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Começa agora mais um Por Pratos Nunca Dantes Navegados, em parceria com o TJornal, aqui na Rádio Observador, sempre com o nosso Manuel Serrão. Bem-vindo, Manuel, mais uma vez.
Eu agradeço muito de estar aqui, porque eu digo agora com a campanha eleitoral em curso que os pratos que ficavam para outras vezes, mas não.
Não deixamos lá cair.
Campanha eleitoral que estrague os nossos pratos, está bem dito.
Até porque quem está em campanha precisa de se alimentar bem. E vai fazer um roteiro por todo o país.
E precisa de boas sugestões.
Eu acho que até é a melhor altura de saber sugestões de restaurantes.
Embora no restaurante de hoje a especialidade não seja propriamente carne assada.
Então vamos lá saber.
Vamos lá. Então é assim, Manuel, este ano acho que ainda não tínhamos voltado ao Porto, muito menos a um restaurante gourmet no Porto. Damos lá a volta. Mas ainda não fomos ao Porto, nem a um restaurante gourmet ou o que quer que isso seja, nada de género.
Ora bem, claro. Mas já que estamos em campanha eleitoral, também acho que ir ao Porto é obrigatório, sempre é o segundo maior círculo.
Ora pois.
E aliás, o Porto é sempre o meu porto de abrigo, de onde venho para aqui ter convosco com muito prazer, claro, mas para onde sempre regresso com prazer redobrado, espero que vá bem.
Um dia temos que fazer ao contrário.
Exato, vamos nós visitar o Manuel.
Não é, pois, de estranhar que lá voltemos amiúde ao Porto, sempre à procura de novidades, que aliás têm nascido muitas nos últimos anos, também graças ao boom turístico que a cidade está a ter. Mas hoje, por acaso, a novidade é um valor seguro, que também hoje funciona como o porto de abrigo de um chef que tem navegado por muitos mares e muitas experiências. Como se diz no site desta Oficina: "Se um bom prato leva tempo..."
É como se chama o restaurante? Oficina?
Exatamente. Oficina. E no site eles dizem que se um bom prato leva tempo a ser preparado, este sonho demorou três décadas a estar no ponto. E eu confirmo que está no ponto, sim senhor.
Três décadas.
Sim, senhor. Então o restaurante que falamos hoje, esta Oficina, é na Rua Miguel Bombarda. É uma rua muito conhecida, também uma artéria muito conhecida por ser uma artéria artística do Porto. Temos aqui algum artista nesta Oficina?
Ora bem, pois claro. A Miguel Bombarda, para quem não conhece, está dentro de um bairro artístico, a Rua das Artes no Porto. Este Oficina era uma antiga garagem mecânica de restauração de automóveis. E agora continua na restauração, mas no tipo de restauração que mais nos interessa. Já não são tanto os automóveis, mas são as comidinhas. A gastronomia e a arte, como diz o nosso chef, Marco Gomes, que é o artista deste Oficina, às vezes parecem primos afastados, mas nesta Oficina são primos direitos, em primeiro grau até. Até na recuperação e na decoração do restaurante se percebe isso, porque de facto é uma recuperação que está fantástica e a decoração artística tem muitos quadros, tem paredes giríssimos. Portanto, é um restaurante que vale a pena visitar para comer, como é evidente, mas também para conhecer o espaço, acho que vale a pena lá ir.
Estou a imaginar uma oficina transformada num restaurante. Por acaso, temos aqui o exemplo dos nossos estúdios, a nossa redação do Observador, aqui em Alfama, também é uma oficina.
Exatamente.
É verdade. Ora, Manuel-
Que também está muito bem recuperada.
É verdade. Manuel, como disseste há pouco, é o chef Marco Gomes, e pelo que sabemos não é um júnior nestas lides da restauração, mas tem um currículo muito diversificado, que fala por ele. E anda por lá mais ou menos um caso que o chef assina a carta e depois não põe lá os pés.
Pois, isso é uma boa questão.
Como assim?
Não é o caso, mas essa é uma boa entrada para uma discussão, que hoje em dia começa a haver muitos restaurantes que dizem: "Restaurante by chef não sei o quê". E depois nós vamos lá ver, o chef nunca lá está, fez a carta, até eventualmente pode ter estado no início a acompanhar a feitura dos primeiros pratos, mas depois desaparece. Eu acho que isso não é grande coisa. Eu percebo, ou melhor, que eles recorram a um chef para subir a qualidade do restaurante ou para ter inovação nos pratos, eu ainda percebo, mas depois que proclamem que aquele restaurante é chef do chef tal ou by chef não sei o quê, por acaso acho que nem chefs deviam deixar. Eu percebo que são receitas que eles também gostam de ter, são os seus restaurantes. Mas não é o caso.
Mas o chef Marco Gomes está lá. Está na oficina.
Não, está lá. Aliás, o chef Marco Gomes é um velho conhecido meu, não digo de há 30 anos, mas muito. Mas também agora não é só velho conhecido meu, é conhecido de quase meio mundo. Meio Portugal, digamos assim, por causa dos petiscos com que ele abrilhanta muitas manhãs da Praça do Alegria, na RTP já há vários anos. Ele nasceu na Alfândega da Fé, é um transmontano que nunca renega as suas origens transmontanas, que aliás vão ver nos pratos, mas é hoje também, mais do que nunca, um defensor de uma gastronomia que combina tradição com modernidade, que é o que eu gosto destes restaurantes gourmet. Quando é só muito modernismo, normalmente é bonito para os olhos, mas depois não é tão bonito para a barriga. No caso do chef Marco Gomes, ele combina tradição com modernidade, eu acho que isso é o que se faz bem. E ele também entende que cozinhar é uma forma de comunicar e partilhar, como acontece com muitos outros artistas. Ele próprio também se considera um artista e eu também acho que neste caso há aqui uma ligação sempre. Ele procura extrair dos produtos autóctones, lá está a sua ligação à terra, a sua máxima expressão, sem esquecer uma apresentação artística, que é como nós aqui dizemos, seduz o olhar de quem vai comer. Costuma-se dizer que não comemos só com os olhos, mas claro que se os olhos também comerem e gostarem, desde que a barriga esteja de acordo com o que os olhos veem, está feito.
Está tudo certo.
Disseste aqui uma frase importante, ou neste caso uma palavra importante, que foi transmontano e influência transmontana nos pratos. Agora fiquei muito curioso, porque também gosto da comida lá de cima. Em termos de carta, o que é que tu nos sugeres?
Pois, eu começo logo por uma entrada obrigatória, que é a alheira tradicional transmontana assada na brasa. Acho que é obrigatório.
Isto sim, já gosto.
Mas para quem não gostar, temos coisas mais diferentes, como carpaccio de curgete e tomate com pinhões, queijo da ilha e manjericão, ou um caramineiro do Algarve com suco da sua cabeça e cuscuz transmontano. Depois, para os interessados nas questões transmontanas, também sugiro um tataki de atum com sementes de sésamo e puré de aipo e legumes. Não é à transmontana, como é evidente. Sabemos que não há propriamente muitos atuns a nadar em Trás-os-Montes. Mas também lombo de bacalhau, cachema com broa no forno a lenha.
Agora é dos pratos favoritos.
Voltando a Trás-os-Montes, temos o cabritinho grelhado na brasa à transmontana e a posta à mirandesa. Depois, para os gulosos aqui da casa que estão a olhar para mim e já a salivar, temos uns sonhos de cenoura e canela e um bolo cremoso de três chocolates. Mas aquilo que o chef Marco Gomes mais recomenda, que por acaso não é a minha praia, mas vou deixar aqui esta informação, é a rabanada do chef que há o ano todo com gelado de caramelo salgado e redução de vinho do Porto.
Está comprado.
Fazemos um programinha, vai um bocadinho dos três.
Dizem-me quem gosta de rabanadas que esta rabanada é imperdível.
Que bom. Não podemos continuar aqui a falar de sobremesas, Manel, não pode ser. Que isto, daqui a bocado, estamos aqui já a salivar.
Senão é mais um programa para ficar de fecho.
Esta oficina tem dois andares. É tudo igual ou podemos também falar de dois andamentos, já que tem dois andares?
Isso é bem perguntado, porque a sala de baixo é que é o verdadeiro espaço da oficina. Espaço muito agradável, como já aqui dissemos, não estamos uns em cima dos outros, que é uma coisa também que eu gosto muito, e temos uma decoração fantástica. Quando olhamos para o prato, gostamos do que vemos, mas quando olhamos à volta, quando não vem a comida, também gostamos do que vemos. E não falo só das pessoas, falo também do espaço do restaurante em si. O andamento do andar de cima, onde também já andei, devo dizer, é mais para grupos que querem estar num espaço mais privado do barulho que os outros clientes fazem. Privarem os clientes desse barulho que fazem os grupos, também acho isso positivo.
Claro.
É como se costuma dizer, win-win, todos ganham. Ganha o grupo que fica à vontade e ganham os outros clientes que não têm que aturar o barulho do grupo, que não são responsáveis por isso. Portanto, eu acho que tem dois andares e dois andamentos. Acho muito bem.
Há bocado disseste que isto fica no bairro artístico do Porto, numa artéria muito viva, a Rua Miguel Bombarda. Tendo em conta isso, estamos a falar de uma zona histórica muito badalada, muitos turistas. Como é de reserva, estacionamento? Se eu for lá, é difícil?
Depois destes pratos, tão cedo, mais eu preciso reservar lá mesa, certeza. Não, estou a brincar. Mas a reserva é sempre aconselhável e ao fim de semana obrigatória. Tem tido muito sucesso, é um restaurante com fama no Porto, e portanto as pessoas gostam muito. Tem tido não só turistas, mas portugueses, e turistas portugueses, como é evidente, também a usar no Porto. Tem tido muita procura. Em relação ao estacionamento, na rua só um milagre ou indo muito cedo, mas tem dois parques de estacionamento perto e portanto também não é por aí que o gato vai às filhoses, por assim dizer.
Então há solução. Manel, vamos fazer continhas e depois também vou perguntar pelo belo do garfo. Nota verde, dá para os três?
Nota verde, dá para os três com alguma contenção. Se quisermos alinhar nas entradas, sem medo, num bom prato, num bom vinho. Num restaurante destes, no meio das artes, com esta nota artística, a nota também não pode ser só verde. A nota artística é verde mais azul, é a combinação do verde com o azul é que dá uma nota artística.
Para ser justo. E o garfito, como é que é?
Este garfo tem que ser claramente um garfo dourado.
Até brilha.
Até brilha o garfo dourado na subcategoria de restaurante que já foi oficina e hoje continua na restauração.
Isto é que é uma categoria gigante. Muito bem. É assim que fechamos este "Por Pratos Nunca Dantes Navegados", em parceria com o "Tejornal" e sempre com o nosso Manel Serrão. Um beijinho e até à próxima, Manel.
Um abraço, Manel.
Obrigado.