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Tem um certo tom de desilusão o título da crônica que salta da página do Observador para as ondas da rádio e reza assim: "Afinal, Portugal raramente foi mais do que isto". Bem-vinda, Maria João Vilas, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Eu é que agradeço. Olá a todos, boa tarde.

Afinal, o que é isto?

O que é isto? Isto, por exemplo, é aquilo a que o país assiste, primeiro com espanto, depois com pena, depois, admito, com profundo desinteresse, desde maio, mas vá lá, junho, e todo o verão, e agora este outono. Ou seja, o principal instrumento político da governação, que é um Orçamento Geral do Estado, tratado através da formalidade ou informalidade de características pessoais que não têm diretamente, ou não deveriam ter, e não deveriam ser sobrevalorizadas como tal, com o que está em tema, em debate e em discussão. Por exemplo: birras, amuos, hesitações, avanços, recuos, acusações, suspeitas, denúncias, etc. Acho que o eco foi, se me permitem, eloquente daquilo que, pelo menos, quero dizer.

Visa muito em particular nesta crônica Pedro Nuno Santos e André Ventura. Comecemos pelo presidente do CHEGA. Considera que está desnorteado?

Isso considero eu e considera qualquer português normal com quem eu me cruze na rua. Normal, digo eu, uma pessoa que seja deficiente de visão, de audição, etc, e que abra a televisão. Mas deixe-me só dizer, eu escolhi para a semana, por acaso, vou escrever sobre este orçamento, o orçamento em si. Já na minha cabeça, despejado daquilo que eu considerei que era nefasto ser tratado prioritariamente, tal como as birras, os amuos, as desconfianças, muita desconfiança em vez de confiança. Quando eu falei de André Ventura e de Pedro Nuno Santos, obviamente, porque são os líderes dos partidos à direita e à esquerda da AD, mas, sobretudo, porque há a coincidência de serem dois casos diferentes. Eu tentei explicar isso. Não são imediatamente confiantes. Não estou a falar do caráter deles, estou a falar da personalidade. Há aqui uma diferença que é, para mim, substancial. Eu não faço julgamentos de caráter, mas posso ser observadora da personalidade. A personalidade de cada um deles, como cidadã, e neste caso testemunha ou comentadora, a confiança não seria aquilo que eu colocaria numa escala de um a 10, em primeiro ou em segundo lugar. São pessoas que são um bocadinho imprevisíveis, porque tomam posições que desmentem ou anulam atitudes, posições e decisões tomadas dias antes ou semanas antes. São pessoas um bocadinho birrentas, um bocadinho caprichosas, sendo, também como tentei explicar no texto, muito diferentes, evidentemente. São diferentes, obviamente, mas são casos bicudos politicamente. Eu lembro-me de "n" discussões de orçamentos para trás, e não sou uma pessoa que chora sobre o leite derramado, mas lembro-me que havia outro trato, outra substância, que se dava a prioridade a outro tipo de argumentos. Não era isto a que o país assiste pela televisão, ou pela mídia, ou até nos transportes públicos, etc, onde eu ando. E portanto, falei de André Ventura porque acho que ele nunca mais recuperou totalmente daquilo com que não contava, que foi uma baixa das penúltimas eleições para as europeias. Não contava com isso e não percebeu uma coisa sobre a qual eu também tenho falado, é que há uma parte do eleitorado dele que veio do PSD, mas que apesar de tudo, não gosta da animosidade e da hostilidade, se estou a ver bem, com que André Ventura trata o PSD, porque era a antiga morada dessas pessoas. Por mais que tivessem sido desiludidas, por mais que tivessem saído entristecidas ou batendo com a porta, era a antiga morada delas e não gostam daquela animosidade tão excessiva que André Ventura exibe a cada minuto. Como não gostaram, obviamente, de votações, até diria quase aquelas polkas que eu faço, e valsas, do PS e do Chega a votarem em conjunto, dizendo horrores um do outro, mas naquele momento muito contentes de votarem juntos, porque o mais importante era chatear o PSD ou dificultar a vida do PSD.

Do PSD. Falemos então de Pedro Nuno Santos. Escreve da altura que não é líder quem quer, nem há chefes sem competência. Sugere que o secretário-geral do PS não tem perfil para liderar o partido?

Não, eu acho que ainda não mostrou. Eu não disse que não tem. Eu não digo já, nem posso dizer, não seria sério intelectualmente, politicamente, nem pessoalmente da minha parte, dizer: "Não serve para líder". Ontem estive na SIC, no meu comentário habitual das terças-feiras E disse que o que tinha havido de alguma surpresa ou novidade, não gosto da pergunta novidade na política, mas de alguma coisa com que não contássemos, eu não contava. Foi aquela espécie de invectiva destrambelhada, mal expressa verbalmente e manifestando um enorme ressentimento contra os seus camaradas que se lhe tinham oposto comentando nas televisões. E até passando por cima do caso extraordinaríssimo ter sido ele próprio um comentarista que não perdia uma ocasião de discordar com veemência do ex-primeiro-ministro Dr. António Costa. Portanto, eu acho que aí houve uma subida no erro e uma descida na verosimilhança de ele vir a poder ser um grande líder. Estamos para ver. Os sinais até aqui, se não estou a fazê-los perder muito tempo com esta minha fala, têm sido mais de uma criança grande, se quiserem, ou de um político um pouco imaturo, de uma enorme inexperiência política, de mau aconselhamento, porque era fácil alguém dizer: "Não escolha atirar à cara dos seus camaradas que não gosta deles porque eles discordam de si publicamente". É um péssimo erro de avaliação, não sei quem o aconselha. E, portanto, acho que tem havido uma soma de hesitações, de falsas hesitações. Ao princípio era: "Não quero saber disto para nada". Depois, afinal, já estava disponível, depois eram as linhas vermelhas, depois teve as linhas vermelhas, agora tem que ler o que antes não tinha lido.

E agora? Há uma reunião do PS na próxima segunda-feira que vai servir para decidir o sentido de voto.

Eles estão muito divididos, e não é de agora. Há muito tempo, desde que eu nasci que falo que há ali uma divisão grande.

Mas antecipa alguma decisão?

Antecipo que o líder do PS, que nunca quis aprovar o orçamento, não pode não ter outro remédio. Ele não quer, mas penso que a pressão lá dentro, estou só a falar do PS, vai ser muito forte, porque embora ele tenha as lideranças das federações todas com ele, como se costuma dizer, o aparelho do partido, é uma expressão que eu não gosto muito. Tem o aparelho do partido todo com ele, é inegável, mas tem, apesar de tudo, uma plateia de gente que deu provas que não fará parte desse aparelho, que não fará parte da corte, ou do palácio, da casa de Pedro Nuno, na casa no sentido do seu grupo, não fará parte, mas tem provas dadas no país de intervenção pública, cívica, ministerial, etc, que não estão de acordo com esta conduta um pouco errática, caprichosa, imatura, inexperiente, etc. Acho que o Pedro Nuno Santos pode não ter outro remédio, embora por dentro, se ele pudesse e houvesse um qualquer milagre, que não sei qual seria, que lhe desse a razão, se ele pudesse escapar-se desta, escaparia. Agora, temos que estar atentos e esperar tudo na discussão da especialidade, porque se pode correr o risco, penso eu, de uma descaracterização tal do orçamento, que não é de Pedro Nuno Santos, conforme ele por vezes parece dar a entender que lhe compete ser o dele, é do Luís Montenegro, também com cedências a mais, a meu ver, e disso ocuparei-me para a semana. Mas se houver uma descaracterização de um orçamento já com as cedências que o PS queria, não sei o que fará o primeiro-ministro. Já não é Pedro Nuno Santos, é o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Esta terceira naturalidade é apenas uma primeira etapa, outras se seguirão.

Exato.

Ainda não é claro qual vai ser o desfecho desta discussão e votação do orçamento do Estado. Maria João Vilas, estamos mesmo no limite do nosso tempo. Vamos ter que avançar para as notícias das 18h. Muito obrigado pela sua disponibilidade.

Eu é que agradeço muito. Obrigada.

"Afinal, Portugal raramente foi mais do que isto" é o artigo, a crônica assinada por Maria João Vilas, que pode ler em observador.pt.