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Com o mês de julho já em andamento e o "Português Suave" não para. Ainda que à distância, às vezes o Marco vem para perto de mim, outras vezes fica mais longe. Marco, olá, bem-vindo mais uma vez.

Olá, tudo bem. Eu hoje estou longe porque estou aqui a preparar uma viagem e já vamos falar disso daqui pouco. Mas cá estamos, sempre perto pela voz. Hoje vamos falar um pouco do mundial e vamos acabar a falar de filosofia, mas não se assustem. Há pessoas muito assustadas com a filosofia, por acaso eu acho que sem razão, porque é interessante.

E acham que é aborrecido, não é?

Sim. Eu digo quanto a isso, que todos os temas podem ser aborrecidos ou não aborrecidos, dependendo da forma como nós olhamos para eles. Mas vamos começar pela língua das notícias, em que vamos falar aqui de um país que esteve nas notícias, por causa do mundial. Vamos avançar. Eu não sei, João, se viste o jogo entre Portugal e Croácia.

Vi, estive a fazer reportagem no Terreiro do Paço, em direto.

Correu bem?

Fui dormir já passava das 04:00 da manhã.

Meu Deus!

Sim.

Foi dos jogos mais estranhos no final. Eu não sei se emocionante é a palavra certa.

Já não via assim um jogo de futebol há imenso tempo. E devo-te dizer que no Terreiro do Paço, na zona onde eu estava, estava um mar de gente. Eu não vi muitos croatas até, no final, eu afastar-me um pouco da multidão e estava um grupo de quatro, cinco croatas a festejar aquele gol que depois foi invalidado e me deu muita graça, porque de facto eles estavam a festejar um pouco tímidos e depois ficaram logo muito tristes quando perceberam que o gol tinha sido invalidado.

Aquilo foi complicado. Eu não me lembro de ter visto algum jogo com um tempo de compensação tão longo.

Verdade. Aquilo já parecia o prolongamento.

Pois, no final, com tudo aquilo, já estava nos 18 minutos, salvo erro.

Sim.

O jogo terminou aos 18 minutos de compensação. Como tu disseste, eu também já não me lembro de ver um jogo assim há muito tempo e foi emocionante. A minha mulher estava meia dormida, meia acordada, mas a meio da segunda parte ficou bem acordada com tudo o que estava a acontecer.

Claro. Quem não?

Acabamos por ver o jogo bem acordados ali a meio da noite. Eu estou a falar disto, porque obviamente nós lembramo-nos bem do jogo, mas também porque eu não sei se as pessoas que estavam no Terreiro do Paço estavam a reparar nisso ou não. É daquelas coisas que todas as pessoas quando veem um jogo da Croácia, em geral, reparam, nem que seja ali durante dois segundos, que é os nomes dos croatas.

Sim.

Têm uma característica linguística muito própria. Acabam quase todos em "ic". E aqui o que eu queria explicar rapidamente, já deixamos a Croácia para trás, vamos avançar para os espanhóis. Mas já que jogámos contra a Croácia, queria só explicar de onde é que vem aquele "ic". Aquele "ic" é um pouco como nós temos em português, também uma partícula no final de alguns apelidos, que significava no início, não agora, que aquela pessoa era filha de alguém com um nome. Por exemplo, e já falámos disto aqui, Henriques era o filho de Henrique. Portanto, Afonso Henriques era o filho de Henrique. Nunes, Marques, Antunes, era o filho de António. Portanto, aquele "ic" da Croácia é também a mesma coisa. Quer dizer que, no início, quando aquele nome foi formado, era o filho de alguém. Portanto, aquilo é uma partícula que significa filho de. Só que no caso deles abusaram com a partícula, porque é em quase todos os apelidos, mas não é a mesma origem, mas funciona de uma forma parecida com o nosso "es" em Henriques. Depois, pelo que eu percebi, ao tentar investigar um pouco esta partícula croata, aquela partícula também servia para fazer diminutivos. O que quer dizer que, parece-me, e se algum croata me estiver a ouvir, confirme ou desminta-me ou explique melhor, mas parece-me que para um ouvido croata, aquilo no fundo é o "inho" português. É como se nós estivéssemos a ouvir um jogo e todos os jogadores fossem Antoninho, Nuninho, Francisquinho.

Ronaldinho.

Ronaldinho, exatamente. No fundo, a certa altura, no croata, o diminutivo também serviu para fazer os tais patronímicos, ou seja, nomes que mostram qual é que é o nome do pai ou da mãe, nesse caso matronímico. Não sei se ficaste esclarecido, João.

Sim, estava aqui a ver a seleção da Croácia, há muitos "inhos": Livaković, Stanišić, Modrić, Vlašić, Pašalić e Sučić. Há muitos. Podia continuar.

Acho que é daquelas coisas em que nós reparamos. Eu também estava agora a ver, eu não fui confirmar o dado factual, mas eu estava aqui a olhar para notícias e para comentários. E espero que não morda a língua amanhã depois do jogo com a Espanha. Mas parece que desde 98 que todas as seleções que eliminaram a Croácia.

É verdade. Isso é verdade. Isso aconteceu no último mundial em que venceu a Argentina. A Croácia foi eliminada nas meias-finais pela Argentina, que depois venceu, e já aconteceu em mais anos.

Sim, pelo que eu percebi, desde 98, todas as equipes que eliminaram a Croácia acabaram por ganhar o mundial.

É sim, isto é um bom presságio, porque há aquele episódio dos Simpsons, em que também se fala muito e que culminou com essa vitória para Portugal. Agora, há este dado muito importante. Portanto, olha, as minhas esperanças estão lá em cima.

O argumento final, porque nós tínhamos Nostradamus, o grande divisor do futuro. Nostradamus falhou várias vezes. É uma ilusão, mas eu acho que os Simpsons, não. Os Simpsons são, na verdade, o oráculo mais certo que nós temos em todo o mundo.

É o nosso guia do futuro.

Pode ser que ganhemos o mundial. Vamos avançar para o mapa da língua? Ontem fiz uma viagem até um lugar da fronteira entre Portugal e Galiza, porque tive a sorte de ser nomeado juiz. Vou tentar explicar o que aconteceu. Agora sou juiz. Posso julgar as pessoas? Não, não posso. Mas eu vou explicar o que se passa. Havia um território, de que também já falamos aqui no "Português Suave", um território entre Portugal e Galiza que se chamava, e chama, mas já não tem as mesmas características jurídicas, Coto Misto. Existiu enquanto território, na prática, independente até o século XIX. Só na segunda metade do século XIX é que houve um tratado entre Portugal e Espanha que acabou por deixar grande parte do Coto Misto, praticamente tudo, do lado galego, do lado espanhol, e deixou só uma faixa de terra desabitada do lado português. Portugal foi compensado com outros territórios noutros lugares, portanto não foi propriamente uma injustiça. Agora, o que acontece é que esse território, até então, durante séculos e séculos, era um território independente, na prática, uma espécie de Andorra à portuguesa e à galega. O que acontece é que nas últimas décadas há uma associação de amigos do Coto Misto e outras associações também que trabalham na defesa das tradições deste território, porque este território, na verdade, simboliza muito as ligações que existem entre o norte de Portugal e a Galiza, porque mostra como aquela fronteira era muito porosa, muito aberta culturalmente. E também economicamente, sempre houve muito contrabando entre os dois lados quando isso era possível. Mas, na verdade, culturalmente é isso que nos interessa aqui naquilo que eu estou a tentar descrever. Havia tradições antigas que estão a ser recuperadas. E então os habitantes deste Coto Misto, que hoje são três aldeias, todos os anos, no primeiro sábado de julho, ou seja, ontem, realizam uma cerimónia em que abrem uma arca onde estavam antigamente, agora já não estão esses documentos, mas estão outros, uma arca que representa os direitos daquele território. As pessoas não pagavam impostos a nenhum dos reinos, não tinham de fazer serviço militar, funcionavam como um pequeno país separado. E essa arca é aberta nesse sábado e são nomeadas três pessoas ou instituições todos os anos como juízes honorários.

E tu foste um deles.

E fui um deles este ano. Já tinha lá ido há uns anos quando o Fernando Venâncio, um linguista que morreu o ano passado, já falámos dele aqui várias vezes, foi nomeado e pediu-me pra lá ir porque ele não podia, e eu fui lá ler o discurso que ele tinha escrito e desta vez vou lá em meu nome próprio. É sempre muito interessante, até para conhecer os outros nomeados, que são também sempre pessoas ou instituições que defendem ou divulgam as ligações entre a Galiza e Portugal. É por esse motivo, também por causa do "Português Suave", que vou lá estar, por muitas vezes descrever esta ligação. Mas eu não estou a dizer isto para dizer que agora sou juiz. E já agora, aquilo chama-se juízes porque durante os séculos em que aquele território funcionava de forma independente, quem governava o território tinha como título juiz, então eram juízes, e é por isso que este título agora é dado, juiz honorário. É com a desculpa de ter lá ido por causa disto, mas era para referir de novo este ponto da fronteira muito interessante, que tem uma história que eu considero não muito conhecida em Portugal, mas que é também interessante e que também nos lembra que a fronteira portuguesa muito antiga, nós conseguimos reconhecer a nossa fronteira quando olhamos pra mapas bastante antigos, é das fronteiras mais estáveis, não deixa de ter pontos que foram afinados no século XIX e até no século XX, e a fronteira não deixa de ter ainda um ponto de indeterminação em que Portugal e Espanha não estão de acordo, que é o famoso caso de Olivença. Mas no caso do Coto Misto, estamos todos de acordo. O Coto Misto não existe enquanto território jurídico, mas existe enquanto território cultural e linguístico, porque naquela zona, na altura, a pergunta será: "Mas afinal, que língua é que se falava nesse Coto Misto?"

Pois, essa é uma grande pergunta, não é?

As pessoas falavam o que se falava ali na zona da Galiza e na zona de Portugal, porque não havia propriamente uma grande separação entre um lado e o outro. Todos falavam aquilo que alguns chamavam galego, outros falavam algo a que chamavam português e não tinham a noção que fossem duas línguas diferentes naquele momento. E por isso é que o Coto Misto também representa essa continuidade entre os falares do norte de Portugal e depois os falares do sul da Galiza. Há uma continuidade, embora oficialmente sejam duas línguas diferentes, no terreno, quando vamos às aldeias, as pessoas falam coisas muito parecidas.

Muito bem. E voltamos a referir, que eu lembro-me que já referimos isto no episódio, Coto Misto é um ótimo nome para uma Santos.

Eu vou propor que as pessoas façam isto.

É uma ideia vencedora. Quem quiser, nós estamos aqui a oferecer.

Acho que sim.

Vamos aos mitos, Marco Neves.

Vamos. Às vezes, vale a pena fugir um pouco do tema da língua. Eu sei que este programa é sobre língua, não é? Mas eu li um artigo curioso na revista Economist. Aliás, eu li um artigo sobre os hindus e fiz um vídeo sobre isso e foi um estardalhaço de comentários, mas nem vou voltar a esse tema. Mas nessa mesma revista, li um outro artigo muito interessante sobre inteligência artificial, que é agora o tema que todos, quase inevitável, e também sobre filosofia. Pelo que descrevia o artigo, e depois no final isto vai ter uma pequena ligação à língua, como veremos. Nos Estados Unidos, aquelas grandes empresas que desenvolvem as ferramentas de inteligência artificial com todos os prós e contras que são discutidos à exaustão por aí, têm contratado bastantes filósofos De tal maneira que, neste momento, os licenciados em Filosofia têm uma taxa de desemprego inferior à de Informática. Os licenciados em Informática estão com mais dificuldades em encontrar emprego nos Estados Unidos do que os de Filosofia. Por quê? Porque estas empresas precisam destes filósofos para afinar os valores da inteligência artificial, para testar, para pensar, para tentar que aquelas ferramentas que todos nós estamos a usar não prejudiquem a humanidade, que não prejudiquem os utilizadores. É uma tarefa enorme, gigante, difícil de compreender, mas a verdade está a ser feita por filósofos que estão a ser contratados por estas empresas. O nome do artigo é até engraçado, é "Computo ergo sum" em latim, portanto, "computo, logo existo". E eu só trouxe isto aqui porque mesmo na área da linguística, que muitas vezes as pessoas olhavam para esta área, para a área das línguas e da linguística.

Com desdém, não é?

Pois, mas também é uma área que tem sido, principalmente na área da linguística, muito importante para o desenvolvimento de muitas ferramentas tecnológicas nos últimos anos. Portanto, às vezes, as necessidades do conhecimento humano estão em áreas que nuns anos parecem estar a ser preteridas e noutros anos acabam por voltar a ser muito úteis. Eu digo, da minha parte, que nestas questões da curiosidade humana e do conhecimento humano, a grande motivação é sempre a curiosidade, ou seja, querer saber mais. Mas, de vez em quando, este conhecimento acaba por ser também bastante útil em momentos ou por razões que eram imprevisíveis. Foi o que aconteceu aqui no caso desta recente e surpreendente necessidade de filósofos nas empresas de informática dos Estados Unidos.

É uma notícia muito interessante esta. Nos leva aqui a pensar um bocadinho, não é?

Sim, o mito, na verdade, aqui nesta secção é esta ideia de que muitas áreas são inúteis, outras são úteis. Nós nunca sabemos exatamente de onde é que vem a utilidade de cada uma das áreas.

É verdade, é isso mesmo. Marco Neves, vamos avançar para a tua sugestão nos livros.

Livros da semana. Há uma chancela da Penguin cá em Portugal que se chama Liliput, que publicou um livro chamado "História da Escrita" para crianças. É um livro ilustrado, o texto é de Loïc Legal e as ilustrações de Karine Mancel, penso que estou a pronunciar bem, e o livro foi traduzido por Ana Rita Mendes e é um livro que fala da história da forma como os seres humanos foram criando caracteres para escrever, incluindo as nossas letras, as nossas letras latinas, mas também o hebraico, o árabe, os caracteres chineses e não só. E também a história da forma como a escrita foi evoluindo ao longo dos tempos. É um livro não muito grande, portanto, não é uma história muito densa.

É dirigido aos mais novos, Marco Neves? Não cheguei a perceber. Ou os adultos também podem ler? Eu posso ler?

Podem ler. Todos nós podemos ler e ver isto. Mas é um livro, eu estou aqui a folhear, estamos na rádio, não dá para mostrar.

Mas ouve-se.

Exato. Eu estou aqui a folhear e espero que se oiça. E eu sugiro que este livro esteja nas casas e nas mãos das pessoas que têm crianças e mesmo as que não têm crianças, que vejam o livro, que é muito interessante e muito bonito. É a minha sugestão desta semana. Para a semana, digo já que a minha sugestão vai ser um livro que não é para crianças.

Ok.

Que é um livro para maiores de 18 anos. Fica já a sugestão. Fica a saber.

Com a sua descrição. Marco Neves sempre aqui é ótimo nos teasers ou, como ele diz, em jeito de antecipação.

Exato.

Ficamos por aqui.

Então, para a semana vemos.

Exatamente. O episódio de domingo fica por aqui, mas já sabe, dúvidas são esclarecidas à quarta-feira, no nosso episódio extra. Marco Neves, há um e-mail que os ouvintes podem usar e abusar, não é?

portuguessuave@observador.pt.

Sim, e um número que também podem usar para enviar os áudios, mensagens de voz ou também mensagens escritas.

Eu deixo-te a tarefa de dizer o número para ti. É muito bom dizer o número.

É o 91 002 41 85, 91 002 41 85. Marco Neves, um grande abraço e até quarta-feira.

Até quarta.