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Domingo de Páscoa, mas também é dia de "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva e a pergunta que eu tenho para fazer é: onde andas tu, Marco Neves?
Eu ando aqui perdido no meio da Península Ibérica, por acaso não no meio, numa das pontas. Ainda estou em Valência. Vim cá falar com alunos de português, como já tinha dito no último episódio, se não estou em erro. E foi muito engraçado. Agora já falei com eles, estou só a descansar um pouco.
Também faz parte e precisas deste descanso.
Sim, exato. E como estamos na Páscoa, também é uma altura boa para descansar. Daqui a pouco já vou contar como é que foi a sessão com os alunos de português aqui em Valência. Eu acho que é sempre surpreendente para muitos portugueses, aliás, conversámos sobre isso, pensarmos que há tantos espanhóis interessados em aprender a nossa língua, mas existem, não são um mito.
Da mesma forma que nós também nos interessamos muito, pelo menos falo por mim, e eu adoro espanhol e gostava mesmo de um dia ser fluente.
E hoje temos o espanhol ou castelhano, que é outra questão, não sei se já falámos aqui sobre isso. Acho que sim. Mas está na escola, portanto os miúdos hoje podem aprender e alguns aprendem, o que também é interessante. Cá não, aí em Portugal, que eu ainda não estou.
Exato.
Mas hoje é Páscoa, não é? Portanto, hoje vamos começar por falar da Páscoa.
Vamos aí. Vamos à língua das notícias.
João, hoje o tema aqui do nosso "Português Suave" é, na verdade, a Lua, por vários motivos, mas também a Páscoa, porque não sei se alguma vez pensaste nisso. O ano passado eu sei que pensaste, porque já falámos disso no ano passado. A questão de como é que se define a data da Páscoa. E a data da Páscoa é definida de uma forma um pouco complicada. Eu vou dizer a descrição simples, o mais simples que é possível dizer.
Vamos a isso.
A Páscoa é definida através de um cálculo. Até podemos chamar um algoritmo, que é uma palavra que não é de agora, ao contrário do que nós pensamos. Nós dizemos que o algoritmo parece ser uma coisa muito recente, das redes sociais, mas algoritmo é uma série de cálculos em sequência e por isso temos aqui um algoritmo para definir a Páscoa. O Domingo de Páscoa é o primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera. Ou então, se o primeiro domingo calhar na primeira lua cheia, é nesse dia. Isto até parece simples, embora seja um pouco estranho. O primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera. No entanto, este cálculo ainda é mais complicado. O equinócio da primavera, portanto, para definir o que é a primavera, eclesiasticamente, é sempre definido como 21 de março, embora nem sempre seja no dia 21 de março, como nós sabemos. E além disso, a lua cheia, neste caso, não é a lua cheia que nós vemos no céu, embora às vezes corresponda, mas sim uma lua cheia calculada através de uma fórmula complexa que eu estaria aqui agora bastante tempo a descrever.
Estamos aqui a juntar matemática, astros, isto é uma combinação.
Matemática, astrologia e tradições eclesiásticas. É uma combinação curiosa. Mas o princípio é esse. Temos uma lua cheia e, de facto, estamos na lua cheia, a primeira da primavera, e é o domingo a seguir a essa lua cheia. E temos aqui a lua, que está também nas notícias.
Por que será?
Por causa da nossa humanidade. Eu não fui à Lua, só vim até Valência.
Só falta isso também.
Um dia destes vamos ter aqui uma sessão sobre língua portuguesa na Lua. Nunca se sabe, daqui a umas décadas, o que pode acontecer. Mas estamos a voltar à Lua na missão da NASA, que tem um nome em inglês conhecido. Curiosamente, aquele nome de origem grega, os recursos da nossa língua dizem que devemos pronunciar como Ártemis, é o nome da deusa, ou então Artemisa. Artemisa será o nome da deusa relacionada com a lua, e nós estamos a voltar à Lua. A lua hoje é o nosso tema, e fica aqui esta indicação sobre a pronúncia do nome desta deusa. E pronto, João.
A nossa viagem pela língua nas notícias fica por aqui, não é?
Fica por aqui. Ainda não vou desejar boa Páscoa, porque ainda temos mais duas secções.
Então vamos a isso.
Vamos ao mapa da língua.
Vamos agora à tua viagem por Valência.
Como te disse, e isto já começa a ser um pouco repetitivo, porque eu tenho falado com muitos alunos de português em vários sítios e tento contar o que acontece quando falo com eles, de vez em quando. Eu estive aqui a conversar numa escola oficial de idiomas em Valência. As escolas oficiais de idiomas são uma instituição espanhola pública, que nós não temos, não temos nada parecido. É uma rede de escolas, como se fossem escolas secundárias, mas para adultos e para ensinar línguas. E neste caso, em Valência, temos aproximadamente 200 alunos de português. Não é só o português que se aprende aqui em Valência. Salvo erro, eles disseram-me 17 línguas, incluindo o espanhol para estrangeiros, incluindo também o valenciano, para quem quiser aprender, porque também é uma língua aqui da zona, são duas línguas que se falam aqui. Mas eu estive a conversar, de facto, com muitos desses alunos de português. Conheci os professores, incluindo uma professora portuguesa que cá está, e mais três professores de português que são espanhóis. Conheci vários alunos, muitos deles daqui, e eu perguntei por que razão é que estão a estudar português. E as razões são muito variadas, como também são muito variadas para nós, em Portugal, quando aprendemos outras línguas. Alguns porque gostam de visitar Portugal, outros porque namoram com algum português, ou então brasileiro ou brasileira, outros porque têm ligações, por exemplo, a Cabo Verde ou Angola, outros simplesmente porque gostam da língua, gostam do som, da sonoridade da língua, querem saber mais ou querem visitar Portugal. A verdade é que tínhamos todas as razões e mais algumas e ali muitas pessoas a aprender português. Há que dizer que para um espanhol, assim à partida, a nossa língua é difícil na parte da pronúncia, porque nós temos uma fonética muito diferente.
É mais difícil para eles ou para nós, Marco?
É para eles. Para eles é mais difícil a fonética. Estou a falar da fonética, não obviamente da gramática. Nisso aí a distância é igual de um lado para o outro. Ou seja, no que toca à gramática e ao léxico É tão difícil para eles como para nós, mas a nossa fonética é mais difícil, porque, como eu disse ontem a brincar, nós não só temos mais vogais, como ainda por cima comemos essas vogais. Torna-se tudo muito difícil, mas o que eles me dizem é que o primeiro ano é difícil, de facto, mas ao segundo ano já estão muito habituados e já compreendem praticamente tudo o que um português lhes diz, mesmo a falar depressa, como eu falo. Eu falo depressa. Mas eles compreenderam muito bem e fizeram muitas perguntas interessantes. Disseram uma coisa curiosa, que é: eles vêm a Portugal ou vão a Portugal, tentam falar com os portugueses em português. Quando ainda estão nos primeiros níveis, têm o sotaque espanhol muito marcado, claro, e muitos portugueses não compreendem que eles estão a tentar falar português e respondem em espanhol, em castelhano ou em portunhol. Eu disse-lhes: "Digam mesmo à pessoa para falar português, sejam exigentes nesse aspeto. Digam aos portugueses, falem português". Porque eles queixam-se que vão a Portugal e têm dificuldade em conversar na nossa língua, porque os portugueses passam imediatamente para outra coisa qualquer.
Por acaso eu acho que é uma característica do povo português, pelo menos nos grandes centros, quando recebemos pessoas, quer seja de países em que se fala inglês ou espanhol, nós adaptamos sempre o discurso a quem está a falar conosco, ou seja, tratamos disso como uma facilidade para a pessoa.
Mas depois o que é curioso é que, não sei se concordas, muitas vezes nós queixamos: "Eles não tentam falar a nossa língua", mas nós também não lhes damos a oportunidade, não é? De tentar falar.
É isso mesmo.
Por isso temos de lhes dar a oportunidade, com mais ou menos esforço. Claro que, como é óbvio, há espanhóis que vão a Portugal, não querem saber, não falam português. Isso acontece, como nós sabemos, como também acontece ao contrário. Mas há esta tendência, mesmo quando a outra pessoa está a fazer esse esforço, nós simplesmente quase que não lhe damos essa oportunidade. Portanto, temos de dar essa oportunidade aos espanhóis para tentarem aprender português. Fica aqui a sugestão. Mas foi uma pequena visita aqui a Valência e a essa conversa que tive com os alunos de Valência.
Pequena, grande. Com mais de 100 alunos.
Sim, exato. Foi uma conversa com muitas pessoas e alguns ouvem o "Português Suave".
Olha, muito bem.
Cá estamos nós, em Valência.
Temos fãs em todo lado.
E vamos avançar agora para os mitos e origens da língua. E eu disse que o tema era a lua, não é? Portanto, vamos voltar à lua. Eu devo dizer que conversei também ontem com os alunos de Valência sobre a lua.
Pelo menos achei que tinhas conversado com os astronautas.
Não, foi só com os alunos de Valência sobre a lua, não conversei com os astronautas. Mas o que se passou aqui foi: falei da lua porque a lua tem ali uma característica, que, aliás, vou dizer já a seguir qual é que é, e por isso não vou aqui começar por revelar já o final desta história. Eu queria dizer que é a origem da palavra lua. E para dizer isto, devo apontar para aquela língua de que já falámos aqui muitas vezes, o protoindo-europeu, que se falava há uns 6500 anos, deu origem a muitas línguas, incluindo o português. E nessa língua havia duas palavras para lua. Uma delas, que era a mais comum, era algo como "mens", que derivava do verbo para medir. Ou seja, a lua servia para medir o tempo. A passagem da lua, a lua nova, a lua cheia, era a forma como as pessoas mediam o tempo. E aliás, ainda hoje, os nossos meses têm origem neste ritmo e, na verdade, a nossa palavra mês tem origem nesta palavra antiga, "mens". Portanto, a nossa palavra mês tem origem numa palavra que queria dizer lua. Esta palavra antiga também deu origem à palavra inglesa moon. Depois, a outra palavra que os indo-europeus tinham, os protoindo-europeus, se quisermos chamar assim, que era para discursos mais poéticos, era algo como "lauksnə". Eu estou a pronunciar isto mal, mas também não há nenhum falante indo-europeu que me possa corrigir, por isso fica assim. E é derivada de "leuk", que quer dizer brilhar. Portanto, é desta raiz mais poética que vem a nossa lua e também a nossa luz, também através do latim, claro. Portanto, lua e luz têm a mesma origem. Agora, no caminho entre essa palavra do protoindo-europeu e a nossa, a palavra lua passou pelo latim, como sabemos, e depois deu origem a muitas palavras nas línguas latinas: "lună" no romeno, "luna" italiana, "lune" francesa, "lluna" catalã e valenciana, aqui também, a "luna" castelhana. E nós fizemos uma coisa curiosa que foi: partimos a palavra e deixámos uma ferida no meio da palavra, caiu aquele som e ficámos só com lua. Ela começou por ser lua e depois passou a lua. E é assim que ficámos com esta palavra tão bonita que hoje nos acompanha por vários motivos, não só porque há pessoas que estão a caminho da lua, mas também porque estamos na Páscoa e o cálculo da Páscoa está relacionado com a lua. E pronto, João.
Por acaso é uma palavra bonita, lua. Eu gosto até mais da palavra lua do que da palavra sol.
Do que luna. Pensei que estivesses a comparar aqui com a palavra dos nossos irmãos.
Não, em comparação com as duas, entre lua e sol, acho lua mais bonito, mais melancólico, se calhar.
Tem ali umas vogais. Os ditongos também costumam ser mais suaves porque o som desliza entre duas vogais. Portanto, lua. E é bonito, sim, eu concordo contigo.
Muito bem. Estamos em sintonia. Marco Neves, boa Páscoa ou feliz Páscoa?
Boa Páscoa. Vamos a essa discussão também agora na Páscoa. Eu espero que tenham todos uma excelente Páscoa com a família. E já agora, se quiserem enviar dúvidas para o nosso próximo episódio, posso sugerir portuguesesuave@observador.pt e há depois um número de telefone misterioso.
Excelente. Excelente para se esquivar. Ou seja, uma pessoa que não sabe o número de telefone, que é o 91 002 41 85, pode nos enviar dúvidas através do WhatsApp e nós respondemos nesse episódio de quarta-feira. Estaremos cá, deixa-me só aqui consultar, no dia 8 de abril. Marco Neves, um abraço.
Então, até quarta e boa Páscoa.
Até lá. Boa Páscoa também pra ti.