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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave". Está no ar a edição de domingo, comigo, João Costa e Silva, e também com o José Rafael Lopes e com a ajuda imprescindível, ainda que hoje à distância, mas perto da praia. No fundo, já a aproveitar o verão. Marco Neves, olá.

Olá, Marco, como estás? Sê bem-vindo.

Perto da praia. Olá. Neste caso, eu estou a aproveitar o verão, é verdade, mas estou aqui perto da praia, não por causa das férias, mas por causa dos meus pais.

Desculpas. Abandonaste-nos.

Estou na minha terra, estou em Peniche. Aliás, estou perto de Peniche, estou em Casais de Mestre Mendonça, que é uma terra com um nome muito engraçado, aqui no concelho de Peniche, que é onde moram os meus pais. Cá estou eu.

Mas mesmo à distância.

Estou sempre aí.

Exatamente. Mesmo à distância, acabas por estar sempre perto e sempre com um olho nas notícias e na forma como a língua está lá. Portanto, é altura de irmos à língua das notícias.

Vamos à língua das notícias, sim.

Marco Neves, esta semana não sei onde é que andaste a ver notícias, mas traz aqui um tema um pouco macabro.

Sim, a culpa não é minha.

Nossa também não é.

É de alguém. Eu ainda pensei falar de incêndios e de bombeiros, porque na verdade devíamos fazer aqui uma homenagem aos bombeiros que andam a combater os incêndios pelo país fora, mas acabei por decidir virar-me para a palavra decapitação, que esteve nas notícias esta semana, por causa de um caso muito macabro, como estavas a dizer, que nos acompanhou durante alguns dias e ainda acompanha. É só aqui um pequeno apontamento sobre esta palavra, que é rara, felizmente, que é muito raro encontrarmos esta palavra nas notícias, que tem lá dentro aquela versão da palavra cabeça, muito mais antiga, que é caput, que era cabeça em latim. Decapitação vem dessa palavra. Aparece em sítios que nós talvez já não associemos muito, como por exemplo, capítulo. Capítulo de um livro, tem lá aquela palavra também. Queria só ainda fazer aqui um apontamento, porque vai se ligar a uma coisa que vamos falar ainda hoje, lá mais pro final do nosso programa. Há uma língua aqui próxima de nós, o catalão, onde cap quer dizer cabeça, mas também quer dizer nenhum, o que é muito estranho. Isto aconteceu como aconteceu também com o pas francês, quando nós dizemos "je ne sais pas", que o pas queria dizer passo e depois com o andar do tempo acabou por querer dizer um pedaço e depois acabou por querer dizer nada. É um pouco estranho, mas as negativas nas línguas latinas, e não só, funcionam de forma muito particular, mas ainda vamos falar disso hoje. Foi só este pequeno apontamento. As notícias não são muito boas, não foram muito boas esta semana.

Não foram de todo.

Mas é assim. E quem está agora a entrar de férias sabe que são férias em que olhar para as notícias nunca é uma boa ideia.

Não traz nada de bom. Entretanto, vamos avançar, vamos falar de outras coisas, até porque está a chegar, e vamos agora até ele, até ao Mapa da Língua. Mapa da Língua. Marco, vamos falar do mês de agosto?

Podíamos falar do mês de agosto. Vamos falar do mês de agosto, porque no fundo as pessoas podem perguntar: "Mas o que isso tem que ver com o mapa?" Bem, é a altura em que as pessoas viajam.

Sim. Não pensaste na canção "Meu querido mês de agosto"?

Pensei. Há muitas canções aqui por esta altura do ano. Finais de julho, início de agosto.

Sim.

O que eu ia dizer? Ia dizer que nós temos o mês de agosto, que tem este nome que todos nós conhecemos, mas que já teve outro. Nós já falamos disto uma vez. Não sei se se lembram.

Por acaso, não.

O mês de agosto teve o nome sextilis. Poderia chamar-se sextilis ou seria hoje sextil. É o sexto mês, apesar de ser o oitavo. E não sei se querem perguntar por que razão.

Eu ia te perguntar isso. Por quê? Por que é o sexto se é o oitavo? Varremos alguns meses, é isso?

Não, os romanos gostavam de brincar com a nossa cabeça e começar a enervar. Não, é porque a certa altura o calendário tinha apenas 10 meses e o mês, que é hoje agosto, era o sexto mês e chamava-se sextilis. Depois foram introduzidos dois novos meses, que foi o janeiro e fevereiro, e muito depois, o mês de agosto ainda se chamava sextilis.

Então quer dizer que eu podia não ter feito anos em janeiro, podia ter feito anos num mês à frente.

É isso, se o calendário só tivesse seis meses, não fazemos ideia qual é que seria.

Qual é que seria, não é? Mas é interessante pensar nisso.

Sim. Até o ano é algo cultural. Esta divisão de 12 meses foi uma evolução cultural. Mas ficamos com agosto em honra de César Augusto e não com aquele sextilis.

Obrigado, César.

O mês anterior. Fica agradecido aqui, se ele nos estiver a ouvir.

Improvável.

Ótimo. Mas já que estamos no mapa, deixa-me só fazer uma pequena viagem até ao francês, que nós costumamos muitas vezes ir pra França nos últimos tempos, não sei por quê.

Sim.

E nós já, aliás, sinalizamos isso há uns tempos. Os franceses são muito bons a triturar a língua latina e transformaram o mês de agosto em algo que se lê apenas août.

Out.

Ou août. E pronto, é assim. E agora vamos avançar.

Vamos avançar. Até porque temos aqui Não no mapa, mas temos aqui algumas dúvidas e tu queres esclarecer tudo, não é? Então vamos para a nossa última rubrica: Mitos e Origens da Língua. Marco, mais do que mitos e origens, vamos falar de dúvidas.

Sim, porque nós temos um episódio especial para dúvidas na quarta-feira, mas elas têm sido muitas ao longo do tempo e desta vez achei que uma das dúvidas ficava bem aqui nesta nossa última secção, porque está relacionada com um mito da língua. A dúvida é de João Castro, que pergunta se na frase, por exemplo, "não gastou nenhum dinheiro", não deveríamos dizer "algum", porque, na verdade, estamos a repetir a negativa. Não gastou nenhum dinheiro. Estamos aqui com uma dupla negativa que deveria querer dizer uma afirmativa. E aqui é que está o mito, porque, na verdade, não. Na maneira como a nossa língua funciona, a nossa e não só, as línguas latinas em geral funcionam assim. O facto de termos duas palavras negativas não quer dizer que seja uma dupla negativa, isso é um mito. Acontece isso noutras línguas, no inglês, por exemplo, aí sim, de facto, funciona desta forma, mas em português e noutras línguas latinas, não. Quando eu digo: "Não há nada", eu estou a dizer que nada há ali dentro. Não sei se estás a perceber o que eu quero dizer.

Sim.

Não vamos pôr o não como se fosse uma lógica matemática. Não e nada dá um sim. Não é assim que as coisas funcionam. E só para sermos um pouco mais técnicos neste ponto, na nossa língua, o que nós temos é o que se chama a polaridade, ou seja, uma oração, e é a oração que é importante, pode ser afirmativa ou negativa. E dentro da oração, o número de palavras negativas que lá está não importa. Basta haver uma e já é negativa. Duas, continua negativa. Três, continua negativa. Nalguns casos, a nossa gramática obriga mesmo a usar duas, como no caso de "não há nada". Nós temos mesmo de dizer "não há nada", senão aquilo não funciona. E vou só dar exemplo simples. Se eu disser: "Não, não, eu não vou", acho que ninguém interpreta isto como sendo uma série de negações que têm de se anular umas às outras. É simplesmente o reforço dessa negativa. E por isso, é um mito dizer que isto é uma dupla negativa. Não, é uma frase que tem duas palavras negativas, mas que apenas significam uma. Agora, se nós andarmos para trás e olharmos para uma frase inteira e não só para uma oração em particular, aí sim, aplica-se a lógica matemática. Se eu disser: "Não há nada que não me aconteça", o que vocês interpretam?

Que te acontece tudo.

Exato. Nesse caso, sim.

Tu metes aqui matemática, que eu sou um zero à esquerda.

Isto não é matemática.

A minha cabeça já está a andar à roda.

Não, mas diz lá, se eu disser: "Não há nada que não me aconteça", o que é que tu interpretas? Interpretas a mesma coisa que o José.

Sim, exato.

Acontece-me tudo. Quando nós pomos duas orações negativas ligadas uma à outra, então sim, aplica-se aquela lógica do duas negativas dão uma afirmativa. Dentro de cada oração, isso não acontece. Isto foi um pouco complicado, mas é para as pessoas poderem descansar na praia.

Da melhor forma.

Exatamente. Pensar em polaridade.

Exato. Olha, Marco, entretanto, e aqui ainda em resposta ao nosso último episódio de domingo, quando falámos sobre a fronteira, vamos dizer assim, entre a bica e um cimbalino, recebemos aqui algumas respostas no nosso Spotify, no episódio que está lá publicado. O João Borges diz: "Cresci em Matosinhos, fronteira norte com a cidade do Porto, nunca pedi um cimbalino e somente tenho a vaga ideia de ouvir alguém pedir um cimbalino no início da década de 90". E diz que um cimbalino é um termo que não representa muito o norte. É datado e de um uso num raio geográfico muito reduzido. Ou seja, há aqui de certa forma uma generalização.

É uma generalização, e sim, é verdade, eu também já tinha falado com pessoas do norte, e tu próprio és do norte, podes confirmar, que o cimbalino é muito mais raro, seja onde for, e sempre foi, do que a bica no sul. A questão é que a própria bica em si é que tem uma certa fronteira, ou seja, a bica também não se ouve no norte, mas ouve-se no sul, e também cada vez menos, para dizer verdade, exceto em Espanha, como nós discutimos no último.

Sim, depois também temos aqui um comentário da Lúcia Fonseca que diz: "Sim, na Extremadura espanhola, mais perto da fronteira com Portugal, por vezes usam bica. Por outro lado, em Elvas, não noto que se use muito essa palavra".

Nós estamos a deixar a bica para os espanhóis. Eu acho que nós devíamos salvar a bica e começar a pedir bica cá em Portugal com muito mais frequência, para ser uma palavra ibérica com origem portuguesa.

E depois, outro comentário, eu não sei dizer o nome desta pessoa, porque o nome está escrito com três letras, RLA, vamos assumir assim, que diz que até mesmo em Lisboa já parece estranho pedir bica porque os funcionários não percebem.

A sério? É uma boa experiência para se fazer. Eu acho que qualquer um de nós perceberia, mas é possível que haja muitos funcionários que, por serem novos, talvez.

Temos que fazer esta experiência, um episódio ir num café e pedir os dois.

E acho que devíamos fazer campanha, vamos salvar a bica.

Sim.

A palavra, porque a bica em si está mais do que salva.

Salvem a bica.

Salvem a bica. Exato.

Marco Neves.

Estamos a chegar ao fim, mas deixa-me só dizer mais uma coisa. Já que falámos de agosto, e eu não disse isso, mas gostava só de dizer que este também é o mês das línguas, se nós pensarmos bem, porque nós andamos por aí e vemos uma grande mistura de línguas. Isso acontece sempre, em todos os meses. Mas em agosto, em particular, temos pessoas a conversar, às vezes, na mesma frase em francês, em português, que podem ser imigrantes que voltaram cá, ou temos turistas por cá. É o mês das línguas, diria assim. Por isso, fica aqui esta nota.

E de aprendermos todos em conjunto. Marco, nós estamos de regresso na quarta-feira. Dúvidas, enviar para o 91 002 41 85. É o WhatsApp para onde podem enviar as suas mensagens de voz até 30 segundos, se for mais fácil, através do e-mail portuguessuave@observador.pt. Marco, um abraço.

Grande abraço.

E até quarta. Abraço.