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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de um colégio que prometia inovação, no qual as crianças de três anos são sentadas num banco chamado o banco do castigo e marcadas com autocolantes de bom ou mau comportamento. Olá, Eduardo. É razoável que uma escola que se diz inovadora recorra ao banco do castigo para crianças de três anos?
Olá, Judite. Não, claro que não. Judite, mas eu às vezes confronto-me com algumas práticas que me deixam de boca aberta, para ser franco, porque de repente há uma onda meia paradoxal. Por um lado, as crianças parecem não ter tantas regras quanto talvez devessem ter. E depois há algumas escolas que utilizam práticas que eu já não via há muito tempo. Separar os bons alunos dos maus alunos, seja lá o que isso for, numa e noutra circunstância. Fazer o ensino a duas velocidades e privilegiar uns em prejuízo dos outros. Tirar os recreios é uma prática cada vez mais frequente, porque eles, no entendimento de um professor, se portaram mal. E este tipo de prática que refere e que eu acho que é um bocado assustadora. Vamos lá ver, eu gosto quando os professores sangam com os alunos. Eu sei que dito desta maneira, pode parecer um bocadinho pateta, mas é verdade. Eu acho que um professor passa a merecer o respeito dos alunos quando, para além de toda a sabedoria que põe ao dispor de cada um deles, tem um sentido de justiça que faz com que eles aprendam regras e uma convivência em grupo e num grupo mais alargado, que tudo junto faz com que eles tenham ali à disposição um manancial a perder de vista de factores de crescimento e, portanto, a mim não me custa nada perceber que um professor que é fixe, como os miúdos dizem, que é simpático, como eles fazem questão de dizer quando são mais crescidos, de vez em quando sanque, faça voz grossa ou uma cara feia ou diga: "Ei, vamos lá ter atenção" e tudo mais, mesmo que às vezes os miúdos reajam em função daquilo que é o estado emocional de um professor. É normal quando eles sentem o professor meio distante, meio ausente, meio tenso, que tudo aquilo pegue fogo mais facilmente, mas é um pouco como em toda a vida e até nas relações familiares. E, portanto, eu gosto quando um professor não tem medo de fazer uma voz mais colocada e lhe explica que ele pode ter um coração imenso, mas que não permite tudo. Até aqui, tudo bem. Para crianças muito pequeninas, que ainda estão a habituar-se a conviver com outras crianças da idade delas, com regras que não são seguramente aquelas que têm em casa e tudo mais. Haver um banco do castigo, eu acho que é uma tolice, porque é transformar uma regra, que é um fator de crescimento, num exercício de humilhação. Ora, quem é que cresce saudável sendo exposto a essa humilhação? Eu não consigo entender. Não consigo perceber nem a prática das escolas, nem a direção das escolas quando permitem isso e a condescendência de muitos pais que reagem como se não estivessem ali também para educar os professores da mesma maneira que os professores educam as famílias.
Depois há rótulos, não é? Há autocolantes de bom e mau. E isto tem impacto no desenvolvimento emocional da criança.
Judite, só tem, não é? Mas tem um impacto ainda maior. É que todas as crianças, independentemente das particularidades que têm, adoram ter esta convicção que nós temos das famílias também. Com sorte, há ali um bocadinho em que eu sou o menino querido de um professor. Sou o preferido. E, portanto, eles adoram perceber que, no fundo, independentemente de todas as suas singularidades, constroem laços que fazem com que haja ali um cantinho qualquer de grande cumplicidade com o professor, que faz com que eles depois cresçam mais saudáveis. Ser bom ou mau é como se, no fundo, na política, se repetisse uma notícia falsa uma vez, duas vezes, três vezes, 10 vezes, e isto depois cola-se à pele. Portanto, obviamente, que quando uma criança está neste registo de aos olhos do meu professor, eu sou mau, uma vez já a derruba, duas vezes já a faz ficar numa tremideira muito constante cada vez que se trata de falar com ele, três vezes já faz estragos muito significativos. E, portanto, eu gostaria imenso Que isto fosse só um dia mau de um professor ou de uma escola, mas pelos vistos não é.
Pelos vistos é um método. Existem alternativas para gerir os conflitos entre as crianças, mesmo desta idade, sem as envergonhar ou sem as isolar?
Claro que sim. Eu lembro-me no meu primeiro ano de escolaridade, que já foi há 150 anos, que eu tinha uma professora que ainda punha reguadas, era o banal. Reguada é uma régua que ainda por cima doía tremendamente. E ver crianças com orelhas de burro viradas para os colegas, portanto, um exercício de humilhação sem fim, era muito frequente. Deve ser coincidência, mas esses meus amigos que foram tendo orelhas de burro, zangaram-se muito rapidamente com a escola e com o conhecimento e com a aprendizagem. Agora não se põe orelhas de burro, mas anda-se lá perto, porque quando se repete isto, parece que há uns que são naturalmente bons, outros naturalmente maus, uns naturalmente inteligentes, outros naturalmente burros. E cria-se uma atmosfera que não tem nem pés nem cabeça, que fique claro que quando uma criança tem dificuldades, é porque o professor ainda não conseguiu decifrar as passwords para chegar até ela. Não estou a dizer que um professor tenha que ser mágico. Eu gosto que eles sejam mágicos. Às vezes precisa de uma retaguarda para definir tudo isso, até porque uma criança chega à escola com alguns vícios de forma, trazidos da própria família, como não podia deixar de ser. Mas o que eu costumo dizer é que quando uma criança tem uma negativa, a escola devia fechar para balanço. Só para perguntar assim: mas por que um miúdo que é vivaz, que tem um olhar acutilante, que se percebe que é inteligente, que é sensível, malandro, quando é capaz de perceber ali uma fresta para se esgueirar e para fazer aquilo que ele entende, quando chega a hora de ir a jogo no português ou na matemática ou noutra coisa qualquer, parece ter limitações cognitivas? A escola tem a obrigação de fechar. Fechar é uma maneira de dizer. Os professores têm a obrigação de se sentar e perguntar assim: por que é que se calo daqui, uma criança que tem essas qualidades todas se engasga de uma forma tão significativa? Ou por que é que chega aqui e vira a escola do avesso e podendo ser bom, parece mau? E onde é que nós estamos a ajudar, muitas vezes de forma involuntária, mas de que maneira estamos a ajudar para que isto seja assim? E as escolas não fazem isso. Ou seja, quando uma criança tem dificuldades, quem tem dificuldades é uma criança, não é o professor a falar com ela, nem é a escola a relacionar-se com ela e às vezes não é a família e a escola a conversarem umas com as outras. Parece que, no fundo, as crianças estão sempre muito sozinhas na escola. Isto não faz sentido. E então quando são sentadas num banco de castigo ou têm um autocolante que diz bom ou mau, meu Deus, a escola aí tem que fechar muitos dias de balanço para se reinventar e passar a ter práticas que não são práticas boazinhas, que não fique a ideia que uma escola não pode zangar-se com uma criança quando entende que deve zangar-se, mas não podem é ser estas, porque humilhar é o contrário de educar.
O método, ainda por cima, foi escolhido pelo psicólogo do colégio. Que enfim, é a cereja no topo do bolo.
Meu Deus, Nossa Senhora. Isso é uma maldade em relação a mim. Ter guardado isso para o fim.
Não, mas não é normal também, não é? Quer dizer, ser o psicólogo a fazer este tipo de...
Às vezes é. Sabe por que é? Porque as escolas de psicologia, elas próprias precisam de fechar para balanço. Para dar muito mais argumentos, muito mais versáteis e muito mais robustos. E estas pessoas, que muitas vezes saem diretamente de uma escola, que às vezes fizeram um curso um bocadinho mais à pressa do que devia ser e de repente têm um conjunto de compromissos para os quais não estão habilitados e, portanto, deitam a mão a uma solução rápida e mágica qualquer e o resultado é este. Portanto, um psicólogo que faz isto é um psicólogo que está ainda longe de ter assumido toda uma prática mais ponderada. E, portanto, imaginar que se cresce num registo de recompensas e de punições é equiparar crianças a ratos de laboratório. Valha-me Deus, nós estamos felizmente muito longe disso.
Esperemos que isto mude. Eduardo.
Muitas graças.
Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã.