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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta". Hoje um programa especial com Ricardo Conceição e sempre com o psicólogo Eduardo Sá. Encontram-se novamente em antena, Ricardo.
Olá.
Depois de vários anos a serem parceiros no "Porque Sim Não é Resposta". E hoje vamos começar por falar da morte do futebolista Diogo Jota, que deixou o país em choque. Para muitos adultos foi uma notícia devastadora, para milhares de crianças foi a queda de um herói, o jogador da camisola favorita, o nome que gritam quando marcam um golo no recreio. E antes de falarmos de como tantas vezes nos preocupamos com coisas tão pequeninas e desperdiçamos momentos tão importantes da vida. Eduardo, boa tarde. Como é que se explica a morte a uma criança quando quem morreu era, para ela, quase imortal?
Olá, Judite. Olá, Ricardo.
Olá, Ricardo.
Que bom tê-lo de volta. Judite, aquilo que eu vou dizer agora parece completamente pateta, evidentemente, mas a morte não existe. Para as crianças, a morte não existe. Ou se preferir, de outra maneira, as pessoas importantes para nós estão vivas porque nós precisamos que elas estejam vivas. E enquanto elas forem absolutamente essenciais e indispensáveis, que se livrem de não estar vivas. O raciocínio é saudavelmente esse, e eu arrisco-me a dizer que não é o raciocínio das crianças, é o nosso raciocínio. E, portanto, por maioria de razão, quando é alguém que elas estão habituadas a idolatrar, cujos gols acabam por gritar e que parecem um bocadinho mágicas, qualquer coisa de super-heróis que fazem aquilo que elas gostariam muito de um dia ser capazes de fazer, por maioria de razão, acontece um pouco como é em relação a todos os super-heróis da banda desenhada. Eles nem sequer uma mãe têm. O Obélix teria uma, que era distraída, senão ele não teria caído na poção. Mas eles não têm uma mãe, não têm um pai, não têm uma casa, não se constipam, não têm nenhuma das características que nós reconhecemos e identificamos nas pessoas. E, portanto, nessas circunstâncias, por maioria de razão, se nós, as pessoas crescidas, ficamos em choque, atônitos e não conseguimos deixar de pensar nisso, as crianças ficam completamente apatetadas, como quem diz: "Mas afinal, qual é o pedaço da história que eu não percebi? Porque eu julgava que as pessoas não morriam assim quando eram pequeninas ou quando eram mais jovens e sobretudo quando são poderosas, elas não morreriam". E, portanto, com tudo isso junto, é natural que se nós estamos completamente perplexos, as crianças falem friamente disso, que é aquilo que elas fazem sempre que não entendem e varrem um bocadinho para baixo da sua perplexidade, sendo certo que depois nos próximos dias vão falar disto uma, duas, 20, 1000 vezes até conseguirem, dentro do possível, perceber melhor.
Mas os pais, Eduardo, devem falar disto? Devem explicar às crianças o que se passou de uma forma mais direta? Muitas vezes os pais refugiam-se naquela ideia de uma estrelinha no céu. Há alguma fórmula certa para isto?
Não. Sendo certo que desde a manhã, desde a altura em que todos os meios de comunicação em Portugal estavam dedicados à Operação Marquês, que houve um verdadeiro terramoto e estão todos numa espécie de edição contínua, sempre a falar disto. Portanto, é praticamente impossível que uma criança, nem que seja de passagem, ouvindo ou vindas escutando acidentalmente aquilo que a mãe ou pai estão a dizer, é impossível que uma criança não registe isto. E, portanto, não vale a pena tentar iludir o que é óbvio. Ele teve um acidente e morreu. E eu não vejo, devo lhe dizer, Ricardo, que seja tão mau assim que nós possamos, com afeto, todavia, falar destas coisas às crianças. Até porque me parece que quanto mais nós falamos da morte dentro do que é razoável, mais nos sentimos, até perante nós próprios, obrigados a respeitar a vida com outro rigor e com outro carinho do que provavelmente todos nós acabamos por fazer. Quanto à história da estrelinha. Ricardo, a história da estrelinha é uma história perfeitamente eterna, porque eu perco a conta às vezes em que os pais me perguntam: "Bom, como é que eu hei de explicar para onde é que foi o avô depois de morrer?" E eu compreendo a bondade dos pais ao quererem uma fórmula que funcione para as crianças, sobretudo porque eles próprios também não conseguem explicar aquilo que se termina.
Também eles estão à procura, não é?
Obviamente, há uma violência. Se uma criança, não só uma criança, Ricardo, mas se uma criança realiza que um avô que é uma pessoa tão preciosa na vida dela, de repente morreu, ficou fechado numa caixinha, como às vezes algumas crianças dizem, atenção, e ficou debaixo da terra, à chuva e no escuro, isto é demasiado enlouquecedor pra que uma criança perceba qual é o sentido destas coisas. É um bocadinho como o ex-treinador do Diogo Jota quando dizia: "Bom, isto deve ter um sentido, mas eu não consigo perceber". E dizer a uma criança que o avô foi pra um sítio melhor, é quase como dizer: bom, há lugares onde é primavera todo o ano, é uma espécie de Algarve todo o ano, com menos gente, com menos calor, é muito mais afável. Se bem que as crianças depois sejam muito acutilantes e muito esmagadoras nas perguntas que fazem. Como, por exemplo: por que o avô se foi embora sem dizer adeus? Começando pelo princípio. Antes, por que ele se foi embora quando eu precisava tanto dele? E finalmente, só não percebo por que ele ao chegar ao céu, o céu deve ser um sítio onde, se aqui há, os japoneses, pelos vistos, já têm uma espécie de 5D, 10D ou 100D, mil, acho eu. E portanto, eles pensam: bom, no céu a tecnologia deve ser super de ponta. Não consigo perceber por que o avô ao chegar, não disse: "Olá, acabei de chegar, aqui o ambiente é magnífico". As crianças às vezes parecem usar um humor corrosivo. Portanto, uma coisa seríssima, porque no final de contas, é terno nós dizermos que foi pra muito longe e, sobretudo, dizer que ele está longe, mas está perto, porque é isso que a vida nos ensina. As pessoas muito importantes na nossa vida estão longe da vista e perto do coração. Quanto mais longe da vista, ou quanto mais irreparável é o longe da vista, mais perto do coração. E portanto, elas vivem dentro de nós. É esse o truque da vida eterna. E pôr uma estrelinha na equação é uma maneira de pôr uma beleza muito grande, que as crianças percebem que é só uma maneira metafórica de falar dessa vida eterna, mas que ainda assim entram no jogo, porque sossegam e percebem que o pai e a mãe estão no mesmo enquadramento e a fazer o mesmo esforço pra perceber o que não tem compreensão.
E o que dizemos a uma criança quando ela pergunta: isto pode acontecer também comigo?
Fazemos bluffs, digo-te, que eu acho que é a melhor coisa. Felizmente, há poucas crianças que morrem com a visibilidade que os nossos filhos acabam por apanhar. Mas aí eu acho que todos nós fazemos, aí, sim, de super-heróis e fazemos a nossa cara mais circunspecta, abrimos o peito como deve ser, focamo-nos nos olhos com a segurança de um super-herói e dizemos: "Esquece, porque eu jamais deixarei que isso aconteça".
Eduardo, e há também aqui, neste caso, uma outra situação, que é o outro lado. Nós estamos perante a morte de dois jovens, um de 28, outro de 25 anos, dois irmãos. O Diogo Jota era pai de três crianças pequenas, já lá vamos, mas isto choca-nos, sobretudo, obviamente, o Diogo Jota é muito conhecido, é conhecido no mundo inteiro, mas choca-nos esta vida interrompida de duas pessoas promissoras nas suas áreas, ainda por cima, pelos relatos que temos ouvido, dois miúdos bons, vou dizer assim. Isto agudiza em nós o choque de termos a noção de vidas interrompidas, não é? E perante isto, nós não conseguimos fazer ou dizer nada, porque ficamos a pensar: que estupidez, não é?
É, na verdade, é. Evidentemente que nestas circunstâncias, Ricardo, eu talvez não subscreva aquilo que o senhor presidente da República disse hoje à porta do Palácio de Belém, porque eu acho que às vezes nós nem sequer medimos as palavras quando pomos a idade na equação. É quase como se uns tivessem mais direito a morrer do que outros, independentemente da vontade deles. Era o que faltava, já agora. E independentemente de as pessoas terem a idade que tiverem, elas têm toda a legitimidade de querer estar vivas e de fazer por estar vivas. E esta ordem natural das coisas, como às vezes isto é embrulhado, é de algum mau gosto, é agressivo pras pessoas mais velhas. Todavia, nós todos temos estes trabafos, Ricardo, por que morrem os bons? Ou seja, tantos maus que andam a infernizar a vida de tantas pessoas sem um pingo de humanidade. E todos nós, no fundo, independentemente de termos uma confissão religiosa ou não, temos a ideia de uma certa ordem natural das coisas, quase como quem diz, os mais velhos, compreende-se melhor que morram mais E já agora os maus compreender-se-ia melhor que morressem mais que os bons. E depois vai-se saber, e não é de todo o que acontece. E eu acho que, de facto, todos sofremos deste mal e todos fugimos dele, como se compreende. Mas volto a lhe dizer, Ricardo, eu acho que quando nós nos confrontamos com isto e percebemos que a morte é sempre traiçoeira, mesmo quando nós, as pessoas mais crescidas, que às vezes têm avós ou pais mais velhos e que às vezes estão muito doentes e temos a ideia de que estamos a prepararmo-nos pra perda, muito rapidamente somos alertados pra uma realidade muito simples: nós nunca estamos preparados pra perder as pessoas que são importantes. E, portanto, quando nós vimos isto tudo, uma vida interrompida, e depois toda esta dimensão absolutamente patética, quase, porque ele tinha se casado outro dia, tem uma filha bebê. De repente, é uma montanha-russa.
É camada em cima de camada numa tragédia, no fundo, que é o que isto é.
É impossível não nos tocar, mas é importante que voltemos sempre à mesma equação. Ou seja, eu acho que às vezes nós não nos damos conta que vamos morrendo devagarinho pra vida quando vamos evitando ou desistindo de namorar com ela. E temos muitas porcariazinhas a atropelarmos. Às vezes temos muitas pessoas que fazem o favor de nos tirar um bocadinho de ilusões e outra amanhã, etc. Mas devia ser quase obrigatório namorar com a vida, porque obviamente, quando nós deitamos mão à beleza das coisas, à beleza que elas têm nas artes, por exemplo, quando nós somos capazes do entusiasmo ou quando somos simplesmente capazes de amar. Amar é uma forma, não matamos a morte, mas temos a ideia que naquela altura a intimidamos e, portanto, são os poucos recursos que nós temos pra lutar contra uma realidade que um acidente como este pôs na primeira página do nosso coração.
E precisamos de uma morte como esta pra pensar que temos de aproveitar a vida?
Judite, França. Não devíamos, não é, Judite? Não devíamos.
Não devíamos.
Nós temos sempre esta mania, todos nós, Judite, que morrer morrem os outros e, portanto, ficamos sensibilizados, vamos ficar sensibilizados por estes dias e se for preciso, a partir de segunda-feira já andamos mais ou menos diluídos numa série de preocupações que não merecem tanta preocupação e não damos importância às coisas importantes da vida. É muito importante darmos conta que nós não precisamos de grandes mudanças. Às vezes, basta que tenhamos os nossos pequenos recantos onde nos alimentamos das coisas que nos dão vida, mas às vezes nós deixamo-nos consumir por muitas coisas que são muito fluidas, que são muito descartáveis e não nos damos conta que são as pessoas importantes ao nosso lado que nos dão vida. E às vezes somos muito pouco cuidadosos pra elas. Às vezes, tentando ser provocatório pros adolescentes, eu pergunto: "Qual foi a última vez que tu disseste ao teu pai ou à tua mãe que os amavas ou que os admiravas?" E eles, embaraçados, dizem: "Não, não vale a pena, eles sabem". Mas nós não nos damos tempo, nem sequer por uma miserável mensagem escrita que demora 10 segundos pra dizer a alguém que é importante pra nós, que gostamos dela, que é importante na nossa vida, que é fundamental que esteja presente na nossa vida, nem que seja pra dizer olá de vez em quando, através de uma mensagem. Com a pandemia, eu ainda imaginei que as pessoas voltavam a ser importantes, porque de repente nós passamos a falar com os amigos, etc. Mas lá está, estávamos todos a jogar xadrez com a morte e depois armamo-nos em heróis e achamos que isso só acontece aos outros e o resultado é este.
Mas, Eduardo, tem muitos anos de experiência, há muito tempo que reflete em tudo isto. Que raio de mecanismo é que nós temos que nos impede de fazer isso mesmo, de dizer aos outros que gostamos deles e que eles são importantes pra nós? Parece que há sempre ali uma pontinha de vergonha e só em situações já quase limite é que então pronto, vou dizer e vou fazer. Por que adiamos isto?
Porque fomos todos mal-educados, Ricardo.
Já andava desconfiado.
E eu acho que o gênero masculino ainda foi educado muito difícil. E é muito engraçado que seja difícil ao mesmo tempo, não é, Ricardo? Porque às vezes muitas amizades masculinas são amizades mais sólidas e de uma vida, mais facilmente, às vezes, do que muitas amizades femininas. Mas isto de dizermos às pessoas que são importantes pra nós, que elas são importantes pra nós, parece que é taxado com imposto de luxo. E nós fazemo muito poucas vezes. Não é andarmos a chamar a pessoa com quem nós estamos, se o quisermos fazer, porque não, ora essa, amor pra esquerda e pra direita. O que tem, às vezes, de desconcertante é que as pessoas se tratam por amor e nós temos a noção intuitiva Que elas amam-se pouco, olham-se pouco. Há ali uma cumplicidade demasiado fugidia para ser uma relação amorosa como devia ser. Nós somos pessoas muito envergonhadas com as coisas sérias, que é tudo o que há de mais absurdo. Por isso é que é importante, às vezes, nós falarmos mais da morte, só porque é, dentre as coisas sérias, uma das mais sérias. E quando nós percebemos que ao pé destas coisas, que são absurdas e que fazem com que de um momento pro outro tudo desmorone, quer dizer, irmos pondo marcos nas relações que são importantes pra nós, na nossa vida, é qualquer coisa que nos torna mais vivos. E termos essa humildade e essa sabedoria, já agora, eu acho que nunca é demais.
É possível viver assim sem apanhar um susto, não é? Só precisamos de ter essa certeza para acabarmos o programa em alta.
Sem apanhar um susto, como, Judite?
Sem apanhar um susto destes. Sem pensar na morte de uma forma tão presente, pra vivermos com mais urgência.
Eu acho que nós não precisamos de apanhar sustos. Às vezes, só mudamos de vida quando apanhamos um susto. E por isso é que todos nós já ouvimos muitas vezes que há males que vêm pro bem. Não há coisa nenhuma, os males são males, ponto final. Mas às vezes precisamos que a vida nos lembre que somos pequeninos. Todavia, somos enormes em muitas coisas, mas que somos pequeninos pra que depois tenhamos a humildade de dizer assim: "Por onde é que eu quero ir?" E nós mandamos pouco na nossa vida e ela tem poucas vezes a nossa cara. E ela precisa ter a nossa cara e precisamos de mandar nela pra nos sentirmos vivos. Se for assim, não precisamos de andar a apanhar sustos, porque, no fundo, estamos peça a peça a cultivar aquilo que nos traz mais vida e isso torna-nos invariavelmente mais bonitos.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Tivemos aqui a-
Obrigado
...participação especial de Ricardo Conceição.
Obrigado nós.
É sempre bom poder voltar aqui ao "Porque Sim, Não É Resposta".
Estás sempre convidado. Amanhã voltamos com mais um programa, Eduardo. Até lá, já sabem, escrevam-nos pra eduardosah@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um abraço, Eduardo.
Um abraço pra os dois e até amanhã.