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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de hiperatividade, de como é possível transformar um filho numa criança hiperativa. Olá, Eduardo. Uma criança nasce hiperativa ou aprende a estar sempre em aceleração?
Olá, Judite. Vamos lá ver. Eu acho que às vezes há por aí um conjunto de tendências do momento que acabam por condicionar muitos pais, referendo tudo isto como se fosse uma epidemia atípica, o que faz com que em Portugal muitas crianças acabem por estar diagnosticadas desta forma. E a mim preocupa-me, porque se nós repararmos, se calhar alguns comportamentos que os pais fazem na sua benevolência como pais, mas que ainda assim dão um contributo significativo pra que as crianças que são tranquilas, quando são minimamente monitorizadas e adequadas com métodos e regras, se tornem um bocadinho hiperativas. Nomeadamente, a primeira coisa que a mim me preocupa é esta ideia de que as mães têm que se adequar sempre ao ritmo dos filhos. Isto é mesmo uma questão de bom senso. Ao longo dos séculos, as mães sempre se adequaram aos ritmos dos filhos. Só adequarem-se aos ritmos dos filhos não significa que, em relação àqueles ritmos, não introduzam regras e rotinas, porque é esta combinação de ritmos, regras e rotinas que fazem com que as crianças não andem numa espécie de colégio militar, tenham aquela vida toda, mas ao mesmo tempo sejam crianças tranquilas. A mim preocupa-me muito porque se criou a ideia de que as mães quase têm que se anular e, de alguma forma, viver, vamos pôr entre aspas, evidentemente, um bocadinho subjugadas a todos os ritmos dos bebês, como se eles não pudessem ser contraditórios. E quando é assim, o que nós temos? Temos mães helicóptero, como às vezes se diz por aí, aquelas mães superdedicadas, superatentas, que estão sempre em cima de uma criança, sempre a avisar, sempre numa voz razoavelmente terna, mas como se compreende, às vezes com uma tensão muito grande dentro delas, e sempre esta ideia de que as crianças não podem estar sozinhas e têm que ter um programa no qual as mães e os pais participem de forma ativa. Isto a mim preocupa-me muito. Segundo aspecto: preocupa-me muito que o "não" pareça ter começado a entrar em vias de extinção e que se tenha criado uma forma verdadeiramente batoteira, Judite, a ideia de que uma mãe ou um pai, quando dizem que não, porque entendem que é não, porque no seu bom senso entendem que é não, e que aquele não é só protetor em relação a uma criança. Este não é sempre um não cheio de reticências, cheio de justificações, que à luz dos olhos dos pais é bondade, à luz do entendimento das crianças é insegurança, o que faz com que elas muito rapidamente entrem pra uma atmosfera que faz com que as mães digam com toda a ternura: "O meu filho não aceita o não, o meu filho não gosta de ser contrariado". Eu rio invariavelmente, porque digo: "Mas quem gosta, meu Deus?" Mas é como se, no fundo, se tenha criado muito mal, devo dizer, a ideia de que o não traumatiza. Isso não é verdade. Terceiro aspecto: as crianças são cada vez menos autônomas, ou seja, elas são mexidas, têm de estar no ponta dos dedos, como todas as crianças saudáveis, mas à medida que crescem, são muito pouco autônomas. E portanto, estas três coisas: os pais a anullarem-se de pautar regras e rotinas. Os pais, às vezes, meios engasgados quando se trata de dizer que não. E esta autonomia das crianças muito enluvalada, faz com que elas pareçam um bocadinho agitadas, um bocadinho elétricas. E vamos já acabar, Judite. Muitas vezes os pais deitam mão à chucha. Eu cada vez mais perco a conta às crianças de quatro e de cinco anos que andam pelos centros comerciais todos de chucha. O fato de estarem permanentemente agarradas a uma chucha sossega-as um bocadinho. Fico muito preocupado porque em muitas circunstâncias elas comem, como se no fundo a alimentação fosse uma maneira de as sossegar. E terceiro, fico muito preocupado, porque a determinada altura, a exaustão é uma forma de elas finalmente se sossegarem, coisa que depois leva a situações limite, como birras e outras coisas do gênero. E, portanto, falo pra si e volto a mim, Judite, é fácil estragarmos um filho. Nunca o fazemos por mal, evidentemente, mas se nós tivermos a noção de que isto é um bocadinho como uma pitada de sal, mais um quanto basta de manteiga e outras coisas de qualquer rotina culinária, não é preciso nada demais pra nós educarmos os nossos filhos de forma que eles sejam crianças vivas, mas ao mesmo tempo crianças Tranquilas. Sossegadas não significa paralisadas. Não, mas tranquilas. E às vezes nós vamos na onda de redes sociais, coaches e coisas do gênero, e quando nos damos conta, estamos atolhados de informação que feita ali a conta, inibe os pais e os leva a ser maus pais contra a sua vontade.
Há um excesso de estímulos que pode criar comportamentos similares à da hiperatividade?
Há, Edite. E tanto há que depois isto funciona um bocadinho como as digestões por fazer. Nós estamos sempre a empanturrá-los de estímulos e eles ainda não digeriram meia dúzia deles. Brincar, nomeadamente, é uma boa forma de fazerem, brincarem sozinhos é uma excelente forma de fazerem. E depois, quando é que eles sossegam? Aí já não é susto, é a alimentação, nem a exaustão, é quando nós os entregamos aos cuidados do ecrã e na verdade, eles ficam agarrados sem nos darmos conta que no fundo eles ficam agarrados, mas não são por inerência tranquilos. Isso é que me assusta.
Claro. O que acontece a uma criança que não aprende a aborrecer-se?
Fica chata, enfadada, porque como imagina, de repente, é como se tudo fosse descartável e ela vivesse numa ânsia de se sossegar momentaneamente com o brinquedo para seguir, passar momentaneamente para outro brinquedo. E portanto, o aborrecimento, isto dela de repente cair em si, perceber que não sabe muito bem o que há de fazer. Muitas vezes os nossos filhos dizem-nos isso: "Bom, e agora o que eu vou fazer?" E quando nós não ficamos nem sequer culpabilizados e lhes abrimos a porta para que eles sejam criativos e inventem as brincadeiras que eles, aliás, são muito bem capazes de inventar. O aborrecimento é a porta de entrada para a criatividade das crianças, e nós, em muitas circunstâncias, não lhes damos essa oportunidade.
Pais ansiosos criam filhos agitados?
Edite, sim, é rigorosamente verdade. E como imagina, estes pais ansiosos são pais que todos nós conhecemos e que são pais preocupadíssimos em informar-se e preocupadíssimos em ser bons pais, mas é como se, no fundo, tivessem uma missão que é de construir crianças felizes, o que eu acho que é uma missão transversal a todos os pais, a toda a humanidade, desde sempre, mas que vivem nesta aflição. E, portanto, às vezes a aflição em que vivem é tão grande que, em vez de serem uma espécie de caixa de velocidades ou uma espécie de airbag para as agitaçõezinhas dos filhos, são uma caixa de ressonância. E, portanto, sim, se há aspetos em que os pais contribuem muito para a agitação dos filhos é, de facto, este registo ansioso que eles colocam nas aulas, nas atividades, no dia a dia, como se as crianças tivessem que ter uma velocidade de cruzeiro, que não corresponde à velocidade típica de uma criança, porque ela precisa de tempo, muito tempo e, já agora, de experimentação para aprender a ser criança.
E estamos a medicar crianças quando devíamos estar a desacelerar famílias.
Isso seguramente, Edite. Isso é outra parte do problema, que é uma parte verdadeiramente preocupante, os números de crianças medicadas em Portugal, desde os diagnósticos de hiperatividade a estarem medicadas com antipsicóticos, antidepressivos, ansiolíticos, são números verdadeiramente assustadores e a mim preocupa-me muito, porque eles são pequeninos, a mãe e o pai vão se constipar, o avô vai morrer, eles vão ter uma desilusão amorosa, querem entrar na universidade e, afinal, por uma décima não conseguiram. Ou seja, eles não desenvolvem uma tolerância à dor e uma tolerância à frustração. Ficam com uma espécie de imunodeficiência adquirida à dor e, portanto, como imagina, ao mínimo episodiozinho de ansiedade, já estão a dizer que têm um ataque de pânico e depois daí cria-se uma bola de neve verdadeiramente imparável.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema e até lá já sabem, escrevam-nos para eduardo.sa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço para si, Edite, e até amanhã.