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Começa agora mais um Porque Sim Não É Resposta com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de viajar em família, à boleia de uma ouvinte que diz que viajar em família é o melhor investimento que se pode fazer. Mas, olá Eduardo, o marido não concorda e normalmente adia a decisão. A ouvinte faz questão de dizer que são financeiramente estáveis, portanto, o dinheiro aqui não é um problema, mas são duas perspectivas, são dois pontos de vista diferentes.
Olá, Tita. O que eu hei de dizer que não dás o marido desta ouvinte um bocadinho blindado, não é, Tita? Vamos lá ver. Eu acho magnífico viajar, em primeiro lugar, e viajar em família eu acho fantástico. Porque isso traz tantas experiências e tantas histórias diferentes. Aproxima de tal forma a família e, portanto, faz com que ela seja significativamente mais família ainda, que me parece que podendo, naturalmente, e já agora querendo, mas podendo, acho que devia ser quase obrigatório fazer isso. Infelizmente, fico muito preocupado por haver muitas pessoas que gostariam muito de ter esse privilégio, mas em função de uma conjuntura meio enlouquecida que todos vivemos, acabam por não poder fazer. Mas sim, acho fantástico, acho ótimo que as pequenas experiências tragam pequenos mundos aos nossos filhos e, às vezes, surpreendentemente, às vezes muitos anos depois, Tita, eles põem em cima da mesa um conjunto de coisas em que repararam e em relação às quais pareciam tão distraídos quando eram pequeninos e passaram por elas, que nós às vezes nos perguntávamos: "Mas terão ido?" E, portanto, agora acho que o grande trabalho desta nossa ouvinte é dizer a este marido: "Há uma estação de rádio fantástica, que tem umas conversas ainda melhores." E talvez consiga dar um empurrãozinho e persuadi-lo a mudar de opinião, porque se calhar ele sai a ganhar mais do que parece, por mais que, enfim, num primeiro momento, por receio, por comodismo, seja pelo que for, se bem que num primeiro momento não ache muita graça a esse tipo de coisas.
É interessante aquilo que o Eduardo estava a dizer sobre o fato das crianças lembrarem-se das viagens. Fica de facto ali na memória o destino, o tempo que foi passado em família. São pedaços importantes pra o crescimento.
Isso, Tita. E as historietas, às vezes não são as histórias. É um episódio aparentemente insignificante, que funciona como uma espécie de fixador deste tipo de experiências à memória e que faz com que, à boleia dele, de repente comecem a discorrer todo um conjunto de episódios de uma dada viagem, que nos levam, de facto, a perceber que eles estiveram lá e que estiveram muito mais atentos do que pode parecer e que daí vem um conjunto de pequenas sabedorias que todas juntas lhes dão o mundo. E eu acho magnífico que os nossos filhos tenham o mundo pra perceberem que, afinal, às vezes andamos demasiado centrados em nós próprios e quando percebemos que há pessoas que às vezes são muito diferentes, e às vezes mesmo num país tão pequenino como o nosso, são realmente muito diferentes, dá-lhes uma dimensão de segurança, porque afinal as pessoas não parecem tão cheias de arabescos e arestas como muitas vezes alguns imaginam, e ao mesmo tempo abre-as para os outros degraus que vêm a seguir, pra outras viagens eventualmente mais complexas e um dia que sejam mais crescidos e que tenham o privilégio de estudarem, de estar numa universidade, darem um pulinho num programa Erasmus. Foi das coisas mais bonitas que se fez no meio universitário, porque afinal de contas nem é tanto por aquilo que eles vão aprender, é pela escola de vida, que é tão indispensável, que juntando com tudo o que eles tanto aprenderam, faz deles pessoas melhores. E eu acho que às vezes nós pomos o acento tônico na escola. E somos tão negligentes, mas tão negligentes, Tita, em relação à escola de vida que eles precisam de ter e sem a qual ficam um bocadinho peças de porcelana, quando todos os queríamos todo-o-terreno, claro.
Esta mãe diz que é sempre ela quem insiste, quem organiza tudo. Desgasta ser sempre aquele que puxa pela família nestas circunstâncias? É desgastante?
Se não estivéssemos na rádio, eu diria mesmo que chateia, percebe? Desgasta muito. E sobretudo desgasta de uma certa forma. Claro que em todas as famílias há sempre alguém que tem estas despesas a seu cargo E planeia, etc. E o grande problema é quando planeia uma vez e as coisas correm bem. Porque a seguir fica toda a gente muito confortável e a reclamar quando as coisas correm um bocadinho fora do previsto, porque aquela pessoa passa a tomar conta de todos. Mas eu também acho que é importante que nós tenhamos a noção que, por mais que quem faça isto goste muito de o fazer e faça em função dos ganhos e da proximidade que isto traz a todos, às vezes também é um motivo pra uma pessoa se sentir um bocadinho desamparada, porque é um pouco assim: se eu não cuidar desta gente toda, se eu não mimar esta gente toda, quem é que acaba por fazer aquilo que eu faço e, de alguma forma, tem o cuidado comigo que eu tenho com os outros? E, portanto, não que uma pessoa ande sempre com uma calculadora no lugar do coração, mas tudo o que é mais recíproco é muito mais aconchegante. E, portanto, alguém que chama a si este tipo de tarefa e que faz com que depois vá toda a gente um bocadinho à boleia, fá-lo com enorme gosto, com uma razão de ser muito clara pra tudo isto, mas às vezes com o sentimento de quem está um bocadinho sozinho e que se não for esta pessoa a puxar por aquela gente toda, eles ficam, de uma forma aparentemente preguiçosa, a viver a vida delas. Quando, de fato, ir à procura do mundo é uma coisa tão mais estimulante, tão mais bonita, que é um desperdício quando não se leva isso por diante.
Fazia sentido trazer este pai, este parceiro, para dentro do projeto pra ela fazer o orçamento, por exemplo?
Urgente. E a brincar, quando as tarefas se dividem, todos ficamos mais humildes, porque aquilo que a mim me incomoda, e quantas vezes não escuto isso em tantas famílias, é que há alguém que chama a si estas tarefas e faz com carinho imenso. E depois, há sempre alguém, às vezes o pai, às vezes a mãe, às vezes um irmão, enfim, há sempre alguém, às vezes um amigo, que tem uma lata de todo o tamanho e quando alguma coisa corre mal, porque às vezes há coisas que não correm milimetricamente de acordo com aquilo que foi planeado, ainda por cima protestam, reclamam, como se no fundo estivessem a pagar um serviço e estivessem muito mal servidos. Isso eu acho muito injusto, mas eu acho isto em relação às viagens e, já agora, também acho em relação aos fins de semana de família ou aos fins de semana amorosos, porque esta ideia de: "Ok, vamos jantar, marca tu." E o marca tu ser sempre encomendado à mesma pessoa, faz com que quem tem esse tipo de movimento, a certa altura se canse e diga assim: "E eu? Sou suficientemente importante para que alguém tenha o cuidado e a dedicação que eu acabo por dar aos outros?" E, portanto, às vezes nós abandonamos devagarinho as pessoas sem as abandonar, porque de alguma forma as destratamos devagarinho e destratar devagarinho magoa e devia ser proibido. Simples.
É preciso bom senso até nisto. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
O abraço é seu, Edite, e até amanhã.