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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da felicidade, que se vende como um produto, de preferência pronto a consumir. Há aplicações, há retiros, rotinas de uma manhã perfeita, mas a maior parte dos nossos dias não é feliz, nem infeliz. É uma terra de ninguém entre o desejo e a rotina. Olá, Eduardo. Por que insistimos em tratar a felicidade como algo que se compra ou que se atinge?
Olá. Olha, Judite, porque deixamo-nos engolir por uma atmosfera de pronto a consumir. Evidentemente, todos temos a noção que as coisas importantes da nossa vida dão muito trabalho, como não podia deixar de ser, e isso não é nenhum drama, antes pelo contrário. Mas depois há sempre alguém que nos apresenta aquilo que nós sabemos que não é assim tão descartável, tão pronto a consumir, de uma forma simples, fácil, de preferência, com uma rapidez de resultados absolutamente estonteante. E nós, tipo meninos pequeninos, deixamo-nos ir e, portanto, vamos ficando muito enovelados nisso tudo, Judite. Aquilo que eu acho que é preocupante é que depois nós temos a noção que esses programas, essas fórmulas , esses golpes de mágica parecem ter sempre um ingrediente secreto, porque há tantas pessoas que os tentam levar a peito e depois quando se vai ver, parece faltar ali um parafuso que faz com que nada funcione e se articule como devia. E eu não vejo mal nenhum que se fale destas coisas, mas acho que pode ser um caminho, se calhar, até pra nós aqui, Judite, falarmos de tudo isso de uma forma verdadeira, porque já chega de Botox e de Photoshop nestas coisas todas. E, portanto, a felicidade é uma coisa muito bonita, dá trabalho. Não se tropeça nela como se fosse uma pedra da calçada. Mas, às vezes, há ocasiões e pessoas que nos surpreendem muito e conseguimos lá chegar de uma maneira que é de uma autêntica surpresa pra nós. Mas há um aspecto que eu acho que é importante: nós não podemos ser felizes com um discurso pré-fabricado. Não podemos ser felizes embrulhados em fórmulas mágicas. À felicidade chega-se com verdade. Quanto mais verdadeiros conseguimos ser numa relação, mais reunimos créditos para que, de forma aparentemente surpreendente, nos tornemos felizes. É uma experiência de encontro íntimo entre pessoas. E, portanto, este encontro íntimo entre pessoas consegue-se numa festa, numa confidência, quando partilhamos os nossos medos, quando partilhamos os nossos desejos e, às vezes, quando nos construímos a quatro mãos, quando estamos tristes e podemos estar tristes. E não aquele registro de quanto mais eufórico, mais feliz, porque falha a verdade. Se há coisas que são razoavelmente claras, é que a euforia é um sinal bem claro, bem nítido, do quanto as pessoas não são tão felizes como se vendem.
Depois, a indústria do bem-estar promete-nos ferramentas pra sermos felizes. Não está, na prática, a vender-nos ansiedade?
Claro que está, Judite, e essa é uma observação muito inteligente. Claro que sim. Judite, mas isto é transversal também àqueles tutoriais para adormecer bebês, pra tirar a fralda dos bebês, para isto e para aquilo, que são tutoriais aos quais as pessoas se entregam, e entregam com generosidade e com muita determinação, e que depois as coisas falham. E no final sobra isso: "Claro que isto, se calhar, funciona pra todos, menos pra mim. Claro que chegados aqui, eu chego à conclusão que só posso ser uma nova. Claro que os outros conseguem aquilo que eu não consigo." E, portanto, de início, a insegurança aumenta, dispara, e depois, quando isto tudo vai ficando fora de controle, vamos sentindo as pessoas mais tristes, mais desconcertadas do mundo e, portanto, a seguir vem sempre uma atmosferazinha depressiva, porque nos sentimos muito sozinhos com as nossas dificuldades e às vezes não as dividimos com ninguém. Verdade, certo?
Depois, há um efeito, de alguma forma, perverso em medir a felicidade. São os passos que são dados por dia, as horas de sono, os minutos de meditação. Fazemos isto como se fosse um indicador de performance.
Sim. E é tudo mentira. Mas sabe o que é fascinante, ao mesmo tempo, no mundo em que nós vivemos? É que as coisas não são completamente mentira. Nós vivemos num mundo de meias-verdades, porque se me disser assim: "Dá um jeito..."
O suporte ajuda.
Claro que dá. Fazer umas caminhadas à beira-tejo, é uma coisa que enche a alma? Claro que enche. Isso faz-nos sentir bem? Sim, mas cuidado, porque bem-estar e felicidade não são do mesmo campeonato. Vamos lá devagar. Mas às vezes embrulha-se como se tudo fosse assim. E é, de facto, uma indústria que tem muitas pessoas, às vezes, a encher salas e a ter ali tribos autênticas de seguidores que funcionam enquanto funcionam, mas enquanto funcionam alimentam a prosperidade de quem vende estas receitas e, de certa forma, alimentam a infelicidade de quem as tenta usar e depois chega à conclusão que qualquer coisa que não se compreende muito bem não funciona.
Há aqui uma terra de ninguém emocional, que é o dia a dia sem grandes arrebatamentos, mas também sem grandes quedas. Isto é sinal de equilíbrio ou é sinal de alguma anestesia?
Isto é sinal de alguma anestesia. Vamos lá vez. Nós não precisamos de andar sempre a ter acontecimentos extraordinários para nos sentirmos a viver, sendo certo que quando a nossa vida é muito do domínio das coisas ordinárias, mais ou menos iguais, das rotinas, é fácil que nós cheguemos a impasses. Nós somos uns animais muito sofisticados, precisamos, como nos videojogos, de passar pro nível seguinte, de crescer, ter uma razão que nos diga: "Sim, as coisas estão a acontecer, eu estou a aprender" e de alguma forma, tudo vai por ali. Mas é verdade também que nós, entre tudo aquilo que são os nossos compromissos, as exigências que nós temos com as pessoas das nossas famílias e tudo mais, não temos tempo nem para falar com os botões. Falar com os botões era uma fórmula popular de se falar da meditação, de falarmos conosco próprios, de conversarmos. Nós na psicanálise utilizamos uma expressão, que se calhar é mais bonita, chamamos-lhe um diálogo interior, que é a mesma coisa que nós não fugirmos de pensar. E aqui é que é a grande questão, porque muitas vezes estes caminhos pra felicidade são caminhos do gênero: consome e não penses, esquece e não penses, a pensar morreu um burro e outras coisas do gênero. E nós nunca somos felizes se andarmos a cintar os nossos pensamentos. Se há uma coisa que nós precisamos cada vez mais é de reabilitar esse direito de pensarmos sobre as coisas e já agora, de falarmos sobre elas. Porque se há qualquer coisa que nos leva muito para aquelas situações de rutura e de esgotamento, é o silêncio. E nós estamos em silêncio conosco, estamos em silêncio com as pessoas importantes na nossa vida e portanto, assim advemos. E portanto, pode vir lá alguém com uma banha da cobra qualquer, que dantes curava tudo e mais alguma coisa e que se vendia a um preço módico, ao acesso de quaisquer bolsas. E nós sabemos que não é verdade, mas deixamo-nos ir na onda e às vezes temos muita dificuldade de dizer: "Não, não vou por aqui", que é meio caminho andado para começarmos a fazer por sermos felizes.
Eduardo, é uma boa mensagem para terminar. Ficamos por aqui hoje, voltamos amanhã. Grande abraço, obrigada e até amanhã.
Um abraço pra você e até amanhã, Tita.