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Olá, Eduardo, boa tarde.

Olá, Eduardo.

Bem-vindo. O Eduardo Sá está conosco sempre de segunda a sexta-feira. Hoje, eu confesso que estava muito ansiosa por falar disso. Temos uma pergunta: será que estamos a roubar a infância às crianças? Às perguntas, não. Às perguntas é isso que queremos. Se nos está a ouvir neste momento, se tem alguma pergunta, é muito simples, basta gravar e enviar para o número do WhatsApp d'O Observador. O número é o 917 698 051.

Basta gravar uma pergunta carregando na tecla do microfone e enviar, que nós passamos depois aqui a pergunta para o Eduardo.

Exatamente. Eduardo, vamos a isto: estamos ou não a roubar a infância às nossas crianças?

Eu ainda estava a pensar se estamos a roubar as perguntas, porque as coisas às vezes são tão confluentes. Estamos.

Andamos a preenchê-los com as nossas expectativas.

Filipa, eu acho que nós andamos com esta ideia, que as mães, de uma forma sábia, formulam muito bem quando cada vez mais querem que as crianças entrem na escola aos sete. Estamos cada vez mais a alimentar uma ideia, de uma forma silenciosa, mas muito escorregadia, muito perigosa, portanto, de que a infância acaba aos seis, com a entrada na escola. E se nós formos continuando a ir por aí, nós, de facto, estamos a roubar a infância às crianças. Nunca se falou tanto das crianças, nunca se deu tanta importância às crianças. Porventura, nunca se deu até importância demais nalguns aspectos. E depois, chegada a hora da verdade, entramos todos numa espécie de greve de zelo e seja o que Deus quiser.

Isso é um paradoxo. Quer dizer, tentamos proteger as crianças o mais possível, toda a gente discute a educação ou a pedagogia.

Sim, cada vez mais.

E depois os miúdos têm uma agenda mais preenchida que a dos adultos.

Ricardo, eu acho que era a altura de nós assumirmos que é urgente haver um sindicato das crianças.

O Eduardo Sá quer ser presidente do sindicato.

Não, nós criámos um há muitos anos.

Mas podem ajudar a criar.

Nós criámos um há muitos anos, Isabel, Mari, etc.

É verdade.

Mas muitas das crianças que todos nós conhecemos trabalham das oito às oito, todos os dias. E portanto, trabalham muito mais de 40 horas por semana. Muitas trabalham 60 horas por semana e às vezes chegam ao fim de semana e ainda têm mais um bocadinho para trabalhar. E era importante que todos assumíssemos que, por exemplo, nestes últimos 20 anos, as crianças perderam muitas horas de brincar semanal. Muitas horas mesmo. E isto está a entrar numa espécie de normalidade tão inquietante, que é muito estranho. É quase esquisito como os pais, por um lado, estão tão preocupados, como dizia o Ricardo, com a infância dos filhos e ao mesmo tempo parecem estar numa greve de zelo que não vai levar a sítios muito bons, seguramente.

Porque até mesmo nessas brincadeiras, tornamo-nos mais exigentes com elas também. Queremos que eles não façam certas coisas. "Não te sujes!" E, portanto, no fundo, estamos aqui a restringi-los a uma bolha.

Estamos numa bolha e depois entramos num êxodo, porque é uma bolha em que eles não brincam com o corpo, não brincam na rua, muitas vezes não brincam, por si mesmos.

Não brincam com outros miúdos.

Não brincam na escola, que ainda é pior. E portanto, estão sempre quietos e calados, sossegadinhos e sempre conosco a dizer. Eles têm, todavia, que estar atentos, por mais que nós passemos a vida a atropelar a infância.

Isso é uma deixa perfeita para ouvirmos aqui uma pergunta que nos enviou o Rui Santos, utilizando o WhatsApp. Qual é o número do WhatsApp?

É o 917 698 051. Vamos ouvir então a pergunta do Rui Santos.

Eu sinto que hoje se exige que os miúdos vivam numa bolha de perfeição. Se eu não exigir o mesmo aos meus, vou estar a torná-los menos capazes.

Não, Rui. Pelo contrário, o que é mais desconcertante é que se não exigir o mesmo aos seus, está a tornar-se um pai com vistas largas, que é uma coisa que o seu filho ou os seus filhos vão agradecer por toda a vida. O estranho é mesmo isso. É quando nós não entramos nesta onda, parecemos assim como os velhotes dos marretas, mas, no fundo, estamos na crista da onda e estamos a ir contra esta tendência um bocado pateta, porque nos vai engolindo a todos e nós deixamos, claro, não pode ser.

Mas ir contra a maré também é complicado e também causa ansiedade nesta perspetiva. Bom, eu agora decido que os meus miúdos saem da escola e vão brincar para o jardim. No fim de semana, vai tudo correr para Monsanto, que é um parque aqui perto de Lisboa. Mas tenho a festa de anos do Zézinho, e do Luizinho, e do Huguinho, só para dar aqui três exemplos conhecidos de todos, e tenho de ir à natação, e tenho que ir ao futebol. Como é que o pai descalça esta bota, Eduardo?

Assumindo que aquilo que os pais têm que fazer todos os dias é escolhas. E as escolhas que os pais têm que fazer não são politicamente corretas, socialmente corretas. Tomando em consideração o aniversário do Luiguinho, de Zezinho e do Luizinho, porventura o padre Donald ia ficar zangado, mas provavelmente alguns dos pais dos nossos filhos vão ficar melindrados, às vezes, vão ficar com algumas reticências em relação a nós, mas o que conta são as nossas convicções. E não se trata de sermos fundamentalistas nas convicções, porque isso nem sequer são convicções. Mas as convicções são escolhas que vêm de dentro e os pais ficam num dilema, como todos os pais saudáveis: faço bem ou faço mal? Tenho medo de não estar a fazer de forma correta, mas no final, deixo-me ir pro meu sexto sentido. E quando os pais fazem isso, fazem escolhas muito razoáveis. Por isso é que o Rui, se for por onde está a propor-se ir, os filhos, no imediato, não vão fazer tantas habilidades como as dos outros amigos deles, porventura, mas no longo prazo, claro, porque nós não nos damos conta de um pormenor. As crianças que não vivem a infância crescem, às vezes têm notas inacreditáveis, mas crescem deprimidas.

E acabam por ficar frustradas também. Mas num plano mais prático, seria importante criar um género de horário de brincadeira?

Não, no plano mais prático, sim, claro. Vamos cá.

Das 17h às 19h, ninguém pensa em trabalhos de casa, em nada disso.

Olha, não pode ser das 17h às 20h.

Não, e houve rádio escondido. Brincam com o rádio escondido.

Desculpa, mas agora falando muito sério, para nós fazermos as coisas com sensatez, mas também dando instrumentos aos pais pra fazerem as coisas que eles têm que fazer, era muito importante que nós assumíssemos que as crianças precisam de ter pelo menos duas horas de brincar por dia. Duas horas para respirarem, duas horas para fazerem aquilo que as crianças fazem, porque eu acho que às vezes os pais imaginam que o brincar é mesmo o contrário de trabalhar e não é. É uma espécie de nível superior em que as crianças pegam em tudo que aprenderam, misturam muito bem, formulam problemas, imaginam as várias hipóteses que têm para se confrontar com os problemas que formularam, resolvem-nas, aprendem a ser autônomos, expeditos, engenhosos, malandros, tudo aquilo que a vida nos dá. E, portanto, sim, todos os dias, seja das 17h às 19h ou das 17h às 20h, se preferirem, as crianças ganham se brincarem pelo menos duas horas por dia, todos os dias. O resto da agenda das crianças devia ser feita em cima disto e não ao contrário, porque nós fazemos tudo ao contrário. Deixamos o brincar para as frestas das agendas. E as agendas não se fazem assim. O que é mais importante pro crescimento de uma criança: a escola ou brincar? Ainda bem que não estamos no ar. O brincar, claro, porque é isso que vai fazer com que eles fiquem com aparelho digestivo, porque depois toda a informação que lá se coloca, quando se tem um aparelho digestivo como se deve, quando se tem escola devida, então nem se fala, as crianças têm outro comprimento de onda.

E os trabalhos de casa?

Os trabalhos de casa são uma invenção infeliz que os pais e as escolas em má hora decidiram reabilitar, porque uma coisa era quando os trabalhos de casa existiam. Eu serei o mais velho deste estúdio, é uma coisa que até me custa dizer.

Eu não vou contrariar.

Eu já fiz esse papel tantas vezes.

Eu vou manter caladinha.

Sim, pronto. Mas faz de conta que sou o mais velho. Quando nós tínhamos aulas só de manhã, fazer meia hora de trabalhos de casa não constipava ninguém. Quando as crianças chegam em casa às 20h, pergunte-me eu qual é a mais-valia de um trabalho de casa. É absolutamente nenhuma. É uma formalidade que faz com que as escolas fiquem sossegadas porque dão trabalho às crianças, os pais barafustam com as escolas sem nunca barafustar com elas e a seguir é tudo feito em cima do joelho, entre o banho e o jantar. O que se ganha com isso? As crianças aprendem alguma coisa que não aprendem na escola?

As crianças já estão em fase de exaustão, não é?

Não, e portanto, sim, nós devíamos fazer uma cruzada contra os trabalhos de casa insensatos.

E além da brincadeira, também se perde a relação com o pai, com a mãe, com os irmãos, não é?

Perde-se tudo. Muitas crianças vivem com 15 minutos de amor de pai e de amor de mãe antes de adormecerem, que é aquele bocadinho em que se conta uma história ou se fala de tudo ou de nada. As mães, como são muito habilidosas, já aprenderam a usar o tempo do banho pras conversas sérias. Neste momento, as mães dizem: "Quando é que eles têm as conversas mais sérias? Durante o banho." As crianças resignaram-se, não têm outras alternativas.

E que consequências é que isso pode trazer no futuro, Eduardo?

As crianças crescerem sem conhecerem a mãe e o pai, e os pais muito mais grave, muito mais catastrófico.

Que pais é que vão ser essas crianças?

Meu Deus, pais com muitas páginas em branco, que é aquilo que não podem ser. Porque o que é mais grave é que depois os pais também não conhecem os filhos. Isso é tão assustador, que às vezes têm uma ideia dos filhos que não coincide com aquilo que eles são. Os adolescentes, quando chega a altura de porem os pontos nos Is, deixam isso muito claro. Mas de fato, nós não nos damos tempo, porque não é o tempo das crianças. Somos nós próprios que também não nos damos tempo para sermos pais e para usufruirmos da relação com os nossos filhos. O resultado é sermos estranhos uns para os outros e todavia vivermos todos juntos.

Estamos à conversa com o Eduardo Sá, é sempre assim de segunda a sexta-feira no nosso "Porque Sim Não É Resposta" e pode e deve participar. O nosso número de telefone está disponível pra enviar a sua pergunta áudio: 917 698 051. Hoje estamos aqui a lançar uma pergunta, no fundo, se estamos a roubar a infância às nossas crianças. E esta pergunta, Eduardo, chegou-nos agora. Inês Fonseca, esta é daquelas difíceis, vamos ouvir. Eu queria perguntar ao psicólogo Eduardo Sá se é proibido errar Se é proibido errar.

Faltou o errar.

Faltou ali o errar. Se é proibido errar.

Inês, não está muito claro se a questão tem a ver com os pais ou com os filhos, mas considerando os pais e os filhos, é obrigatório. E se for esse o caso, Inês, não fique muito zangada comigo, eu continuo a achar que os pais que não erram uma vez de oito em oito horas ainda não são bons pais. Por uma razão simples, Inês, sabe por quê? Porque ainda não se aventuraram de uma forma tão sem coordenadas como deviam, a ponto de aprenderem por ensaio e erro, e os pais precisam de o fazer. Quanto mais o fizerem, melhores pais se tornam. E portanto, sim, é obrigatório errar, errar muitas vezes, porque é quando se erra muitas vezes que nos tornamos sábios. É isso que nós estamos a roubar os nossos filhos quando nós lhes damos tempo para serem crianças. Não estamos a permitir que eles errem e aprendam com todos os erros. Estamos a impedir que sejam sábios e estamos a ficar muito contentes por serem sabichões ou sabidos, que é uma categoria muito abaixo daquela.

E é importante esfolar os joelhos.

E sujarem-se.

Aprenderem a levantar-se quando caem.

Sim, terem bolas vermelhas, que também são em função da situação.

Há no comportamento na escola, não é?

Sim, claro. De vez em quando, bolas vermelhas, porque as crianças sempre certinhas, são crianças prividades, tristonhas.

Um dia mais tarde isso se paga.

Se paga, minha amiga. Não está bem a ver. É bom que as crianças partam a loiça e andem à bulha, que era uma coisa que nós devíamos reabilitar, e se insultem quando são mais crescidas, sem os pais saberem, evidentemente, para que depois aprendam a agredir com lealdade e com maneiras, que é uma coisa que muitos políticos neste país ainda nem sequer aprenderam a fazer.

Mas os miúdos hoje em dia perderam isso?

Perderam.

É que nós ouvimos histórias de extrema violência, às vezes, que envolvem crianças.

Ricardo, porque nós passamos a vida a criar uma panela de pressão à volta deles. Estão fechados permanentemente em casa, estão fechados permanentemente na escola. A escola também não dá tempo às crianças para serem crianças. E portanto, quando as crianças finalmente têm cinco minutos, que é uma coisa que não devia ser possível acontecer entre aulas muito grandes, mal se abre uma porta, ficam tão descoordenadas que quando se dá conta, elas que nunca aprenderam a agredir, é isso que faz a diferença, são crianças violentas. As crianças que aprendem a agredir são tudo menos violentas. E portanto, quanto mais as crianças não partem um prato, mais violentas se tornam.

Porque isso foi uma coisa que se foi enraizando, isso não era assim. Houve aqui um ponto de viragem em que todos nós nos tornamos ultraexigentes. A sociedade é isto, não é? Esta velocidade toda que nós andamos no dia a dia.

Mais ou menos. A sociedade nunca se preocupou com as crianças, ponto final. Não se preocupou antes, não se preocupa agora. As crianças não votam. É uma pena, porque elas são de uma sensibilidade e de uma intuição tão grande que se votassem, muito boa gente ia ter outro tipo de consideração em relação a elas. Mas não, nós nunca demos atenção às crianças como devíamos. Um dia, um destes dias, se quiserem, vamos poder conversar acerca desta exigência um pouquinho exagerada que os pais põem na escola dos filhos, porque de repente faz com que eles sejam tecnocratas de mochila e não sejam só crianças. As crianças são muito boas alunas nalgumas coisas e às vezes têm uma química particular que faz com que embirrem. É química! Embirrem com a matemática só porque sim. As crianças saudáveis são assim, não são marronas. As crianças, porque são inteligentes, nunca são marronas, são intuitivas, safam as notas como as crianças saudáveis fazem e quando os pais não convivem com isso, esquecem-se que têm crianças lá em casa e o Rui e a Inês vão no caminho certo. Pois claro.

"Porque sim não é resposta" de segunda a sexta-feira. O Eduardo Sá está conosco. Temos encontro no mercado amanhã, quarta-feira. Eduardo, obrigada.

Obrigado.

Até amanhã.

E até amanhã.

Olhando para o nosso relógio, são 17h30. Ricardo Conceição, quais são as notícias em destaque a esta hora?

O antigo líder da Juve Leo vai ser libertado. A defesa alega que Fernando Mendes sofre de doença oncológica grave e vai começar os tratamentos. Fernando Mendes estava em prisão preventiva há praticamente um ano, no âmbito do processo de ataque à Academia de Alcochete do Sporting. Este processo está, nessa altura, na fase de instrução. São 17 os arguidos presentes hoje no campus da Justiça. O advogado de Bruno Carvalho diz que vai fazer queixa disciplinar da procuradora Cândida Vilar por estar a questionar diretamente os arguidos. Hoje arrancou a instrução. A Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Europeia foi retomada em Bruxelas. Os líderes europeus estão reunidos para tentar desbloquear as nomeações para altos cargos na União Europeia. O encontro tinha sido ontem suspenso, deveria ter sido retomado esta manhã, às 10h, em Lisboa, mas só foi retomado há cerca de hora e meia. Os 28 líderes europeus vão decidir, por exemplo, quem fica à frente da Comissão Europeia. O subsídio pago pelo Estado aos habitantes dos Açores e da Madeira que viajam para o continente atingiu um custo muito elevado. Na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas, o ministro dos Transportes e Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, anuncia que o Governo está a analisar suspeitas de fraude nestes subsídios. O Partido Socialista acusa João Berardo de tentar uma manobra de diversão. É a reação à carta conhecida na última noite, em que o empresário madeirense diz que é vítima de um verdadeiro julgamento popular. O PSD também acusa Berardo de falta de bom senso neste caso. As angariações para o bebê Matilde já chegaram aos €2 milhões. Era esta a meta da campanha de angariação de fundos lançada pelos pais desta criança de dois meses, a quem foi diagnosticada uma doença rara e que precisa do medicamento mais caro do mundo. O tenista Dominic Thiem foi eliminado na primeira ronda do torneio de Wimbledon. O austríaco, que perdeu a final de Roland-Garros para Nadal, já está fora do torneio de Wimbledon. Frente ao norte-americano Sam Querrey, Thiem não venceu um único set. Daqui a pouco, quando faltar um quarto para as 18h, já daqui a sensivelmente 10 minutos, entra em campo o português João Sousa, vai enfrentar o britânico Paul Jubb.

As notícias com o Ricardo Conceição. Temos uma nova edição quando faltarem 15 minutos pras 18h. Está com a tarde em direto, está com a Rádio Observador. Deixe-se ficar. Eu sou a Ana Filipa Rosa, com o Ricardo. Vamos fazer-lhe companhia até às 20h. E pra já, vamos saber como estará o tempo amanhã, quarta-feira. Parece que vamos ter tempo nublado em todo o país. As temperaturas essas também vão descer ligeiramente. Amanhã, Porto e Faro chegam aos 24 graus de máxima e Lisboa aos 27. E já a seguir falamos de ciência. Já ouviu falar de 'Oumuamua? É difícil dizer este nome, mas foi o primeiro corpo celeste vindo do espaço interestelar a visitar o nosso sistema solar. Parece um charuto, foi descoberto em 2017 e desde aí a comunidade científica estava dividida. Alguns cientistas achavam que se tratava de um asteroide ou de um cometa de origem natural, enquanto outros acreditavam que a sua origem era artificial e alienígena. Agora, a Universidade de Maryland vem explicar que é de origem natural. Mas afinal, o que é este 'Oumuamua? Vamos estar à conversa com o Nuno Peixinho, astrónomo, pra nos explicar tudo sobre o assunto. Uma conversa a não perder. Já seguimos.

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Está na hora, vamos a isto falar de ciência no Observador, porque em outubro de 2017 os astrónomos descobriram então o primeiro objeto interestelar conhecido a visitar o nosso sistema solar. Deram-lhe este nome muito fácil dizer, 'Oumuamua. Era um objeto difícil de descrever também, tendo ao mesmo tempo características de um cometa e de um asteroide.

A designação era uma espécie de charuto, não é? Charuto espacial. E um dos primeiros relatos das estranhas características deste 'Oumuamua levaram alguns a especular que este objeto poderia ser uma nave extraterrestre, mas lá se fizeram as análises ao objeto à distância e numa investigação liderada pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, sugere-se aqui que este objeto tem uma origem natural. Temos conosco o Nuno Peixinho, astrónomo, investigador do Observatório Geofísico e Astronômico da Universidade de Coimbra. Nuno, afinal de contas, que charuto é este?

Ora, boa tarde. Do meu ponto de vista, felizmente, o 'Oumuamua parece que se conclui que não pode ser uma nave alienígena, confirmando-se aquilo que sempre se acreditou desde o princípio, que era um asteroide vindo de fora do nosso sistema solar. A primeira vez que tal foi verificado, embora tenha havido outros candidatos, mas essa foi a primeira vez que se verificou que, de facto, entrou no nosso sistema solar um asteroide vindo algures de outro ponto da nossa galáxia e conseguimos vê-lo.

Nuno, repita-me só o nome. O nome é difícil de fixar.

'Oumuamua.

'Oumuamua. E disse-nos que é um asteroide, mas qual é a diferença entre um asteroide e um cometa?

Entrarei nesse detalhe então. A diferença entre um asteroide e um cometa, por acaso, hoje em dia já não é muito clara. Nós estamos habituados a pensar o cometa como uma bola de gelo com poeira, que quando está longe do Sol, está tudo congelado e, portanto, a gente vê aquilo como um pontinho que reflete a luz do Sol. Mas quando se aproxima do Sol, aquece e então os gelos evaporam e ao evaporarem os gelos, libertam imensa poeira também. E, na verdade, a cauda muito bonita que nós vemos dos cometas quando passam perto do Sol, aquela cauda branca comprida, não são os gases, são, na verdade, todas as poeiras a refletirem a luz do Sol.

Portanto, a cauda é poeira que sai daquele-

A cauda branca que nós vemos, na verdade, é poeira. Às vezes, se estivermos fora das cidades, consegue-se ver os cometas terem, de facto, uma cauda maior, branca e curva, e há uma segunda cauda azulada, mais direitinha, que dentro da cidade nós nunca conseguimos ver porque há demasiado brilho das luzes da rua. E essa segunda cauda azulada já é uma cauda de gases. Ora, o asteroide, como é essencialmente rocha, não tendo gelos ou quase, não tendo quase nenhuns gelos, não vai fazer essas caudas porque não evapora e não liberta as poeiras.

Portanto, não tem cauda. Nuno Peixinho, e como é que se chegou à conclusão de que este objeto era um objeto natural?

Pela velocidade que ele tinha na órbita, quando se viu que ele estava a passar perto do Sol, ele já estava mais perto do Sol do que o planeta Mercúrio está perto do Sol. E percebeu-se pela velocidade que ele tinha, que ele, de facto Não podia ser um objeto do nosso sistema solar, tinha uma velocidade demasiado alta para isso, portanto ele tinha de ter vindo de fora. Ora, ele agora neste momento já passou a órbita de Saturno, que já se está a afastar e surgiu um problema: apercebemo-nos que ele acelerava ao ter passado perto do Sol. Ora, é conhecido que os cometas fazem isso precisamente porque os gases evaporam, lançam as poeiras e isso tudo faz jatos e funciona como um pequeno foguete. E então o cometa, quando passa perto do Sol, acelera precisamente por estar a perder gases em jato e aquilo faz como se fosse um pequeno foguete. No entanto, o 'Oumuamua nunca se detectou evaporação nenhuma de coisa alguma, parecia ser um bloco rochoso sem qualquer gelo que evaporasse, que se visse. E no entanto verificou-se que ele tinha acelerado. Daí surgiu a hipótese.

Daí a confusão. E esta teoria que podia ser uma nave. Mas Nuno, qual é a real importância de um avistamento deste género?

Na verdade, a real importância, se fosse uma nave espacial, seria muito importante também. Embora ficássemos muito tristes de não termos tido nenhum contacto. Sendo um objeto natural vindo de algures do outro lado da nossa galáxia, é mais uma prova de que nós temos à volta de outras estrelas, não só planetas, como nós já reconhecemos, já identificámos mais de 5000 planetas à volta de outras estrelas. Claro que acreditamos que também têm pequenos asteroides e esses nós não os conseguimos detetar à volta das outras estrelas. Detetamos poeiras à volta de estrelas, detetamos planetas à volta de estrelas, mas não conseguimos detetar asteroides, coisas mais pequenas. Claro que eles têm de existir e o facto de um ter passado dentro do nosso sistema solar é a prova do facto de que eles existem em algum lado e que podem sair desse sistema solar para algum outro lado do universo. Tal como nós, no nosso sistema solar perdemos, no passado, muitos asteroides e muitos cometas que saíram e que provavelmente vão entrar algures num sistema planetário, algum dia, à volta de uma outra estrela qualquer.

Obrigado, Nuno.

O Nuno Peixinho é astrónomo, é investigador do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra e esteve aqui a explicar-nos este fenómeno, este objeto descoberto em 2017 e agora confirmado pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, que tem origem natural, o 'Oumuamua. Amanhã-

Diz isso também, diz outra vez.

O 'Oumuamua, acho que é assim. Bom, vamos voltar a falar de ciência no Observador amanhã, sempre à mesma hora. Obrigada por estar por aí. Vamos ter notícias a seguir, mas antes ainda temos tempo de ouvir mais música, desta vez com o Ed Sheeran. Esta chama-se "Happier". Chama-se "Happier", é a música do Ed Sheeran. Estamos a 15 minutos das 18h, Ricardo Conceição, quais são as notícias em destaque a esta hora?

O antigo líder da Juve Leo vai ser libertado. A defesa alega que Fernando Mendes sofre de doença oncológica grave e vai começar os tratamentos. Está detido no âmbito do caso da invasão da Academia de Alcochete. Hoje começou a fase de instrução no Campus da Justiça, em Lisboa, deste processo, 17 dos 44 arguidos vão ser ouvidos. O PSD promete o crescimento do PIB em 2,7% em 2023. Rui Rio apresentou hoje o seu cenário macroeconômico, cenário que prevê para a próxima legislatura. Em Bruxelas, os líderes dos 28 estão reunidos, andam à procura de nomes para assumir a liderança das instituições europeias. E no jornal das 18h, vamos voltar ao caso de Matilde, a bebê de dois meses que sofre de uma doença rara. Os pais anunciaram hoje no Facebook que já conseguiram os dois milhões de euros necessários para avançar com o tratamento nos Estados Unidos. Vamos falar com um especialista para perceber melhor este caso e esta doença.

As notícias com o Ricardo Conceição. Temos então uma nova edição às 18h em ponto. Bom regresso à casa, se for caso disso, está com a tarde em direto com a Rádio Observador. Eu sou a Ana Filipa Rosa, vou ficar consigo até às 20h. E atenção ao tempo para amanhã, porque vamos ter uma descida das temperaturas. É verdade, parece que nem no fim de semana isto vai melhorar. Apesar disso, amanhã não chove. Amanhã o Porto e Faro chegam aos 24° de máxima e Lisboa aos 27. Para já, ouvimos música dos Capitão Fausto. Esta chama-se "Teresa". E hoje a sequência dos quatro números deu-nos o seguinte código: é o 3025. Coimbra. 4705. Cabra. 7940. Vila Nova. 9125. Caniço. 2635. Cascais. Vamos sortear o destino do nosso código postal de hoje.

Todas as manhãs sorteamos um código postal e vamos à procura das melhores histórias espalhadas pelo país. De Bragança a Sagres, Portugal inteiro cabe na Rádio Observador.

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