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"Porque Sim" não é resposta na Rádio Observador, como sempre, com o psicólogo Eduardo Sá. Eduardo, bem-vindo. Boa tarde.

Olá, boa tarde. Como está?

Boa tarde. Obrigada. Hoje partimos de um e-mail de um ouvinte que diz: "É possível ter uma relação com alguém cuja filha não nos aceita de maneira nenhuma e com a qual não conseguimos criar laço afetivo?" Neste caso, com um homem de 50 anos e uma filha de 14. Eduardo, começo por lhe perguntar se é possível manter uma relação amorosa quando não existe qualquer vínculo com o filho do outro.

Mais ou menos. Vamos lá ver. Quando uma pessoa chega à vida de uma mãe, como é o caso, ela vai ter que passar por um longo período de controle de qualidade. E, nessas circunstâncias, vai estar literalmente à prova. De início, é tudo uma tranquilidade, porque a pessoa que está a chegar faz um esforço sem fim pra ser simpática. Às vezes, varre pra baixo do tapete uma ou outra atitude um bocadinho mais insolente. E, de fato, uma criança de 14 anos nem sequer vai esticar assim tanto essa pessoa, porque pensa: "Bom, é um amigo, ou é um amigo especial, ou provavelmente está de passagem, não veio pra ficar." Até a altura em que tudo se altera, e aquele amigo ou aquela amiga se tornam a companhia preferida dos pais, com tudo o que isso implica. Os nossos filhos são sempre um bocadinho egocêntricos no primeiro momento e, portanto, a reação é: "Mas que diabo, se eu existo-

Não querem partilhar o tempo, não querem partilhar o espaço.

"Já agora, por que a minha mãe ou meu pai iam encontrar outra pessoa?" Isto é razoavelmente normal. Agora, depende da forma como tudo se acaba por gerir. Habitualmente, quando temos um filho de 14 anos que faz uma coisa destas, é muito importante explicarmos a este filho que quando está a ter uma atitude deste gênero com alguém que é muito importante pra nós, está a magoar-nos, acima de tudo, a nós, e aqui, calma, tem que haver alguns limites. O que os pais muitas vezes fazem não é isso. É ficarem meio desamparados, a solicitar compreensão a este novo namorado, se for o caso, e mais, a medir todas as atitudes que ele tem com a filha, como se nas atitudes que ele possa ter, tivesse um controle de qualidade muito apertado, muito no registro de: "Quem? Os meus filhos. Mas a minha boca, a nossa." Como isto se faz, depois, com muitas páginas em branco, a certa altura dá enormes mal-entendidos e leva que quem chega a uma relação se sinta excluído, às vezes não saiba gerir como deve ser tudo isto e coloque na mãe o ônus das coisas que ela tem que fazer, como se partissem só dela. É facílimo criar-se aqui um novelo muito complicado, onde há uma grande paixão e, às vezes, porque há um adolescente que bateu o pé, de repente, essa paixão acaba numa separação.

Pois, e precisamente, Eduardo, até que ponto é que esta rejeição de um filho adolescente deve pesar na decisão de continuar ou não essa relação?

Eu acho que tem que pesar, mas sem precipitações, sempre com este pressuposto, que nunca é suposto, nunca, que quando alguém chega de novo a uma relação entre uma mãe e um filho, ou entre uma mãe e uma filha, de repente, isto se saia fácil. O que acontece em muitas circunstâncias? Quando uma adolescente está a ser, de fato, um bocadinho parva ou um bocadinho insolente, é o namorado da mãe a dizer: "Olha, diz à tua filha pra se portar como deve ser", que é quase meio que um mandado pra ele se inabilitar como figura de referência. Por outro lado, quando esse namorado da mãe se chega à frente e diz: "Minha amiga, vamos lá pôr algumas regras", já temos a mãe na sua versão de leoa, assanhada, a dizer: "Calma, com a minha filha só fala assim quem eu entendo, isto é, eu." É fácil isto escorregar, mas eu também acho que quando se gosta muito de alguém a ponto dessa pessoa vir pra perto de nós e dividirmos essa pessoa com toda a nossa família, também tem que se ter um grau de maturidade suficiente. Não é pra aturar tudo, é bem pelo contrário, é pra não deixar passar nada, nem deixar que as coisas se varram pra baixo do tapete, porque se formos por aí, hoje varre-se pra baixo do tapete e amanhã temos uma bola de neve a separar.

Claro. Mas este adulto que entra na relação deve insistir nesta aproximação ou deve respeitar a distância que é imposta pelo adolescente?

Os adultos têm, por inerência, ser pessoas razoavelmente sensatas. Só porque quero o melhor para a mãe desta rapariga, por que há de aceitar as condições de uma criança de 14 anos? Não faria sequer sentido. Numa circunstância destas, aquilo que me preocupa é que muito depressa se chega a um patamar em que as pessoas se sentem a ter que escolher ou a filha ou a mãe. Isto é que eu acho escorregadio, porque curiosamente os adolescentes que dão mais luta nestas circunstâncias, depois de devidamente conquistados, são aqueles que percebem a vantagem de um padrasto, se for o caso, e acabam até por aprofundar relações com ele, que em algumas circunstâncias nem sequer têm com o próprio pai. Agora perceba-se que quando um namorado está a chegar, claro que uma filha adolescente tem sempre a ideia que aquele não é um namorado, é o vilão oficial da história, que está ali a introduzir um clima de conflito, de lealdade entre uma adolescente, como se uma adolescente ao gostar, nem que seja só um bocadinho do namorado da mãe, estivesse a fazer uma traição de lesa-majestade em relação ao pai. E eu compreendo que num primeiro momento, isto dê uma belíssima confusão. Agora, bem gerida pela mãe, neste caso pelo namorado da mãe, e já agora, se o pai puder dar uma ajuda, tanto melhor, aquilo que parece intransponível, afinal de contas, acaba por ter resolução.

Eduardo, para fechar uma última pergunta, e o Eduardo há pouco tocou neste assunto: faz sentido terminar uma relação nestas circunstâncias?

Eu acho que não faz, porque é batoteiro. Por quê? Porque nós estamos a pôr sobre uma rapariga de 14 anos toda a responsabilidade das dificuldades que nós tivemos a gerir uma situação.

Certo.

É quase como se disséssemos: "Sim, as dificuldades são nossas, mas a culpa é dela." Isto é que é batota, porque ela estar ali a elevar a fasquia, a puxar por nós, uma pessoa entende que nós fiquemos ali no meio campo, meio atarantados, sem sabermos muito bem o que é que havemos de fazer ou não, porque nós estamos a falar objetivamente de uma criança de 14 anos.

É isso, nós não deixamos de ser os adultos.

Era o que faltava.

Eduardo, muito obrigada por esta edição do "Porque Sim, Não é Resposta". Foi mais uma edição que está-

Gostei de falar com você.

Igualmente, já há muito tempo que não tínhamos aqui uma conversa.

É verdade.

Este episódio está disponível em podcast, vai estar disponível em podcast e também em observador.pt. Pode também enviar as suas dúvidas, questões, sugestões também para eduardosá@observador.pt. Eduardo, até à próxima.

Até à próxima.