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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje, à boleia de um e-mail de uma educadora de infância, vamos falar sobre a sexualidade na infância. Olá, Eduardo. Comecemos pelo princípio. O que é, afinal, a sexualidade numa criança de quatro, cinco ou seis anos?
Olá, Judite. Boa tarde. Eu estaria tentado a dizer o que não é. A afirmação que eu vou agora fazer pode ser um pouco polêmica, mas a intenção não é essa. A sacralidade não existe para as crianças, é importante que isso fique claro. E se têm dúvidas disso, nós que somos crescidos, nós que sabemos de onde vêm os bebês, quando tentamos imaginar a sexualidade dos nossos pais, da qual nós resultamos, nós corremos uma cortina e não queremos sequer imaginar. Isto é, o contacto com a sexualidade e nem sequer o fantasiar da sexualidade para as crianças é muito próximo de uma experiência de violência e, portanto, não se coloca dessa maneira. Por outro lado, é claro que as crianças fazem as perguntas óbvias. Quando, de repente, na barriga da mãe aparece um volume maior e lhe dizem que está ali um bebê, a pergunta óbvia de cada criança acutilante é: "E como é que ele lá foi parar?" E os pais, com imensa bondade, costumam dizer o óbvio: "A mãe e o pai gostam muito um do outro e o bebê nasceu." Eu já vi pais fazerem quase explicações naturalistas, dando a entender a uma criança, explicando minuciosamente como é que se fazia, como é que nasciam os bebês. Eu lembro-me, por exemplo, de uma criança muito pequenina que depois de uma explicação dessas, duas semanas depois, sentou os pais com alguma solenidade no sofá da sala e disse-lhes: "Afinal, vocês mentiram." Eles muito desconcertados, como imagina: "Porque os meus colegas disseram-me que afinal os bebês vinham no bico de uma cegonha de Paris." E, portanto, as crianças percebem que os meninos e as meninas têm um aparelho genital diferente. Sexualidade, no sentido literal do termo, elas não entendem, muito menos a escala daquilo que os adultos imaginam que eles percebem.
Há uma fronteira entre a curiosidade, porque há crianças que querem ver o corpo das outras, que se mostram. Isto é o desenvolvimento normal nestas idades?
É rigorosamente o desenvolvimento normal, que não tem propriamente a ver com a sexualidade. Tem a ver com a curiosidade e a perplexidade humanas quando descobrem diferenças e, de alguma forma, se deslumbram, porque afinal o mundo não é todo igual. Em muitos momentos, as crianças percebem que há nuances que são muito particulares quando, por exemplo, a mãe e o pai se despedem com beijo no rosto em relação às crianças e eles entre si se despedem com beijo na boca. E eles percebem que é um território muito exclusivo dos pais e que, portanto, há qualquer coisa de cúmplice, ao mesmo tempo de mais ou menos interdito para as crianças, mas nem sequer elas fantasiam isso em torno da sexualidade. A sexualidade propriamente dita, ao contrário daquilo que se dizia há muitos anos, e nomeadamente naquilo que a certa altura chamaram as teorias da sexualidade infantil, não tem rigorosamente nada a ver com aquilo que nós imaginamos. É uma realidade muito distante daquilo que elas imaginam ou sequer daquilo que de alguma forma é um problema para elas.
Quando um adulto reage com choque a um destes episódios em que a criança, por exemplo, quer ver o corpo da outra, que mensagem é que a criança recebe?
Judite, eu devo lhe dizer que não me choca que os pais, de alguma forma, depois de um duche matinal, possam cruzar-se com uma criança e, portanto, que elas tenham acesso ao nu. Se reparar, elas não ficam tão estranhas ou tão perplexas perante tudo isso, mas evidentemente que quando os pais se confrontam com perguntas, questões que andam de uma forma um bocadinho concreta em torno da sexualidade, isso quer dizer que uma criança foi exposta a situações, muitas vezes de forma acidental, mas todavia exposta a situações que não devia ter presenciado e porque não percebe, até porque algumas são muito adjacentes a alguma violência que ela não entende Isso quer dizer que houve, de facto, uma exposição grave e os pais têm que perceber que contornos é que sucederam pra que ela tenha acesso a perguntas concretas, muito cruas às vezes, mas que são absolutamente excepcionais no crescimento das crianças.
Falemos dos pais, porque essa é também uma das questões deste e-mail que recebemos. Há muitos pais que entram ou em pânico ou em modo de acusação. É o que nos conta esta educadora de infância.
Nas nossas conversas já dissemos muitas vezes que os pais são pessoas fantásticas. São mesmo, mas às vezes são um bocadinho sozinhas e às vezes são muito pais 5G e perdem-se do seu bom senso quando levam a sufrágio muitas opiniões que não têm nem pés nem cabeça. Eu percebo que os pais assustados depois façam isso. Acho que todos nós temos um bocadinho essa experiência. Esticamos facilmente o dedo e acusamos o outro. Mas o que é importante é que percebam que perante determinadas questões, não é pecado que os pais possam não perceber qual é a password e entre dar respostas precipitadas ou de alguma forma dar tempo pra que um dia tu percebas, mais vale dar tempo. Há um truque que eu não me canso de repetir: é que as crianças quando perguntam, têm sempre uma resposta. E nós nunca devemos antecipar as nossas respostas às respostas que ainda não nos deram, elas não nos deram, em relação às perguntas que nos fizeram.
Fica a resposta a esta educadora de infância que precisava aqui de uma ajuda para lidar, sobretudo com os pais e não com as crianças. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço, Dite. Até amanhã.