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Tudo pronto para o "Porque sim não é resposta". O Eduardo Sá e o Ricardo Conceição já estão em estúdio. Bem-vindos!
Olá, boa tarde.
Olá, Ana Filipe, olá, Ricardo.
Uma ótima sexta para os dois. E esta semana, eutanásia é tema, os cuidados paliativos, os cuidados em fim de vida. E hoje vamos falar de uma inversão de papéis, Eduardo, quando os filhos começam a cuidar dos pais.
E é cada vez mais frequente, não é? Porque com o envelhecimento, cada vez vivemos mais.
Sem querer aligeirar a conversa, eu acho que se há coisa que os filhos passam a vida a fazer é a cuidar dos pais. Muitas vezes os pais não dão por isso, mas os filhos fazem isso com muita determinação.
Ainda bem.
Então, não é? Ainda por cima, fazem com uma delicadeza e uma elegância fora do lugar. Eu acho fantástico a maneira como as crianças poupam os pais aos pequenos pormenores e falam por meias-palavras. E quando os pais às vezes os puxam para um despique e eles se seguram até ao infinito e não dizem aquilo que estava mesmo debaixo da língua: "Ele merecia que eu dissesse, mas eu não digo". E, portanto, esse lado cuidador e cuidadoso dos filhos em relação aos pais é uma coisa muito bonita e eu acho que é aquilo que atravessa toda a vida. O resto já é muito mais complicado e por isso é que eu tentei fugir. É muito complicado, porque se não os pais não morrem, ponto final. Que coisa mais parva é essa. E portanto, quando nós nos confrontamos com o lado frágil dos nossos pais, estamos a confrontar-nos com qualquer coisa que é proibido para nós. Nós precisamos que eles estejam vivos até serem indispensáveis para nós e como eles são indispensáveis para sempre, não se discute. Quando eles começam a dececionar-nos por aquilo que fazem ou por aquilo que não fazem, ou quando começam a morrer em suaves prestações e nós percebemos que eles são os nossos pais, mas deixam de ser aos bocadinhos os nossos pais. É tão violento e é tão insuportável que a determinada altura nós não dizemos, mas às vezes pensamos que é quase um alívio que eles morram depressa. Não é porque nós nos queiramos ver livres deles, é porque assistir a uma degradação em direto e ao vivo, perdendo eles todas as qualidades que no fundo sempre foram o motivo da nossa segurança, é tão duro, é tão difícil, é tão violento e é tão violento para todos, para eles também, que nós ficamos completamente estraçalhados. Morremos com eles, mais do que parece.
E a dinâmica familiar altera-se.
Completamente.
Nós podemos aqui supor várias situações. Uma é aquela em que as pessoas têm a possibilidade de ter os pais com elas, em casa. Essa é a mais desejável?
Inequivocamente, por muitos aspectos. Eu percebo o dilema de todos nós quando se trata de termos os pais num lar, por exemplo. Mas eu fico sempre muito magoado, porque tenho a ideia que as pessoas quando têm uma determinada idade, há sempre uma certa condescendência em relação a elas, como se estivessem todas no limiar de debilidade mental. Coitadas, não percebem. É como se tivessem uma espécie de Alzheimer que faz com que tudo lhes passe ao lado, mesmo quando os pais, nessas circunstâncias, são de uma delicadeza invulgar. São protetores e bondosos em relação aos filhos, mesmo quando se sentem um bocadinho abandonados por eles. E de facto, ter os pais em casa ou ter os pais fora de casa são campeonatos muito diferentes. São campeonatos muito caros, porque se trata de garantir muitas vezes um apoio de retaguarda, quando então um pai ou uma mãe estão acamados, que permita que ele tenha todos os cuidados durante sete dias por semana, 24 horas por dia. E portanto, trata-se às vezes de pagarmos a uma pessoa para ir dormir. E nós ficamos sempre naquele quase sem jeito, mas é para dormir, não é bem para dormir. É para estar alerta se for preciso alguma coisa, é para virar se for necessário. E portanto, nós cuidarmos de um pai ou de uma mãe, como se de repente estivéssemos a cuidar de um bebê recém-nascido, é de uma dureza muito grande, porque é tudo aquilo que eles merecem da nossa parte. Mas é como se nós, de repente, estivéssemos numa inversão de papéis e nos sentíssemos muito desamparados. Há alturas em que os nossos pais começam a ter uma idade em que é suposto que nós tenhamos um outro tipo de cuidados em relação a eles e nós temos filhos e portanto sentemo-nos no meio da ponte e a cuidar de toda a gente com determinação, mas às vezes a perguntar secretamente: "Caramba, e afinal quem é que cuida de nós?"
Exatamente.
Era isso que ia perguntar. Quando existem crianças envolvidas em tudo isto, como é que se gere esses dois lados?
Não se gere muito bem. Acho que passamos a vida a ter a noção que estamos a faltar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo, que estamos na nossa versão de bombeiros voluntários. Quando acudimos a um sítio, de repente os nossos filhos fazem o favor de não pôr a boca no trombone e nós temos a ideia que eles até estão a colaborar. Quando finalmente nós respiramos um bocadinho e temos algum alívio, então eles vão buscar todas as faturas que guardaram, põem lá uma espécie de imposto de selo acrescido e sobram para nós Portanto, às vezes andamos a levar com bolas da esquerda e bolas da direita. Às vezes apanhamos algumas, às vezes rechaçamos outras e no resto do tempo levamos com elas a torto e a direito. É muito duro.
Estamos, enquanto sociedade, a menosprezar um pouco aquilo que é o papel do chamado cuidador informal a nível político. Há subsídios que já deviam estar regulamentados, há lei que já devia estar regulamentada, ainda não está. Continuamos à espera que a Assembleia da República e o Governo avancem nessa matéria, mas menosprezamos um pouco aquilo que é o papel do cuidador informal, que é essa mãe, esse pai, que estão no meio.
Completamente, Ricardo. Obviamente que ninguém põe em causa a seriedade e as agendas com que se gerem os diplomas legais, mas às vezes temos todos a ideia, seguramente, em muitos momentos com injustiça da nossa parte, que as agendas nem sempre são aquelas que deviam ser. Às vezes há agendas mediáticas que são agendas mediáticas, que têm a ver com estratégias questionáveis, todavia. Mas esse tipo de humanidade, que nós todos desejamos muito que os Estados e as democracias, em particular, assumam com toda a determinação, parece nem sempre ter a urgência indispensável. E vamos lá ver, não se trata de convertermos cuidados em dinheiro, não é isso que está em questão. É termos a noção que esse tipo de cuidados atropela completamente a nossa vida. Atropela a nossa vida profissional, atropela a nossa vida pessoal, atropela a nossa vida de pais, atropela as nossas relações, porque por mais que não queiramos, estamos sempre com o telefone no alerta permanente e quando estamos à beira de marcarmos um jantar pra finalmente conversarmos, de repente tudo desmorona e volta à casa de partida. Às vezes trata-se de termos algum respeito pela atitude que nós temos, que curiosamente, vamos lá chamar as coisas pelos nomes. O Estado também tem a obrigação com os cidadãos e quando há um cuidador informal, está a assumir um conjunto de cuidados que noutras circunstâncias poderia não assumir, lavando as mãos e dizendo ao Estado: "Agora façam os senhores". Às vezes o Estado, em relação aos pais ou em relação aos cuidadores, comporta-se com alguma arrogância em relação aos cidadãos que não acho que seja compreensível. Não consigo entender como é que isso não acontece, sendo certo que nós estamos a falar de uma enxurrada. A partir do momento em que um dos nossos pais, sobretudo nessas circunstâncias, mas quem fala dessas circunstâncias, fala dos pais que têm crianças com grandes limitações, com deficiências diversas, que são invariavelmente deixadas ao abandono sem que tenham um conjunto de atitudes respeitosas que deviam ter. Não, eu acho que tem que haver outro tipo de agendas para que fique claro que estas pessoas são insubstituíveis no cuidado que colocam em relação aos pais e aos filhos, mas têm uma vida, têm necessidades, têm que pagar contas como toda a gente.
E é uma vida de 24 horas dedicada, preocupada com aquela pessoa, com aquelas pessoas. Voltando um pouco à questão dos filhos que cuidam dos pais, é importante que também estes filhos cuidadores de vez em quando se afastem um pouco, que vão passar um fim de semana, que eles conseguem desligar?
Tecnicamente, até irão passar o fim de semana. Desligar é que é o diabo. Eu acho que nunca desligam. E mesmo quando vão passar o fim de semana, vão eles, a pessoa que eventualmente viva com eles ou as pessoas que vivam com eles, e depois vai uma manada de elefantes de culpabilidade, porque depois nós temos a noção que é quase uma traição termos direito a um fim de semana, a um pôr do sol, uma cerveja à beira-mar. Não, é indispensável. Mas as pessoas são bondosas, são mesmo pessoas bondosas e todos nós ficamos partidos ao meio. Racionalmente percebemos, é fundamental, até porque ao cuidarmos de um, estamos a descuidar de não sei quantos e andamos sempre naquele registo: "Agora, como é que eu vou compensar isto tudo?" Mas sim, quando andamos divididos neste registo, sentimo-nos uma sandes de manhã à noite, todos os dias da semana. E o problema não é depois quando perdemos estas pessoas. Quando as perdemos, temos sempre a sensação que nunca demos tudo aquilo que podemos, mesmo quando demos tudo. O problema vem em seguir, quando ficamos a moer e a remoer uma pequena falha insignificante, mas que às vezes é quase o pretexto pra nós nos castigarmos por não sermos omnipotentes e por não resgatarmos estas pessoas do sofrimento em que elas viviam.
E como é que depois disso se recompõem as peças todas que se foram separando ao longo do tempo? Essas relações que fomos deixando de lado, essas faturas que os filhos vão cobrar um dia.
Eu tenho a ideia que quando nós não pensamos as coisas, as coisas viram-se contra nós. Nós hoje falamos do burnout como se fosse uma invenção recente. Há muito tempo atrás falava-se de um esgotamento nervoso, que não é propriamente um esgotamento nervoso. Nós precisamos de pensar as coisas e quando elas não são pensadas, viram confusão dentro de nós. Eu tenho a ideia que muitas pessoas vivem numa espécie de confusão aparentemente organizada. Elas sentem lá dentro delas imensas coisas fora do lugar, que fazem lembrar aquelas gavetas pra onde nós vamos pondo as coisas, pondo as coisas, pondo as coisas, depois, caricaturalmente, nos desenhos animados, quando se abrem Caem todas em cima de nós. E portanto, muitas vezes as pessoas parecem essas gavetas. Precisam de ser arrumadas, precisam de pôr cá para fora tudo mais, porque o grande problema não é nós estarmos a cuidar com todos os custos que isso tem para nós. O grande problema é que depois as pessoas à nossa volta, se nós não vamos chamando a atenção, e às vezes não chamamos porque são tantas as urgências e as emergências, que não sabemos o que havemos de fazer. Mas o problema é que às vezes nós perdemos um pai devagarinho ou uma mãe devagarinho e perdemos depois a pessoa que vive conosco, porque depois temos sempre a sensação de que ela não correspondeu tão dedicadamente como devia. E, portanto, às vezes, estas experiências de vida são muitas vezes, mais do que às vezes, um efeito dominó por ali adiante. E quando perdemos um, perdemos dois, e três, e quatro. E às vezes os irmãos não se dividem como deviam dividir e de ressentimento em ressentimento, é um trambolhão de todo o tamanho.
E o que vai na cabeça dos pais? Eu vou usar aqui a palavra velhos, não num sentido depreciativo, mas num sentido carinhoso, que eu acho que a palavra velho também tem.
Devia ter mais, não é?
Exatamente. Como é que eles se sentem?
Adorava poder dizer as asneiras na rádio, mas não posso.
Podemos sempre pôr um pi.
É horrível. É horrível, porque nós somos pessoas de uma sensibilidade e de uma intuição fora de lugar. Os nossos pais tiram-nos a medida, porque são os nossos pais. E porque nos conhecem muito melhor do que se calhar às vezes nós próprios nos conhecemos, até ao fundinho da nossa alma. Eles percebem que estão a morrer em suaves prestações, que é uma coisa de uma violência absolutamente sem fim. Todos nós que já passámos por uma cirurgia, temos a noção de que uma coisa tão pequenina como: "Olhe, não se importa de me trazer uma arrastadeira?" É uma coisa humilhante e nos dá a dimensão da nossa fragilidade. Mas isto todos os dias é tão duro, sabendo eles que o desenlace é mais ou menos aquele e não outro qualquer. É tão duro, que eu acho que às vezes os nossos pais fazem um esforço para morrer mais depressa, para não nos incomodarem, para não se violentarem mais. E eu acho que às vezes nós lidamos com as pessoas como se elas não sentissem, não pensassem. Elas sentem e pensam muito melhor do que nós.
O "Porque Sim Não é Resposta" acontece de segunda a sexta-feira. Temos encontro marcado a esta hora na segunda-feira. Bom fim de semana.
Bom fim de semana.
Bom fim de semana.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.