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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje, à boleia de uma ouvinte, vamos falar de chefes que não respeitam os trabalhadores. Olá, Eduardo. Antes de mais, o que é para si o desrespeito no trabalho? Ou seja, onde acaba um chefe exigente e começa um chefe que desrespeita?
Olá, Judite. Quando um chefe tem com as pessoas da sua equipa uma relação oblíqua. E eu acho que é mais ou menos fácil ter. Isso a mim incomoda-me, porque, por um lado, descreve as pessoas da equipa como colaboradores, que é uma expressão muito mais arredondada, e depois lida com eles como se não pensassem, não pudessem trazer contraditório às opiniões do próprio chefe, ou não pudessem acrescentar nada àquilo que eventualmente ele pôde pensar em relação ao que seja o trabalho. Portanto, sempre que há esta relação oblíqua, há, de facto, um mau trato. Pode não ser um mau trato enorme, mas é um mau tratozinho. E muitos maus tratozinhos acabam por fazer com que as pessoas tenham com o trabalho aquilo que nós todos vamos observando. Por um lado, envolvem-se e depois, a partir de certa altura, resignam-se, porque aquilo é uma engrenagem que às vezes não comporta a capacidade humana de pensar sobre as coisas e eu acho que é um desperdício bárbaro.
Muita gente duvida de si próprio nestas situações, não é? "Será que estou a exagerar?"
Porque as coisas que se geram num trabalho são sempre aspectos com muitas arestas. Evidentemente, quando nós sentimos seja o que for, nós somos pessoas muito sofisticadas, portanto, nós não estamos a inventar. Sendo certo que a nossa sensibilidade e a maneira como nós somos capazes de perceber alguma coisa, em muitas circunstâncias, não é realmente acompanhada pela forma como um chefe acerta o passo com a nossa capacidade de entendimento. Portanto, podemos estar vários passos adiante e claro que quando fazemos alguma observação, há sempre alguém que faz o favor de achar que nós somos as pessoas complicadas da equação e que só estamos ali como forças de bloqueio, para mais nada. Mas, de facto, o tom com que se fala, a maneira como, em muitas circunstâncias, se fazem alguns reparos, a forma como, à boleia de uma reunião de equipa para os laços ficarem mais fortes, as pessoas se sentirem coagidas a ir jantar à casa de um chefe quando sentem que aquilo é quase um despropósito, etc. São tantas as situações que eu às vezes chego a pensar que nós se calhar não estamos tão longe da primeira revolução industrial, porque a grande e enorme mais-valia que as pessoas podem trazer a um trabalho é sempre muito mais valorizada nalgumas circunstâncias, quando se veste a camisola. E vestir a camisola em muitos trabalhos é dar tudo o que se tem, às vezes mais um bocadinho, não fazer ondas e, obviamente, não perder tempo a falar. Quando perder tempo a falar é uma bênção para qualquer trabalho que quer ter capacidade crítica e ser capaz de estar à frente, antecipando situações com as quais inevitavelmente vai conviver.
O que é que um chefe assim faz, aos poucos, à autoestima de quem trabalha com ele?
Danifica. Porque muitas vezes as pessoas quando começam um trabalho, a determinada altura o convertem num emprego, porque a determinada altura faz lembrar selecionadores de outros países, etc. A forma como se valoriza com equidade aquilo que as pessoas têm para dar não é igual. E depois chegamos sempre a um patamar que não é justo. Eu sei que não é justo aquilo que eu vou dizer. E não tenho dúvidas, Judite, que há muitas pessoas que estão no lugar certo. Mas há muitas em relação às quais nós temos a noção que haver pessoas que se vendam muitíssimo acima do seu preço, em relação às suas competências, em relação a tudo aquilo que dão, de facto, a uma empresa e, já agora, aquilo que trazem de bom a uma equipa, às vezes compensa, porque às vezes estão em lugares de chefia e uma pessoa pergunta: " Quais são as competências técnicas que esta pessoa tem?" Se calhar, não tem muitas. "Quais são as competências pessoais?" Porque é preciso tê-las, inevitavelmente, também. "E as competências sociais?" Ou seja, de facto, às vezes o crime compensa. E mesmo quando se trata de avaliação, que é outra das coisas que a mim me deixa sempre de boca aberta. Mas qual é a lógica de haver uma curva normal? Isto é porquê? Inteligência a funcionar. A curva normal a definir Quem é que tem muito bom e quem é que não pode ter, sendo que as chefias invariavelmente têm muito bom, deve ser coincidência. Mas qual é o drama de haver um ano em que haja três, quatro ou cinco muito bons e outro em que possa não haver nenhum? Não, há uma curva normal que é para nós dizermos quando entra a estatística, isto é irrefutável, portanto, nada de combater a veracidade dos números. E os trabalhos muitas vezes embrulham-se nestes lugares comuns que fazem com que muito rapidamente aquilo que as pessoas pudessem trazer para que eles se tornassem, de facto, mais singulares, mais diversificados, muito mais vibrantes, fazem com que haja uma engrenagem que vá esmorcendo, e depois os pequenos poderes fazem o resto. E de repente, as chefias que deveriam ser capazes de dinamizar, pegar naquela gente toda e pô-las ali a desabrochar em função das ideias e das iniciativas que tivessem, às vezes estão ali a conter as pessoas, como se fossem um obstáculo à mais-valia que de facto podem trazer. Portanto, há chefes, se calhar muitos, que ainda não perceberam, por mais que falem da vantagem do trabalho em equipa, mas isso é um slogan. Ainda não perceberam a enorme vantagem de um trabalho de equipa e se calhar ainda não perceberam como é que podem pegar naquela diversidade de pessoas e juntá-las em função de objectivos comuns assumidos por todos. O assumidos faz diferença.
Esta ouvinte em particular não pode sair deste emprego pela conjuntura em que vive. Deve confrontar o seu chefe ou isso piora a situação?
Depende do chefe, Dito. Porque há chefes que às vezes também eles próprios são engolidos por uma hierarquia que não tem nem pés nem cabeça. E quando têm alguém que os aborda com toda a lealdade e com toda a verticalidade, naturalmente percebem que uma avaliação afetuosa não é propriamente uma manifestação de atentado, seja em relação ao que for. Agora, também é verdade que há muitos chefes que são pessoas que têm uma noção muito clara daquilo que não valem e qualquer observação, mesmo que seja em favor do chefe ou do trabalho da equipa, é sentida como uma ameaça que mais tarde ou mais cedo merece retaliações. Portanto, ela está dependente do seu fantástico nariz de avaliar se aquele chefe, independentemente de poder ter algumas atitudes destemperadas, pode ser resgatável para aquilo que possa ter de melhor como pessoa. E se for, vamos lá a jogo. Se não for, é claro que muitas boas intenções para o trabalho de uma equipa muitas vezes esbarram na parvoícezinha de muitas pessoas que estão à frente das equipas e que estão ali não para produzir no sentido nobre do termo, mas para criar cadeias de funcionamento que parecem linhas de montagem, em vez de serem coisas muito mais inteligentes como poderiam ser.
Fica aqui o tema, que é um tema importante, que não abordamos muitas vezes, mas ainda bem que este e-mail nos chegou. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito facílis, Dito. Até amanhã.