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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de recomeçar depois de uma separação. Olá, Eduardo. Uma separação, mesmo quando é a decisão dita certa, é sempre uma perda. O que se perde para além da relação em si?

Olá, Judite. Perde-se a segurança que se tinha. Às vezes, perde-se a convicção de podermos encontrar alguém com quem consigamos sintonizar de uma forma sólida e que nos faça crescer. De repente, ganha-se uma mão cheia de dúvidas e aquilo que nós observamos, aquelas expressões do gênero: "Enquanto eu me lembrar desta situação, eu não meto outra, nem de perto, nem de longe, semelhante." E, portanto, ganha-se uma instabilidade muito grande, porque se por um lado é muito importante termos a noção que vamos voltar a mandar na nossa vida, como se calhar não mandávamos até aí. Por outro lado, temos sempre alguns arrepios, porque há muito espaço, muitas exigências, se calhar muitas expectativas e se calhar muitas faturas que nós temos noção que vamos apresentar a uma outra, qualquer pessoa, que venha a aparecer na nossa vida e que manifestamente não tem nada a ver com elas.

Há quem entre imediatamente numa nova relação e quem demore anos. Isso tem a ver com o facto de se perder essa confiança, esse projeto em comum?

Não, Judite, às vezes entra-se numa nova relação porque, em boa verdade, ela já existia ou pelo menos já se vislumbrava antes de se dar uma separação. A verdade é que há pessoas que sentem que um processo desse é um processo tão difícil, e é muito difícil, é duro, é um processo mais solitário do que pode parecer. É um processo em relação ao qual às vezes temos que chegar de frente com algumas pessoas da nossa família e isso dói. Depois há os filhos, que tornam isso tudo muito mais difícil. E portanto, às vezes, sim, precisa-se de uma relação pra conseguir dar um passo que sem ela se tornaria difícil, por uma razão simples, porque quando estamos e não estamos, ou quando aparece alguém na nossa vida, que nos vira de uma vez, temos ali por momentos a noção de que podemos estar a trair duas pessoas ao mesmo tempo, e isso é muito duro e não é tão suportável assim. Às vezes, porque há pessoas que têm muito medo de estar sozinhos e, portanto, precisam ir a correr encontrar alguém, não porque seja uma pessoa que passe numa avaliação, que é mais experimentada e, portanto, mais minuciosa. E às vezes essas escolhas são um bocadinho impulsivas demais, com tudo o que isso traz a sequis. Às vezes, uma pessoa sai tão maltratada que precisa de um longo caminho para se certificar que volta a acreditar no amor. E, de alguma forma, deixa de ter os dois pés atrás, como às vezes acontece. E timidamente, depois vai aceitar os sinais que outras pessoas, mais tarde ou mais cedo, entendam trazer. O que é importante é que fique claríssimo, e acho que todos nós temos um bocadinho essa experiência, de que não há uma altura, um ritmo, um formato que seja adequado nisso tudo. Depende de tantos fatores, nossos e muitos outros que não são, de facto, nossos, que depois, entre páginas em branco e zonas opacas no meio de tudo isto, nós precisamos, às vezes, de muito tempo para perceber como é que uma relação se estragou, onde é que nós colaboramos nisso tudo e com que aprendizagens saímos dela para que, a seguir, possa haver um novo recomeçar.

Como é que se sabe que se está pronto para esse recomeçar?

Recomeçando. Recomeçando, Judite. Eu acho que quando nós temos experiência de vida, estamos todos a sair de uma relação abalada. Portanto, não vale a pena termos a ideia de que ficam os dossiês todos esclarecidos, porque as coisas não são, de facto, assim. E quando é que nós temos a ideia de que aquela pessoa que aparece, entretanto, na nossa vida, pode ser uma pessoa muito importante? Quando começamos com muito medo. Quando começamos com muito medo na outra relação, é bom sinal. É sinal que aquela pessoa nos vai dando sinais de que pode ser muito importante. E aí não estamos preparados por termos resolvido todos os dossiês. Estamos preparados porque de repente os sinais que nos chegam são tão arrebatadores que um lado de nós diz: "Tem cautela", e outro diz: "Por que não?" É mais assim.

E com essa pergunta ficamos por aqui hoje. Amanhã trazemos mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Todos os episódios ficam disponíveis nas plataformas digitais habituais. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Um abraço e obrigado e até amanhã, Judite.