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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje vamos falar de um tema da época: crianças que têm tablets à disposição nos restaurantes no Algarve, ou seja, onde for que passam férias com a família, e aqueles adolescentes que almoçam e jantam a olhar para o telemóvel. Boa tarde, Eduardo, muito obrigado. É ótimo estar aqui de regresso para uma semana consigo para falarmos sobre estes temas. É preciso regras para evitar isso que todos nós vemos, e vemos não só nos outros, mas também nas nossas famílias.

Olá, Bruno. Por mim, conversávamos mais vezes. Mas enfim, vamos aproveitar esta semana. Ó Bruno, às vezes fico sem jeito, às vezes fico incomodado, às vezes fico irritado, por dizer a verdade, porque quando nós estamos num qualquer restaurante de uma praia qualquer, é constrangedor ver as famílias, independentemente do estatuto social, enfim, chamemos-lhe assim, ou de outros tipos de características que tenham. É muito frequente ver os adolescentes o tempo todo a comerem e a dialogarem com um telefone, enquanto que os pais estão num silêncio muitas vezes constrangedores. Mal acabam a correr de comer, debruçam-se sobre a mesa, portanto, deitam-se sobre um braço e ficam fechados, fazem ali uma bolha em que ficam fechados sobre um telemóvel, e se não comunicavam até aí, menos comunicam depois daí. Com as crianças não é muito diferente. Os pais que vão para um jantar de amigos, por hipótese, já vão equipados com tablets e os restaurantes, de uma forma hábil, diga-se, têm os seus tablets à disposição das crianças, o que leva a que os pais tenham jantares muito mais longos, naturalmente, que façam mais despesa, com as crianças com os auscultadores muito centradas naquilo que estão a ver, e às vezes há duas ou três crianças a uma mesa num registo completamente isolado do mundo.

Alheados de tudo o que se está a passar à volta.

De tudo, com esta particularidade. Eu percebo que um jantar de três horas para uma criança seja uma tortura, mas a certa altura, parece-me que há maneiras de criar compromissos entre aquilo que são as agendas dos pais e aquilo que são as necessidades dos filhos. Isso não se passa, e eu tenho medo que nós estejamos, de facto, a ceder em questões que são importantes e a fazer de conta que os custos que isto tem nos nossos filhos só atingem os filhos dos outros. E eu tenho medo que isto seja a escorregadia, claro.

O Eduardo falava de tortura, mas para as outras gerações, para as gerações pré-tablet e pré-smartphones, era uma espécie de formação social. Estes jantares e almoços em que eu tinha de estar lá.

Isso, quero uma opinião, eu também não vejo que venha a dar mal ao mundo. Ou seja, percebo que depois os pais tenham que fazer aquilo que sempre fizeram, que é tentar conciliar os interesses deles, os tempos deles, o mundo dos adultos com o mundo das crianças. Ninguém quer, eu não, de certeza, o Bruno também não, que elas vivam numa espécie de disciplina militar, que só estão autorizadas a respirar quando o pai e a mãe dizem sim, mas isso ensinava-lhes a ter tempos de espera, a ter alguma tolerância à frustração, a educar a paciência. E às vezes isso é uma coisa boa, é uma qualidade, que também se educa, que também se aprende. E nestas circunstâncias, não. E, portanto, criam-se, de facto, bolhas. E eu percebo que no dia a dia, às vezes uma pessoa chega a casa cansada, liga a televisão, deixa-a estar num jogo, porque são 10 minutos, 20 minutos, para que haja silêncio e se respire fundo. Não é por isso que somos maus pais, mas quando não somos a entidade reguladora, está tudo estragado, porque é como se, no fundo, fôssemos pais para tudo e depois há linhas de exceção: A, não temos nada a ver com os tablets; B, e por aí adiante.

O que é que se perde? Para além da questão da disciplina ou da autodisciplina, que deixa de se incutir nos mais jovens, o que é que se perde, por exemplo, na relação familiar, na comunicação?

Olhe, histórias. Começando pelo mais importante, Bruno, histórias, porque são aqueles episódios em que os adultos Falam de forma descontraída deste ou daquele episódio, que aparentemente leva a que imaginem que os miúdos são todos uns distraídos e, portanto, nunca reparam em nada. E 10 ou 15 anos depois, nós vamos buscar essas histórias e à boleia das histórias compomos aquelas personagens dentro de nós, damos-lhe uma vida, participamos nela, e isso é uma coisa muito importante. Esse bocadinho de disciplina também não vejo que esse estrague, pelo contrário. E depois, claro, quando eles são habituados a saber esperar dentro do que é razoável, eu sublinho dentro do que é razoável, eles ficam muito menos impulsivos, porque aquilo que às vezes eu sinto é que há um limiar mínimo entre uma criança querer uma coisa e ter de a ter. E saber esperar também se torna uma virtude, como se dizia há muitos anos. Isto é, desenhar um projeto, convertê-lo num desejo, trabalhar pra ele, esperar até concretizá-lo. E quando é assim, cria-se um método de relação com a vida, que não é um método impulsivo, não é um método agitado, é seguramente mais sensato, mas sem dúvida que tem outros tipos de retornos em relação às crianças e aos adolescentes, e nós não estamos a precaver isso.

Os pais conseguem, quando entregam os tablets e os smartphones aos filhos, algo de imediato, que é: eles estão ali sossegados. Conseguem esse objetivo, que será o objetivo principal, primordial. Eles estão ali sossegados. Mas isto pode não parecer, mas é uma cedência aos filhos, aos mais jovens.

Sim, é uma cedência enorme. Eles estão quietos, calados e atentos. O "atentos", vamos lá pôr aspas nisso, porque esse tipo de atenção tem custos enormes em tudo o resto para o qual a atenção também é dispensável, como por exemplo, para as atividades escolares e outras coisas que têm a ver com a aprendizagem. E, portanto, nesse momento os pais cedem, de facto. Ninguém quer que os pais não estejam à vontade, mas eles têm que perceber que neste tipo de pormenores não é razoável. Desculpe, qual é o mal de um restaurante ter à entrada, com o apoio do jornal e da Rádio Observador, uma recomendação do gênero: a Rádio e Jornal Observador recomendam que durante as refeições não olhe para o telemóvel. Ou seja, obrigar as pessoas a falar umas com as outras não é privá-las da sua autonomia, é criar um ambiente que possa, de algum modo, ajudar a que as pessoas se conheçam, porque assim estamos todos juntos e distantes ao mesmo tempo. Falamos, mas estamos em silêncio e conhecemo-nos e vamos nos tornando cada vez mais desconhecidos. Uau, que sentido tem isto?

Os pais teriam mais facilidade em impor essa regra do que eles próprios seguirem. Porque, como vemos, muitas vezes o exemplo dos pais é o contrário. São eles os primeiros, por vezes, a pegar nos telemóveis e a estar completamente mergulhados no telemóvel.

É verdade, mas depois voltamos à questão da sopa e a outros tipos de questões, como por exemplo, não se pode dizer um palavrão dentro de casa, porque também é verdade, quando nós exigimos e nos sentimos em sufrágio, nós também temos a noção que ao exigir, as nossas exigências, se as considerarmos sensatas, nos vão obrigar a ter outros tipos de comportamentos que antes delas não existiriam. E, portanto, de facto, os pais dão um péssimo exemplo, às vezes. De facto, esta ideia de não podermos estar a jantar e há um telefonema de trabalho, desculpem, é de trabalho, mas desculpem por quê? Ou seja, por que os tempos de uma família não são invioláveis a este tipo de ruído? Mas é o mundo a mudar. Dantes, os pais jantavam na companhia dos seus amigos distantes, deixaram de fazer. Agora jantam, muitos deles, na companhia dos telemóveis, que certamente hão de deixar de fazer. O mundo traz-nos desafios e nós vamos pecando. E depois, à medida que ficamos mais sensatos e clarividentes, vamos crescendo e ficamos pessoas melhores. E o caminho vai ter que ser esse, não há como não ser.

E esperemos que assim seja. Ainda estamos em altura de férias para muitos portugueses. Esperemos que alguns desses comportamentos comecem já a mudar nestas férias.

Sim. Uma recomendação da Rádio Observador.

Fica combinado, Eduardo. Chegamos assim ao fim de mais um "Porque sim, não é resposta". Estamos sempre em podcast nas plataformas habituais e no site observador.pt. Pode enviar-nos as suas questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.

Um grande abraço e até amanhã.