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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de relações amorosas durante as férias. Olá, Eduardo. É verdade que as férias funcionam como uma espécie de lupa sobre as relações e mostram coisas que a rotina normalmente esconde?
Olá, Judite. Adeus, Judite. Que pergunta! Vamos lá ver. Eu acho que todos nós não só ouvimos, se calhar até dissemos, em algum momento das nossas vidas, que as férias, e em particular as férias grandes, servem para fazer atualizações nas relações. Há meio duzia de coisas que estão desarrumadas, coisas por conversar, coisas por resolver, e vêm daí as férias e põe-se tudo ali como se não houvesse papéis desarrumados em cima de uma secretária. Eu não acho que seja verdade, Judite. É tão verdade como aquelas pessoas que não namoram durante um ano e depois fazem uma escapadinha amorosa e têm a ideia que numa escapadinha de dois dias se resolve tudo aquilo que se foi acumulando ao longo de um ano. Não é verdade. Pode, quando muito, servir para que duas pessoas digam: "Nós temos andado a chutar para canto mais do que devíamos nesta relação. Se calhar é a altura de começarmos a levá-la com outra seriedade e, já agora, com outra verdade". Mas não vale a pena nós termos a ideia que, de repente, tudo se esclarece. Aliás, muito daquilo que nós observamos é até um bocadinho constrangedor, por muito que sejamos humanos, que são aquelas pessoas que dizem: "Eu tenho uma relação muito constipada, mas estamos em julho, não é? Já agora estamos em cima das férias, até já pagámos as férias, não faz sentido não irmos para elas como se estivesse tudo bem", é o que muitas pessoas fazem. Até porque as férias têm amigos, têm crianças, têm um ritmo próprio das férias e as coisas sérias da nossa vida precisam de tempo. E precisam de uma coisa que eu acho que é fascinante e que nós fazemos pouco, se calhar, que é aquelas conversas de olhos nos olhos, conversas de pessoas adultas, que são capazes de conviver com a verdade sem se magoarem, mas de conviver com a verdade, e que são capazes, depois, de apanhar a bola e retirar as consequências daquelas conversas e crescerem para a relação e crescerem uma para a outra, como era suposto. Agora, não vale a pena nós imaginarmos que as férias nos vão trazer as atualizações indispensáveis a uma relação, porque quando nós vivemos as relações assim, Judite, significa que elas estão adoentadas, digamos assim, e que se calhar precisam de uma conversa, duas conversas, muitas conversas sérias. E duas conversas sérias, ou três, ou quatro, ou 10, ou 20, não são conversas com um a falar e o outro calado. Isto devia ser proibido, porque isto não são conversas, aliás, são monólogos. E uma relação é uma experiência demasiado séria para não aguentar uma conversa. Se não aguenta, então é porque a relação está, mesmo em férias, está muito mais doente do que pode parecer.
Mas esta ideia de que as férias servem para recarregar e de alguma forma ajudam a relação, isso é saudável ou é só adiar um problema?
Não necessariamente, às vezes dá um empurrãozinho. Porque a vida de todos nós é uma vida muito preenchida, muito agitada, agitada demais do que devia, e porque temos tantos compromissos a concorrer uns com os outros, tantas vidas a baralharem-se umas nas outras, que às vezes é mesmo difícil de nós termos o método e a disciplina de dizer: "Calma, que nós precisamos de uma agenda para as coisas mais importantes da nossa vida". E à frente delas todas, eu acho que está uma relação amorosa, sem dúvida nenhuma. Mas nós facilitamos, porque tudo nos exige. E há sempre coisas que são para ontem e nós tentamos corresponder dentro do que está ao nosso alcance. E uma relação é uma coisa muito importante. Eu às vezes pergunto quando as pessoas namoram: é porque namoram que falam ou é porque falam que namoram? Eu acho que é porque falam que namoram. Porque nós precisamos de dizer o que estamos a sentir, o que pensamos, até para fazer atualizações em relação ao ponto de vista sobre isso, sobre aquilo, sobre a política, sobre o mundo, sobre a economia, para percebermos uma vez, duas, três, muitas, nunca são demais, aliás, que aquela pessoa que está ao nosso lado é uma pessoa que nós queremos que esteja ao nosso lado, que merece estar ao nosso lado e que nós percebemos que cada vez que falamos a sério com ela, se torna cada vez mais a pessoa que queremos para nós. E nós falamos pouco, Judite, nós falamos muito pouco. Nós temos o diabo das redes sociais a engolir-nos. Nós passamos a vida a dizer: "Os adolescentes estão quatro horas por dia nas redes sociais", e os adultos quantas horas mais é que estão? E depois temos esta mania de chegar a casa e ligar o televisor, porque o silêncio, que é um patrimônio Preciosíssimo da humanidade parece ser quase claustrofóbico. Nós falamos pouco, Dito. Dantes havia as tertúlias, ia-se tomar café à noite e ficava-se ali uma hora à conversa sobre tudo e nada, mas conversava-se, falava-se. E agora nós somos cada vez mais silenciosos e nós precisamos de falar, porque quando somos capazes de pegar naquilo que é o nosso mundo e o tornar claro para que os outros percebam, nós só ganhamos com isso. É como os professores de matemática, quando explicam a mesma matéria 200 vezes e quando chegam lá, conseguem explicá-la de uma forma tão mais simples que até eles ficam admirados com aquilo que entretanto descobrem, só porque o fazem em função de alguém que os está a escutar. E portanto, se as férias servirem para que as pessoas escutem, bem-ditas férias, Dito. E como conversávamos programas atrás, às vezes é importante chegar às férias e deixar as crianças um bocadinho com os amigos, com os avós, com os tios, e os pais terem a possibilidade de ir jantar a um sítio qualquer para conversar, porque conversar é uma coisa absolutamente indispensável, é a vitamina do crescimento para si, para mim, para todas as relações. E quanto menos as pessoas conversam, mais têm soluções tecnológicas para tudo e para mais alguma coisa, mas vão cultivando uma solidão pequenina, que depois com o tempo nos corrói e nos faz muito mal.
É normal que nas férias uma coisa insignificante ganhe um peso desproporcionado?
Não, o que não é normal é que no resto do tempo essa coisa insignificante não tenha esse peso.
Mas passa despercebida na rotina, não é?
Claro, porque nós somos pessoas mesmo muito sensíveis, somos incríveis na maneira como atentamos nos pormenores. E às vezes, no meio da agitação, há aspetos tão bonitos mesmo, mas tão importantes, tão interpelantes, tão desafiadores ao nosso lado, que nós nem reparamos, que quando chegamos às férias e reparamos num pormenor, isso devia nos levar a parar e perguntar: "Meu Deus, o que andamos a fazer das nossas vidas?" Que de repente parece tudo ser mais importante do que os pormenores, que de facto, quando nós os apanhamos como deve ser, dão sentido, significado à vida e nos ajudam a perceber que o nosso crescimento se faz de pequenas coisas, não de medidas estruturais, como às vezes os governos dizem, porque eu tenho a ideia, quando se fala de medidas estruturais, é como certos filósofos dizem: muda-se tudo para que fique quase tudo na mesma. E portanto, é isso que não pode ser.
Importante é aproveitar bem as férias. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro para si. Até amanhã, Dito.