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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. O Natal junta quem muitas vezes passou o ano inteiro afastado. Altas expectativas, histórias mal resolvidas, muitas emoções. Quando surgem os conflitos, o que está realmente em jogo? Olá, Eduardo.

Olá, Judite. O que está em jogo? Está em jogo um conjunto de oportunidades perdidas ao longo de um ano, às vezes ao longo de uma vida, que ainda é muito pior, entre pessoas que se conhecem bem, que se querem muito e que foram acumulando porcariazinhas. E isso com o tempo já começa a ser pó entranhado. E depois quando se têm de juntar, porque entendem que é uma festa e que têm que estar próximas, etc. Às vezes, basta uma faísca, uma parvoíce sem importância. E aquilo que foram os conflitos que evitaram, às vezes surgem a propósito de coisas sem pés nem cabeça.

Por que parece que os conflitos familiares se intensificam precisamente à mesa do Natal?

Judite, porque nós sentimos que aquela tradição é uma coisa muito importante pra nós.

Queremos que seja perfeita?

Queremos muito que seja perfeita, que implica logísticas muito complicadas, porque sentar todas as pessoas à mesa, de alguma forma recebê-las em casa, mesmo que fique toda gente um bocadinho amontoada, etc. Tudo isso é muito difícil, implica muita excitação, muito estresse. E de repente, quando nós estamos à mesa, percebemos que entre tudo aquilo que nós desejávamos e aquilo que estamos a ter, às vezes há uma avenida larga que separa as coisas de uma forma muito intensa e, portanto, nós somos muito intuitivos, muito sensíveis, tentamos engolir em seco, mas depois há sempre qualquer coisinha que nos torna mais acutilantes e quando damos conta já dissemos e se calhar às vezes não devíamos.

E essa era a minha pergunta a seguir: vale a pena engolir comentários para manter a paz natalícia?

Judite, eu acho que vale a pena no contexto de uma festa. Eu acho que temos que ser todos crescidinhos pra perceber que as festas acentuam divergências, clivagens, a forma como as pessoas devagarinho se vão separando. Eu acho que quando nós percebemos o privilégio que é estarmos todos juntos, temos a obrigação, não no dia a seguir, mas se calhar no mês a seguir, de começar a trabalhar de forma árdua, humilde, mas não é humilhável, para que tudo aquilo que nos separou nos passe a juntar. Eu acho que quando nós temos a humildade de fazer, vamos lá. E às vezes falta-nos sobretudo isso, Judite. Ou às vezes temos vergonha, porque assumimos posições que por omissão não foram muito bonitas e às vezes é difícil reconhecermos tudo isso. Há mesas, Judite, que eu acho um bocado totais. É quase como quem diz: "Se eu me estou a sentir um bocadinho mal, não suporto que os outros estejam próximos uns dos outros numa alegria, numa calhentice, seja no que for". E às vezes, há pessoas assim, que porque estão mal, fazem questão que os outros estejam pelo menos tão mal como elas.

Aqueles que evitam conflitos remoem depois?

Remoem sempre, Judite França. E isso faz muito mal ao estômago, aos intestinos, ao fígado. Não leva a lado nenhum. Pelo menos a lado nenhum bom. Aquela ideia de que há pessoas que fogem aos conflitos porque não são capazes, vale tanto como quando temos um filho que não gosta de matemática, porque cada um é pro que nasce, portanto, não é verdade. Nós todos podemos aprender e aprender com os sobressaltos que a vida nos traz e, portanto, guardar conflitos é fugirnos a entender. Eu tenho sempre esta ideia de que um conflito é, de facto, o trajeto mais simples de duas pessoas diferentes ficarem mais perto uma da outra. E nós temos sempre uma ideia ao contrário, que é um conflito separa, um conflito parte, um conflito estraga. Coisa nenhuma! Pessoas diferentes precisam de conflitos pra ficarem mais perto uma da outra. Os namorados sabem disso muito bem. Trabalham muito os conflitos porque querem muito estar juntos. Portanto, aquilo que faz a diferença é o que nós queremos, não tanto os conflitos que aparecem e que às vezes precisam de aparecer para que nós sejamos capazes de perceber até o que nos separa.

Os pais podem proteger as crianças quando o ambiente fica muito tenso à mesa ou são as crianças que tentam distender o ambiente?

Quantas vezes. E de uma forma, às vezes, muito penalizante pra elas, porque quando elas sentem que o ambiente está a ficar muito aquecido, há sempre duas delas que fazem uma asneirola como deve ser, e está toda a gente numa frente unida quanto ao mau feitio das crianças, quanto elas nesses momentos serviram de bom pais voluntários. Mas sim, os pais têm a obrigação Ter uma voz de comando, uma voz de bom senso e assumir aquilo que muitas vezes as famílias de uma forma muito intuitiva fazem com grande sabedoria, que é: vamos lá esquecer tudo o resto e agora estamos aqui para estar juntos uns com os outros. Portanto, quem estiver de cara feia, está proibido de estar assim, pelo menos nas próximas duas horas.

Relevar pode ser sair mais cedo ou mudar de assunto, é uma estratégia que faz sentido?

É, sobretudo por isto, porque às vezes há pessoas nas nossas famílias que quando são protagonistas, são simpatiquíssimas e quando não o são, são trombudas. E de repente, aquele amuar que elas deixam no ar se pega a todos e às vezes nós contamos até 150 pra fazer de conta que não estamos a entender, mas a nossa vontade é dizer: "Mas por favor, por quê? Está-nos a estragar tudo isso". Nós não temos presença de espírito pra dizer assim: "Olha, vamos ali tomar um café os dois para dissiparmos essas coisas". Se o fizéssemos, se calhar conseguiríamos muito facilmente. E portanto, admito perfeitamente que de vez em quando uma pessoa conta até 150, porque entende que uma festa de Natal não pode ficar manchada por um episódio. E há festas que, em vez de merecerem todo aquele carinho, que foi a construção do momento da festa, ficam marcadas porque uma das pessoas decidiu fazer uma birra e ponto. E essa birra fica guardada pela vida fora, que é uma injustiça tremenda quando nós estamos a comemorar o facto de termos uma aldeia conosco, que gosta de nós e que é o nosso presépio muito privado, muito pessoal. E às vezes há pessoas que fazem questão de ser uma espécie de carvão preto em relação às luzinhas dos outros e isso não pode ser.

Faz algum sentido optar pela ausência? Será ela mais saudável às vezes?

Todos nós sabemos que desde há uns anos para cá, muitas famílias decidem passar, quando podem, claro, decidem passar esta quadra num sítio a apanhar sol, com a desculpa que estão muito cansados, estamos todos. E é tão bom, de repente, no meio do inverno, irmos ali apanhar uma água quentinha e darmos uns mergulhos. Mas cada vez mais há muitas famílias que recorrem a um hotel ou a uma viagem, que é uma forma hábil para fugirem a situações que seriam seguramente muito mais bonitas quando todos podemos estar juntos. Que é aquilo que todos, no fundo, mais queremos.

Claro que sim. Eduardo, um feliz Natal.

Um feliz Natal também pra si. Todos os que nos acompanham.

Sim, sobretudo pra esses, que são também a nossa companhia. Eduardo, um grande abraço e encontramo-nos na sexta-feira. Feliz Natal.

Feliz Natal pra vocês.