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Começa agora o Português Suave na Rádio Observador, mas já sabe que nos pode também sempre ouvir nas plataformas de podcast, onde recebemos sempre muitos comentários. Olá, Zé. Olá, Marco.

Olá, tudo bem?

Bem-vindos.

Viva, Marco. Como é que estás, tudo bem? Está tudo bem. Não estou na praia.

Não estou na praia. Estás a querer incendiar. Isto porque recebemos um comentário no Spotify, passo a citar: "Caro professor, por que parte do princípio que não estamos na praia a ouvir o Português Suave? Por acaso não estou, mas uma coisa não impede a outra." E é verdade.

É verdade.

E toda a gente sabe que se é caro professor, é direcionado a ti.

Exato, porque nós aqui não temos cargos.

Podia ser uma alcunha. Um de vocês tem alcunha, o professor.

Não. É mesmo pra ti.

Eu acho muito bem que as pessoas oiçam o Português Suave na praia.

Onde quiserem, até debaixo d'água.

Mas não põem altos berros.

Pois, na praia não pode ser.

Toda a praia a ouvir o Português Suave sem querer.

Imagina um bar de praia a ter o Português Suave de fundo.

Não sei. Talvez o consumo de bebidas aumentasse ou não. Não sei, não faço ideia.

Podíamos fazer a experiência.

Um ótimo incentivo.

Vamos seguir. O que temos neste episódio?

Temos revoluções.

No menu.

Temos revoluções, temos menus, temos Cabo Verde. Vamos de França a Cabo Verde.

Uma ótima viagem de se fazer.

Boas praias, tanto num como no outro lado.

Vou a Cabo Verde nas férias, portanto vamos já aqui antecipar o cenário. Vamos então arrancar este Português Suave, episódio de domingo, como é habitual, com a Língua nas Notícias.

A Língua nas Notícias, no Português Suave, com Marco Neves. E vamos fazer uma viagem até à Bastilha. Queres falar da Revolução Francesa?

Neste caso, vamos fazer uma viagem para o futuro, porque normalmente nós falamos das notícias da semana anterior, mas neste caso, vamos falar das notícias de amanhã, pra quem está a ouvir isto na rádio. 14 de julho, grande dia da Bastilha, da Revolução Francesa, e por causa disso, achei por bem falarmos um pouco da palavra revolução na Língua nas Notícias, e depois o francês já a seguir no Mapa da Língua. Não é a primeira vez que vamos à França.

Não, já fomos várias vezes.

Já fomos várias vezes. O francês tem uma importância grande pra nossa língua, pra o bem e pra o mal. Há pessoas que ficam muito irritadas com o número de galicismos no português, mas sobre isso falamos já daqui a pouco. Eu queria só lembrar que a palavra revolução é muito importante em muitas línguas, incluindo no português, e no francês e no inglês. Se nós não dissermos nada, só disser "revolução", eu não sei se concordam comigo, a pessoa irá pensar na Revolução Francesa. Talvez seja a revolução.

Talvez seja aquela primeira que vem à cabeça.

Sim. Não foi a primeira, houve outras, mas é a primeira que vem à cabeça.

No meu caso, não. Vem a do 25 de Abril, mas percebo.

Mesmo assim, eu não sei.

É que é uma questão de proximidade, acho eu.

Sim, mas pra mim, o 25 de Abril é o 25 de Abril. Não sei se estão a perceber o que eu quer dizer. Por exemplo, os espanhóis usam com muito mais frequência pra falar do 25 de Abril, a Revolução dos Cravos, em espanhol, claro, do que nós. Se nós pensarmos bem.

Nós dizemos muito mais facilmente 25 de Abril.

Não é que não seja uma revolução, eu só acho é que a palavra revolução pra nós é apenas uma descrição. Mas isto varia de pessoa pra pessoa. Se calhar não é obviamente uma discussão em que cheguemos a algum lado. Dito isto, a verdade é que a Revolução Francesa foi importante, foi uma revolução que mudou a França, mudou o mundo, ainda hoje é discutida, ainda hoje há grandes discussões sobre se tudo somado foi bom, se foi mau, mas eu queria falar apenas da palavra revolução, porque acontece isto em muitas outras palavras. Começa por ter um significado mais técnico. Revolução é um dos movimentos dos astros no céu, dos corpos celestes, e depois começou a ser usada de forma metafórica para qualquer alteração profunda e rápida na sociedade. E isto aconteceu primeiro no inglês e no francês, e depois espalhou-se pras outras línguas. De tal maneira que hoje eu penso que nós pensamos primeiro na revolução política e só depois na revolução dos astros celestes. Ou seja, o uso metafórico acabou por ser o uso principal.

Acredito que 95% não utilize.

95, não sei se não estás a ser um bocadinho... 99,9.

Acredito que 95% utilize apenas o sentido metafórico.

Exato. Mas acontece por vezes. Começamos com um sentido mais técnico, ele expande-se metaforicamente e depois acabamos por esquecer. Esquecer, não, mas arrumamos o sentido técnico numa gaveta e só lá vamos buscar quando é necessário. E queria dizer também uma coisa. É curioso, porque eu aqui estou a falar do significado, não falei, como acontece outras vezes, da forma, de onde é que vem aquela forma "revolu". Hoje não vou fazer isso. É só pra dizer que quando nós contamos a história das palavras, podemos contar a história de duas maneiras: ou a história da forma, de onde é que vem aquela forma, revolução, a forma da palavra, ou a história do significado, do conteúdo. E as duas, na minha opinião, são interessantes e às vezes são diferentes. Neste caso, é uma palavra que, a partir de certos acontecimentos históricos mais pro norte da Europa, acabou por se espalhar pelo mundo com este sentido muito importante pra quase todos os povos. Acho que é difícil encontrar um povo que não tenha tido uma revolução. Não sei.

Isso seria uma bela lição de história para outra altura. Por agora, deixamos a revolução na Língua nas Notícias, até porque temos uma viagem pelo Mapa da Língua.

E vamos até França.

Mapa da Língua, Marco. Continuamos em França, não é?

Sim, continuamos em França.

Isto tudo é só países.

Ainda vamos a Cabo Verde. Hoje não estamos a deixar Portugal de lado, porque já falámos do 25 de Abril, mas estamos a passear por outros países. Eu queria só lembrar um facto muito conhecido da nossa língua: nós temos muitas palavras que vêm do francês, porque durante alguns séculos o francês era a língua da moda, a língua de prestígio.

Eu adoro francês, continuo a gostar muito.

Ainda continua a ser uma língua muito importante, continua a ser ensinada nas escolas. Muitas pessoas queixam-se: "Já ninguém aprende francês." Não, muitas pessoas aprendem francês.

Tu aprendeste francês na escola?

Sim, tive três anos de francês.

Eu tive três também.

Eu acho que foi do sétimo até ao décimo segundo, ainda foram mais uns quantos anos. O francês sempre foi importante e deu-nos muitas palavras. Nós também demos algumas ao francês, e já falámos disso aqui, mas queria lembrar palavras como chef, écran, gare, menu, ou menu, como já há pouco estávamos. Isso é para outro dia. Isso não é para hoje. Ou desporto, porque nós associamos desporto ao sport. Estou já a falar francês. Ao sport inglês, e claro que foi uma influência inglesa, é da Inglaterra que sai a ideia de desporto, mas este D inicial foi por muita influência do francês antigo, neste caso. Que também influenciou o inglês. Muitas vezes há palavras que chegam ao português diretamente do francês, há outras que passam pelo inglês ou até por outras línguas. Já falámos aqui há poucas semanas.

Estou-me a lembrar que há aquelas falsas palavras que nós pensamos e que podem parecer que são francesas, mas não são.

Já falámos aqui há poucas semanas do glamour, que afinal é glamour. Mais valia dizer à portuguesa, glamour, e estava tão bem como glamour.

Não.

Eu sei, mas na origem não é francesa.

Sim, verdade.

Mas temos este glamour. E depois eu só queria assinalar uma coisa. Eu gosto muito do francês também. A minha mulher, por exemplo, não gosta. É engraçado.

Eu gosto tanto. É a língua do amor.

De termos discussões em casa, porque ela não gosta, porque teve experiências acadêmicas não tão positivas.

Acho uma língua tão delicada, tão cuidada. Não quer dizer que a nossa não seja, atenção. Mas é essa delicadeza.

Essa é a ideia, e essa é a ideia que nós temos até a ler francês. O francês tem um percurso, tem uma história. Mas há que dizer que eles trituraram o latim de forma muito particular.

Trituraram?

Trituraram, porque reparem bem, a palavra agosto pode ser pronunciada apenas «u».

U?

U. U é agosto. Ou a palavra água. Como é que vocês dizem água em francês?

Eau.

Eau. Ou seja, eles pegaram em aqua, que nós transformamos em água, os italianos de outra maneira, os espanhóis, e os franceses eau, só uma vogal.

Ou seja, é quase tudo o mesmo.

Eles têm muitas palavras homófonas e nós não vemos isto com tanta facilidade, porque na escrita eles não fazem isto. Ou seja, na escrita eles recuperam uma forma mais latina. Mas há pessoas a brincar que dizem que isto foram germânicos do norte, do que é hoje a França, que aprenderam latim, mas decidiram pegar no latim, fazer uma bola e começar a brincar com aquilo até se tornar uma língua muito diferente. E é de facto a língua latina que mais se afastou, na oralidade, do latim. O francês é algo muito diferente do latim. Um romano que chegasse agora aqui e ouvisse um português a dizer água, conseguiria perceber a ligação a aqua. Se ouvisse o francês a dizer eau, ficaria a olhar para ele. O que será isto?

Agora estou-me a lembrar, há um meme, que já é antigo e circula nas redes sociais, diversas palavras francesas em que o som é sempre o mesmo. Agora estou-me a lembrar disso. E possivelmente estas duas estão lá. Eu lembro-me de já ter visto isto várias vezes.

Entre muitas outras. Repare, nós dizemos muitas vezes: "O inglês é muito simples na forma verbal, porque é tudo os mesmos I sing, you sing, he sings." Se vocês olharem para o francês na sua versão oral, também a maior parte das formas verbais no presente são as mesmas. A maior parte, não todas, não chegam ao mesmo ponto que o inglês. O francês tem uma simplicidade fonética que é disfarçada pela complexidade ortográfica. E pronto, foi uma viagenzinha a França.

Vamos terminar esta viagem em França e vamos até Cabo Verde. Nos mitos e nas origens da língua, vamos então até Cabo Verde, que está de parabéns. 50 anos da independência. Acredito que seja também esse o motivo pelo qual queres falar de Cabo Verde, um país da CPLP, ou seja, um país que tem a língua.

Tem a língua portuguesa como língua oficial. E hoje eu queria falar não necessariamente do português, mas da outra língua de Cabo Verde, que é o crioulo cabo-verdiano. Este é um dos primeiros mitos. O primeiro mito é este: os cabo-verdianos falam só português. Falam português, aprendem português na escola, usam português no Parlamento, na televisão, na literatura. Há grandes escritores de língua portuguesa, cabo-verdianos. Mas a língua materna dos cabo-verdianos é o crioulo cabo-verdiano, que eu pessoalmente acho que poderíamos chamar, eu sei que muitos cabo-verdianos não concordam comigo neste ponto, poderíamos chamar apenas cabo-verdiano. Não há qualquer mal em usar, porque crioulo é o tipo de língua. Mas eu sei que emocionalmente a ligação ao nome que os cabo-verdianos têm é o nome crioulo. É o nome que usam. Mas há outras línguas criolas pelo mundo fora. A cabo-verdiana é muito importante, é muito estudada pelos linguistas, é vista como talvez a língua crioula mais importante por vários motivos, pela antiguidade, pelo número de falantes, por ter tido grande importância no desenvolvimento de outras línguas criolas, como por exemplo, o papiamento nas Caraíbas, que é uma língua oficial em duas ilhas das Caraíbas, como Curaçao. Só para dizer que, de facto É um mito dizer que Cabo Verde fala português, ponto final. O ponto final é que é o problema. Fala português, mas também cabo-verdiano. Depois há um segundo mito.

O crioulo, neste caso.

Eu disse mal?

Disseste cabo-verdiano.

Pode, crioulo cabo-verdiano. Depois temos o segundo mito, que é a ideia de que é um dialeto português. Felizmente, já não é uma ideia que esteja muito expandida, mas não é um dialeto português. A origem do crioulo é muito diferente, porque as línguas criolas desenvolvem-se através, primeiro, de uma fase em que há uma necessidade de comunicação entre pessoas com línguas diferentes, em que se cria uma língua quase improvisada. Neste caso, estamos a falar da história da escravatura no Atlântico Norte, em que foi necessário para muitas pessoas comunicarem entre pessoas que não tinham a mesma língua. A partir daqui, não é aqui que se cria o crioulo, é quando esta língua é ensinada às crianças, que então criam uma gramática toda. Nós já falámos disto aqui, aliás. E aí criam o crioulo, que tem uma gramática muito diferente. O crioulo cabo-verdiano tem uma gramática muito diferente da portuguesa. Por exemplo, a concordância dos nomes exige que se saiba se é um nome animado ou um nome inanimado, que é uma coisa que em português não existe enquanto categoria gramatical.

Inanimado e animado é o quê? Uma pessoa?

Uma camisa é um nome inanimado.

Uma pessoa chamada Jorge é um nome-

Animado. Mas não é só isso. Por exemplo, se eu disser pessoa, pessoa é um nome na categoria animado. Animado no sentido humano. Um animal também é. Em certas línguas, não sei se o crioulo cabo-verdiano também é assim, certos astros também são postos na categoria de animado. Mas isto já depende de cada uma das línguas. A questão é uma categoria gramatical. É como o gênero em português. Ser feminino ou masculino não tem diretamente a ver com o sexo para muitas coisas. Às vezes, uma mesa não é feminina. É simplesmente uma categoria gramatical. E o cabo-verdiano tem essa categoria que o português não tem. É só para dar um exemplo muito concreto de um ponto onde as línguas se distinguem, a gramática é diferente. Depois temos outro mito, a ideia de que como o cabo-verdiano não tem uma só forma de escrever, não é possível padronizar, não é possível usar na escrita, mas é. Todas as línguas passaram por fases em que foi necessário padronizar, criar um padrão, criar regras. O cabo-verdiano está nesse processo. Apesar de ser uma língua muito antiga, não está terminado. Depois, o outro mito, a ideia de que o crioulo cabo-verdiano não se pode dizer que seja uma língua, porque aquilo varia de ilha para ilha, e varia muito, é verdade. Mas todas as línguas variam.

Exato.

Claro que uma língua falada no arquipélago varia ainda mais.

Até nós aqui temos expressões que são utilizadas no Norte, que não são utilizadas no Sul e vice-versa.

Se vivêssemos no arquipélago, basta pensar nos Açores, a variação aumenta, porque temos um isolamento maior. Mas eu posso dar só um exemplo de uma outra língua que tem uma variação ainda mais profunda do que o cabo-verdiano, que é o basco, falado, como sabemos, no norte de Espanha e no sul de França, que tem uma variação muito forte e ninguém se lembra de dizer que o basco não é uma língua só porque tem muitos dialetos diferentes.

O catalão também.

O catalão também tem variação, mas neste caso estamos mesmo a falar de uma variação muito profunda e eu sei que o cabo-verdiano tem essa variação profunda, tanto que muitas pessoas defendem que o padrão vai ter de ser duplo, vai ter de haver um padrão para o norte e outro para o sul. Depois, há também quem diga que defender o crioulo em Cabo Verde é quase como se fosse atacar o português, que o facto de os cabo-verdianos quererem usar o crioulo na escola, como ainda não é usado, mas há de ser, que isto é uma forma de substituir o português. Olha, há muitos países que têm duas línguas. Basta pensar no Luxemburgo, que tem três no sistema de ensino, e eles acabam a falar três ou quatro ou cinco, e não perdem muito com isso. Pôr a língua materna das pessoas na escola.

Não implica necessariamente uma substituição.

Não, repare, até poderá vir a acontecer que eles consigam aprender português ainda melhor, porque se aprenderem a sua língua no início, quando estão a aprender a ler e a escrever, e depois aprenderem o português como língua segunda, que é, provavelmente o português até vai estar mais defendido do que estarmos a iludir-nos com a ideia de que é a língua materna dos cabo-verdianos, quando não é. E isto não quer dizer que não usem para literatura, para a televisão, para o que quiserem. Podem usar o português para o que quiserem, mas a língua materna não é, é um facto. Nunca foi. Por isso, não vale a pena estar a fingir isto. E por fim, isto é uma ideia que se usa para muitas línguas do mundo, a ideia de que esta língua não pode ser usada para falarmos de assuntos técnicos ou para assuntos mais elaborados, só porque não tem o vocabulário. Quando não tem, arranja-se, é o que acontece. Todas as línguas passaram por isso. O português também passou por isso. Todas as línguas do mundo tiveram de ir buscar vocabulário em algum lado. O inglês teve de ir buscar algum lado, teve de inventar ou importar. O francês também. Portanto, é sempre possível. Eu ainda há poucos dias fiz um pequeno vídeo a descrever uma situação em que uma empresa japonesa precisava traduzir um documento técnico para mirandês. Eu estive envolvido nesse projeto. Muitas pessoas acreditavam que era impossível, mas não foi impossível.

Conseguiste?

Sim, exatamente.

Missão concluída com sucesso, assim como este Português Suave, que está de regresso na quarta-feira com dúvidas dos nossos ouvintes. Envie áudios de até 30 segundos com as suas dúvidas para o 910024185. Se não quiser enviar áudio, se não quiser ver a sua voz partilhada neste Português Suave, pode ser mais tímido, pode enviar para portuguesSuave@observador.pt.

Enviem também, se estiverem na praia a ouvir, digam-nos.

Qual é a praia e a temperatura.

Agora estás a redimir-te deste primeiro comentário que abrimos este episódio do Português Suave. Um abraço, Marco. Até quarta.

Até quarta.