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Português suave.

Especial.

Especial. Obrigado, Marco, por me deixares terminar aqui a minha frase. Todas as quartas-feiras o Marco Neves está aqui conosco para nos ajudar a esclarecer dúvidas por parte dos nossos ouvintes. E hoje, Marco, é mesmo só dúvidas que temos. Antes de mais, como é que estás?

Está tudo bem. Espero que estejas bem também.

Obrigado.

Especial, se calhar, não é um termo correto, porque se virmos bem, já fazemos isto com alguma regularidade, todas as quartas-feiras.

O que é que define algo especial?

É algo que é só da sua espécie. Portanto, é muito próprio. No fundo, também podemos usar porque este episódio tem a sua espécie, que é a espécie das dúvidas e por isso é um episódio especial. São todos especiais, todos os nossos episódios.

Mas se forem todos especiais, nenhum é especial. Bem, nós não estamos aqui para discutir filosofia.

Para isso há outro.

Exatamente. Estamos para discutir português e dúvidas de português. E Marco, vamos começar por escutar a dúvida de um ouvinte que é imigrante. Vamos ouvir o Ivar Courseiro, ele que nos enviou um áudio com uma dúvida bastante peculiar. Vamos ouvir o Ivar Courseiro.

Bom dia, Marco Neves. O meu nome é Ivar, eu sou imigrante e a minha companheira é búlgara. Na Bulgária, a palavra laranja, fruta, não a cor laranja, tem um nome semelhante a Portugal. Já agora, na Macedónia também, na Albânia, na Turquia, creio que na Itália também. Eu gostava de saber por quê. Muito obrigado e um abraço a todos.

É uma excelente pergunta. Nós já falámos disto aqui há umas semanas, salvo erro, já não me lembro bem quando. Voltamos ao tema, porque é curioso como na Bulgária é só a fruta, não a cor, mas há outras línguas como o árabe em que é a fruta e a cor, e no turco também penso que é a fruta e a cor.

Em português é a fruta e a cor. Laranja é a fruta e a cor.

Sim, mas o que eu quero dizer é que nestas línguas, no caso do búlgaro, é a fruta que tem origem no nome de Portugal, e tem, enquanto que, por exemplo, no turco e no árabe, é a fruta e depois a cor também. No turco não tenho certeza. Eu agora não quero estar a dizer um erro, mas se alguém aqui souber turco e quiser dizer, mas no árabe é a fruta e a cor. Ou seja, o que acontece aqui é: há uma série de línguas centradas ali no leste da Europa e para o sul do Mediterrâneo, portanto, o árabe também, em que há uma ligação entre a cor laranja e Portugal. E a ligação pode ser mais ou menos visível, dependendo da transformação que a palavra sofreu. E tudo parece ter começado na Itália, onde a palavra laranja italiana não é parecida com Portugal, mas há línguas na Itália onde é. E chamo línguas porque, na verdade, são mesmo línguas. Ou seja, temos portucale ou Portugal ou algo parecido com isto como nome da laranja. Por quê? Não se tem a certeza absoluta, mas julga-se que houve aqui uma transmissão. Ou seja, nós já tínhamos a laranja ácida antes, uma laranja que já existia em Portugal e, aliás, nós temos uma palavra com origem no árabe. A palavra laranja, em português, tem origem numa palavra antiga para laranja do árabe. De repente, os portugueses trazem para a Europa uma laranja mais doce e essa laranja acaba por se espalhar e em muitos países ficou com o nome do país que a tinha trazido para a Europa, laranja doce, e acabou por substituir o nome que já se tinha antes da laranja, em geral. Não sei se isto está a fazer sentido.

Está a fazer.

Isto aconteceu em várias línguas. Parece que tudo começou na Itália e foi da Itália que se espalhou depois para as outras línguas, o búlgaro, o macedónio, como o Ivar estava a dizer, o turco, o árabe, o grego. Em grego atual, em grego moderno, também é uma palavra parecida com Portugal. E por isso, sim, na ligação destes falantes destas línguas, Portugal é o país das laranjas. Para nós, não.

Portugal, o país das laranjas. Espero que o nosso ouvinte, o Ivar Courseiro, tenha ficado esclarecido.

Como alguém me disse uma vez: "Bem, então com estas pessoas estão a ver um jogo de futebol entre a Holanda e Portugal, os Países Baixos e Portugal, é uma grande confusão."

Os Países Baixos têm a alcunha da Laranja Mecânica.

Exatamente. Para estas pessoas, temos um país que está associado à laranja na sua língua, a jogar com um país que não tem laranja na bandeira, mas que é chamado a Laranja Mecânica, fica tudo muito alaranjado naquele jogo.

Espero que o Ivar Courseiro tenha ficado esclarecido. Acredito que sim, até porque o Marco tem esse dom. Marco, temos também mais uma dúvida que nos chega com áudio, é da Leonor Castro. Vamos escutar qual é a dúvida que deixa no ar a Leonor Castro.

Olá, a minha dúvida é entre o "tenhamos" e o "tenhamos" e, por exemplo, o "façamos" e o "façamos". Eu sei que a forma correta do presente do conjuntivo é o "tenhamos" e o "façamos". A minha dúvida é se alguma vez é possível, em alguma circunstância, usar "tenhamos" e "façamos", por exemplo, e há de haver outros verbos. Obrigada, adoro o vosso programa.

Obrigada, Leonor Castro. E Marco, há ou não?

Há, mas há a possibilidade de usar "façamos" e "tenhamos" de forma correta, mas é preciso aqui criar uma frase um pouco artificial, porque nós podemos pôr faça Hífen me hífen us e juntar o me e o us. Por exemplo, temos trabalhos de casa pra fazer. Eu posso dizer a alguém: "Faça-mos". Faça a mim os trabalhos de casa. Mas é preciso andar à volta pra construir uma frase em que isto faça sentido. O tenha, por exemplo, pode ser uma expressão como: "Tenha-mos guardado até amanhã". Ou seja, peço a alguém para guardar seja o que for até amanhã. Tenha-me us, porque nós podemos juntar aquele me, que é o pronome da primeira pessoa, que pode ser ligado a um verbo, e depois podemos juntar aquele us que também se refere a eles. Já que temos algum tempo, eu gostava de dizer que espero ter respondido à Leonor. Ou seja, é possível, mas é muito raro. A maior parte das vezes é tenhamos e façamos.

Ou seja, a língua acabamos por simplificar pra não usar palavras tão complicadas, é isso?

Neste caso, não é. Simplesmente, a forma verbal é mesmo tenhamos e façamos, mas de vez em quando aparece uma construção em que nós podemos usar: faça-me us, e tudo junto, faça-mos, mas tem que ter um hífen lá no meio, enquanto que façamos não tem hífen. Não é uma questão de simplificação, são situações diferentes, são termos diferentes. O que eu gostava de chamar a atenção, nós sabemos, em geral, quem estudou português na escola sabe que o português vem do latim, passou por uma fase intermédia medieval que temos outros nomes e é uma grande discussão, mas fica pra outro dia, que nome é que damos a essa fase intermédia. Mas o latim tinha casos. O que eu quero dizer com isto, e é algo muito comum em muitas línguas, por exemplo, se uma palavra, se o nome estava na posição do sujeito, se tinha a função do sujeito, tinha uma forma, se tinha a função do complemento direto, tinha outra forma. E em português, não. Eu digo: o leão morde a gazela, a gazela morde o leão, a forma tanto de leão como de gazela não muda. Nós não mudamos as palavras de acordo com a função que têm. Em latim mudavam, teriam formas diferentes. Em muitas línguas do mundo acontece isto. O que aconteceu foi: havia este sistema de casos em latim que as línguas latinas, com algumas exceções no caso do romeno, destruíram completamente. Menos nos pronomes. Nós nos pronomes temos isto. Ou seja, o me é a forma do acusativo, para usar o termo do caso latino, da palavra eu. São destroços da gramática latina que nós ainda temos, mas só nos pronomes. E eu sei que não foi nada disto que a Leonor perguntou, mas eu apeteceu falar dos casos latinos que se mantêm ainda nos pronomes em português. Alguns casos, não todos.

Mas atenção, falaste tudo isto depois de responder à questão.

Sim, eu não fugi à pergunta.

Exatamente.

Eu enfrentei a pergunta e depois fugi então, sim, depois da pergunta respondida, para outro tema. Não sei quanto tempo é que temos, mas vou só dizer que as pessoas pensam que o fato de as línguas latinas terem destruído o sistema de casos é uma prova da progressiva simplificação das línguas, mas não é isso que nós vemos quando olhamos pras línguas em geral. Houve aqui uma simplificação na questão dos casos, mas depois houve, ao mesmo tempo, uma complexificação, se quisermos dizer, nas regras da colocação das palavras. Nós passamos a ter regras mais precisas e mais complexas na ordem que nós podemos pôr as palavras em relação ao latim. Portanto, as línguas em geral não tendem a simplificar-se, ao contrário do que nós pensamos. Com algumas exceções históricas, há alguns casos, algumas épocas, alguns períodos em que as línguas se simplificam quando muitos adultos aprendem uma língua. Quando muitos adultos aprendem uma língua e essa língua acaba por ser mais falada por pessoas que a aprenderam enquanto adultos, aí, sim, costuma haver uma simplificação. E houve alguns casos ao longo da história em que isto aconteceu, mas fica pra outro episódio.

O que também serve para simplificar é o nosso e-mail, onde nós recebemos as dúvidas: portugues suave@observador.pt, português com os dois S's, quer o de português, quer o de suave, e sem os acentos.

O C circunflexo.

Exatamente, sem o acento circunflexo. Temos também o nosso telefone, caso queira seguir aqui o exemplo do Ivar Courseiro e da Leonor Castro, enviar-nos uma mensagem de áudio com dúvidas para o Marco Neves. Trinta segundos, não mais do que isso, para conseguirmos encaixar o máximo de dúvidas possíveis e para o Marco, quando não escapa às perguntas, responder. O número de telefone é o 910 024 185.

Posso deixar aqui então uma pergunta pros nossos ouvintes. Como é que dizem o telefone 910 024 185 ou dizem 91 00 24 18 5 ou de outra forma qualquer? Fica a pergunta.

Pronto, aí é uma pergunta bastante pertinente. Marco Neves, marcamos novo encontro. No domingo, temos mais "Português Suave" na Rádio Observador. Até lá.