o problema é esse. Imagina se isto já não é obra do Jagger.
Não deixem!
Quem sabe ele não tem um filho português, com ele é possível.
Vamos ver como é que chega os efeitos desta maldição por este ano. Mas olha, estou muito ansiosa pelo disco e espero que gostem.
Está quase.
Está quase.
Muito bem, sugestões entregues, estão disponíveis em podcast como acontece semanalmente. Sigam-nos e não percam nenhuma dose. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.