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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje começamos com a premissa: "Ele é muito enérgico, muito intenso". Olá, Eduardo. Quando dizemos que uma criança é muito intensa, é uma forma simpática de falar de um comportamento difícil?
Olá, Judite. Às vezes, é quase uma forma de dizer que tem pilhas Duracell, como as mães dizem, e que, portanto, nunca se cansa.
Tem um botão que não desliga, não é?
Exatamente. Judite, mas é uma maneira de, muitas vezes, se criar uma dúvida entre uma criança que é simplesmente uma criança viva, que está permanentemente a tagarelar, que fala pelos cotovelos, etc., e uma criança que às vezes vai para além dessa vivacidade e é mais agitadota e, portanto, nessas circunstâncias, que levanta algumas preocupações. Agora, verdade seja dita, se as crianças são vivas e sobretudo intensas, eu peço desculpa, mas as mães não lhes ficam atrás.
Pode ser um traço de personalidade apenas ou pode significar algo mais. Como é que se distingue?
Judite, uma coisa é uma criança estar apaixonada pela vida, deslumbrada por tudo aquilo que está ao pé dela, com uma curiosidade que nos enche a alma só de ver. E portanto, tudo isso é uma criança viva. Uma criança viva é, por inerência, uma criança enérgica, não é uma criança parada, nem é uma criança exemplarmente sossegadinha. Portanto, isso são crianças saudáveis, ponto final. Claro que às vezes as escolas baralham um bocado as coisas e ficam mais atentas às crianças saudáveis do que propriamente às crianças que talvez lhes devessem merecer mais reservas e até mais preocupação, que são as crianças muito sossegadinhas, muito certinhas, muito exemplares. Agora, de facto, há uma linha muito simples de dizer que as crianças enérgicas, quando finalmente têm uma atividade que as puxe e as arrebata, elas ficam absolutamente agarradas a essa tarefa, envolvem-se com uma intensidade muito grande, seja um filme de animação, seja um jogo de que gostem, particularmente, ou até escutar uma história. Portanto, aquelas crianças que parecem sempre agitadas, 24 horas por dia, claro que são crianças que nos preocupam um bocadinho, porque às vezes aquela agitação é uma maneira de queimarem uma espécie de nervoso miudinho que parece nunca se resolver. As crianças que tão depressa têm a alma toda como a seguir, estão sossegadas, envolvidas naquilo que lhes toca intensamente. São crianças que não merecem a preocupação, por mais que eu perceba que às vezes numa escola e sobretudo quando têm uma professora simpática de quem gostam, elas acabem por se comportar na escola como se comportam em casa. Eu percebo que isso às vezes na escola dá algum trabalho e cria algum mal-estar, mas se calhar é mais lisonjeante para uma professora do que pode parecer.
Mas há aí uma linha entre uma criança que parece estar sempre ligada à corrente e uma criança que pode exigir mais atenção dos pais. Há alguma coisa que defina essa linha?
Judite, entre a preocupação e a despreocupação, sem dúvida, a forma como ela aceita a autoridade das pessoas de quem gosta. E, portanto, quando uma criança, independentemente de tudo isso, pode não achar graça, quando nós lhe dizemos que não, ou quando a solicitamos para alguma coisa pela qual ela não morra de amor. Mas quando uma criança nos dá ouvidos e aceita, porque percebemos que gostamos dela, porque percebemos que lhe trazemos muitas coisas com que ela pode crescer e aprender, uma criança é só uma criança viva. Quando ela parece estar sempre do contra, claro que essa já é uma criança que nos preocupa, sendo certo, ainda ontem nós conversamos disso, que esta tentação de dizer que tem um síndrome de oposição, parece que é um defeito delas e que não tem rigorosamente nada a ver com a dificuldade dos pais na gestão de tudo isto, sem fazer destas dificuldades nada de mais, porque todos nós, menos os psicólogos, obviamente, nalgumas circunstâncias, sentimos isso, alguma dificuldade em termos mão na situação. Uma coisa é uma dificuldade episódica, outra coisa é quando ela se instala e tudo parece inflamável. E aí, sim, se calhar os pais e os professores precisam de um empurrãozinho para terem controle sobre uma situação que quanto mais ela existir com alguma tranquilidade, mas com alguma firmeza, mais estas crianças vivas, que às vezes são um bocadinho mais elétricas, ficam mais bonitas.
Como é que se educa uma criança assim?
Uma criança com esta alma toda?
Uhum.
Judite, de início educa-se com o amor absolutamente desmedido de mãe, porque o pai não é um dois de copas, mas evidentemente que aquela dedicação inicial de uma mãe faz com que uma criança seja sossegadinha, durma, seja boa de criar, como as mães costumam dizer. E eu quando ouço isso sorrio sempre um bocadinho, porque digo para mim: "Não perca a esperança", porque uma criança dessas sente-se com uma alma tão grande que a partir do momento em que começa a engatinhar, vai por ali adiante de uma forma imparável. E são estas crianças que têm esta alma toda, que são curiosas e sentem que o mundo fora do colo da mãe é um mundo que será tão aconchegado e tão acolhedor como o mundo no colo da mãe. Portanto, um a zero a favor da mãe e já agora a favor da criança e do pai. Mas o que é importante num contexto destes é que nós possamos perceber que uma criança destas é enérgica por natureza. Todas as crianças saudáveis são enérgicas, mas as crianças enérgicas precisam de adultos que de uma forma serena, mas firme, a encaminhem em relação àquilo que ela pode ou pelo menos aquilo que ela deve ou não deve fazer. E, portanto, se calhar a melhor forma de a educar é dar um jeitinho e educar os pais nalgumas dificuldades que, volto a dizer, são transversais a todos os pais. Não é por acaso, Judite, que os pais de primeira viagem, como todos ouvimos, têm sempre mais dificuldades em definir estas balizas, porque não têm experiência, porque têm muito medo de ao fazê-lo perderem o amor de um filho ou comprarem uma guerra durante cinco a 10 minutos. E não é por acaso que depois quando têm um filho mais novo, por mais que um filho mais novo às vezes faça o que os mais velhos não podem fazer nalguns momentos, esta gestão acaba por ser muito mais serena, porque apanharam o jeito. Nós não nascemos equipados com este jeito, mas apanhamo-lo rapidamente. E, portanto, sim, as crianças enérgicas são uma bênção, mas sim, é ótimo que elas sejam enérgicas. É proibido que estejam sempre com nervoso miudinho, desde que acordam até que se deitam.
Até porque uma criança parada é uma criança doente, não é?
Seguramente.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outras vezes, Judite. Temos.