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Cerca de metade dos portugueses está insatisfeito com a vida sexual. Olá, Eduardo. Boa tarde. Eu olhei pra este estudo, pra este questionário, e já podemos olhar pra ele com mais detalhe, porque ele tem vários dados. Tem mais de 2 mil participantes, portanto, já é uma amostra representativa. Tiveram o cuidado de englobar características e variáveis socioeconômicas da população portuguesa pra ser, de facto, uma amostra em que se possa confiar. E este número parece um número muito alto. Concorda, Eduardo?
Olá, Judite. Eu não concordo.
É sério?
É sério.
Estamos a falar de metade, não acha que é muito?
Não.
Ok. Pronto. Agora justifique, como se diz nos testes.
Depois da linhaça, dizer isto, eu arraso.
Pra quem só está a ouvir este podcast, pra saber mais sobre linhaça, é no podcast Aprender a Comer.
Exatamente. Que foi uma conversa bem simpática, antes de estarmos agora a conversar. Judite, não. Porque em primeiro lugar, eu acho que se há zonas acerca das quais as respostas das pessoas nunca são tão transparentes, por mais que os inquéritos sejam confidenciais, então a sexualidade será, sem dúvida, absolutamente nenhuma, uma delas. As pessoas entendem preservar essa área da sua vida, e muito bem. E muitas vezes refugiar-se atrás de respostas que de alguma forma sejam mais convenientes e que não sejam tão nuas, tão cruas, tão expostas àquilo que de certa forma as magoa. Por outro lado, eu acho que é muito engraçado, porque nós vivemos num tempo onde se calhar se erotizam muitas coisas e onde aparentemente, de uma forma que às vezes vai muitíssimo além do que é razoável, se fala da sexualidade de uma forma muito exibicionista, muito exuberante, de que parece que é uma área da nossa vida muito concertadinha, muito em paz, como se, afinal de contas, todos estivéssemos muito competentes pra viver como mais desejamos. E as coisas não são bem assim. As pessoas falam muito pouco, Judite, falam muito pouco umas com as outras. E, portanto, quando se encontram amorosamente ou quando se encontram sexualmente, eu compreendo que às vezes tenham a esperança de que tudo se resolva sem dar muito lastro às palavras e, portanto, que se entendam intimamente da superfície da pele até o fundo da alma, sem haver aqui muitos "ses" e "mas" e reticências de primeiro. Mas muitas vezes não é assim. E depois, repare, se nós formos ver, a sexualidade acaba por não ser tantas vezes tão espontânea como devia. As pessoas têm vidas duras, muitas vezes pesadas e, portanto, convencionou-se, este convencionou-se entre aspas, que ali ao fim de semana, de alguma forma, é suposto que ela se manifeste. Mas há muitas pessoas, Judite, que vivem a sexualidade de uma forma um bocadinho penosa, como se fosse o imposto de valor acrescentado de uma relação. E, portanto, vivem-na porque entendem que não podem, em algumas circunstâncias, fugir a ela. E eu conheço muitas pessoas que a vivem depois de pedirem auxílio em um jantar mais regado com álcool e outras coisas do gênero, porque às vezes é mesmo penoso. E não quer dizer que estejam a viver ao lado do maior inimigo ou da maior inimiga. Quer dizer, às vezes, simplesmente, que não estão nem sequer por aí apaixonados por aquela pessoa. Têm uma relação de amizade com ela, mas também sentem que lhes falta admiração, desejo, um certo friozinho na barriga, tudo aquilo que faz com que nós, quando tocamos em alguém, de alguma forma nos entreguemos ao seu corpo. E, portanto, não é assim tão linear. Eu acho que a sexualidade é mesmo uma questão de saúde pública e nós devíamos falar seriamente dela, até para limparmos muitos lugares comuns e outras coisas do gênero que se vão construindo e que só contribuem pra que as pessoas imaginem que as suas dificuldades são suas, muito escondidas, quando, se calhar, essas dificuldades são mais transversais às pessoas todas do que pode parecer.
Alguns destes casos reportados prendem-se com problemas sexuais, com problemas físicos, mas há uma grande parte dessa insatisfação que não está relacionada com nada físico. E há outras questões no estudo que vamos falar, porque são relevantes, nomeadamente se pensarmos em políticas públicas que promovam a saúde e os direitos sexuais de todos. Mas olhando pra questão de, primeiro, não serem problemas sexuais Mas essa insatisfação estar ligada a um sofrimento psicológico. É difícil ter indicadores ou alertas?
Ós dites, não.
Ainda bem que percebeu a minha pergunta.
Eu não acho que seja preciso esse tipo de indicadores, porque nós intimamente, nós todos, temos esses indicadores. Mas às vezes é muito constrangedor. Nós queremos muito que tudo corra bem, queremos muito que a pessoa com quem estamos se sinta feliz e de alguma forma que nos ame, só porque somos capazes de amar. E em muitas circunstâncias não é assim. Às vezes nós temos dificuldade de sintonizar dois ritmos que se compatibilizam numa harmonia que no final de contas acaba por ter um clímax mais ou menos simultâneo, o que muitas vezes não é verdade. Nós partimos sempre do pressuposto que quem é feio ama, bonito lhe parece. Os ingleses costumam dizer: "Se for bonito, ajuda." Quando nós olhamos pra pessoa que nós amamos, dá certo que a sintamos bonita, que a vejamos bonita por dentro e por fora, e nem sempre isso acontece. E depois, às vezes basta que um episódio ou outro corra mal pra que depois uma próxima vez, isso seja uma espécie de controle de qualidade que nós colocamos sobre nós próprios e muitas vezes, mesmo que tenhamos uma cumplicidade imensa com aquela pessoa, ficamos ali num embaraço tremendo para podermos falar disto com clareza, até porque temos sempre medo que a outra pessoa reaja mal, se senta sensibilizada, como se nós estivéssemos a dizer: "Não, tu não és a pessoa que imaginas ser na minha vida." E, portanto, sim, estas questões muitas vezes não são físicas, são muito longe de ser físicas. Note que às vezes as questões emocionais, como todos nós convencionamos chamar, se repercutem tantas vezes em questões físicas. Se um homem está cheio de medo de não estar ao nível daquilo que vale, ou uma mulher, a mesma coisa, tudo o que é músculo se contrai, porque está com medo. As probabilidades da sexualidade não correr bem logo a seguir aumentam vertiginosamente. E depois mesmo anatomicamente, que às vezes nós não falamos nisso, mas às vezes, anatomicamente, não somos tão compatíveis uns com os outros como muitas vezes imaginamos. E portanto, há tantos pequenos fenômenos tão importantes dos quais às vezes se fala tão pouco, que quando estes números surgem, numa primeira reação, a sua é igual à minha, de dizer: "Igual!" Mas depois se eu for olhar para todas as pessoas com quem eu vou estando, eu digo: "Não, se calhar não estou tão surpreendido assim, porque isto é tudo mais frequente do que pode parecer."
Eduardo, só deixar uma nota neste estudo que é importante, porque da população LGBT+, 37,7% das pessoas afirmam ter sido discriminadas com base na orientação sexual. Não temos tempo para mais. Quem quiser mais pormenores do estudo, ele está publicado na imprensa. Por nós ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá. Obrigada, Eduardo. Obrigada. Até amanhã. Obrigada.
Um grande abraço e até amanhã.
Abraço.