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Diz-se tantas vezes: "Pensa de cabeça fria", como se fosse um botão que se carregasse. Mas será que conseguimos mesmo desligar emoções e pensar só com lógica? Olá, Eduardo. Hoje falamos desta expressão que se usa tantas vezes. Será que é possível ou a emoção está sempre lá?

Olá, Judite. É uma expressão engraçada, não é? Porque dá a ideia que, afinal de contas, as pessoas que põem algum afeto naquilo que decidem acabam por ser mais suscetíveis de falsificar as coisas que fazem, porque afinal de contas, as emoções parecem andar sempre a toldar a leitura que se realiza em relação a seja o que for e, portanto, a complicar tudo. Eu acho exatamente o contrário. Eu acho que nós dizemos o pensar de cabeça fria por uma razão simples, porque se calhar somos muito convidados a pensar três vezes antes de dizer o que quer que seja e, portanto, se pensarmos três, quatro, cinco, seis, quando damos conta, acabamos por fazer explosões. Claro que as explosões, quando nós as fazemos, nunca são muito bonitas, porque resultam de estarmos a engolir. E depois, de facto, quando as coisas pegam fogo, pegam literalmente fogo. Mas de facto, esta coisa das pessoas pensarem de cabeça fria, de uma forma quase tecnocrática, racional, como se tudo fosse um cálculo matemático, sem mais nada do que isso, não é minimamente verdade. Nós não temos como cortar o acesso a tudo aquilo que sentimos e quando aparentemente o cortamos, fazemo-lo à boleia de um controle que vai muitíssimo para o lado do razoável. E quando fazemos isso, temos o exemplo concreto daquilo que é o pensamento burocrático tradicional, que de início pretendia ser uma forma de trazer o método científico para as decisões humanas e, de repente, há inúmeras vezes em que se aproxima mais da estupidez do que da clarividência, claro.

Não é possível então desligar o botão da emoção e ser-se frio?

Nunca, jamais, em tempo algum. Aliás, a não ser num pormenor, Judite, que é em muitas pessoas que conhecemos, até na nossa família. Às vezes, um dos nossos pais que, perante uma situação catástrofe ou uma situação muito preocupante, enquanto toda a gente fica a fervilhar um bocado e a reagir de uma forma mais efusiva. De facto, há em todas as famílias alguém que parece reagir sempre de cabeça fria.

De forma pragmática, não é?

Sim. A cabeça fria, nessas circunstâncias, só é possível depois de uma pessoa ter sido, ao longo do seu desenvolvimento, evidentemente, exposta uma vez, duas vezes, muitas vezes, a situações duras, difíceis, portanto, exposições a algum sofrimento, que fazem com que, perante uma situação que de perto ou de longe se assemelha àquilo que se viveu, uma pessoa reaja como se tivesse a sua sobrevivência mais uma vez em causa e, portanto, aí parece ter um controle elogiável dos sentimentos, mas fá-lo em modo de sobrevivência, muito mais do que pode parecer. Porque, de facto, a gestão corrente não é essa. A gestão corrente, as pessoas são tanto mais saudáveis quando pegam naquilo que pensam, naquilo que discorrem e naquilo que sentem, tudo ao mesmo tempo. E esse é o lado que eu acho bonito, devo dizer, porque de facto, muitas vezes, quando nós queremos fazer matemática com as nossas decisões, chegamos a um patamar em que percebemos que são as nossas convicções ou aquilo que intuímos que é o correto, que nos leva a tomar uma decisão que às vezes vai em contramão em relação ao racional e não sei quantas vezes são essas decisões que às vezes nos orgulham pela vida fora.

Esta frase dá a entender que não é possível tomar boas decisões de cabeça quente. Isso é verdade?

É publicidade enganosa.

É publicidade enganosa.

Completamente. Valha-me Deus, nós todos já vimos isso nas relações amorosas, não é, Judite? Quando nós temos alguém a fazer contas, todos nós as fazemos de uma forma talvez mais clandestina do que devia ser. Quando nós dizemos assim: "Pronto, esta pessoa é muito boa pessoa, não é um pormenor deitar fora, muito longe disso. É uma pessoa que tem hábitos de trabalho e que tem um plano de carreira e que tem isto e que tem aquilo". E aí nós estamos no cheque por ali abaixo, de uma forma aparentemente racional, a fazer uma escolha e todos nós fazemos este cheque, por mais que às vezes tenhamos dificuldade em assumi-lo, mas a diferença, de facto, é depois o resto. E o resto muitas vezes é aquilo que nós, de uma forma um bocadinho embrulhada, descrevemos como química E a química é isto. É, no fundo, as emoções a fazerem seu trabalho e explicarem por A mais B que, às vezes, as nossas decisões muito racionais, muito calculadas, aparentemente pensadas, depois, a médio prazo, se revelam como um erro de casting de todo o tamanho.

Há pouco falava em estarmos expostos a situações, portanto, sem querer, e sermos expostos a situações que de alguma forma nos moldam ou nos transformam. Mas é possível treinar essa capacidade de tentarmos distanciar daquilo que é a emoção?

É. Os jogadores de alta competição passam a vida a fazer isso. Ou seja, quanto mais são esportes alta competição, evidentemente que antes de entrarem no jogo, a frequência cardíaca não é a mesma, o desassossego não é o mesmo.

Mas a capacidade de concentração permite?

Aumenta a partir do momento em que eles não estão, nem pela primeira, nem pela segunda vez, a conviver com o ambiente pesado. E verdade seja que quando eles têm muita experiência, eles têm a noção de quanto mais pesado, mais desafiador é o ambiente e, portanto, mais os favorece. Mas lá está, é preciso muitas vezes ir a jogo. E ir a jogo nestas circunstâncias significa o quê? Ficar numa tremideira, tomar as decisões erradas, porque às vezes uma pessoa controla-se tanto e quando reage no impulso, nem sempre reage bem. Aprender a ler aquilo que está a sentir e, portanto, as emoções e o calor que tem, porque a partir do momento em que consegue pensar sem andar a fintar o calor humano, é nessas alturas que depois os atletas e todos nós, noutras áreas da vida, acabam por brilhar. Não são aqueles que, no fundo, se relacionam com a vida de uma forma calculada, porque lhes falta a alma. E a alma é aquilo que dá cor a um jogo, como dá cor a tudo o resto que faz parte da vida.

Bom, e aquilo que também faz parte da vida é irmos de fim de semana. E assim vamos e voltaremos na segunda-feira com mais um tema.

Atrás da alma.

Exatamente. Um grande abraço, Eduardo. Obrigada e até segunda.

Eu é que te agradeço, Edite. Até segunda.