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Nunca ninguém ouviu nada assim. Um grupo de gente bondosa com esta categoria, todas as semanas a deixar sugestões para que os dias sejam melhores. É bem bonito e melhor do que ser bonito, é verdade. Maria Ramos Silva. Falar em bonito. Nada disto estava engatilhado e agora vejo que faz imenso sentido.
Achas que faz imenso sentido?
Sim, porque tu vais falar de um livro que se chama "Toda a Beleza do Mundo".
Pois vou. É uma edição da Minotauro, escrito por um senhor chamado Patrick Binggeli. O que se passa aqui?
O que é que corre? Vamos lá ver.
Ele foi, durante 10 anos, vigilante no Museu Metropolitan, em Nova Iorque. Sabes aquelas pessoas que tu pensas: "O que é a vida deles? O que é que todos pensam?"
Estão ali sentados, a ver se as pessoas não passam aquela linha.
Sim, mas não é só isso. Depois percebes que há mais coisas. Ele narra os seus dias ao longo de 10 anos que passou nesse trabalho, ali entre os tesouros sagrados, que são obviamente aquelas peças de coleção magníficas, e depois também os tesouros profanos, como ele chama, que são as pessoas que vão passando por ali, vão flutuando com as suas dúvidas existenciais. Ele gosta, sobretudo, das pessoas mais desconcertadas, que colocam aquelas perguntas que parecem mais tontas, mas na verdade são as mais interessantes. Por exemplo, como é que se transporta um templo grego para Nova Iorque?
Olha, uma ótima pergunta.
Os americanos também têm questões muito quotidianas.
A questão é saber como é que se devolve.
Também. Agora se calhar é mais isso. Mas ele já não trabalha lá. Mas há perguntas obviamente muito curiosas, sobretudo porque ali em território norte-americano, a questão do tempo, a conta dos milhares de anos é uma coisa que provoca algum fascínio. E portanto, ele brinca muito com isso, mas não só. É uma história de encanto e desencanto. Isto é cruzado com parte, obviamente, da sua vida pessoal cá fora, do museu e a morte do irmão, mas é uma história que vale muito a pena. Não é uma coisa erudita, só para quem vai a museus, é uma coisa que se lê muito bem, "Toda a Beleza do Mundo", da Minotauro. Depois-
Depois tens uma coisa que não é assim tão bonita.
Mais pesada, não é nada bonita. Mas é bonita no sentido em que se resgata sempre aqui alguma coisa que é importante, nomeadamente a memória e a capacidade de preservar as coisas que importam, que também é importante. "33 fotos do Gueto" está na HBO Max. É basicamente um documento, um documentário de memória, que é assinado por um senhor, deixa-me ver se eu consigo dizer o nome bem, Jan Karsalewski, um senhor de origem polaca.
A mim pareceu-me ótimo.
Pronto, vamos assumir que sim. Ele regressa, salvo seja, à Polónia. A Polónia foi o primeiro país invadido pela Alemanha em setembro de 39, e que em novembro do ano seguinte assiste ao estabelecimento do Gueto de Varsóvia. Uma história absolutamente trágica, como podem imaginar, meio milhão de judeus cercados em condições absolutamente miseráveis, em três quilômetros quadrados. As imagens que nós tínhamos daquele momento da história e que tivemos durante 80 anos eram, sobretudo, imagens captadas pelos nazistas, portanto, imagens de propaganda. Foi o ângulo que nós conseguimos assistir. E era isso, sobretudo, que chegava até do momento decisivo, como a insurreição no próprio gueto, que é uma fase de resistência dos judeus contra as forças nazistas, é absolutamente impressionante. O que se descobre é que passado estes quase 80 anos, porque a descoberta tem um pouco menos, havia um jovem bombeiro polaco que tinha uma pequena máquina e que conseguiu captar, de uma forma absolutamente amadora, momentos dessa altura. E é, na verdade, o único registo que nós temos, que é impressionante, daquele momento que não tenha sido completamente coreografado e orquestrado pelos nazistas, que mostra parte daquela revolta e também do cotidiano daquelas pessoas. São 33 fotos, daí o nome do documentário, que entretanto foram recolhidas, os negativos foram descobertos, preservados, estão no Museu do Holocausto, em Washington. E é uma história muito interessante, porque ele conta do processo, como é que se chega aqui, mas também regressando a memórias daquele tempo e inclusivamente ao depoimento de uma sobrevivente do Gueto de Varsóvia. Portanto, se puderem ver, recomendo "33 fotos do Gueto" na HBO Max.
Muito bem, Pedro Ramos e Mendes, uma das coisas sobre as quais queres falar, eu tenho curiosidade, confesso, ainda que não perceba nada de xadrez, na medida em que sei as regras, mas não sei mais. Queres falar de uma coisa que se chama, eu não sei se tem tradução em português, mas se tiver, é Rainha do Xadrez, não é?
Sim, vou falar.
Pronto.
Em primeiro lugar, vou falar além do ciclo Hitchcock, vai haver um ciclo Bergman, organizado pela Medeia Filmes, coisas que eu descubro nas redes sociais, eles não me mandam informação, não devem ouvir este programa. Mas sábado, dia 21, vai haver Morangos Silvestres. É um dos grandes filmes do Bergman, no Cinema Animas. Consultem a internet, vejam Ciclo Bergman, Medeia Filmes, pronto, deve dar qualquer coisa.
Faça ok.
Sim. São filmes de cinema. O Bergman era um realizador de cinema. Completamente diferente ver estas coisas no cinema ou ver na televisão, no televisor, no computador, no iPad. Portanto, fiquem atentos, pelo menos aqui em Lisboa. Ciclo Bergman no Animas. Primeira coisa. Depois, esta é uma daquelas histórias que corre muito para quem é curioso, como é o meu caso, que é um pai húngaro que mal as suas filhas nasceram ou quase, meteu na cabeça que haveria de as tornar mestres em xadrez. O tipo chamava-se Polgar. E portanto, elas, em vez de terem infância, infância perdida, e agora pode entrar aqui uma daquelas músicas de piano.
Exato. O nome dele era o quê?
Polgar.
Opponível?
Olha, não sei.
O senhor.
E então as miúdas, as crianças, tiveram aulas de xadrez o dia todo, não tiveram fim de semana, não tiveram Natal, não tiveram aniversário. Pronto, uma autêntica história daquelas da Disney. E a verdade é que uma das filhas, Judith Polgar Se transformou na melhor jogadora da história do xadrez. Jogadora, mulher jogadora, porque parece que o xadrez é uma coisa masculina por alguma razão. Deve ter a ver com a agressividade mais própria dos machos do que das fêmeas. E a Judit Polgár foi tão boa jogadora que chegou a ganhar ao Kasparov, que era o grande campeão do xadrez, considerado o melhor jogador de todos os tempos, ou pelo menos era na década de 90. Este é um documentário baunilha, portanto é um documentário que trata toda a gente bem, porque há um caso muito célebre na história do xadrez, um jogo entre a Judit Polgár e o Garry Kasparov, que ele terá feito batota. Eu não vou spoiler, mas esse tema é abordado e ambos falam pra câmera sobre o caso. Mas como digo, este é um documentário muito baunilha, mas é uma ótima forma de conhecermos melhor a história desta jogadora, do próprio xadrez e da própria dinâmica, se há desportos que são mais adequados a homens ou a mulheres. Mais do que o documentário em si, que acaba por ser uma história com final feliz, eu acho que é uma boa maneira de abrir horizontes para o mundo do xadrez e o mundo do xadrez competitivo ao mais alto nível. Ela foi a única jogadora na história que conseguiu fazer mais de 2700 pontos.
Há uma barreira.
Exato. Uma barreira tosca, mística.
Zé, tu sabes jogar xadrez?
Sei jogar xadrez, mas eu sou aquele tipo que perderia ao fim de quatro jogadas. Ou duas, talvez.
Comigo, por exemplo.
Sei jogar, mas não sou daqueles que fica à noite a jogar contra o computador ou contra um tipo na Bielorrússia.
Contra bielorrusso acho que não vale a pena.
E também um livro da Dom Quixote, "No Limite", de Nate Silver, que é um tipo que era jogador, e acho que talvez ainda seja, jogador profissional de pôquer, mas também é obcecado com estatísticas e com análise de risco, e foi um dos tipos que surpreendentemente conseguiu prever, ou as suas previsões acertaram, nas eleições americanas, quando toda a gente dizia que o Trump ia perder. Ele disse: "Não, o Trump vai ganhar", e ganhou mesmo. Ele tornou-se uma espécie de celebridade. E este livro, "No Limite", que é um livro que saiu agora em Portugal, é uma excelente digressão sobre o mundo do pôquer, das criptomoedas, da inteligência artificial. O Nate Silver divide a humanidade em duas partes: os tipos que arriscam, que são os tipos do river, do rio, os tipos que arriscam como ele, e os tipos que vivem na village, que são os tipos que regulam e fazem leis e são do centro-esquerda. E para ficarmos mais familiarizados com o que vai na cabeça destes americanos que investem tudo em inteligência artificial, estão sempre a comprar empresas, e uns até vão presos, os Elon Musks da vida. Eu gosto deste tipo de livros porque são meio didáticos, meio confessionais.
Ainda têm esperança.
Exatamente. Está cheio de histórias e historietas, e é um bom presente para caso tenham um filho ou um marido, ou uma filha ou uma mulher que seja obcecada com essas coisas do trading e das probabilidades e do "vou ficar rico em quatro meses".
Tem aqui o presente ideal.
Sim.
Muito bem.
"No Limite", de Nate Silver.
Queria começar por vos dizer que vi, finalmente, As Guerreiras do K-pop, filme que está na Netflix e que está nomeado para o Oscar, melhor filme de animação, além de ter, não sei se é uma ou se duas nomeações para canção original.
Acho que tem duas. Ou três.
Pois, talvez. Duas, pelo menos, acho que tem.
Já digo.
Enfim.
Ficaste encantado, não é?
Fiquei. Isso fiquei. Aquilo não dá hipótese, mesmo que muito não queiras, aquilo é tramado.
Tu viste um filme de animação de K-pop, mas por causa das tuas filhas?
Não. Elas já tinham visto.
Vocês já se tinham ido deitar e tu decidiste ficar a ver o filme.
Elas já viram há meses. Eu vi porque ainda não tinha visto, que é um filme nomeado para os Oscars.
Sim, és um intelectual.
Sou um profissional, não é um intelectual, sou um profissional. E queria só partilhar com vocês essa experiência.
Não, só tem uma música.
É só uma? Pronto, então peço desculpa. Mas se calhar é um filme que tem duas.
Não.
Tudo bem. Chega.
Se tudo correr bem, nunca hei de ver esse filme na vida.
Olha, o filme não é mau, mas também não é bom, mas tecnicamente é muito interessante. É isso que eu tenho a dizer, é a minha crítica.
Bruno, já viste?
Ainda não vi.
Fica aqui a minha apreciação. Depois, isto é especialmente dedicado aqui ao Bruno. Foi publicado um livro, ou vai ser publicado agora em março, não sei ao certo, que se chama "After the Flood: Inside Bob Dylan's Memory Palace". Qual é a piada deste livro? É um livro sobre Bob Dylan a partir de 1991.
Que interessante!
Portanto, quando ele regressa à vida.
Deixou Jesus já para trás.
É o princípio daquele percurso que depois o leva até o "Time Out of Mind" e depois a partir daí há uma espécie de renascimento criativo, por um lado, e mediático por outro, porque há umas quantas gerações que: "Espera lá, quem é este tipo Bob Dylan?"
Os anos 80 foram difíceis.
Foram complexos.
Para ele e para muita gente.
E é um livro de um senhor chamado Robert Polito. E depois, queria só dar-vos aqui Conta de dois e-mails que recebemos aqui no nosso popup@observador.pt, como diz o Pedro Boucherie Mendes. O primeiro é de um ouvinte chamado Ricardo Vasconcelos, que escreveu só para apoiar Pedro Boucherie Mendes e para reforçar os comentários dele quando falamos sobre os 100 anos da televisão e sobre a influência da televisão espanhola nas regiões fronteiriças portuguesas. Ele disse que nasceu em 81, em Caminha, portanto, na fronteira com Espanha, com a Galiza.
E ele tem o meu livro sobre os anos 80?
Não sei.
Compra, Ricardo.
Com acesso a dois canais portugueses e sete ou mais espanhóis, e que para ele e para toda a geração dele naquela zona, as referências televisivas e a cultura pop em geral são completamente diferentes da maioria das pessoas da idade dele, que cresceram longe da fronteira espanhola. Ele dá exemplos de desenhos animados, séries TV, filmes, programas, referências humorísticas e também subscreve o exemplo de que alguém falou aqui também, que tinha a ver com o Dragon Ball, e que ele viu muitos anos antes que nós, comuns mortais portugueses, através da TV Galícia.
E ele chama Pitufos aos Smurfs.
E será que viu dublado? É que isso é a grande questão.
Em galego ou em espanhol.
Será que viu Dragon Ball?
Deve ter sido.
Deus do céu.
Não viu o André Maia.
Era o Faisto? Nós tínhamos o Faisto a fazer.
E o André Maia também. Não o nosso ex-André Maia.
Exato. E depois, o Manel Gonçalves fez um pedido. Eu faço aqui o pedido para ele saber também que nós respeitamos e agradecemos os e-mails.
Para não revelarmos a morada.
Não, ele fala sobre filmes e séries que abordem a política. Ele dá vários exemplos, sobre os quais já falamos aqui, e deixa a pergunta que é-
Também conhecidas por séries jornalistas.
Exato. E é uma coisa que o Pedro, isto está muito Pedro, as pessoas ouvem-se, o que é triste. Estou a brincar. Que é por que há tão pouca produção que seja, e ele escreve entre aspas, "parente da realidade", ou seja, e que ilustre um certo dia a dia ou uma realidade específica de um contexto específico, neste caso, o português. Nós também já falamos um bocadinho disso.
Não temos feito outra coisa ao longo destes seis anos.
Também tem a ver com aquela coisa chamada dinheiro.
O dinheiro impede a produção de certas coisas.
Exato. E agora, Bruno Veira Amaral, tu queres começar também por falar não sobre coisas, mas sobre uma pessoa.
Sobre uma pessoa. Eu quero falar sobre o Ruben, o meu vizinho Ruben, que é um grande ouvinte da Rádio Observador e em particular do Popup, e curiosamente também é Pedro Boucherie Mendes.
O que se passa?
Eu começo a ficar preocupado, Maria, eu acho que temos que arrumar.
Nós vamos retirar-nos.
Mas eu acho que o Ruben corresponde aqui a um tipo de ouvinte que nós temos.
Ele já é sportinguista, de certeza.
Ele disse-me: "Não, é benfiquista. Grande benfiquista." Eu não sei se devia dizer isto.
Agora já está.
Olha, Ruben, estás desmascarado, mas é uma coisa importante que ele disse: "Já estive para mandar um e-mail, mas depois achei melhor não." E eu acho que temos muitos ouvintes nesta situação do Ruben. Nem todos são meus vizinhos, mas eu queria incentivar-vos. Mandem, porque é o Tiago que os lê. Elogiem o Pedro, acima de tudo, ele gosta. Nós também ficamos todos contentes, mas percebemos que somos dispensáveis, de alguma forma.
Mas eu estou bem neste meu papel, de alavancar o ego do Pedro.
Façam como o Ruben. Ou não façam como o Ruben, que é: enviem e-mails.
Exato.
Falem conosco. O Tiago está a precisar disso.
Tiago, qual é o e-mail?
popup@observador.pt. E foi feito este-
Intróito.
Intróito, este destaque.
Mas um grande abraço pro Ruben.
Ruben, grande abraço. Agora só por curiosidade. Isto é para ver como as intempéries nos unem. É que nós agora falamos porque temos as arrecadações inundadas.
Não falavam antes de uma coisa.
As arrecadações ficam no topo.
Já em baixo.
Na cave. Pois é.
É nesses momentos adversos que as pessoas se unem. Isto é a cola.
Tem sido dias de trabalho coletivo e em que, entre outras coisas, temos falado sobre a Rádio Observador.
Mas isso quer dizer que nós também salvamos o dia das pessoas.
Eu espero que sim, eu espero que sirva.
É para isso que trabalhamos.
Para salvar a humanidade.
É para isso e para o Pedro.
E para o Pedro. As pessoas concordam com o Pedro.
O Pedro é a cola do tecido social.
E ao contrário do que podem pensar, que o Pedro é um lisboeta, não, o Pedro está atento às temáticas do interior do país, como vimos agora.
É um regionalista, no fundo.
No fundo, ele sabe como corrigir as assimetrias regionais deste país.
E outras.
Mais um bocadinho e ainda o convidam para Maia.
Ora. Luís Montenegro.
Eu daria um ótimo Maia. Meus amigos.
Vamos lançar uma.
Se há coisa que tu és capaz de fazer é administrar internamente.
E com um colete laranja, ó Pedro.
Aquilo não era colete, aquilo era mesmo um casaco.
Era um casaco.
Não sei se usaria, por acaso.
Não?
Usaria da outra cor para me distinguir.
Claro. Não, levavas o loden.
Enfim. E cultura.
Mário Vargas Llosa, como sempre, sempre que é possível, arranjo um pretexto para trazer o Vargas Llosa.
É um lobby.
Não, mas aqui neste caso é um livro que está a ser lançado agora.
É o teu Bad Bunny literário.
É o meu verdadeiro Bad Bunny. Por acaso, eu não sei se o Vargas Llosa chegou a escrever sobre o Bad Bunny, mas é muito provável que ainda tenha escrito. Este é um livro, "O Olhar Imóvel", de Benito Pérez Galdós, sobre Pérez Galdós.
Benito.
Benito. Aí já está. É o Bad Bunny do século XIX. Foi um romancista espanhol muito profícuo. Publicou dezenas de romances e peças de teatro. Foi um dos primeiros escritores espanhóis verdadeiramente profissionais, numa altura em que isso não era muito comum, e escreveu mesmo muito. O Vargas Llosa, por altura da pandemia, com aquele excesso de tempo que uma pessoa tinha na altura, decidiu ler a obra completa do Pérez Galdós e escrever sobre isso. A introdução é muito boa, a conclusão também é boa.
O recheio.
O recheio, vamos lá ver. Aquilo é muito resumo. O Vargas Llosa é um bocadinho abaixo, por exemplo, quer de "A História de Undecídio", quer de "A Orgia Perpétua", dedicada ao Flaubert, porque, no fundo, é um resumo comentado de cada um dos livros.
Notou algum tom de desilusão?
Um bocadinho, é verdade, não vou esconder. Mas agora já o li.
Mas tens a fasquia sempre muito elevada.
Claro. Tem muitos pormenores, muitos detalhes sobre cada um dos livros e o enredo de cada um dos livros, e menos análise. O maior defeito de Pérez Galdós para Mario Vargas Llosa é não ser Flaubert, não escrever como Flaubert e não ter aprendido as lições de Flaubert. Isso eu acho que é um defeito que se pode imputar a 99% dos escritores, mesmo dos contemporâneos de Flaubert, e outros que foram buscar lições erradas. Mas mesmo assim ele é generoso, isso é que eu gosto e gostava de sublinhar. O Mario Vargas Llosa era muito generoso quando escrevia sobre outros.
Pelo menos neste campeonato.
Neste. O resto, não sei. Mas no escrever, do pensar outros escritores, de dedicar atenção a outros escritores, ele sempre foi muito generoso, mesmo com os contemporâneos. Estamos a falar de alguém que já morreu em 1920, mas mesmo com escritores contemporâneos, Vargas Llosa sempre demonstrou uma grande generosidade intelectual de perceber, de divulgar, e eu acho que isso também se vê neste livro. Não fiquei desesperado para ir ler Pérez Galdós. Um ou outro romance despertou-me curiosidade, mas é quase que um trabalho de arqueologia para um escritor que hoje será pouco conhecido internacionalmente e que o Vargas Llosa também explica porquê. Uma das razões será por se ter centrado muito em temas espanhóis e que tiveram pouca ressonância fora de Espanha. A minha segunda sugestão é uma curta-metragem documental que está na HBO, está nomeado para os Oscars, "The Devil Is Busy". É de cerca de meia hora e é sobre o dia a dia numa clínica de abortos na Geórgia. Em 2022, creio, foi alterada a lei.
Geórgia, Estados Unidos ou Geórgia, país?
Geórgia, Estados Unidos. Acho que é mesmo em Atlanta. Foi alterada a lei federal que previa o acesso federal em todos os Estados Unidos, uma lei que era válida para todos os Estados Unidos, deixando a cada um dos estados a responsabilidade de fazer a legislação quanto ao aborto. Isto fez com que o direito ao aborto fosse severamente restringido em alguns estados e as mulheres têm muitas vezes que se dirigir a clínicas noutros estados para fazer a interrupção.
Os badajos.
É, os badajos delas. E isto é uma realidade não só dos Estados Unidos, mas nos Estados Unidos é muito mais, porque todas estas clínicas costumam ter sempre à porta grupos de manifestantes. E umas das personagens deste documentário são precisamente esses manifestantes. Eu agora acabei de traduzir um livro do Percival Everett, que é um autor norte-americano, em que uma das personagens, a irmã do protagonista e do narrador, é uma médica que tem uma destas clínicas. Não vou contar mais, mas este é um dos aspetos deste enredo, deste livro, "Erasure", do Percival Everett, e é algo que está muito presente na discussão política norte-americana, política e social, que é o papel quase que sacrificial e às vezes no sentido literal, que estas clínicas e estas organizações, muitas vezes, prestam à população norte-americana. Estamos a falar, sobretudo, de uma população desfavorecida e não de mulheres com muito acesso, e eles tentam, dentro do possível, facilitar. Há pormenores que são revelados neste documentário. Por exemplo, a pessoa quando chega não tem que preencher uma ficha com o nome, dão-lhe apenas uma espécie de porta-chaves com o número e depois as pessoas são chamadas pelo número. Para evitar estar a ser chamadas pelo nome.
Garante alguma proteção.
Sim, isso já é suficientemente duro e difícil para estas pessoas, mesmo o ambiente quando chegam e ao vir os manifestantes e tal, que vão arder no inferno. Há aqui uma série de pormenores do funcionamento destas clínicas que estão neste filme. O facto de estar nomeado também tem muito que ver com todas as dimensões sociais e políticas que se vivem e que existem nos Estados Unidos. Mas eu achei um documentário bem feito, naquela categoria de documentário curto, está na HBO.
Muito bem, sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhum episódio. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.