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Hoje é o Dia Mundial do AVC e, com esse pretexto no ar, falamos com o psicólogo Eduardo Sá sobre o impacto de uma doença destas ou de um enfarte numa família. Eu sou o Paulo Farinha e este é o "Porque Senão É Resposta". Olá, Eduardo.

Olá, Paulo. Prazer em estar consigo.

Olá, Eduardo. Que bom estarmos aqui. Eduardo, quando acontece uma coisa tão traumatizante como um AVC ou um enfarte, não é apenas aquele doente que é afetado, é toda aquela estrutura familiar que fica abalada, não é?

Paulo, é, mas deixe-me antes ir ao doente, se me dá licença, porque eu tenho a ideia, uma ideia vivida de muitos anos no âmbito da clínica médica também, que de uma forma às vezes demasiado simplista, se lida com as pessoas que passam por acidentes vasculares cerebrais e por toda a patologia cardiovascular. Acima de tudo, é a vida que, desculpe-me a expressão, que corre o risco de ser deselegante, mas porventura será clara, é toda a vida que se esborracha em cima da cabeça de uma pessoa e tudo o que eram perspectivas mais ou menos controladas sobre o dia a dia, sobre os sonhos, os projetos, na próxima semana, no próximo fim de semana, no futuro mais alongado, de repente tudo fica muito comprometido. E uma pessoa passa de uma pessoa que tinha uma vida viva, adequada, normal, para, de início, o doente da cama dois e depois para um processo de reabilitação, que é invariavelmente de uma dureza absolutamente fora do lugar e em relação à qual raramente ou quase nunca se fala como se deve. Evidentemente, que num contexto destes, uma família vai de arrastão em relação a tudo isto e fica literalmente em choque, tentando ser solidária, sem saber como é que há de dar um suporte a uma experiência de solidão tão esmagadora como essa. E nessas circunstâncias, é natural que, não tanto porque as pessoas não estejam à altura, mas porque o desafio que está em mãos é absolutamente exorbitante, é natural que um doente que sofre um AVC, sofra o AVC e sofra um conjunto de decepções em relação a pessoas muito significativas, de quem esperava muito mais, sendo certo que depois também acaba por ter algumas surpresas e algumas confirmações que o ajudam a perceber que por mais solitariamente que possa estar, afinal de contas, não está sozinho.

Nós temos no Observador uma secção, o Arterial, dedicada às doenças cerebrocardiovasculares, e temos uma série de reportagens a que chamamos "A Minha Rede", que espelham exatamente isso: a forma como, em torno de um evento duro, como um AVC ou um enfarte, há uma rede de apoio que surge para dar apoio àquelas pessoas. Esta rede de apoio muitas vezes também tem que se confrontar com o fato de o doente sentir, de repente, aquela pessoa passa, como o Eduardo disse, a ser o doente e durante uma série de tempo deixa de ser o António, a Maria, o Joaquim e passa a ser o doente. E depois, durante muito tempo, e se não para sempre, passa a ser dependente. Lidar com a perda da autonomia e ter que precisar de ajuda constantemente das pessoas à nossa volta, nomeadamente os filhos, é um processo-- como é que se ultrapassa uma coisa dessas? Como é que se lida com isso?

Não, não ultrapassa, Paulo. A verdade é que não se ultrapassa. As pessoas que lidam de forma mais saudável com tudo isto, acabam por lhe fazer frente tentando ter de volta a vida que tinham, de uma forma porventura mais sensata e mais esclarecida, mas não se ultrapassa. E o que é mais grave, é que independentemente de todas as competências que estas pessoas têm, elas passam a ser tratadas com uma condescendência, como se a par do acidente vascular cerebral, peço desculpa pelos termos, se tornassem literalmente atrasadas mentais, que é tudo o que elas não merecem. E mais, da parte dos serviços de saúde, são tratadas com uma condescendência tal, como se, no fundo, estas pessoas não tivessem a legitimidade para estar tristes e terem sempre em cima delas, com a melhor das intenções, não está isso sequer em causa, um conjunto de técnicos que não lhe permitem sequer falar do terramoto que isto representa e que, por isso mesmo, a deixam mais sozinha, sem falar da Segurança Social, que é só uma paródia.

É um labirinto terrível mesmo. Eduardo, quando ocorre um evento destes numa família e quando há crianças pequenas, os primeiros tempos são particularmente complicados, porque temos que dar atenção àquelas crianças que precisam de nós, estão dependentes dos pais, mas a nossa cabeça está naturalmente no hospital, está com aquela pessoa que precisa de um grande apoio. É nessa altura que precisamos daqueles avós super-heróis e daquele tio especial que tem tanto jeito para as crianças. E depois, quando voltamos para casa, quando deixamos o marido ou a mulher na cama do hospital Há estratégias para termos cabeça em condições, para termos tempo de qualidade com as crianças?

Eu tenho sempre medo das estratégias, porque as estratégias são fórmulas que pretendem ser simples, fáceis e absolutamente infalíveis, e portanto, é meio caminho andado para nós sermos falsos, que é tudo que as crianças, de facto, não merecem. O que é importante é que essas crianças tenham espaço para poder estar assustadas. O que é muito importante é que tenham quem responda aos medos mais profundos de que elas, por elegância em relação ao pai ou à mãe que não sofreu este acidente, não falam, como por exemplo: será que o pai ou a mãe que ficou doente vai morrer? Será que vai continuar a ser o mesmo pai ou a mesma mãe? Será que vai ser capaz de ter a força e a segurança que sempre tinha, de maneira a que eu me esconda atrás dele para me sentir mais protegido? E este tipo de questões devem-se colocar em cima da mesa por antecipação. Ou seja, não vale a pena nós imaginarmos que as crianças falam disso de forma aberta, falam de forma muito enviesada, falam por perturbações de comportamento, ficam mais inflamáveis, mais respondonas, ficam muito mais desafiadoras, se for preciso.

Ou a alimentação.

Isso é o clássico dos clássicos. Ou às vezes encolhem-se, muito encolhidinhas, como se não existissem, como se dissessem, por outras palavras: "Se eu fizer de conta que não existo, isto fica um bocadinho mais leve para a minha mãe ou para o meu pai". Seja como for, os pais têm que falar disto por antecipação, porque se puserem as legendas às perguntas que as crianças não tiveram a coragem de fazer, mas que estão lá, a bailar nas suas cabeças, isto tudo fica muito mais claro. Não posso dizer que fique mais ameno, mas fica menos assustador.

Desculpe interrompê-lo. E, sobretudo, estar disponível para responder às questões que eles próprios querem fazer? Ou seja, se só faz uma pergunta, só respondemos àquela pergunta ou antecipamos logo a pergunta que vem a seguir?

Não, o que eu acho que é importante é que os pais não fiquem à espera das perguntas, Paulo, porque as crianças são mesmo elegantes nestas circunstâncias e, portanto, sentem que pôr o dedo numa ferida que está a sangrar numa família é, de alguma forma, agravar mais. E, portanto, elas não fazem isso. Agora, é muito importante que os pais ponham o seu nariz magnífico a funcionar e percebam as dúvidas, as grandes questões que as crianças querem ver esclarecidas, que elas nunca vão pôr de forma aberta, mas que se os pais, de forma bondosa e intuitiva, lá forem por ensaio e erro, seguramente o ambiente familiar fica menos pesado e o pai ou a mãe, que entretanto adveiram, quando voltarem para casa, vão perceber que, afinal, não têm só pessoas assustadas, têm pessoas com o coração enorme, capaz de lhe dar o colo que ele precisa.

Obrigado, Eduardo. Foi um gosto falar consigo, como sempre.

Um grande abraço para si.