Incomoda-me que se dividam as escolas entre as boas e as más e que as escolas privadas sejam sempre as boas. Nada contra as escolas privadas! Até porque falar de escola deveria significar que as escolas — todas as escolas! — são serviço público.

O que não se entende é que enquanto se separam as boas das más escolas não se pergunte nada sobre a discrepância entre os 25% dos alunos que estão entre as famílias mais pobres e os 25% que fazem parte das mais favorecidas seja de mais de noventa pontos, no PISA. O que faz com que, até aos quinze anos, em nove anos de escola percam quatro anos e meio de aprendizagens. Isto é, em nove anos de escola aprendam metade! O que faria o Estado se existissem famílias que privassem os seus filhos de quatro anos e meio de aprendizagens em nove possíveis? Continuaria a confiar-lhes a guarda destas crianças? Não o fazendo, como é que continua a ser possível que as associações de pais não accionem o Estado, pelo menos, por negligência? Como é possível que a escola não seja uma urgência de regime quando os mais pobres ficarão condenados a ser mais pobres enquanto se repete que a escola é um elevador social? Serão os professores do ensino privado, todos eles, melhores? Não! Terão as escolas privadas, todas elas, melhores instalações que muitas escolas públicas? Não! Então porque é que temos na escola um país e dois regimes: um, para as escolas privadas, centrado nos alunos, com um corpo docente estável, com sinergias com a família, apoios aos alunos, etc.; outro, centralizado, tutelar, burocrático, amigo da unicidade e, muitas vezes, autocrático? Serão as escolas públicas piores ou quem centraliza a sua gestão não aprende com as escolas privadas aquilo que elas têm para ensinar?

Aos quatro anos as crianças fazem até quatrocentas perguntas por dia. Quando estão na escola a pergunta que mais repetem é: “professora, posso ir à casa de banho?” E quando saem da escola parecem ter medo de perguntar. Não devia a escola ser uma “fábrica” de perguntas? Mas será que quem gere a escola pública coloca perguntas quando avalia os seus desempenhos? E como é que uma escola que não se pergunta acarinha e expande as perguntas de todos os alunos? Não se devia deixar cair um modelo de escola pública obsoleto e de.se reinventar a escola?