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Tudo pronto para mais um episódio do "Porque Senão é Resposta". Eu sou a Ana Filipa Rosa, em estúdio está o Ricardo Conceição e conosco o Eduardo Sá. Olá!
Olá.
Olá, Ana Filipa, olá, Ricardo.
Hoje vamos falar de um estudo da Comissão Europeia: a solidão duplicou na União Europeia entre abril e julho de 2020, no início da pandemia de Covid-19, sendo Portugal o sexto país europeu com maior subida. O estudo mostra que o sentimento de solidão aumentou em todos os grupos etários, mas Bruxelas alerta que são os jovens o grupo mais afetado pelas medidas de confinamento e distanciamento social. Eduardo, havia pouca consciência da solidão antes da pandemia ou o contacto face a face, esta forma essencial de contactarmos uns com os outros, não era reconhecida como tal, ou muitos de nós despertamos para a importância de tudo isto também durante este período?
Sim, mas também, Ana Filipa, eu acho que as autoridades, nomeadamente as autoridades políticas, descobriram que a saúde mental afinal existe e começaram a dar atenção a um conjunto de estudos que talvez em condições normais não valorizariam como deviam. Portanto, nessas circunstâncias, isso levou-os a perceber que a saúde mental vai ter que ser uma realidade cada vez mais significativa, não só porque o teletrabalho veio para ficar e não é mau que seja assim, mas porque de facto, tudo isto nos ajuda a perceber que temos andado demasiado distraídos de uma realidade para a qual não nos podemos distrair e que os conflitos no trabalho, o absentismo no trabalho e tantas coisas mais têm muito mais a ver, já nem falo de muitas outras doenças, com a saúde mental do que pode parecer. Portanto, é a altura de uma forma corajosa e sem querermos, de repente, pôr toda a gente num divã de um psicanalista. Nós temos que pôr isso na agenda e perceber que não é por medicarmos a granel que temos a saúde mental em consideração, temos que ser mais corajosos, mais ousados e muito mais preventivos, porque se nós lidamos com a saúde mental num contexto de bombeiros voluntários, evidentemente que vamos constatando a solidão, como agora aconteceu com a pandemia, mas depois andamos a apagar fogos e não prevenimos que eles existam.
Eduardo, mas isso na prática traduz-se em quê? O que é que poderia ou já deveria estar a ser feito e não está?
Muitas coisas. Ricardo, muitas coisas. Eu acho que definitivamente temos que perceber que todos nós temos com o trabalho uma relação mais doentia do que devia ser. Não é pecado que o trabalho tenha uma dimensão lúdica em nós e que nós nos possamos divertir trabalhando. Trabalhar mais horas ajuda a que fiquemos doentes. Termos aqueles horários contínuos, que na prática dão um jeitão, porque se sai mais cedo, nem sempre é tão razoável assim. Termos espaço para comunicar no contexto de trabalho é absolutamente fundamental. O trabalho de equipa, que é um slogan para o qual já não há paciência, porque toda a gente acha que de facto é um trabalho de equipa. São raríssimos os sítios onde as equipas são equipa, raríssimos. São mesmo muito raros e portanto era altura de nós começarmos a transformar as equipas em equipas verdadeiramente. Nós temos que dar outra importância também à vida familiar, em tudo o que ela implica. Uma política da família não é uma coisa que seja luxuosa, nem sequer deve ser taxada com o imposto de luxo. Nós temos que ter a noção que compatibilizarmos vida pessoal e trabalho são coisas fundamentais. O discurso público sobre muitas coisas tem que ser um discurso muitíssimo mais honesto, porque de facto lida conosco como se nós não estivéssemos autorizados a pensar, só estivéssemos muito mais capacitados para reagir. E obviamente temos que perceber que quando as pessoas fazem um apelo desesperado e dizem: "Já não posso mais", ou chegam ali a um pico de um ataque de pânico, que é como quem diz: "Eu aguentei até não poder, mas de repente isto é uma represa que começa a fugir do controle", significa que nós perdemos oportunidades para nos conhecer, perdemos oportunidades para aprendermos a lidar com os sentimentos com que a vida nos vai premiando todos os dias. E portanto, implica também uma outra ideia do que se quer para um acompanhamento psicológico. Não significa que as pessoas estejam doentes, significa é que quanto mais argumentos tiverem para se conhecerem e para lidarem com aquilo que, no fundo, é toda a riqueza fabulosa do seu psiquismo, mais têm recursos para serem proativos, autónomos, muito realizadores de sonhos e obviamente muito mais capazes de estarmos uns com os outros.
Em relação a esse apoio, há pouco o Eduardo falava também do imposto de luxo, isto é uma questão antiga. Que esse acompanhamento às vezes não está ao acesso de todos e, portanto, possivelmente esta consciência maior, esperemos nós, também mude um bocadinho isso?
Sim, eu tenho muita esperança Que seja assim. Há muitos anos, o meu querido amigo Jaime Milhares chamava a atenção para uma coisa gravíssima, que foi a maneira como os centros de saúde mental infantil que existiam em Portugal e que produziam um trabalho notável e que tinham pessoas fora de lugar, o meu queridíssimo António Coimbra de Matos à frente e o doutor João de Santos antes dele, eram pessoas de referência, que eram referências na saúde mental e que foram sendo esvaziados aos bocadinhos. E, portanto, é a altura de nós percebermos como é que se promove a saúde mental. Não imaginem, não disturbe, eu sou, aliás, a antítese disso. Eu não estou a dizer que todas as pessoas tenham que ir ao psicólogo, que todas as crianças pra crescerem saudáveis tenham que estar permanentemente em acompanhamento. Nada disso, por favor. Mas às vezes termos quem nos ajude circunstancialmente a pôr legendas e ensinar como é que se lida com isto ou com aquilo, é tão precioso que de repente é bom que tenhamos a ideia que às vezes medicar parece mais barato, mas medicar por toda a vida, com todas as consequências que isso acaba por trazer, sai tão mais caro a todos os níveis, que feitas as contas, é fácil ter-se uma opção correta.
Eduardo, há aqui vários dados preocupantes neste estudo que a Ana Filipa falou. Mas esta questão de quadruplicou o número de pessoas entre os 18 e os 35 anos que sentiram a solidão entre abril e naquele verão de 2020. Este é um dado muito preocupante.
Ricardo, é.
É gente muito jovem, não é? 18, 35.
É gente muito jovem que em condições normais deveriam estar a namorar à descarada com a vida, como não podia deixar de ser, e que de repente, em função do confinamento, se calhar perceberam que as relações que tinham, eram relações mais descartáveis em muitos aspectos do que aquelas que deviam ser, para serem capazes de aguentar um confinamento, dois confinamentos, como acabou por acontecer. E, portanto, aquilo que os adolescentes diziam, com a sabedoria dos adolescentes, quando eles diziam: "Não aguento outro confinamento, sobretudo, porque eu já não sei se as pessoas que eram minhas amigas antes de ir pra casa continuam a ser minhas amigas quando eu volto pra escola". E este sentimento, às vezes muito volátil de algumas relações, é um sentimento que acaba por ser mais transversal a estas pessoas do que pode parecer. Termos amigos para ir jantar fora de vez em quando não é a mesma coisa que termos amigos do peito. E, portanto, termos amigos do peito é uma bênção tão preciosa, que estimarmos e estimularmos a saúde mental é também começarmos a perceber que termos amigos do peito é um patrimônio preciosíssimo da humanidade, que nós não podemos desprezar, por mais que tenhamos centenas de amigos nas redes sociais, o que não é de todo a mesma coisa.
Certo. Os mais novos ainda estão a atravessar essa fase. É interessante, eu estava a ouvi-lo falar e estava-me a lembrar de uma frase que ouvi no outro dia. Alguém dizia: "Bom, isto de iniciar relações novas agora, nós não sabemos quais são os comportamentos das pessoas em circunstâncias normais, só sabemos em confinamento. Portanto, à partida, às vezes podemos levar um grande susto com aquilo que nos vai aparecer depois de chegar esse freedom day, que toda mundo fala dele. Eduardo, há aqui outra questão também, que a cobertura midiática em toda a União Europeia do fenômeno da solidão também duplicou durante a pandemia. Na sua perspectiva, uma cobertura midiática correta ou não?
Ou não. Sabe por quê, Ana Filipa? Porque nós fazemos um bocadinho isto aqui. E eu acho que é muito engraçado fazê-lo, até pelas reações que vamos tendo das pessoas, que é de uma forma tranquila, de colorinho desabtuado, mas de forma tão clara quanto é possível, chamarmos as coisas pelos nomes e não nos limitarmos a constatar: sim, a solidão existe. Quando é que a solidão existe, Ana Filipa? A solidão existe quando nós sabemos que temos um conjunto de pessoas com quem podemos contar, que às vezes não pescam quase nada daquilo que se passa conosco. A solidão é isto, ou seja, não é estarmos sozinhos, é termos, de facto, pessoas para as quais nós somos realmente importantes e que são pessoas preciosas pra nós, mas que não nos podem ver tristes, ou que não nos podem ver calados, ou não nos podem ver à beira de um ataque de nervos, e até pedem o favor pra nós as pouparmos de estar assim ao pé delas. E, portanto, a solidão é sobretudo isto: é termos pessoas muito importantes que às vezes não nos conhecem e que parecem não saber as passwords pra mexerem conosco e parecem não ser capazes de falar à margem das palavras e de não ser capazes de ler o nosso olhar. E isso é, de facto, a solidão. E, portanto, nós temos que ser mais exigentes com as pessoas que são importantes pra nós, nem que seja às vezes levando-as pelas mãos, dizendo assim: "Olha, quando eu estou feito parvo, a legenda é esta, aquilo que eu no fundo estou à espera é que tu faças isto". E quando nós podemos usar os meios de comunicação pra transformar aquilo que parece complicado, como saúde mental, em coisas papáveis e simples, o mundo fica tão estranhamente apetitoso que apetece viver ainda mais.
Mas Eduardo, com tudo isto que nós passamos, com tudo isso que acabou de dizer, ainda não aprendemos, pois não?
Não. E eu tenho tanto medo do Dia da Libertação, sabe, Ricardo? Porque ansiamos todos, ansiamos isso, vai ser uma festa. Vai ser uma festa bonita, com toda a certeza, porque de facto isto tudo tem sido uma guerra a nível global e com batalhas ganhas aqui, com batalhas perdidas em muitos sítios que não têm dinheiro pra vacinas e outras coisas do gênero. Mas a poeira da saúde mental vai cair depois do Dia da Libertação, porque agora andamos todos a sobreviver, a fazer pela vida, etc. E quando tudo voltar à normalidade e nós percebermos que nem tudo está igual, é que vamos perceber que as coisas são complicadas. E, portanto, é aí que, no fundo, nós vamos perceber que se calhar percebemos pior do que às vezes imaginamos neste momento, que de facto temos todos alguns parafusos um bocadinho mais fora de sítio. Pra alguns é muito melhor, ficam mais bonitos, pra outros nem por isso, claro.
Certo. Amanhã vamos continuar a falar desta questão da saúde mental também no "Porque Sim Não É Resposta" comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Até amanhã.
Até amanhã.
Até amanhã.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!