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À quarta-feira isto é sempre um sprint e por isso temos de correr mais rápido com o "Português Suave: Especial Dúvidas". Comigo, João Costa e Silva, e com o Marco Neves.
Estás preocupado que aconteça o mesmo que no último episódio em que estávamos a falar da história do "OK" e tivemos de terminar porque o episódio terminou.
Excelente ponto para começar este episódio. Muito bem, seco.
Vão ouvir, peço aos nossos ouvintes que oiçam o episódio anterior. Estávamos a falar da palavra "OK" e eu terminei, contei a história toda, mas um pouco a correr no final, e disse que no final tudo teve que ver com uma história falsa sobre Andrew Jackson, um presidente dos Estados Unidos que supostamente escreveria "all correct", em vez de "all" com "a", escrevia com "o", em vez de com "c", escrevia com "k" e depois espalhou-se o "OK". Mas a história não foi só essa, tinha episódios anteriores que levaram a que-
Que levou?
Estamos a falar também de um outro.
Henrique Pereira dos Santos, apanhaste esta?
Isto é só para obrigar as pessoas a irem ouvir o episódio de domingo. O "OK" depois espalhou-se e só me faltou dizer uma coisinha: por que razão é que o "OK" se espalhou pelo mundo todo? É difícil de perceber como é que esta palavra se espalha. Às vezes é só uma questão de calhou, mas temos vários fatores que ajudaram a que se espalhasse. O facto de o inglês se ter tornado uma língua tão importante, precisamente nas décadas a seguir a esta palavra ter sido criada e começar a espalhar-se nos Estados Unidos, mas também porque é uma palavra curta, rápida, fácil de dizer, com sons que muitas línguas têm, e também é uma palavra muito útil, porque "OK", na verdade, o que quer dizer é: "Eu aceito o que estás a dizer", não quer dizer "concordo". Nem que deixe de concordar, isso não é importante. Eu estou só a dizer: "OK, disseste isso, então vamos avançar." É uma espécie de aceitação passiva do que está a ser dito para podermos avançar com a conversa. E por isso é que é tão útil, e sendo tão útil, acabou por se espalhar pelo mundo todo. E hoje é uma das palavras mais usadas no mundo inteiro.
Claro que sim. Isto faz-me lembrar uma coisa: eu quando escrevo em português, escrevo sempre de forma abreviada, mas se eventualmente estiver a escrever em inglês, até posso escrever, por exemplo, "all OK" ou "OK", mesmo da forma completa, e sinto que em inglês utilizo menos a forma abreviada do que em português.
Repara que a forma completa, na verdade, é uma transcrição fonética daquilo que é uma sigla na sua origem. Se virmos bem, o que é curioso, porque senão vai escrever "all correct", como na origem. Portanto, é uma palavra interessante também nesse aspeto. Mas pronto, temos que correr.
Vamos ao sprint. Vamos voltar. Passe marcha.
Maria José Fernandes pergunta-nos: "Na língua portuguesa existem expressões que parecem não ser as corretas, tais como 'vocês estão', em vez de 'vós estais', ou quando estou a falar diretamente com a minha mãe e digo: 'A mãe quer ir ao café?' Ao falar diretamente com a pessoa, uso o verbo na terceira pessoa." E ela pergunta se isto será um erro de concordância. Maria José Fernandes, muito obrigado pela pergunta. Não é um erro de concordância, é uma característica da nossa e de outras línguas que se chama obliqüidade no tratamento. Ou seja, nós quando falamos com pessoas, com a mãe há intimidade, mas em certas relações de aliados pode haver uma forma de tratamento mais formal. E uma das formas como a nossa língua permite fazer isto é usar a terceira pessoa quando estamos a falar com alguém diretamente. "O senhor presidente quer um café?" Por exemplo, ou: "O senhor engenheiro quer um café?" Nós usamos o título profissional, ou título político, ou simplesmente o título "senhor". "O senhor quer sentar-se?" Ou: "A mãe quer ir ao café?" E nestes casos, a forma verbal correta é mesmo a terceira pessoa, porque nós estamos a ser oblíquos, não estamos a falar diretamente para a pessoa e essa é mesmo a intenção.
E ninguém quer ser oblíquo.
Não, mas somos. "O João quer continuar este programa?"
Quero sim, senhor Marco Neves.
O vocês é outra questão, o vocês é uma redução de vossas mercês e tal como se vê, vossas mercês também implicam o uso.
Mercês ou 'mecês?
Mercês, pois 'mecês já é uma variação. Portanto, vós estais era a forma normal para nos dirigirmos a um grupo, e ainda é, em muitas áreas do país ainda é. O vocês é uma redução de vossas mercês, que no fundo, é parecido com o que acontece quando nós dizemos: "O senhor quer sentar-se?" Simplesmente estamos a usar um termo mais encurtido e reduzido. A pergunta era sobre o verbo, e sim, nestas situações, o verbo tem mesmo de estar na terceira pessoa, mesmo quando nós estamos a falar diretamente para a pessoa, ou seja, mesmo quando pudéssemos pensar que a segunda seria o correto.
Ok, muito bem. Vamos avançar. Quanto tempo é que temos? Ainda temos cinco minutos. Estamos ótimos. Isto no sprint, estamos aqui em forma.
Mais devagar agora nesta nova pergunta. O Marcelo, que já nos tinha enviado umas perguntas.
Marcelo Assis.
Desculpa, o Marcelo, que parece que somos amigos de escola. Não é a primeira pergunta que o Marcelo Assis nos faz e diz que a filha, a Mariá, que ele diz que é assim que se pronuncia, é mesmo o nome dela, Mariá. Ela pergunta por que é que o planeta Terra se chama Terra, se é maioritariamente coberto por água.
Eu adoro estas perguntas.
Mesma pergunta de criança.
Sim.
Muito interessante.
Ó pai, por que o planeta Terra se chama Ter-- estás a perceber. Adoro. Acho amoroso.
Agora vou ter de responder de uma forma um pouco mais técnica, porque já falámos disto. Há casos em que nós temos uma palavra que é usada tanto para algo mais geral como para algo mais particular. Por exemplo, o dia.
E este é um desses casos, não é?
Este é um destes casos. O dia é toda a duração de 24 horas, mas também é só a parte que tem sol.
Exato.
Portanto, o dia e a noite, em conjunção, dá o dia.
Por isso é que depois também há aquela dúvida de até quando é que podemos dizer bom dia, se bem que há pessoas que dizem bom dia para o dia todo.
Porque a palavra dia quer dizer duas coisas, na verdade.
Exato.
Livro, curiosamente, penso que desta não falámos da outra vez, quando falámos disto da outra vez O livro pode ser uma parte de um livro. Ou seja, há livros que estão divididos não em capítulos, mas em livros. O livro é uma parte de um livro. A história toda da humanidade inclui a pré-história e inclui a história. E podemos continuar aqui com exemplos. Quando nós temos uma palavra mais geral, que inclui palavras particulares, nós temos um hiperônimo. Isto é um daqueles termos técnicos que se aprendem na escola.
E que a Mariá ainda vai aprender, se calhar.
Exatamente, se calhar vai aprender, não aprendeu ainda. Por exemplo, móveis, hiperônimo, e depois cadeira, mesa, são hipônimos de móvel. Móvel é hiperônimo. E neste caso, há palavras que são hipônimos e hiperônimos ao mesmo tempo, são o seu próprio hiperônimo. Ou seja, dia é um hiperônimo, dia, quando estamos a falar só da parte que tem sol, é um hipônimo do outro dia. Isto pode ser um pouco complicado, mas é mesmo assim que as coisas funcionam. Se nós fôssemos tentar arrumar a língua para que isto não acontecesse, tínhamos tanto trabalho que acabávamos com uma língua muito diferente.
Sim, e não queremos que na escola seja uma seca aprender tudo isto.
E depois não é só isso, ficávamos sem a possibilidade de ter perguntas como a da Mariá. Isto depois de dizer que Terra quer dizer planeta, mas também quer dizer a parte do planeta que não está coberta por mar. E também quer dizer algo que nós podemos pegar. A terra que nos suja as mãos e onde nós plantamos coisas.
Dualidades, não é?
Sim, exatamente. Obrigado à Mariá e ao Marcelo por nos terem enviado a pergunta, à Maria José Fernandes, e por hoje ficamos por aqui.
Sim, e também ao Andrew Jackson, também nos mandou.
Exato.
Ele queria saber.
Ele já lá está debaixo da terra.
Mandou sinais de fumo. Vamos terminar este "Português Suave". Já sabe que pode enviar dúvidas por e-mail, não é, Marco Neves?
portuguessuave@observador.pt ou por telefone. João?
Não é João. É o 91 002 41 85. Olha, neste episódio não ouvimos ninguém. Já temos saudades. A semana passada recebemos um áudio de um pai e de um filho. Foi amoroso.
Agora também queremos receber.
Agora queremos receber um áudio de um pai e de uma avó. Não, de um filho e de uma avó.
Está bem, vamos ver se conseguimos.
Ou de um avô. Eu quero. Vamos chutar para o universo. Marco Neves, um abraço e estamos de regresso no domingo. Não se esqueça, o livro do Marco Neves, o novo, está em pré-venda. Faça já a sua reserva.
"Risos da Língua". Diz aí.