Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
É quarta-feira, é também dia de "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Neves. Bem-vindo.
Olá, tudo bem?
Tudo bem também.
Hoje é dia de dúvidas. Vamos ouvir os nossos ouvintes. Eu gosto muito de ouvir os ouvintes.
É?
Sim, gosto.
Então vamos a isto. Começamos por quem hoje?
Vamos começar pelo Fábio Bernardino, que nos traz uma dúvida sobre uma região do país que me diz muito e já explico porquê.
Olá, Marco e João. Daqui Fábio Bernardino, de Leiria. Numa altura em que nosso país se revaloriza à música tradicional portuguesa, e ainda bem, com novos e jovens artistas e grupos musicais ligados, por exemplo, ao cante alentejano, surgiu uma dúvida: por que se diz cante e não canto alentejano? Pode dizer-se as duas formas, são sinônimos ou há alguma diferença entre o cante e o canto alentejano? Obrigado, um abraço.
Cante, Marco Neves, cante.
Não, não vou cantar. Não, porque o "Português Suave" acabava aqui. Se eu cantasse. Não me vais obrigar a cantar no Carnaval, pois não? Já me disseste assim.
Não, eu se concretizar aquilo que disse no último episódio, te ver vestido de Jackie Chan já é bom.
Já é bom. Por que eu disse que esta região alentejana, de Leiria também, porque eu sou de Peniche, e Peniche é do distrito de Leiria, mas neste caso é porque a minha mulher é do Alentejo e por isso tenho uma ligação forte ao Alentejo. A resposta à pergunta, cante em vez de canto. Cante também é, em português de todo o país, e não só, uma ordem.
Uhum.
Cante. Meu caro senhor, por favor, cante. Mas, neste caso, não é um verbo, não é uma forma verbal.
E também é um filósofo.
E também é um filósofo, sim, é um mau, exatamente. Temos aqui uma palavra que serve pra muitas coisas. A pessoa diz: "Cante". E ele: "Não, eu sou João Rodrigues, não cante". O que acontece aqui é um nome, que é um regionalismo, como há muitos. Portanto, há muita tendência para mais para Sul, para as vogais do final das palavras, serem reduzidas para um "ê". Nós dizemos isto do sotaque algarvio com muita frequência, mas isto acontece com muitas palavras e, neste caso, canto é lido no Alentejo mais como cante. Em que nós reduzimos aquela vogal.
Mas significa a mesma coisa.
Significa a mesma coisa, é canto. No nome deste tipo de música, como é especificamente alentejano, decidiu-se que ficava o regionalismo como nome da música. Devo dizer que por esse país fora, nós dizemos aquela vogal de forma muito mais alentejana do que nós pensamos. Se nós ouvirmos com atenção as pessoas a falar em todo o país, aquele canto, muito raramente. Porque repare, nós pra dizermos o U, que é um O, mas que se lê como U, nós temos que arredondar os lábios, supostamente. E muito raramente um falante vai arredondar os lábios quando diz canto.
Pois é.
Nós dizemos cante, não arredondamos.
Está ali mais disfarçado.
Sim, está ali um U já a desfazer-se ao longo dos séculos, e não é de agora. Atenção, isto não é um problema das novas gerações, não, isto já tem alguns séculos. Tanto que se nós dissermos também filho, eu só digo filho, assim com cuidado e a querer pronunciar as sílabas, digo filho, e até arredondo os lábios. Ninguém está a ver, mas arredondo. Agora, se eu disser no dia a dia, eu vou dizer filho e não arredondo os lábios, e aquela vogal está bastante diferente.
As coisas que tu nos pões a pensar. Agora, sempre que disser filho, vou pensar em dizer filho ou filho. Ou filho.
Peço desculpa te ter estragado a palavra.
Não.
Vamos à nova dúvida?
Vamos a mais uma que nos chega do Ken.
Ken.
Olá, Marco e toda a equipe de "Português Suave". Sou o Ken, moro em Aveiro. Só queria agradecer à equipe toda pelo trabalho importante que estão a fazer, uma vez que é tão difícil encontrar recursos didáticos de nível avançado em PT/PT para falantes não nativos, como eu. A minha dúvida é sobre terminação de frases com uma preposição pendente, como, por exemplo, um assunto que não sei muito sobre. No meu entender, não é bom português e queria perguntar ao Marco se existem casos onde é aceitável, como talvez: quero que venhas com livro ou sem, ou se se deve evitar sempre em contextos formais. Obrigado.
Deixa-me dizer que o Ken fala muito bem português.
Sim, eu não diria que é um falante não nativo.
Não nativo, como ele refere.
Sem ele ter referido. O nome dava-nos uma pista, mas de resto, ao ouvir falar, parece um falante português.
Parabéns.
Parabéns por ter aprendido. É curioso Cada cultura linguística em cada país tem uma forma diferente de encarar os falantes de outras línguas que aprendem a nossa, digo eu. Isto é difícil também de descrever. Há países que preferem que os falantes estrangeiros não estraguem a língua, deixem-na estar quieta, falem outra qualquer. Mas acho que em Portugal não somos abertos para umas coisas, mas para isto, quando nós vemos um falante de outra língua tentar aprender português, até somos muito, digo eu, posso estar enganado, eu gostava de saber tua opinião ou se mais alguém quiser dar essa opinião, mas se nós vemos um inglês, vamos imaginar, ou um francês a tentar aprender português, ficamos contentes e se eles disserem algum erro, paciência.
Mas a percepção que temos sempre de pessoas que estão a aprender é que o português é realmente uma língua muito difícil, não é?
Sim.
E por isso se calhar ficamos tão impressionados quando temos aqui pessoas a falar tão bem, quando não é a língua mãe.
Mas eu penso que o fenômeno é essa a explicação que nós damos na nossa cabeça, mas na verdade, penso que lá por trás está simplesmente o fato de nós vermos poucas pessoas que venham para Portugal e que são estrangeiras a aprender a nossa língua.
Tivemos o caso de um treinador do Benfica, Roger Schmidt, que veio para cá e esteve cá cerca de, não sei se chegou a dois anos, mas foi perto disso.
E aprendeu.
Não, na altura foi muito criticado porque não aprendeu.
Temos um treinador nacional, que é espanhol, a aprender português e a fazer esse esforço.
E agora temos também o treinador do Porto, que está cá há menos tempo, nem há um ano, o Francesco Farioli, e que já numa conferência de imprensa já disse algumas palavras em português.
E nós ficamos impressionados porque nós temos a ideia de que há poucas pessoas a aprender português e também temos essa ideia de que é uma língua difícil, embora as línguas sejam difíceis, dependendo de onde é que vem a pessoa. Se for um espanhol aprender, há partes do português que são fáceis. A fonética é difícil, mas a gramática é fácil. Agora, devo dizer que há mais pessoas a aprender português do que nós pensamos. E muitas vezes as pessoas falam: "Ah, isso é por causa do Brasil". Claro que o Brasil tem muita importância, estamos a falar de mais de 200 milhões de pessoas, mas não é só o Brasil. Eu já conheci muitos alunos de português em Espanha, nunca fui à Polónia, mas polacos que vieram já a Portugal e que eu conheci na Croácia, na Alemanha, há muitos alunos de português que querem aprender por causa dos vários países, não é só por causa do Brasil, e se fosse, seria ótimo também aprenderem, mas é também porque vêm cá e há muito mais do que nós pensamos, sinceramente. Então nós temos aquela ideia de que os espanhóis não querem saber nada da nossa língua e há muitos alunos de português.
Eu acho até o contrário, pela proximidade que eles têm de nós e nós deles, eu, pelo menos, eu sinto-me muito interessado e gosto sempre de tentar falar bem espanhol. E também sinto isso da parte deles.
Sim, mas nós temos uma ideia muito geral em Portugal, e há muitos espanhóis também, querem atenção, também temos de ser justos.
Sim, há os dois lados, claro.
Mas há muito mais do que nós pensamos. Eu conheço escola, há uma rede de escolas, e já falei aqui disto, há uma rede de escolas públicas de línguas em Espanha, uma rede de escolas de línguas, que é uma rede pública, que existe em muitas cidades espanholas, em que as pessoas podem aprender uma língua pagando pouco, é muito barato, é uma rede pública, não existe nada parecido com isso cá em Portugal. E em muitas destas escolas existem turmas a aprender português. Em Bilbao, na Galiza, existem por razões históricas. Na Extremadura existem porque estamos próximos, em Badajoz, muitas pessoas aprendem português. Em Bilbao existe. Em Valência, eu por acaso aqui nuns meses vou conhecer alunos de português em Valência, em Barcelona, em Madrid, em muitas cidades espanholas. Isto tudo para fugir à pergunta.
Pois é.
Estou a brincar. Temos tempo?
Já só temos um minuto.
Um minuto, rapidamente. Ken, se eu depois não conseguir responder a esta pergunta, eu respondo noutro episódio, mas só para dizer que é uma influência do inglês, clara. É uma influência clara do inglês em português. Aqui o último exemplo do com livro ou sem, eu ainda poderia aceitar, mas é claramente um desvio ao padrão do português por influência inglesa. Em inglês é perfeitamente correto. Claro, dizer "what is this about?". Isso está tudo bem em inglês, cá em português, não.
Muito bem. Fica aqui esclarecido para o Ken, um grande abraço, e também para o Fábio Bernardino, que nos enviou um áudio através do 91 002 41 85, é o nosso número do WhatsApp.
O que estamos a dizer estava repetido, eu sabia.
Sim, estavas a repetir na tua cabeça. É o número para o qual nos podem enviar dúvidas, mensagens de voz até 30 segundos, como fez aqui o Ken e o Fábio Bernardino. Se for mais tímido, pode também escrever-nos para o e-mail, Marco?
portuguessuave@observador.pt.
Muito bem, esse tu sabes de cor. Ficamos por aqui e estamos de regresso no domingo. Um abraço.
Um abraço.