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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave". Podemos dizer, Marco, que é o programa que trata melhor a língua portuguesa?
Não sei. Vamos fazer um ranking, e já estou a dizer ranking, já vamos ter um problema com a palavra inglesa.
É verdade.
Mas temos que fazer um ranking dos programas que tratam melhor.
Uma classificação. Ordenar.
Uma ordenação.
De um a 10.
Exato. Uma ordenação de um a 10 dos programas que tratam melhor a língua portuguesa. Este fala muito a língua portuguesa, pelo menos.
Bem-vindo, antes de mais.
Obrigado. Bem-vindo, também. Nunca digo bem-vindo.
Somos todos bem-vindos.
Somos todos bem-vindos.
Seja na praia. Queres falar? Na praia, no carro.
Hoje vamos falar de praia.
Pois vamos. Aliás, faz aqui uma antecipação daquilo que vamos ter neste "Português Suave". Nem disse teaser, reparaste?
Exatamente, não disseste teaser, disseste uma antecipação. Vamos falar do homem que queria matar a língua. Vamos falar da praia e vamos falar de um palavrão.
O homem que queria matar a língua é...
É um bom nome para um, vou ter de escrever um romance policial.
Pode ser um romance, pode ser um livro de ação, qualquer coisa.
Um thriller, lá caímos outra vez no inglês, um thriller sobre um homem que queria matar a língua portuguesa.
Então vamos a isso. Não vamos perder mais tempo. Começamos, como é habitual, com a língua nas notícias. Marco Neves, o que está em destaque esta semana?
Não esta semana, mas vamos a uma notícia ligeiramente mais antiga, mas que também é interessante, do século XVIII, logo a seguir ao terramoto. Às vezes há notícias que ficam e eu decidi, já que estamos aqui nos finais de julho, ir nos passear no tempo, não só no espaço. Temos o mapa da língua a seguir, agora no tempo. E eu gostava de trazer aqui uma personagem da nossa língua chamado Manuel José de Paiva, um escritor que logo a seguir ao terramoto de Lisboa, não se sabe exatamente o ano em que ele escreveu este livro, mas sabe-se que foi nos cinco anos a seguir ao terramoto, provavelmente dois ou três anos ou até menos do que isso. Ele escreveu um livro muito engraçado, muito bem escrito. Eu não concordo nada com o que ele diz lá, mas o livro está muito bem escrito.
Muito engraçado, muito bem escrito, mas eu não concordo com nada.
Exato.
Mas é sempre bom apreciar.
É sempre bom apreciar. E há até aqui uma hipótese, há um professor, eu depois já vou explicar que hipótese, que ele até estivesse a escrever isto de forma irônica, que, na verdade, ele não concordasse, porque ele usa um pseudônimo muito engraçado, Silvestre Silvério da Silveira e Silva.
Eu não sei dizer isso.
É um pseudônimo que nos atrapalha a língua, um trava-línguas. Silvestre Silvério da Silveira e Silva, é este o autor do livro, mas quem é o autor é Manuel José de Paiva. E o que ele faz neste livro é: declara, como muitas pessoas declaram das várias gerações, que a língua está doente, e, portanto, tem de ir ao médico. E todo o livro é uma série de consultas, a primeira parte do livro são uma série de consultas.
Com muitas patologias.
Com muitas patologias em que o médico dá uma receita à língua, uma receita para corrigir, que é: "Que se cale." Basicamente, a tese que aqui está é: a língua está tão mal que mais vale não falarmos.
Eu não concordo nada com isso.
Ele diz isto e fala muito. O livro é bastante grande. Ele diz isto de forma muito bem escrita. Ele defende então que, tendo em conta a maneira como andamos a tratar o português no século XVIII, mais valia estarmos calados. É esta a tese. E depois, ele apresenta uma lista, e esta é a parte mais interessante para um linguista, não tanto pra quem leu o livro, uma lista de, salvo erro, aproximadamente 4 mil palavras e expressões que devem ser evitadas a todo o custo, segundo ele.
E há expressões assim surpreendentes.
Basicamente, com 4 mil, é quase todas as expressões. Portanto, ele queria matar a língua, se fôssemos por isso, é que eu estava a dizer que era o homem que queria matar a língua. O que ele fez, na verdade, ao pôr estas expressões neste livro, porque as expressões mais populares, se pensarmos bem, não aparecem em geral nos livros escritos, principalmente há alguns séculos. E ele ao fazer isto, conseguiu pôr aqui expressões muito populares, que muitas delas, a primeira vez que aparecem na escrita, é aqui neste livro. Este livro salvou a história destas expressões ao querer matá-las, digamos assim.
Serviu para alguma coisa, no fundo.
E é curioso como ele passou não sei quanto tempo a passar esta lista de expressões de que não gostava nada. Eu posso dar aqui alguns diachos. Abri aqui diachos. "Doido varrido" já aparece neste livro. "Chorou a morte da bezerra", também está aqui. "Meter o rossio na rua da Betesga", também aparece aqui pela primeira vez. Coisas como, e esta é muito estranha, "mamou-lhe o dinheiro todo". Está aqui também. Acho que já falamos disso num episódio. E coisas como "bicho carpinteiro". É uma lista muito interessante e algumas assim um pouco mais, "que vai é tudo com o diabo", "língua de trapos". Temos aqui a língua mais viva, mais popular, e ele ao querer matá-la, acabou por salvar todas estas expressões. Agora, há uma edição muito recente deste livro, de José Teixeira, que é professor da Universidade do Minho, que defende que provavelmente, diz ele, não é a visão habitual sobre este livro. A maior parte dos especialistas considera que este autor estava mesmo a querer defender que estas expressões devem ser evitadas. Mas José Teixeira, com argumentos bastante sólidos, na minha opinião, diz que não, que isto, no fundo, naquele ambiente pombalino, também com tudo o que havia de restrição de censura, que isto foi uma forma de ele poder salvar estas expressões, mesmo de forma consciente, de escrever as expressões populares, sem que ninguém pudesse acusar de estar a escrever mal, porque ele estava a dizer que eram erradas. De facto, eu tenho a sensação que deverá ser isso, porque uma pessoa passa este tempo todo a recolher 4 mil expressões. Na verdade, ele quer mesmo é fazer isto e brincar. Eu não sei.
Esperemos que seja isso.
Esperemos que seja isso. De qualquer forma, é verdade que há uma tradição antiga de pessoas que querem corrigir a língua à força, mas muitas vezes acabam por apontar para expressões que são muito populares e muito curiosas. Foi uma notícia não muito recente, já com alguns séculos, mas não deixa de ser uma notícia.
Uma viagem no tempo. O homem que queria matar a língua. Entretanto, nós vamos seguir viagem rumo ao Mapa da Língua. Vamos a isso. Marco, este domingo, ia eu te perguntar se já tens a toalha, o protetor solar.
Vamos para a praia.
Estou a ver aí na tua mala.
Sim, já estou aqui de calções, as pessoas não estão a ver, mas eu estou pronto para ir pra praia. Eu olhei pra própria palavra praia e proponho hoje fazermos só aqui uma ligeira, ligeira não, uma viagem até Malta, um bom sítio para ir. Não sei se alguma vez lá foste, eu nunca fui.
Não, mas está na minha lista de destinos.
Gostava muito de ir. Mas já explico porque é que vamos até Malta. Isto vem na sequência de uma pergunta que me fizeram, o Manuel, e eu só registei o nome Manuel, confesso que devia ter registado o apelido, mas talvez não tenha recebido se quer, mas o Manuel enviou-me uma mensagem a perguntar se é verdade que em Malta se fala uma língua parecida com o árabe. E já lá chegamos, eu já vou responder, mas para isso aproveito então a palavra praia. Nós temos praia, em direção a Malta, qual é a primeira língua que nos aparece? O castelhano ou espanhol, em que temos playa. E esta diferença entre praia e playa é importante na nossa língua, porque nós fazemos, em muitas palavras, isto: aquilo que em castelhano é um "l", nós pomos um "r". Nós temos praia, eles têm playa. Nós temos branco, eles têm blanco. Podíamos continuar por aqui fora.
Sim, há vários exemplos.
E esta tendência é tão forte que chegou a fazer-se em palavras que entretanto recuperaram o "L". Por exemplo, nós vemos como Camões fala de flor em vez de flor. E a tendência é tão forte que ainda falantes noutras paragens, por exemplo, no Brasil, continuam a fazer isto até com palavras em que o padrão diz que não se deve fazer. Por exemplo, blusa, às vezes, na boca de alguns falantes de português no Brasil, é brusa. Ou problema.
Essa eu nunca tinha ouvido.
Este é um fenómeno fonético que no Brasil é considerado um grande erro, mas no fundo é a continuação de uma tendência muito antiga da nossa língua, que nos deu palavras como praia. Depois continuamos. A seguir ao castelhano, temos o catalão. E o catalão, nas Ilhas Baleares, praia diz-se sa platja, sa é o lá. Nas Ilhas Baleares, só nas Ilhas Baleares, sa platja, a praia. E esta forma também é muito parecida com a maneira como se diz praia em sardo, que é a língua da Sardenha. Isto é só para indicar a quem está a viajar connosco, que o Mar Mediterrâneo, no fundo, esconde aqui uma continuidade linguística curiosa entre a Península Ibérica e o Sul de Itália, em que há muitas presenças e muitas ligações entre aquilo que se fala na Península Ibérica e em Itália. E por fim, vamos para Sul, até chegar a Malta, onde praia é algo como xatt il-baħar. É estranho e é, de facto, muito parecido com o que se faz em árabe, porque o maltês, que é uma língua oficial da União Europeia, uma das 24 línguas, é, na verdade, uma língua árabe. Ou seja, no fundo, o árabe está dividido em vários, aquilo que nós chamamos habitualmente de dialetos, mas que são línguas já tão distintas umas das outras como as línguas latinas. Depois há um árabe padrão, um árabe que é ensinado nas escolas, que é um pouco como se o latim ainda hoje fosse falado. E o maltês, no fundo, começou por ser um dialeto do árabe e tornou-se uma língua oficial em Malta e na União Europeia, uma língua com muito vocabulário italiano e inglês.
Acaba por receber aqui muitas influências.
Ou seja, aquela língua é semítica, é uma língua com a gramática árabe, tem depois muitas influências, como estavas a dizer, de outras línguas. Portanto, com o nome de maltês e muito alterado, o árabe também é língua oficial da União Europeia, curiosamente.
Muito bem.
E o alfabeto é o alfabeto latino. Ou seja, é possível escrever árabe com o alfabeto latino e o maltês é assim.
Que confusão. Mas pronto. Ficamos aqui a falar de praia, playa, blusa, brusa.
E agora vamos para os palavrões.
Vamos? Estás pronto? Então vamos a isto. Mitos e origens da língua. Esta parte do episódio vai ter que ser censurada, ou nem por isso?
Não, nós vamos ter cuidado.
É? Vamos a isso.
Para não censurar. Eu vou só dizer que a primeira parte desta parte do episódio, a primeira parte desta parte, estou aqui a atrapalhar-me um pouco, é por causa dos palavrões. Nós já falámos disto há muito tempo, aqui no "Português Suave", já temos tempo suficiente para poder dizer.
Quase há um ano.
Quase há um ano, exatamente. Foi no terceiro episódio, eu fui ver, em que falámos de um mito muito comum da nossa língua, que é a origem do palavrão que acaba em alho.
Acho que as pessoas já perceberam.
Já perceberam. E começa com cara. Há esta ideia muito divulgada de que este palavrão seria, na sua origem, um lugar no barco, nos navios das navegações portuguesas, o cesto da gávea.
Isso está na capa de um dos teus livros.
Exatamente, está na capa a dizer que é um mito. As pessoas contam esta história: os marinheiros, como castigo, eram enviados para o cesto da gávea, que tinha esse nome, o nome do atual palavrão, e por isso eram enviados para lá e é daí que vem o palavrão. Não há registo nenhum desta história há mais do que quatro, cinco décadas. É uma história que foi criada há umas décadas e que de repente se espalhou. Não há nenhum registo dessa época em que se falasse dessa ligação. E pior ainda, a palavra já existia antes. Nós fomos às cantigas de maldizer, aquelas cantigas de escárnio e maldizer, está lá com muita frequência o palavrão e o significado era sempre o mesmo: órgão sexual masculino. Não havia outro significado. Se depois os marinheiros mais tarde começaram a chamar ao mastro das caveiras também o palavrão, mas isso já é um uso, não há registo também nenhum desse uso, mas não é essa a origem. A origem não é essa. Há várias hipóteses, uma palavra latina que queria dizer pequena estaca, uma palavra grega. Há muitas hipóteses, mas não é certamente o cesto dos navios, das navegações. Os marinheiros todos certamente já saberiam essa palavra.
Essa parte está esclarecida.
Sim, e mais, a palavra é tão antiga que logo que surgiu Portugal e o português já existia. Ela já é mais antiga do que a própria língua. Antão Vaz Henriques diria certamente este palavrão com muita frequência, principalmente quando encontrava a mãe. E depois queria também terminar dizendo que ainda há poucos dias publiquei um vídeo sobre isto. Eu há uns tempos quis saber qual é o palavrão mais usado. E tu tens alguma hipótese? Fiz uma investigação, tive mais do que uma centena de respostas. Não é muito, mas foi o suficiente.
É um que é parecido, imagina, nós temos o fim de semana. Mas depois existe uma abreviatura, é esse.
Exatamente. Esse é o mais comum.
Acho que as pessoas perceberam.
Sim, e depois também há um que começa por M. E cá vem, merda. E esse é o segundo mais usado. Este que nós falámos antes, do tal cesto, que afinal não é o cesto, este aparece em quarto e é um pouco estranho. As pessoas quando eu falei disto disseram logo: "Então, mas isso é porque andaste na rua no norte." O inquérito foi para todo o país.
Eu acho que aquele que é parecido com o fim de semana, na sua abreviatura.
É mais usado.
É mais imediato. Quando acontece alguma coisa que...
Quando bates com o pé na porta.
Ou um mindinho.
Sim, eu também acho que sim. Mas pronto, ficou aqui esta indicação deste estudo.
E a volta que nós tivemos de dar aqui para não dizer nenhum palavrão.
Agora as pessoas vão começar todas. Acho que as pessoas vão todas.
E é por isso que talvez sejamos o programa em que se fala melhor português.
É possível.
Quanto mais não seja porque estás aqui tu. Porque nós às vezes, mas se não estares cá, todos nós.
Todos nós deslizamos e caímos e às vezes dizemos palavrões quando nos enganamos.
É verdade. Marco Neves, nós estamos de regresso na quarta-feira. Quarta-feira que traz sempre um episódio extra de "Português Suave", com dúvidas dos nossos ouvintes. Pode-nos enviar por e-mail.
Para portuguessuave@observador.pt.
E depois temos o número de telefone que tu ainda não decoraste.
Não sei de cor.
Mas vamos a isto: 910 024 185, 910 024 185. Um áudio até 30 segundos com as suas dúvidas e depois fazemos questão de passá-lo por aqui. Quarta-feira vamos ter dúvidas dos ouvintes, portanto, vamos estar aqui para ouvir todas elas. Marco, um abraço.
Até quarta.
Bom fim de semana.
Bom fim de semana.