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Temos oportunidade para abrir uma janela de análise, como sempre, com o Miguel Pinheiro e o Miguel Santos Carrapatozo. Vamos olhar para o discurso de André Ventura mais daqui a pouco. Eu propunha até que começássemos por olhar para estas declarações que acabamos de ouvir de Miguel Pinto Luz. São declarações em que, Miguel Santos Carrapatozo, Miguel Pinto Luz não quer dar uma resposta àquilo que pode ser ou não um futuro entendimento entre Chega e PSD, dizendo que não é este o tempo nem o local, mas ao mesmo tempo diz que o Chega é o bloco de esquerda da direita. O que isto quer dizer?

Eu acho que é, de facto, a grande novidade desta convenção, que não teve muitas, porque foi uma convenção sem grande história, mas neste aspecto muito particular, foi a grande novidade desta reunião magna do Chega. Foi o fim da ambiguidade do partido em relação a este tipo de alianças à direita. Tal como Rui Rocha, no passado fim de semana, disse: "Com o Chega jamais conversarei", André Ventura agora definiu o seu preço: "Só darei a mão ao PSD caso faça parte do governo". E desfez essa ambiguidade que existia até aqui.

PSD paga?

E agora o PSD está nesta posição desconfortável, como se viu pelas declarações de Miguel Pinto Luz, que é alimentar um tabu sem poder dizer que não, sem poder dizer que sim, dizendo sempre e sistematicamente que este não é o tempo. Vendo pelas declarações de Miguel Pinto Luz, tal como já vimos no passado em várias entrevistas de Luís Montenegro, o PSD vai passar dois anos a responder a este tipo de questões, até que encontre finalmente uma resposta, se é que vai encontrar em algum momento. Nós vimos no passado, nas últimas legislativas, que a ambiguidade em relação ao Chega prejudicou muito a campanha do Rui Rio. Houve ali uma parte substancial da campanha em que todos os dias o assunto era Chega, o que valoriza, naturalmente, o adversário à direita. Luís Montenegro parece estar apostado em repetir a mesma estratégia. Miguel Pinto Luz, como acabamos de ouvir, também não é claro e continua a ser ambíguo. Agora na qualidade de vice-presidente do PSD, continua a ser ambíguo em relação ao tipo de alianças que o partido deve ou não fazer com o Chega, e isso só se traduz num vencedor, que é André Ventura, que vai continuar a capitalizar esta ideia de que pode ser efetivamente governo. O PSD, em vez de esvaziar ou em vez de intensificar o apelo ao voto útil no PSD, dizendo que cada voto no PSD é um voto desperdiçado, o PSD está perdido neste labirinto, que é não ter uma resposta sobre o que quer fazer com o Chega. E portanto, acho que André Ventura sai desta convenção, como se viu pelas declarações de Miguel Pinto Luz, com uma vantagem muito reforçada.

Miguel Pinheiro, tivemos com Pinto Luz hoje um momento que revela a tua vasta experiência na análise política, porque ontem dizias que se Luís Montenegro saísse à rua, lhe apontariam o microfone a perguntar o que ele ia fazer em relação ao Chega. Ontem, segundo sabemos, Montenegro não terá saído à rua, mas saiu hoje Pinto Luz, e foi exatamente essa a pergunta que lhe fizeram. Esta resposta é esclarecedora?

Não, claro que não é, mas eu espero que o PSD saiba a resposta, porque ele vai ter que dar não é daqui a quatro anos, é daqui a uns meses, porque na Madeira, tudo aponta que o PSD terá que tomar uma opção. Vamos ver o que acontece. Pode dar-se o caso de o PSD conseguir uma maioria absoluta sozinho, ou seja, com o CDS, haverá uma coligação pré-eleitoral com o CDS. Pode dar-se o caso de conseguir uma coligação ou formar governo com o apoio apenas da Iniciativa Liberal, mas também se pode dar o caso de, daqui a alguns meses, o PSD ficar dependente da Iniciativa Liberal e do Chega para conseguir uma maioria do governo na Madeira. E se isso acontecer, nós vamos ter que perceber qual é a posição do PSD, mesmo sabendo, toda a gente sabe, já sabemos, na Madeira há autonomia do Partido Social democrata, como de todos os outros partidos, mas aquilo será um sinal muito claro. Nós já sabemos que se depender do Chega, não se repetirá o que aconteceu nos Açores. Já sabíamos que se dependesse da Iniciativa Liberal, também não.

Também não.

Portanto, daqui a uns meses, aquilo que acontecer na Madeira vai ser uma pista muito clara e um sinal muito claro do que poderá acontecer daqui a uns anos, muitos ou poucos, não sabemos, pode ser quatro, pode ser menos, quando houver as próximas eleições legislativas.

Mas esta frase, o Chega é o bloco de esquerda da direita, não deixa pista nenhuma?

Não, eu acho que isso foi só uma tentativa de desvalorizar. O que Miguel Pinto Luz quer dizer com isso é que tal como o PS se aliou ao Bloco para governar, o PSD também se pode aliar ao Chega para governar. Só quer mostrar que aquilo a que Ana Catarina Mendes chama extremismo é apenas uma forma histriônica. Não são extremistas, são histriônicos. E que esse extremismo é irrelevante. Não tem outro significado. Isso é uma ajuda ao Chega. Isso não é para criticar o Chega, é para ajudar o Chega.

Miguel Santos Carrapatozo, vamos falar também de Ana Catarina Mendes. Como é que viste também a presença de Ana Catarina Mendes aqui? A ministra justificou que foi feito um convite institucional ao governo e que o governo acedeu a este convite. É mesmo só isso? Podemos tirar algum tipo de leitura também desta presença?

Mal seria que, tendo sido feito o convite, os elementos que representam o governo não aceitassem. O Chega é, até ver, um partido reconhecido pelo Tribunal Constitucional, é um partido reconhecido pelas instituições democráticas e, portanto, mal seria que o governo recusasse, depois de ter sido convidado formalmente, cumprir o formalismo, o protocolo.

António Costa, por exemplo, quando ganhou as eleições, disse que estava disposto a negociar com todos os partidos, menos com o Chega.

Mas isso é diferente. Negociar é diferente de se fazer representado de forma institucional numa reunião magna de um partido. E portanto, Ana Catarina Mendes fez bem, fez a sua obrigação em aceitar este convite. A sala comportou-se de forma, digamos Quase civilizado. Houve alguns apupos, mas foram travados rapidamente, o que também é um sinal de que o Chega já aparentemente aprendeu um pouco a comportar-se, o que é também de elogiar. Portanto, foi cumprido um formalismo. Acho que todos os partidos que se fizeram representar, tendo sido convidados, fizeram bem em fazê-lo, porque já se viu, não é só em Portugal, já se viu em todos os cantos do mundo, que partidos como o Chega não devem ser ostracizados de forma a tratar todos os apoiantes do Chega ou todos os apoiantes de partidos desse gênero como se fossem uns outcast, como se fossem pessoas que não têm sequer o direito de estar a jogar o jogo democrático. E portanto, a melhor forma de tratar partidos como o Chega é tratá-los de forma correta do ponto de vista institucional. Acho bem que Ana Catarina Mendes tenha representado o governo nesta reunião magna.

Mas foi interessante, porque Ana Catarina Mendes nem esperou pelo hino nacional, saiu logo que o André Ventura escalou.

Foi das primeiras a sair. Isso também foi um statement da Ana Catarina.

Certo, e logo a seguir, Miguel Pinheiro também foi logo embora.

E não quiseram falar na zona mista.

Exato.

Com o logo do Chega atrás.

Não quis ficar mais tempo a assistir ao final da convenção do que Ana Catarina Mendes. Foi interessante essa coreografia.

Olhando agora para o discurso de André Ventura e para aquilo que foi toda esta convenção, esta, Miguel Pinheiro, é a convenção da moderação do Chega?

Houve o esforço. Aliás, o próprio André Ventura disse que tudo isto era uma demonstração de amadurecimento institucional. Houve essa preocupação. Esta convenção não teve nada a ver com as anteriores no tipo de intervenções que foram feitas no palco, nada a ver. Nas moções temáticas, também nada a ver. André Ventura diz sempre que não aceita que o partido se modere. Ele disse isso nas outras convenções: "Não contem comigo para moderar o Chega". A verdade é que o que ele acabou de fazer nesta convenção foi tentar caminhar para uma moderação do Chega e depois deixou aqui uma série de pistas para as eleições que aí vêm e que o ciclo eleitoral é muito favorável ao Chega. Vêm primeiro eleições na Madeira, onde o Chega não tem deputados e, portanto, só pode ganhar. A seguir, eleições para o Parlamento Europeu, onde o Chega também não tem deputados, portanto, só pode ganhar. As próximas duas eleições são muito importantes. Já falámos da Madeira e da possibilidade de o Chega, eventualmente, chegar ao governo e pela primeira vez ter pastas num governo, no governo regional, mas pela primeira vez ter pastas. Depois ficou aqui um pouco mais claro qual é que vai ser a estratégia e o discurso político do Chega para as europeias. André Ventura fez questão de ter aqui oito representantes de partidos irmãos. Alguns deles com discursos bastante radicais, nomeadamente sobre imigração e sobre a forma de olhar para Bruxelas. E deu para perceber, eu ainda não tinha percebido, por que é que o único tema fraturante de que se estava a falar nesta convenção era a imigração. Eu ainda não tinha percebido, percebi agora. A base da campanha eleitoral do Chega precisa de temas para as eleições europeias e o tema vai ser a imigração ilegal, que é o tema que une o Chega aos outros partidos. Aliás, um dos representantes desses partidos estrangeiros disse: "Vocês aqui não têm o mesmo problema que nós temos lá", foi o do Réaction National. "Isso vocês não têm aqui ainda o problema que nós temos lá." Mas André Ventura vai focar-se na imigração ilegal, vai focar-se na crítica a Bruxelas, que é uma linha de força muito antiga na política portuguesa, e depois a questão da história, a questão da nossa história e do wokeismo. Parece-me que ficou aqui claro que vão ser os três eixos de campanha e André Ventura vai pegar nesta questão da reescrita da história, tornando um debate muito teórico numa coisa muito concreta. Neste discurso, foi a segunda vez que falou dos ex-combatentes e que falou dos retornados e depois estendeu isso aos elementos das forças de segurança. Ele vai transformar um debate teórico sobre a história, os pedidos de desculpa na história e a forma como olhamos para a nossa história, vai transformar isso num debate concreto contra portugueses concretos ou, no caso, ele defendendo portugueses concretos, que são os ex-combatentes, os retornados, e ele depois, como já são poucos, alarga isso a todas as forças de segurança.

Miguel Santos Rebelo de Sousa, este foi um discurso, de resto, todos os discursos que fomos ouvindo, de definição de metas eleitorais até bastante claras, são alcançáveis, faz sentido defini-las desta forma? Eu creio que sim. Como o Miguel Pinheiro dizia a propósito da Madeira, que é perfeitamente possível o Chega conseguir força suficiente para, se não integrar o governo, para pelo menos condicionar muito as negociações. Acho que isso pode ser dito e nas europeias não me parece nada impossível, até pelo contrário, que o Chega venha, por exemplo, a conseguir conquistar dois eurodeputados. Se pensarmos que o PS teve nove nas últimas eleições, um excelente resultado até para a história do PS, e que o PSD se ficou pelos seis E que o CDS conseguiu eleger um. Se o Chega conseguir roubar o deputado conseguido pelo CDS e roubar mais um ao PSD, chega facilmente aos dois, sendo que ainda há a Iniciativa Liberal. E há aqui uma grande questão que é o fato dessas eleições europeias serem um grande círculo uninominal. Ou seja, não se coloca aquela questão que acontece em eleições legislativas, por exemplo, de fortes concentrações de votos em determinados territórios que depois não contam para nada, porque um determinado eleitorado só elege três deputados, dois PSD, um PS. E os votos do Chega, apesar de relevantes, vão para o caixote do lixo. Tratando-se de um enorme ciclo uninominal, todos os votos contam e o Chega tem aqui uma oportunidade muito interessante de entrar no Parlamento Europeu com este discurso que Miguel Pinheiro dizia. Eu tenho dúvidas, honestamente, que seja para lá de todo o foguetório do André Ventura, que seja um discurso que mobilize muito. Não me parece que o tema da imigração seja um tema que seduza muito o eleitorado. Claro que seduz um nicho, mas que seja transversal a vários segmentos eleitorais.

Eu acho que isso está lá só para manter uma linha de unidade com a outra família europeia. O grande ponto nas europeias, focado em Bruxelas e em Portugal, focado no governo, e já se percebeu que esse vai ser praticamente o tema único do André Ventura nos próximos anos, é a corrupção.

Sim, a burocracia, os burocratas, tecnocratas de Bruxelas, o sistema podre, o regime que já não se consegue reinventar. Eu acho que André Ventura, o candidato do Chega na altura, vai centrar-se muito nisso, vai centrar-se muito no combate à falência das instituições europeias, a denúncia da corrupção, a denúncia da burocracia, a defesa da identidade do país, não necessariamente da perda de soberania, porque isso diz provavelmente muito pouco aos portugueses, mas na questão de ter uma voz ativa, de Portugal não deixar que sejam substituídos os símbolos nacionais, etc. E portanto, acho que André Ventura e o candidato que vier a ser escolhido para encabeçar essa lista às europeias, vai centrar-se muito nisso e é muito provável que venha a ter sucesso.

Até porque o governo ficou muito marcado por estes últimos casos. Enfim, vamos chamar de corrupção, porque André Ventura chama de corrupção. Obviamente, não estamos a falar de estes últimos casos no governo. Não estamos a falar de corrupção em sentido próprio, mas enfim, esta é a palavra que fica. Isto vai ficar completamente colado a este governo até o final da legislatura. E esse vai ser o tema mobilizador de André Ventura. Ele vai usar isso e os privilégios dos políticos. É interessante perceber que ele falou aqui da datura dos subsidiodependentes, mas mais do que os subsidiodependentes, o grande ponto dele era a classe política e os dependentes da classe política. Portanto, os subsidiodependentes vão ser substituídos no discurso de André Ventura pela classe política que tem privilégios e que recebe indenizações milionárias. E portanto, esse vai ser o grande ponto que vai atravessar estes três atos eleitorais na Madeira, em que o Chega fala no compadrio e na corrupção no governo da Madeira. Eleições europeias, Bruxelas, a grande entidade corrupta, distante e tudo mais, e legislativas com o governo do PS. Vai ser esse o arco narrativo todo.

E nas europeias há esse bônus, que é se esse tipo de discurso já tem muito lastro quando aplicado à Assembleia da República, quando aplicado ao Parlamento Europeu, o tal Parlamento muito distante, que ninguém conhece exatamente quem é que está lá, em que se falam das viagens todas pagas, dos salários bastante superiores aos que os nossos deputados ganham.

Independentemente, Miguel, de partidos irmãos do Chega terem sido protagonistas de alguns dos maiores escândalos de desvio de fundos.

Mas isso nunca foi um problema para André Ventura.

Apropriação indevida de fundos, o partido de Marine Le Pen, a própria Marine Le Pen. Quer dizer, portanto, sim, mas isso nunca foi um problema para André Ventura.

E esse tipo de discurso pode ter, não nos vamos substituir aos eleitores, mas pode ter muita penetração em vários segmentos eleitorais, porque de facto é um mundo muito distante para a maioria das pessoas.

Miguel Santos Carrapatoso, Miguel Pinheiro, pomos um ponto final na emissão da Rádio Observador. Desde sexta-feira que estamos em Santarém a acompanhar esta quinta convenção nacional do Chega. Fizemo-lo em direto a partir do Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas. Esteve cá uma vasta equipa do Observador a fazer toda a cobertura deste evento na Rádio Observador, nas redes sociais, no site. Estivemos muitos deste lado, desde logo os repórteres da Rádio Observador, Miguel Vitor Dias e João Gama, as jornalistas da secção de política, Rita Tavares e Inês André Figueiredo, o diretor-executivo Miguel Pinheiro, o editor-adjunto de política Miguel Santos Carrapatoso, a editora coordenadora da equipa multimídia Catarina Santos, no som esteve a Beatriz Martelo Garcia, no vídeo o Rui Cavaco, Diogo Ventura e a Ana Moreira, nas redes sociais o André Espada Teixeira. Eu sou o Diogo Teixeira Pereira. Até breve.