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Cá estamos de novo no "Português Suave", novo episódio. Eu sou o João Costa e Silva. De regresso está o José Rafael Lopes e, claro, contamos com o ninja da língua portuguesa, Marco Neves. Sê muito bem-vindo. Obrigado, João, e vi ser bem-vindo de volta. Marco, como é que estás? Tudo bem?

Está tudo bem. Sinto-me não muito ninja.

Por quê? Tens de te sentir sempre.

Começar a fazer mais exercício e a sentir-me mais ninja.

Marco, o que é que tens planeado para nós hoje?

Hoje vou falar de uma pessoa importante para a língua portuguesa, que morreu há poucos dias, e depois vamos passear várias línguas que têm vários nomes. Já vou explicar o que quero dizer com isso e por fim, claro, terminamos num mito da língua, como também é habitual.

Como é habitual. Então vamos começar, já é apanágio: a língua nas notícias. Marco, a pergunta é sempre a mesma: que palavra é que está em destaque esta semana nas notícias e que tu queres falar?

Eu decidi hoje não falar de nenhuma palavra em particular, mas sim de uma pessoa, Fernando Venâncio, que foi um grande linguista e um grande escritor. Escreveu romances e também escreveu livros sobre língua. Foi também professor de Português nos Países Baixos, na Universidade de Amsterdão, e era um amigo, que morreu agora há poucos dias. Foi, provavelmente, das pessoas que teve intervenção pública sobre a língua portuguesa de maior destaque nos últimos anos. Ele escreveu também há poucos anos um livro que eu tive o prazer de acompanhar, que se chama "Assim Nasceu uma Língua". Um livro sobre a língua portuguesa, que foi um caso único, porque apesar de todas as pessoas se interessarem muito, acho eu, todas ou quase todas, por estas questões, e nós sabemos aqui pelo "Português Suave", o número de mensagens que recebemos, não é assim tão costume que um livro se torne um best-seller. E naquele caso, em 2019, esse livro foi um best-seller, não só nesta área, em geral, estava nos tops. E eu tive a honra de acompanhar a criação desse livro e o lançamento, e foi um marco na história da língua portuguesa. E ele tinha também algo que me inspirava muito, e por isso é que eu queria também falar dele hoje, que era o gosto de se comunicar para lá daquelas pessoas que já falam habitualmente sobre a língua ou para lá da academia, para falar sobre a língua para o público em geral. Ele fazia isso em vários canais, Facebook, as redes sociais, e dava entrevistas.

De certa forma, também foi uma inspiração para ti.

Foi uma inspiração pra mim. Ainda há pouco tempo, a BBC do Brasil partilhou com muito destaque uma entrevista que lhe tinha feito há poucos anos sobre se o português do Brasil e o português de Portugal poderiam vir a ser uma língua separada. Foi, de facto, um amigo que eu gostava de deixar aqui a referência a ter morrido agora há poucos dias. Hoje não é a língua nas notícias, é esta notícia negativa e é essa notícia que trouxe.

Mas fica aqui a homenagem merecida. Uma homenagem muito sentida e muito bonita, Marco. No Português Suave. Nós então seguimos viagem e agora sim, vamos até ao Mapa da Língua. O Mapa da Língua no Português Suave e Marco Neves, que viagem temos reservada para esta semana?

Eu inspirei-me aqui também no Fernando Venâncio, que durante muitos anos viveu em Amsterdão. Aliás, ele tinha duas nacionalidades, era português, mas também, o que nós podemos dizer holandês, mas já falámos disto aqui, né, holandês. Havia uma curiosidade que me contou. Ele era de Mértola e passou os últimos anos da vida em Mértola. Viveu em Amsterdão, em Mértola, em Lisboa também, mas nestes últimos anos, uma vez numa conversa em Mértola, ele disse-me que há ali uma concentração anormal de holandeses em Mértola, porque muitos foram alunos dele na Holanda. Ele foi professor de milhares e milhares de holandeses que queriam aprender português, porque há milhares de pessoas a aprender a nossa língua noutros países. E quando decidiam vir para Portugal, porque nós também sabemos que-

Iam para a terra do professor.

Alguns iam pra terra do professor.

Dá ali todo um trabalho de promoção de Mértola. Promoção da região.

Ninguém fazia ideia, mas de repente, se calhar, se as pessoas fossem analisar onde é que estavam os holandeses, ficariam ali com o mistério que há aqui.

Algarve, Lisboa, Mértola.

Em Mértola, exatamente. E eu inspirei-me só nele no sentido em que queria falar hoje. Isto é um mapa da língua, mas também um mapa das línguas. E há algumas línguas que têm vários nomes. E isto faz confusão a muitas pessoas. Uma delas, e esta é uma das questões que eu penso que até já falámos aqui, não tenho a certeza, não me lembro, que é a diferença entre espanhol e castelhano. Há pessoas que dizem castelhano, outras que dizem espanhol. Há discussões imensas.

E não foi há muito.

Não foi há muito tempo, não. Há discussões que nunca mais acabam. Castelhano é o nome tradicional da língua, nome medieval, nós até ali ao século XVII, XVIII, falamos sempre do castelhano, mas entretanto criou-se em várias línguas esta ideia de haver uma língua espanhola, a partir do momento em que há um país chamado Espanha. Não é a única língua do país, está muito longe disso, mas é um nome que em Portugal já usamos desde há uns séculos. Em Espanha também se usa. A língua tem estes dois nomes. Isto dá discussões que nunca mais acabam. Outra língua que também tem dois nomes é uma língua também de Espanha, que é o catalão, que também se chama valenciano, e aqui também há discussões que nunca mais acabam, porque há pessoas que defendem que o valenciano e o catalão são duas línguas. Depois temos também o chinês e o mandarim. Há pessoas que insistem em chamar mandarim, que é o mais correto, que é o padrão. Por exemplo, eu conheço vários chineses que falam português e faz-lhes muita confusão esta nossa insistência em dizer mandarim, pra eles podíamos dizer chinês. Nós também sabemos que há outras línguas na China, desde o cantonês, há muitas línguas na China.

Eu, por acaso, ia perguntar onde é que fica o cantonês no meio disso.

O cantonês é uma das línguas da China. Agora, claro, nós chamamos chinês à língua baseada no que se fala à volta de Pequim, que se tornou o padrão, e nós chamamos mandarim, e bem, eu também costumo dizer mandarim, mas quando alguém diz chinês, está a falar Do mandarim, mas essa palavra também existe. O cantonês é outra língua que também surgiu do chinês clássico. E há mais, a China tem uma variedade linguística.

Ele também é bastante grande.

É muito grande.

Sabem o que me irrita muito mais do que isto tudo? Não tem nada a ver. Pode estar relacionado ou não.

É o quê?

Aquelas pessoas que vivem fora da Europa e não conhecem muito bem onde é que fica Portugal e dizem que Portugal é uma província espanhola, e isso irrita-me solenemente.

E falam espanhol.

Sim.

Já tive grandes discussões há muitos anos na internet, quando ainda estávamos a começar, via aquilo, como é que se chamava, o mIRC.

Sim.

Lembro-me de ter discussões com pessoas de outros países a dizer que no Brasil se falava espanhol. Estavam completamente convencidas que era assim. Por acaso, Portugal nunca me disseram. Tive sorte. Mas ainda gostava de falar só mais de uma língua, que é o próprio holandês. Holandês, neerlandês, flamenco, são três nomes da mesma língua. O flamenco é o que nós usávamos tradicionalmente para designar o holandês da Bélgica. Hoje usa-se mais o termo neerlandês, até para corresponder àquele termo Países Baixos.

Sim. Já falámos sobre isso aqui no "Português Suave" e suscitou tanto debate.

E vou terminar aqui o nosso mapa da língua dizendo que há alguns galegos que defendem que a nossa própria língua também tem dois nomes, que é português e galego, porque eles defendem que o galego é uma outra variedade da nossa língua.

Vamos continuar a dizer português, está bem?

Não, nós vamos continuar. Eles é que querem. Para eles, quando dizem galego, estão a falar da língua que nós também estamos a falar.

Fica mais giro Português Suave do que Galego Suave. Sim.

É menos tabagista a dizer Galego Suave.

Ora bem, vamos avançar para a nossa última rubrica, Mitos e Origens da Língua. Nesta última rubrica do Português Suave, deixamos sempre espaço para os mitos e origens da língua. Marco, o que é que temos em destaque esta semana?

Temos um mito que se relaciona também com o uso de inteligência artificial, e nós falámos disto no último episódio.

Olha, o Zé é especialista.

É? Então vamos ver.

Mais ou menos. Especialista é o João Rocha e Melo. Eu sou um interno. Mas tu tens aprendido muito.

Muito. Mas vamos falar sobre inteligência artificial relacionada com o mito. Já no episódio de quarta-feira nós referimos isso por causa do "pelos vistos ou pelo visto". E se tivermos tempo, falamos aqui também de uma origem muito curiosa de uma palavra. Já lá chegamos.

Vamos lá.

O mito é este. Isto é um mito que nós já falámos aqui. Há um episódio, pelo menos, em que falámos disto, mas a minha questão não é o mito em si. Há a ideia muito espalhada nos livros de português. É um mito menos popular e mais erudito. Nos mitos de português, há muitas pessoas que escrevem ao longo das últimas décadas, ou escreveram, que a expressão "mal e porcamente" está errada, que seria originalmente "mal e parcamente". Eu próprio já acreditei nisto. Portanto, "mal e parcamente", as pessoas depois começaram a desaturpar a expressão, supostamente, de acordo com o mito, e criaram o "mal e porcamente". Mas quando vamos aos dados concretos, vamos ver os registos escritos da língua, o "mal e porcamente" aparece muito antes de "mal e parcamente".

E é mais popular, não é?

E é mais popular. Ou seja, nunca foi mais usado "mal e parcamente", não é mais antigo, é apenas uma variação de "mal e porcamente". Tudo bem, isto já tínhamos dito aqui. A questão é: eu há poucos dias partilhei um texto sobre isto no Facebook, salvo erro, e tive respostas de pessoas admiradas, ficaram surpreendidas por saber que não era bem como pensavam. Mas depois tive uma daquelas discussões de que já falei aqui neste maravilhoso mundo da internet, há sempre estas discussões, em que alguém me dizia: "Não, está errado, porque sempre foi mal e parcamente." E eu: "Não, eu estou a lhe mostrar aqui os dados, até com as datas e com os sítios onde aparece primeiro a expressão na escrita." E ele responde de uma maneira muito curiosa: perguntou ao Google. E não é o Google, um website.

O Gemini.

É o Gemini que responde, e que dizia lá que é "mal e parcamente". Ou seja, repetiu o mito de forma muito marcada. E eu disse: "Olhe, mas isto não quer dizer que seja verdade." Até porque eu já percebi que a inteligência artificial, que é muito boa em muita coisa, nas questões de língua, erra muito. Nas questões que nós perguntamos.

E às vezes se tu perguntares de manhã, perguntas à noite, a resposta é completamente diferente.

Ou, como nós vimos no episódio, basta perguntar com o "ou" no meio, muda completamente.

Vimos isso num dos últimos, sim.

E mais, eu depois estive a fazer perguntas sobre este tipo de mitos e algumas vezes ele respondia completamente errado, de forma errada, mas atenção, o que foi mais curioso é que punha como referências textos meus a dizer que aquilo estava errado.

Estava a citar-te a ti para dizer que tu estavas mal?

Não, ele estava a citar como se eu fosse referência para dizer que eu estava mal.

Que confusão.

Estava a atirar a mim próprio, a atirar-me à cara, textos que eu escrevi.

Do género: "Foste tu."

Sim, a dizer precisamente o contrário do que o texto dizia. É um daqueles nós do cérebro que eu não sei.

Mas depois se lhe disseres: "Olha, o que disseste agora está errado" e ele: "Tens razão."

Vês só que o Gemini, na pesquisa do Google.

Eu nunca usei o Gemini. Gemini. Eu digo sempre Gemini. É Gemini. Obrigado, Zé. É por isso que ele é o especialista. Porque nós no último episódio já dissemos Gemini e afinal é Gemini. Olhe, é por isso que ele está aqui.

Pronto, não podemos fazer um programa chamado Inglês Suave, porque vamos falhar redondamente, mas Gemini, não consigo responder-lhe.

Quando agora fazemos uma pesquisa no Google, ele assume diretamente a inteligência artificial logo com uma resposta.

Pus-me a carregar no sinal de não gosto várias vezes. Mas foi a primeira vez que eu tive esta experiência de alguém me citar para me contrariar. Há sempre uma primeira vez.

Sim, acontece sempre.

Quarta-feira temos de fazer um programa especial sobre nomes de inteligência artificial. Falamos disso.

É muito engraçado isso.

É engraçado.

Tens mais alguma coisa para acrescentar?

Tinha uma origem sobre a palavra glamour, mas vamos deixar essa para o próximo episódio.

Ok, fica aqui prometido. Eu queria só agradecer aos nossos ouvintes, porque são de facto os melhores do mundo. Nós, eu e o Marco, o Zé, no último episódio, pedimos aos nossos ouvintes para irem avaliando o podcast no Spotify, na Apple Podcasts. Na altura estávamos com 81, 83 avaliações. Já explodimos, já estamos quase nas 150. Portanto, obrigado aos nossos ouvintes. É que ainda por cima, isto é bom sinal. Por quê? Porque nós falámos disto no final do episódio, é sinal que as pessoas ouvem até ao fim. Portanto, é aqui muita dedicação ao Português Suave.

Por outro lado, há aqui uma desvantagem, que se ouvem até ao fim, ouviram-nos dizer Gemini.

Pois. Gemini em vez de Gemini, mas é por isso que o Zé está aqui. No que toca à inteligência artificial, ele é especialista e, aliás, podem também ouvir o "Máquinas que Pensam", que é o programa do José Rafael Lopes aqui na Rádio Observador e que passa aos sábados de manhã, depois do jornal das 10:00 e está disponível em todas as plataformas de podcast. Marco, nós ficamos por aqui neste Português Suave.

Mas voltas na quarta.

Voltamos na quarta. Hoje vamos deixar o Zé dizer o e-mail. Vamos ver se ainda se lembra. Duas semanas de férias.

Duas semanas de castigo.

Espera aí. Gemini. Não, estou a brincar. Imagina. portuguesSuave@observador.pt. É muito fácil e simples. Nós ficamos à espera dessas dúvidas. Marco Neves, encontro marcado na quarta-feira. Até lá.

Grande abraço.