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É domingo e está no ar o "Português Suave". Hoje, sim, um episódio especial. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Neves, bem-vindo aqui mais uma vez para esta reunião dominical, não é? Podemos chamar assim.

É isso mesmo. Hoje vamos ter aqui a nossa cerimônia dominical sobre língua portuguesa, em que vamos ter dúvidas de vários ouvintes. Nós já pedimos várias vezes que nos enviassem no meio da discussão, no decorrer da discussão. Ainda ninguém fez isso. Estamos abertos.

Muito solícitos.

Vamos ver se hoje temos sorte ou não. Não sei se ainda é desta.

Vamos ver.

Vamos então avançar para o primeiro?

Vamos começar com o Paulo Lopes, que é um ouvinte muito assíduo do "Português Suave" e que faz questão de mandar sempre aqui algumas graças também.

Olá, muito bom dia, Marco e Rui. Sim, Rui, são coisas nossas. Eu sou o Paulo, sou de Bragança e a minha dúvida prende-se por regionalismo. Já viram pelo sotaque que eu não sou algarvio. Nós para cá dos montes usamos muitas expressões e vocábulos próprios, como "sirvo para bocado", "emboligar", que não tem bem tradução, mas é sujar-se todo na lama, numa forma labrega, normalmente à luta ou na brincadeira. "Amarrar" com sinônimos de agachar, baixar, não tem nada a ver com cordas. E o meu favorito, e creio eu que é exclusivamente brigantino, que é a expressão "bô". Pode ser usada antes ou depois de palavras, não tem bem uma tradução. Eu uso muito na dúvida e por norma até uso numa frase com uma expressão completa que é: "Bô, vem meu filho". E a minha questão para o Marco e também para o Rui João ou João Rui: estes regionalismos, que são muitos, vieram para cá e de onde é que vieram? Ou se nasceram cá e não passaram os montes, ou se são resquícios, uns fósseis de outras línguas que por acaso se terão falado. Algumas sabe-se a origem e são mesmo português que se deixou de se falar no resto do país. Português, galego. Mas há outras que não há mesmo origem e que algumas são mesmo daqui, é essa a minha dúvida. Bem, um abraço.

Um abraço.

Um abraço para o Cândido. Ou Rui, estás a chamar Cândido.

Paulo Lopes. Bem, Rui, então vamos aqui.

Eu sou tudo.

Então tudo bem, Esdrúbal. Vamos agora falar um pouco desta dúvida.

Regionalismos, não é?

Nós tivemos aqui uma lição de regionalismos, atenção. A própria pergunta é muito cheia, muito rica de regionalismos.

Nós estivemos aqui a aprender.

Exatamente. Não vou estar agora a responder a cada um deles, até porque não sei a origem da maior parte deles. A pergunta mais geral é: de onde é que isto vem? De onde é que vêm os regionalismos? Por que razão é que temos regionalismos? Na verdade, como é que eu vou dizer? A pergunta é mais ao contrário: por que razão é que há uma língua que depois parece igual em todo o país? Ou seja, nós sempre tivemos formas de falar diferentes em cada terra, porque as pessoas comunicam mais umas com as outras em cada terra e por isso os hábitos mantêm-se mais naquele grupo. Depois, claro, há as expressões que são parecidas com a terra do lado, outras que são menos parecidas. O que eu quero dizer é que o estado natural da língua é uma grande variedade de terra para terra, de família para família. As pessoas, se viajassem na Idade Média, se viajassem de aldeia em aldeia, se tivessem ouvidos de linguista, iriam estar a registar expressões que mudavam em todas as aldeias. O que não havia na altura era propriamente uma língua padrão que fosse ensinada na escola e que fosse ouvida na televisão e na rádio. E por isso a novidade não é o regionalismo, a novidade é haver uma língua que se contrapõe os regionalismos. Essa língua padrão.

Temos que isso um dia, por exemplo, se possa perder com o avançar do tempo.

O quê? Os regionalismos ou a língua padrão?

Os regionalismos ou o facto de estarmos a formar, se calhar, um português mais uniformizado.

A língua padrão é baseada sempre nos regionalismos, ou seja, a língua padrão é uma escolha feita por vários motivos, às vezes de forma consciente, outras vezes de forma inconsciente, ou porque é a forma como as pessoas falavam na capital ou numa cidade com universidade ou no sítio onde as televisões estão, isto dependendo do país e dependendo da sociedade, ou às vezes porque quem fez as primeiras gramáticas escolheu: "Não, vamos usar esta construção e não outra." Portanto, o padrão são regionalismos que tiveram sorte de ser escolhidos para esse padrão. Agora, o que tu estavas a dizer é outra pergunta, e sim, acontece em muitos países. O padrão da língua ensinado nas escolas, transmitido na comunicação social, ganha tal força que os regionalismos, que é a forma antiga da língua, acabam por começar a perder-se por baixo deste peso grande, que é a padronização da língua, que tem o seu papel, mas pode acabar por ter um papel excessivo de apagamento destas pequenas diferenças, pequenas ou grandes, às vezes são grandes, que também fazem parte da riqueza da língua. E hoje nós vemos isso, quer dizer, basta fazer a experiência mental de ouvirmos um miúdo de 15 anos em qualquer lugar do país, em comparação com outro miúdo de 15 anos em qualquer lugar do país, vai falar de forma mais parecida. Não estou a dizer que é igual, claro que não é, mas do que os bisavós. Os bisavós certamente que se distinguiriam mais.

Às vezes até as expressões muito próprias de uma determinada região.

Agora, também há zonas onde os regionalismos são preservados de forma mais forte, porque ou estão um pouco mais longe, ou estão resguardadas pelo relevo, pelo próprio relevo. Enfim, há muitas razões para isso. Trás-os-Montes parece-me ser um sítio onde há muitos aspetos mais antigos da língua que se mantiveram.

E que se mantêm.

Exatamente. Por exemplo, a própria existência do "tch", o "tch" para ler o "ch" é de uma forma muito habitual em muitas zonas do país. Em Trás-os-Montes mantêm-se. O vós, que se mantém não só em Trás-os-Montes, também no Norte, mais em geral. Portanto, há muitos traços que vão ficando, outros que vão desaparecendo. A resposta àquilo tudo que ele perguntou é sim, a tudo. Há alguns casos que vêm de trás, há outros casos que vêm de fora, mas a questão é que o estado natural é mesmo esta diversidade geral, que depois começou a ser um pouco apagada pela existência de um padrão que foi sendo ensinado e espalhado pelo país.

Muito bem, um abraço para Paulo Lopes, é ouvinte assíduo do Português Suave, manda-nos muitas dúvidas e portanto fica aqui um abraço para o Paulo. Vamos ouvir agora uma pergunta com um açúcar diferente. Vamos ouvir.

Muito menos transmontano.

Olá, boa tarde. Eu sou a Blanca Jimenez, sou espanhola e estou a estudar línguas na escola de línguas aqui em Espanha e tenho uma dúvida. Perguntei à minha professora, mas ninguém me respondeu. Queria saber se, faz favor, poderia dizer a diferença das palavras porto, marina, doca, cais e barra.

Qual a diferença? O que é exatamente cada uma delas? Obrigadíssima. Boa tarde.

Obrigado, Blanca.

A professora não respondeu, mas está aqui o professor Marco Neves.

Já agora fica a pergunta, depois se a Blanca quiser responder, em que escola de idiomas em Espanha está. Eu antes só queria ainda dizer ao Paulo que ele que mantenha as tais expressões.

Sim, claro.

Agora vamos responder à Blanca. Nós ainda no último episódio do dia 5 de maio falamos das várias pessoas que estão a aprender português em Espanha e temos aqui um exemplo. Ela faz-nos uma pergunta que, se calhar, nenhum português, é daquelas perguntas que quem está a aprender a língua de fora é que fica baralhada com coisas que nós nem pensamos.

Mas até nós próprios, às vezes, não sabemos a diferença.

Eu fiz o exercício de pensar nisto sem ir ver ao dicionário. Depois fui confirmar pra não dizer nenhum disparate, mas o que eu, na minha cabeça, tinha como distinção, porque uma coisa é o que está no dicionário. O dicionário, por vezes, apresenta tantos significados que nós nem sempre, só olhando pro dicionário, percebemos aquilo que um falante no dia a dia vai dizer à partida. O que é um porto? Há vários significados, mas o principal, diz-me se concordas, é o sítio onde chegam embarcações. Independentemente da forma, se têm ou não sítios. No dicionário aparece onde as embarcações podem fundear. O que eu quero dizer com isto? O porto é uma designação mais genérica de lugar de grande dimensão, por vezes ou não, onde as embarcações chegam. Barra. O que é a barra?

Nesta, por exemplo, já teria mais dificuldade.

Nós falamos da Barra de Lisboa. O que é a barra? Na verdade, é a entrada no porto, ou seja, por onde se entra para chegar ao porto. Para passar pela barra é preciso conhecer o porto. Normalmente, é preciso ter um piloto, quando são portos de grande dimensão, porque ele sabe os canais por onde as embarcações podem passar. Marina, o que tu dirias?

Marina é aquele sítio onde estão os barcos mais de recreio.

Sim, de lazer, se calhar. Se fores aos dicionários, marina também tem um significado mais antigo, mais parecido com doca, mas esse é o significado que nós damos. Se eu disser Marina de Cascais, ninguém pensa em barcos de pesca.

Claro. Vamos ali, por exemplo, às docas em Lisboa.

O Porto de Lisboa já é onde chegam embarcações com contentores ou então de pesca, o que for. Portanto, marina é de recreio, em geral. Hoje nós, em português, falamos de marina para um sítio onde estão barcos de recreio. Entre doca e cais, a diferença aí, eu sou technista, devia saber estas diferenças muito bem.

Mas é mínima a diferença, não é?

Aqui sim, eu fiquei assim um pouco: como é que eu explico isto ou o que eu diria? Para começar, cais também pode ser o cais onde chegam os comboios, o cais de embarque. Aí temos uma diferença. O cais pode ser onde os barcos se encostam, onde as embarcações se encostam, mas também comboios, também qualquer outro tipo de transporte onde as pessoas estejam à espera numa plataforma para entrar para o transporte. Aí temos o cais. O cais, mesmo assim, se eu perguntar à partida o que é o cais, a maior parte das pessoas vai associar a embarcações. A doca será mais o próprio espaço que pode até ter vários cais, ou seja, o barco ou a embarcação entra num espaço que pode ter um cais à frente, ao lado direito, ao lado esquerdo, todo esse espaço é a doca. É uma pergunta, eu tentei explicar. Agora, claro, cada área da língua tem os seus especialistas. Se alguém que perceba mais disto do que eu, disto das embarcações, quiser agora corrigir e mandar, pode enviar, eu fico muito contente. Mas isto seriam as definições que eu, enquanto falante de português normal, daria se me perguntassem isto assim de repente.

Um abraço para a Blanca.

Um abraço pra Blanca e muito obrigado por estar a aprender português.

Claro, e por nos ouvir, acima de tudo, também aqui no "Português Suave" e enviar as suas dúvidas. Vamos ouvir agora o Paulo Diniz, com S ou com Z?

Com Z, pelo visto.

Boa tarde, professor Marco Neves. Estou a aproveitar este canal e esta oportunidade só para questionar o seguinte: eu em tempos, no Face, num dos seus posts, tinha colocado uma pergunta, era um post relativamente a apelidos, e a minha dúvida, a minha pergunta era se era possível determinar o apelido Diniz, com Z, que vem do meu avô paterno, originário da localidade de Caldas da Felgueira, na Beira Alta, se era possível saber a origem desse apelido. É tudo. Obrigado. Meu nome é Paulo Diniz.

Obrigado, Paulo. Antes de responder, houve aqui uma expressão que o Paulo usou, que é Face. O que é curioso é que nós damos estas alcunhas às redes sociais.

O Facebook é o Face, o Instagram é o Insta.

Tu usas?

Por acaso não uso muito. Normalmente digo sempre qual é a rede social.

Facebook ou Instagram ou outras.

Andou em uma altura em que andávamos todos a dizer Insta. Usava-se muito.

O TikTok, por acaso, nunca teve isso, porque é um pouco estranho.

Também já é muito curto.

Pelo menos ali ó TikTok. É curioso como nós criamos alcunhas até pra estes espaços onde estamos, o que é normal.

Nós temos a tendência, já falamos disto, de criar diminutivos.

Estas reduções são diminutivos, no sentido em que são formas carinhosas de falar deste espaço, por estranho que pareça, estamos a falar do Facebook. Bem, mas agora respondendo ao Paulo, aqui o que eu pude descortinar é que Diniz é uma alteração ortográfica, ou seja, Diniz tinha tradicionalmente a escrita com Z ou com S, variava, até que depois no século XX.

Ou seja, a forma com Z é mais antiga?

Encontramos as duas, mas com Z, sim, podemos dizer que sim. O que acontece é que depois no século XX a ortografia foi sistematizada e Diniz acabou por ficar com S, por decisão, é uma convenção, mas os apelidos preservam com muito mais facilidade formas antigas e por isso o Z ficou lá por tradição, digamos assim. Agora, Diniz costuma ser um nome próprio e como nome próprio tem S, porque os nomes próprios seguem mais as regras ortográficas vigentes. Como apelido, manteve o Z, porque os apelidos conseguem manter mais. E atenção, este caso em que temos um nome próprio que serve de apelido, também é relativamente comum. E acontece muitas vezes, por causa da época em que tínhamos patronímicos.

Patronímicos.

Patronímicos são nomes quePartem do nome próprio do pai. Nós hoje já não usamos este sistema, há outras culturas que usam. Por exemplo, o nosso primeiro rei, Afonso I de Portugal, era filho do conde Dom Henrique e por isso era chamado Afonso Henriques, porque era filho de Henrique. Não é o apelido, é o nome próprio do pai que é transformado no patronímico. O filho de António era, curiosamente, Antunes. Podia aqui dar vários exemplos de nomes que ficavam com aquele som no final, não necessariamente um Z. Henriques, por exemplo, é com S que se escreve agora. Diniz, não aconteceu isso, simplesmente não se põe a partícula final de patronímico, mas põe-se o nome próprio, simplesmente como apelido. Isso aconteceu com vários nomes portugueses. Paulo, não sei se é isto exatamente que queria, provavelmente gostaria de saber a origem da própria família, mas isso eu não consigo descortinar. Quanto ao nome, claramente aquele apelido tem origem no nome próprio Diniz, mas preserva uma forma antiga de se escrever, que existia antes de haver uma sistematização da ortografia portuguesa. Diniz com Z. Este nome já chegou, na altura do rei Dom Diniz, escrevia-se Deniz, de muitas formas diferentes e o Paulo tem uma espécie de fóssil ortográfico, o que é bom.

Um abraço para o Paulo Diniz. Não sei se temos tempo para a minha dúvida, temos três minutos.

Força, vamos a isso.

Trouxe uma dúvida também para este programa edição especial.

Mas não mandaste um áudio para o telefone?

Não. Faço aqui em direito. Marco Neves.

Eu sou o João, gosto muito do programa. É isso que vais dizer.

Eu sou fã do programa, especialmente o Diogo.

Muito obrigado.

"Preveu" ou "previu"?

O verbo prever é formado com o verbo ver no final. Portanto, em princípio, nós teremos de seguir a forma como nós dizemos o verbo ver. E se nós dizemos "ele viu", nós também dizemos "ele previu". O que não quer dizer que ao longo das próximas décadas, nós não façamos algumas malandrices ao verbo, porque às vezes acontece isso.

Ou seja, então quem diz "preveu" está a usar de forma errada?

Sim, neste caso. Eu sei que lá ficas a pensar: "estás a dizer que pode ser, mas neste caso não temos o padrão da conjugação."

É daquelas conjugações que é muito comum termos erros.

É como o verbo intervir.

Sim, também.

Há muitos verbos que são formados com um outro verbo e esse verbo formado com esse verbo, em princípio, não havendo nenhuma exceção, que às vezes há sempre, vai seguir a forma desse verbo que o criou. Só que nós, por vezes, os falantes já desligaram os dois verbos, já não têm essa ligação na cabeça e por isso começam a regularizar, ou seja, começam por analogia a fazer uma conjugação diferente. Mas até ver é "previu", "ele previu".

Muito bem, fica aqui a resposta. Sou uma pessoa muito prática aqui neste episódio especial de domingo, só com dúvidas. Estamos de regresso na quarta-feira com dúvidas outra vez. É mais curto, mas há tempo para todos. E para enviar dúvidas é para onde, Marco?

portuguesfava@observador.pt ou para o número de telefone nove.

Nem sabes o segundo.

Nove. Sai o nove, não é mau.

91 002 41 85. Repete comigo.

91 002 41 85. Obrigado.

Muito bem.

Já me esqueci.

Já é um começo. Dúvidas para o nosso WhatsApp. Só porque o episódio de quarta-feira é sempre mais curto e se puder enviar até 30 segundos, ser assim mais sucinto, nós conseguimos ouvir mais dúvidas também nesse episódio. Marco Neves, um abraço.

Até quarta.

E bom resto de fim de semana.

Obrigado.