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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva. O nosso Bad Bunny português anda por aí em digressão. Há quem diga que ele está no Brasil. É assim, Marco Neves?

É verdade. Sim, estou aqui no Brasil, outra vez, porque já cá tinha vindo há umas duas semanas, mas desta vez, como foi o mês do Dia da Língua Portuguesa, acabei por receber dois convites e cá estou, no Rio de Janeiro.

E tu não te importas nada.

Não, não me importo. Quer dizer, eu não me importo, mas há que dizer que uma viagem vir à sexta, ir à segunda, é pesadinho, mas não me importo.

Até porque aí são sete e pouco da manhã a esta hora.

Exato.

Para fazer isto a esta hora, nem sempre é fácil.

Não, mas não ia perder o "Português Suave".

Claro que não.

Não te quero deixar sozinho com o bebê nas mãos.

Não, até porque o bebê ficava muito mal comigo.

Não, não ia ficar com nada.

Vamos à língua das notícias, Marco. Vamos a isso.

Vamos. Hoje é dia de Taça de Portugal e, já agora, o facto de aqui serem sete da manhã talvez justifique a minha voz um pouco ensonada.

Estás desculpado.

Obrigado. Lembrei-me de falar da Taça de Portugal hoje por ser o dia, mas também pra falar da própria palavra, porque a palavra taça tem um percurso curioso. Eu digo sempre que é curioso, porque eu acho sempre isto muito interessante, mas é um percurso igual a muitas outras palavras portuguesas. São palavras que começaram no persa, onde se dizia tast, depois passaram pro árabe, onde era algo já como tas, e depois, neste caso, a palavra passou pelo castelhano, taza, e depois é que chegou ao português taça. Mas o mais curioso aqui é que nunca mudou de significado. Desde o persa, passando pelo árabe, pelo castelhano e pelo português, a palavra sempre quis dizer taça, ou seja, um objeto pra nós podermos pôr alguma coisa, água, leite, o que for, para beber. E, portanto, esta palavra é uma palavra muito estável, muito antiga e que tem este percurso tão comum. O que não é comum, de facto, é manter o significado inalterado durante tanto tempo e durante tantas línguas.

E temos essa final histórica hoje entre Sporting e Torrense. O Torrense que já não está nesta final da Taça há 70 anos, Marco. 70 anos que já não vai ao Jamor.

Vamos ver o que vai acontecer hoje. Não sabemos.

Claro, ainda estamos aqui na perspetiva. Quem vai ouvir isto mais logo já vai saber o desenrolar daquilo que aconteceu.

Será que vai ser um resultado normal ou vai ser um resultado surpreendente? Vamos ver.

Vamos ver. Avançamos já pra o Mapa da Língua?

Vamos embora. Vamos a isso. Então, João, deixa-me explicar que eu vim aqui ao Rio convidado por um festival chamado Remexe Rio, um festival de música com nomes como a Adriana Calcanhoto e também com conferências sobre a língua portuguesa. É um festival que tenta juntar os vários lugares da língua portuguesa.

Então tu foste aí dançar e cantar? É isso?

Eu não tive de cantar, eu não cantei. Não te preocupes. O festival foi um festival bem organizado, ninguém me convidou pra cantar. Mas estive a conversar com José Eduardo Agualusa, o grande escritor angolano, sobre a língua portuguesa. Estava muita gente, há que dizer, e fiquei muito contente por isso. Foi muito animado e tivemos muitas perguntas e conversas, e depois tivemos, já agora um parêntese, um pouco de promoção. Também estive aqui a lançar pela primeira vez um livro cá no Brasil e tinha muita gente também por causa desse livro. Já lá chegamos ao Mapa da Língua, isto não é só pra falar do que eu estou aqui a fazer, mas é só pra dizer que conheci ouvintes do "Português Suave" aqui no Brasil.

Que bom!

Houve um em particular que te mandou um abraço, João, chama-se Caio e já nos enviou mensagens há uns tempos.

Acho que ele disse. Um abraço pro Caio, se nos estiver a ouvir. Um grande abraço.

Ele disse-me logo: "Um abraço pro João e eu sou o Caio, que enviei umas mensagens para o 'Português Suave'". Estive aqui também a conhecer alguns ouvintes do "Português Suave". Bem, o Mapa da Língua. Aqui no Rio de Janeiro, nós, em Portugal, muitas vezes, como estamos à distância, os brasileiros ao falar têm características que nós associamos com o sotaque do português do Brasil, ponto final. Mas há muitos sotaques, muita variedade. E o que é curioso aqui no sotaque carioca é que tem algumas características que, na cabeça dos outros falantes de português do Brasil, estão associadas ao português de Portugal. Por exemplo, nós todos dizemos em Portugal o S final das palavras com Ç.

Sim.

Por exemplo, nós. Os cariocas também fazem a mesma coisa, põem o Ç no final das palavras que contêm um S, enquanto que muitos dos outros brasileiros, não todos, porque também há outros lugares do Brasil onde isso também acontece, o que fazem é põe um S, nós. Ou seja, leem mesmo o S como S. Tanto os cariocas como os portugueses temos esta ligação de mudar o som do S pra um Ç ou um J, dependendo da situação, ou também um Z, quando, por exemplo, temos uma vogal logo a seguir. Portanto, os cariocas muitas vezes são acusados, entre aspas, na brincadeira, de ter um sotaque chiado, que é assim que os outros brasileiros dizem, e nós, portugueses, também temos um sotaque chiado. E deixa-me dizer-te ainda que agora, não olhando apenas pro Rio de Janeiro, mas pra todo o Brasil, há muitos usos diferentes dos nossos, como nós sabemos, mas há um que é particularmente curioso, que é o fato de eles dizerem meia em vez de seis, quando dizem um número de telefone, por exemplo, dizem sempre meia, quando dizem o número de um quarto de hotel, dizem meia. Ou seja, usam meia em vez de seis e é tão óbvio pra eles que se nós por acaso usarmos seis, faz-lhes confusão.

Porque o resto é tudo igual a todos os outros, não é?

Todos os outros são iguais. O seis não é, vem de meia dúzia, mas é só nos algarismos. Ou seja, se eles estiverem a dizer um número completo, por exemplo, 636, eles vão dizer seis no final, não vão dizer meia.

Meio seiscentos.

Pois. Mas se eles tiverem a dizer um número em algarismos, aí sim já dizem meia. É muito curioso. E eu acho estas pequenas diferenças engraçadas. Há pessoas que ficam muito irritadas.

Eu também gosto.

Mas aquilo vem de meia dúzia. Eles fizeram uma abreviatura de meia dúzia. Há outras línguas em que acontece a mesma coisa, em que se dão nomes diferentes para alguns algarismos e é o caso do português do Brasil.

É uma abordagem diferente e também divertida à língua. Aqui a dúzia deve estar associada também, possivelmente, aos ovos, não é? Que meia dúzia, uma dúzia, possivelmente vem daí.

Sim, vem da quantidade, não sei se particularmente os ovos, se calhar até sim, mas vem daí da quantidade. Tal como nós também reduzimos, e eles também, meia hora pra meia, 12h30, 13h30, eles reduziram meia dúzia pra meia e começaram a usar para falar dos algarismos. Dos algarismos, mais uma vez, não dos números em si. Na verdade, é o nome do algarismo, não do número.

Marco, vamos avançar, vamos aos Mitos e Origens.

Vamos a isso. E aqui, nos Mitos e Origens, vamos falar de outro ouvinte do "Português Suave". O "Português Suave" é feito também pelos ouvintes. É um ouvinte já de há muito tempo, que eu já conhecia à distância. Eu já tinha conversado com ele por e-mail muitas vezes. Ele é um brasileiro que vive na República Checa há muitos anos e chama-se Luciano Eduardo de Oliveira. Ouve o nosso podcast e disse-me que ouve, não todos os episódios, mas ouve muitos dos episódios. Espero que esteja a ouvir este. E eu encontrei-o em Lisboa. Ele disse-me que vinha cá e estivemos a conversar um pouco. E aqui, o que é curioso é que há uma espécie de mito que há um limite para o número, e há, atenção, a questão é qual é esse número. Para o número de línguas que nós podemos aprender a ler e até a conversar. Eu aproveitei e gravei uma pequena conversa com ele, quando estava com ele aqui em Lisboa. Aqui, não, aí em Lisboa, e gostava, João, de te pedir se pudesses passar essa conversa.

Claro, é um trabalho de reportagem com assinatura do Marco Neves. Vamos a isso.

Estou aqui com um ouvinte do "Português Suave". Eu já sei qual é o teu nome, mas vou te perguntar como é que te chamas.

Luciano, eu sou um ouvinte bastante assíduo. Sou do Brasil, mas vivo há 16 anos na República Checa.

E costumas ouvir o "Português Suave" de vez em quando, gostas muito de línguas. Aliás, eu vou te fazer uma pergunta: quantas línguas é que tu consegues ler?

Umas 30.

Portanto, aos ouvintes do "Português Suave", nós temos aqui um verdadeiro apaixonado por muitas línguas e também pelo português.

Exato, muito. Fiz Letras, estudei Letras, estudei gramática, literatura em língua portuguesa.

Eu já conheço o Luciano há muitos anos porque trocávamos mensagens. Às vezes, há questões de língua em que ele me envia uma mensagem, nós discutimos à distância. Então é muito engraçado conhecê-lo agora aqui em Lisboa, ao vivo, e eu não quis perder a oportunidade de termos aqui uma pequena intervenção de um ouvinte brasileiro que está na República Checa, apaixonado por muitas línguas e pelo português.

Tradutor, professor de idiomas e feliz de estar aqui em Portugal e conhecer pessoalmente o Marco.

Obrigado, Luciano.

De nada, o prazer é meu.

Grande momento, Marco Neves.

Sim, e eu devo dizer que aqui nós conversamos só um pouco, assim de forma muito leve, mas depois estivemos a conversar de forma mais profunda. Ele conhece mesmo as 30 línguas.

Isso é que me deixou impressionado, 30 línguas!

Sim, e ele, por exemplo, ele vive na República Checa, portanto poderá não parecer tão estranho, mas ele participou num programa parecido com aqueles concursos ao final da noite de cultura geral. Ele participou num programa desses e mostrou-me em checo e ganhou o prêmio. Está agora a concorrer pra participar num programa parecido em polaco. Esteve a discutir diferenças entre o búlgaro e o macedônio, que são línguas parecidas, mas com algumas diferenças. Ele esteve a conversar aqui em Lisboa, aí, lá estou eu, aí em Lisboa, com turistas japoneses em japonês. Portanto, ele sabe mesmo as 30 línguas, o que mostra que enfim, o limite é superior ao que se calhar nós pensaríamos no que toca ao número de línguas que nós podemos aprender a ler e depois também algumas delas a falar. Foi muito interessante falar com o Luciano e deixo aqui um abraço pra ele.

Marco Neves, já que estamos aqui nos Mitos e Origens, vê se descobres a origem de siso, até porque esta semana estive aqui à rasca. Ainda estou, neste momento, com algumas dores. Portanto, não te vou pedir a origem da minha dor, mas da palavra, já que me deu tantas dores de cabeça, agora quero saber.

Sim, continua.

O SOS ajuda a resolver um bocadinho, mas isto de vez em quando é uma dor que vem das entranhas.

E isto de fazer rádio com dois dentes não deve ser nada fácil.

Não é. Mas pronto. Estamos aqui em boa companhia e isto já ajuda. Vamos para os livros?

Vamos a isso. Pronto, e como o português está em todas as áreas, não é só da língua. Ou seja, quando nós falamos português, estamos a falar de tudo. E a minha sugestão hoje é um livro da Carla Lourenço, que é uma bióloga que também faz vídeos nas redes sociais e que tem um livro novo chamado "Isto Não É". Um livro pra crianças, em que ela, através do português, na verdade, através dos nomes que nós damos a animais e que às vezes aplicamos de forma mais geral do que deveríamos, mostra muita coisa sobre esses animais e não só. Por exemplo, será que pássaros são aves e as aves são pássaros, ou há diferenças? Na verdade, posso dizer já que os pássaros são aves, mas o contrário nem sempre é verdade. Ou seja, nem todas as aves são pássaros.

Exato.

E de uma forma muito divertida e muito interessante, para adultos e também para crianças, este livro permite aprender um pouco mais sobre biologia, mas também sobre língua portuguesa, porque é a língua portuguesa que nós usamos para falar dos animais. Portanto, fica aqui a sugestão, "Isto Não É", da Carla Lourenço.

Muito bem. E o Marco Neves agora, entretanto, vai dormir um bocadinho, são 19h e pouco agora no Brasil. Ainda está com esta voz assim a acordar, mas ele vai descansar.

Vou descansar um bocadinho e depois ainda vou aqui aproveitar, por exemplo, para ver o Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro, um lugar muito importante para a literatura portuguesa, e depois contarei alguma coisa pra semana.

Exatamente. No episódio de quarta-feira, até porque já sabe, pode enviar-nos dúvidas para o e-mail portuguessuave@observador.pt ou através do nosso WhatsApp, que é ainda mais simples, 910024185. Eu e o Marco estamos de regresso na quarta-feira para responder, eu não, mas o Marco de certeza, para responder às dúvidas dos ouvintes. Marco, um grande abraço e até lá.

Um abraço. Até breve, João.