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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da dificuldade de criar vínculos emocionais ou de uma forma distante de viver as amizades. Olá, Eduardo. Vamos à boleia de um e-mail de uma ouvinte falar de relações. Por exemplo, quando passamos meses sem contato ou sem sentir saudades dos amigos, isto reflete apenas uma forma autônoma ou distante de estar na vida, ou pode ser sinal de dificuldade em criar laços profundos?
Olá, Judite. Pode também ser uma forma quase infantil de fazermos isto. Ficamos sempre à espera que as pessoas que gostam de nós digam olá, mandem uma mensagem, deem um sinal de vida, nos convidem pra almoçar, o que seja. Mas se calhar, às vezes podemos ser nós a fazer isso, a tomar a dianteira, a ter esse protagonismo, a ir a jogo e a trazer as pessoas importantes mais pra perto de nós. As pessoas são um bocadinho desmazeladas neste tipo de coisas, Judite, e não vale a pena nós passarmos a vida a repetir até à exaustão que temos vidas muito atarefadas. Temos vidas mexidas, claro, mas também não acho que pague imposto de luxo termos de cuidar com as pessoas que são importantes na nossa vida e irmos alimentando as relações de amizade. Eu tenho medo que todos vivamos, uns mais do que outros, naturalmente, as relações de amizade como se fosse um tio da América que nós sabemos que lá está, que se estiver doente nós fazemos questão de mandar uma mensagem ou de falar com ele, mas que no entretanto, sabemos muito pouco da vida dele, o que tem feito, o que não tem feito, se está bem ou mal, como é que estão as crianças, o que seja. Portanto, ficamos neste registro, às vezes muito preguiçoso, às vezes muito egocêntricos, Judite, de vivermos as relações como se, no fundo, quem gosta de nós devesse ter a iniciativa que nós também podemos ter quando as pessoas não deixam de ser importantes pro nosso crescimento.
É natural que as amizades antigas percam, de alguma forma, o viço ou se tornem mais forçadas com o passar dos anos?
Judite, às vezes é, porque a vida nos dá oportunidades de crescimento diferentes e, portanto, não crescemos todos da mesma forma, na mesma direção. Às vezes, porque entretanto, pessoas que foram muito importantes na nossa vida, em determinado momento, conheceram outras pessoas e isso abriu outros caminhos que não têm muito a ver conosco à data de hoje. E, portanto, sim, às vezes afastamo-nos. É verdade que sim. Afastamo-nos porque crescemos em direções diferentes, mas também é verdade, Judite, que há muitas pessoas que, às vezes, os colegas do oitavo ou do nono ano, pra não ir mais longe. Às vezes, com as pessoas que conheceram na faculdade, por exemplo, têm um ritual, um jantar de mulheres ou um jantar de homens, uma vez por mês ou uma vez de vez em quando. E há sempre alguém que toma a iniciativa de organizar um amigo secreto, que parece uma coisa meia adolescente, mas que há, de facto, pessoas crescidas que fazem questão de levar por diante e com isso vão mantendo relações que continuam a ser de amizade. Não são as pessoas mais indispensáveis da sua vida, mas são pessoas que funcionam um bocadinho como estas questões que agora a Mariana estava a conversar com o Nelson. Às vezes não nos dão a proteína. Mas trazem condimentos importantes ao nosso crescimento.
Para existir uma ligação profunda, é essencial partilhar os mesmos valores ou os mesmos gostos?
Não, Judite. Os nossos amigos, às vezes, torcem por um clube completamente diferente. Não precisamos de ouvir a mesma canção e gostar dela. Claro que às vezes dá jeito e nos aproxima, mas não, de todo. A diversidade não é um atentado às relações de amizade, bem pelo contrário. Há, no entanto, como se compreende, um mínimo denominador comum que nós todos entendemos que é indispensável. Serem boas pessoas, serem pessoas com quem nós acabemos por ter coisa a ver, partilharmos com elas períodos importantes da nossa vida, às vezes, períodos assim da nossa vida, e elas terem dado provas que, de facto, eram mesmo nossas amigas e que gostavam de nós, etc.
Pegando neste e-mail desta ouvinte, ela pergunta basicamente o que pode fazer para sentir mais cumplicidade, espontaneidade, até diversão nas suas relações, sem partir do princípio de que há um defeito na sua forma de ser.
Judite, ir a jogo mais vezes.
Mas forçar?
Judite, eu percebo a sua pergunta e a maneira quase delicada como utiliza o forçar Judite, a minha tentação é dizer que sim. Não no sentido de obrigar as pessoas a ter uma relação conosco, mas nós criarmos condições para que hoje possamos ir lanchar com uma e amanhã jantar com três ou quatro. Sim, sem dúvida, porque essas coisas inevitavelmente fazem diferença e é fazermos acontecer, porque senão comportamo-nos um bocadinho como os adolescentes. Ficamos com a sensação de que os nossos amigos não gostam de nós, porque não nos convidam tantas vezes como nós gostaríamos para os programas deles. Claro que eles podem fazê-lo, mas se nós dermos o pontapé de saída e dermos o exemplo, eu acredito sinceramente que a seguir os outros apanham a onda e aquilo que parecia uma relação que se vai afastando devagarinho, não, cria uma agenda própria que nós passamos a preservar. Nós todos temos muitas coisas para fazer e depois chegamos ao fim de semana e queremos ter uma agenda amorosa e tudo mais. Mas também é verdade que no meio de tudo, se nós tivermos este tipo de cuidados com os nossos amigos, aquilo que eles nos trazem é tão importante, que a seguir arranjamos tempo para estar com eles por uma única razão: porque as mais-valias fazem a diferença, Judite. E em vez de estarmos a costurar ressentimentos e a achar que ninguém gosta de nós, tornamo-nos nós o adulto na sala e vamos nós a jogo e lutamos por aquilo que tem sentido para nós.
É uma boa mensagem para terminar. Eduardo, muito obrigada. Já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosar@oobservador.pt. Não me canso de repetir, mas já sabem que estamos sempre disponíveis para pegar nos e-mails dos nossos ouvintes. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço para si, Judite, e até amanhã.