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Bem-vindos ao "Porque Se Não É Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Olá, Eduardo.
Olá, Ricardo.
Hoje vamos falar de um tema que, à primeira vista, até pode parecer ficção científica, mas se calhar está muito mais perto. Vamos falar sobre a forma como a inteligência artificial está a ser usada para combater a solidão. Há exemplos nos Estados Unidos com robôs. São máquinas que representam ou recriam animais domésticos, que têm inteligência artificial e interagem com os idosos no objetivo de combater a solidão dos idosos. Eduardo, as máquinas já falam conosco, já conseguem responder às nossas perguntas, já conseguem interagir, umas vezes melhor, outras vezes pior. As máquinas podem vir a ser, ou são, uma boa companhia?
Não. Quer dizer, ni. As máquinas são uma excelente companhia. Nós vivemos dependentes delas a todo momento e de facto, à conta delas, a nossa vida foi ficando aparentemente mais simples, muito mais fácil de gerir. Lavam-nos a loiça, por exemplo. Às vezes não nos descascam as batatas, mas já nos cozinham aparentemente muitas refeições. Permitem-nos estar em comunicação o tempo todo e, portanto, sim, eu compreendo que haja uma tentação de imaginar que um dia o mundo possa ser substituído em muitas das funções que hoje nós observamos por máquinas, e é isso que vai acontecer. Aquilo que me parece que às vezes é escorregadio, é pormos a máquina a fazer de ser vivo, porque há uma diferença essencial. Desde logo, porque simular sentimentos e experimentá-los são coisas diferentes.
Claro!
Portanto, nessas circunstâncias, eu às vezes acho engraçado que se fale da inteligência artificial com um fascínio absolutamente fora de lugar, porque nos dias em que eu estou um bocadinho mais cínico, costumo dizer que aquelas pessoas que todos nós conhecemos no nosso percurso educativo, que nós chamávamos de uma forma muito apreciativa, marrões e que não eram capazes de namorar, nem de jogar à baliza, são um excelente exemplo de inteligência artificial que o sistema educativo ainda permeia. A inteligência não é isso, a inteligência humana é esta capacidade plástica de nós apanharmos tudo aquilo com que a vida nos surpreende e de recriarmos a vida. Que nós depois ponhamos alguns robôs, alguns deles com um nível de inteligência artificial mais sofisticado, aparentemente a falar como nós, eu entendo. Mas que confundamos a importância absolutamente indispensável das pessoas, nomeadamente das pessoas, e que ocupemos algum lugar fundamental no que diz respeito, sobretudo à solidão, com robôs, a mim preocupa-me, porque pôr um robô a tratar da solidão é uma maneira de ela ficar mais acentuada mais rapidamente.
Exatamente. E não deixa de ser também um paradoxo que as máquinas nos facilitem o trabalho, que nos poupem ao trabalho e nós, enquanto espécie, apesar disso, queremos trabalhar ainda mais e queremos produzir ainda mais e não estamos a utilizar esse tempo e essa tranquilidade que a máquina nos dá para o lazer, para o ócio, para o amor, para a amizade. Não deixa de ser estranho isto.
Sim, nós matamo-nos literalmente a trabalhar. É muito importante que haja cada vez mais chamadas de atenção nesse sentido, para que nós tenhamos a noção que o modo como nós trabalhamos exageradamente, e note-se, ainda antes dos dados da pandemia, nos permitem perceber que há níveis muito acentuados das mais diversas doenças que resultam deste mau uso do trabalho. Portanto, isso leva-nos a pressupor que ou as entidades para as quais nós trabalhamos são literalmente gananciosas e nos exploram até nós cairmos para o lado, ou nós, no fundo, deixamo-nos engolir por uma engrenagem com às vezes ambições desmedidas, onde não cabe a ambição de termos uma vida, de termos uma família, de termos espaço para irmos à festa de Natal ou ir buscar os nossos filhos à escola, etc. E portanto, sim, nós de repente entramos numa voracidade tal que nem sequer acabamos por usar aquilo que de bom as máquinas e depois a inteligência artificial nos trará para termos uma vida mais próxima daquela que todos nós temos direito a ter.
Então voltemos aqui aos gatos e aos cães robôs e voltemos também à inteligência artificial. Nesta pergunta, Eduardo, vou talvez colocar todo o pessimismo que eu tenho em relação à humanidade, mas quando a máquina, e a máquina é programável, responde àquilo Que nós queremos que ela responda e da forma que nós queremos que ela responda, corremos o risco de um dia, no futuro, virmos a gostar de falar mais com a máquina do que com as pessoas, que podem dar uma resposta torta, podem fazer uma crítica.
Espero ansiosamente que não. Eu tenho alguma experiência disso quando estou a tirar um ticket na autoestrada, porque há alguns postos da Brisa que têm o som, o volume no máximo.
Exato.
Falam pra nós como se fôssemos tão rudimentares a utilizar as moedas na ranhura certa e a esperarmos pelo ticket, que de repente só nos apetece insultar a máquina. E a liberdade de insultar uma máquina é uma coisa magnífica, porque a máquina não nos responde.
Mas o pior é que já tem capacidade pra responder.
Pois. Um destes dias uma pessoa diz uma coisa feia e a máquina diz: "Vai tu!"
Exato.
Que é uma coisa desconcertante que nos vai deixar petrificados. Mas sim, eu tenho muito medo que quando nós chegarmos aí, nós tenhamos morrido no essencial, porque a capacidade de nós traduzirmos a vida em palavra é aquilo que nos distingue a todos os níveis. Na maneira como a perspectivamos, na maneira como a recriamos, na maneira como a compreendemos, na forma como no fundo somos capazes de chegar até o outro. E de repente, quando o outro é um conjunto de circuitos frios, absolutamente programáveis, onde a simpatia é pré-fabricada, mal vai o mundo, porque aí a humanidade deixou de ser humanidade e passou para um híbrido muito difícil de classificar.
Portanto, é fundamental até pro nosso equilíbrio, pra nossa vida saudável, ouvir os amigos, os familiares, a mulher, o marido, os filhos, a dizerem-nos umas verdades de vez em quando.
Sim.
Aquelas duras.
Sim, "não é pra te magoar", mas depois quando eles levantam a sobrancelha, nós pensamos: "Pronto, já está". E toda esta linguagem que se faz com palavras, com gestos, com toda a mímica, com os nossos olhos, é uma linguagem tão fantástica e que nos torna tão mais versáteis para compreender a vida, que no dia em que nós estivermos dependentes da linguagem de um robô, nós estamos a morrer pra vida mais do que parece.
Quando estava aqui a preparar o programa de hoje, lembrei-me, há um filme muito interessante que se chama "Her", "Ela". A minha pronúncia inglesa fez parecer que era "hair", cabelo, mas não, é "Her", ela, em que a personagem principal se apaixona por um sistema de inteligência artificial. Tem a voz da Scarlett Johansson, portanto, isso ajuda a compreender. Isto parece-nos tudo muito irreal, mas o que é fato é que nós estamos a viver cada vez mais tempo e cada vez mais sozinhos em cidades gigantes, em que muitas vezes não sabemos o nome da pessoa que dorme do outro lado da parede onde nós dormimos, não é?
Sim. Isso é trágico. Quando nós precisamos de ir a uma máquina escutar as palavras e a delicadeza, e às vezes a aparente sensibilidade, que as pessoas que são importantes pra nós ou que deviam sê-lo, não conseguem ter pra conosco. Quando nós precisamos nos refugiar numa voz que pode ser inacreditavelmente sedutora, mas que não é de ninguém que seja palpável e que seja um bocadinho nosso, para ouvirmos aquilo que nós precisamos tantas vezes de ouvir, até pra nos conhecermos melhor, significa que nós vivemos cada vez com mais recursos e num registo que corre o risco de ser, em muitos momentos, com muitas aspas, naturalmente, cada vez mais autístico.
Pensando naquilo que vai ser um futuro próximo, Eduardo, acha que vamos mesmo avançar com aquela ideia do direito e o dever de desligar, e de nos desligarmos e obrigarmos a conhecer pessoas, e a estar com pessoas e a conviver com pessoas, que a pandemia nos tirou um pouco, suspendeu-nos esse direito de estar cara a cara, mas vamos avançar pra aí até para nos mantermos vivos.
Vamos. Eu tenho visto com alguma perplexidade muitas pessoas chamarem a atenção pro modo como as crianças da pandemia vão ter graves carências sociais. Eu acho exatamente o contrário. Eu acho que estas pessoas esqueceram-se, por exemplo, que houve uma Primeira e uma Segunda Guerra Mundial, que muitos dos nossos bisavós, dos nossos avós viveram. E que no meio desse sofrimento todo, que foi um sofrimento muito mais acentuado ainda do que este que nós estamos a viver, foram os pais, com a sua capacidade de garantirem uma atmosfera de bondade, que nos foram dando os recursos pra crescermos. E, portanto, nós percebemos muito rapidamente, num ano e pouco, o quanto era frágil a nossa vida e o quanto eram importantes tantas pessoas que circunstancialmente deixamos de ter ao pé de nós. Isto vai mudar, mas não vai mudar pra pior. Ajuda-nos a ficarmos mais humanos e a perceber que, ao contrário daquela ideia muito modernista, de quanto mais individualistas, mais vitoriosos, é exatamente o contrário. Quanto mais capazes de fazermos pontes e de percebermos a importância dos outros e de desligarmos pra aquilo que é supérfluo, dando importância àquilo que é indispensável e essencial, mais nós crescemos como pessoas. E só espero que não acabemos a cair pro lado de tanto trabalhar e possamos aprender a viver enquanto temos oportunidades para gozar a vida. Não é gozar com a vida, que é aquilo que muitos de nós fazemos.
É o que está a fazer nesta altura a Ana Filipa Rosa, que está de férias. Ela, a nossa anfitriã, que vai regressar, obviamente, em breve e desejamos umas ótimas férias, que ela bem merece. E pode sempre partilhar conosco as suas opiniões ou sugerir temas pra estas conversas com o Eduardo, através do e-mail eduardosa@observador.pt. O "Porque Senão É Resposta", na Rádio Observador, vai sempre ao ar depois do jornal das 17:00 e está também sempre disponível em podcast. Eduardo, um forte abraço e bom fim de semana.
Um grande abraço. Um bom fim de semana pra você, Ricardo.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!