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A jornalista do Observador Mariana Lima Cunha, da editoria de política, está agora conosco aqui em estúdio. Assina também um artigo que está no site do Observador, em que aponta essas mesmas estratégias por parte dos dois partidos para estas eleições. Boa noite, Mariana. Vamos estar aqui perante um combate feroz entre o PS e o PCP nas próximas autárquicas?

Boa noite, João. É isso que se desenha. Aliás, feroz é uma expressão que nos foi dita por um dirigente do PS. E é isso que se desenha porque, como tu estavas a dizer, por causa desse mapa que ficou desenhado em 2017, há uma transferência de votos que vai muito do PCP para o PS. E, portanto, desta vez o que nós temos é um PCP a tentar recuperar terreno. Não é por querer, é mesmo porque tem de ser. Vem de um ciclo de derrotas eleitorais nas europeias, nas presidenciais, nessas autárquicas, em legislativas e, portanto, precisa mesmo de recuperar e por isso é que vai buscar também alguns nomes experientes, alguns até que já tinham ultrapassado a limitação de mandatos, para tentar outra vez chegar às Câmaras. E, por outro lado, o que nós temos é um PS que precisamente por causa desse mapa e do desenho que ficou feito e das magras diferenças de votos entre os dois, acha que desta vez até consegue ir mais longe, ir a Câmaras a que não conseguiu chegar em 2017 e virar ainda mais o jogo a seu favor.

E aí quais serão essas maiores apostas?

O PS tem várias análises feitas em que as margens são curtas e outras pela importância das Câmaras. Também existe isso ao contrário. Almada, por exemplo, é uma preocupação, porque o PS conseguiu agarrá-la por uma margem muito curta da última vez. No Seixal, em Palmela, o PCP perdeu as maiorias que tinha, por exemplo. E o caso de Setúbal, que é emblemático por ser uma capital de distrito, embora aí há uma diferença maior, por ser capital de distrito a que há dirigentes do PS que chamam a joia da coroa, o PS quer muito agarrá-la e quer aproveitar uma coisa, que a Câmara está em fim de ciclo, ou seja, a autarca atual, que é Maria das Dores Almeida, do PCP, não pode voltar a candidatar-se àquela Câmara, ela quer candidatar-se a Almada, mas àquela já não pode mais porque a lei não o permite. E portanto, o PS quer agarrar agora esta mudança, em que deixa de ter lá a autarca carismática do PCP para finalmente conseguir agarrar a capital de distrito.

Mariana Lima Cunha, mas a verdade é que, como dizias, vai haver aqui regresso de alguns chamados dinossauros que tinham chegado a esse limite de mandatos e que de alguma forma são agora convocados para uma nova batalha autárquica.

Sim, o PCP, aliás, falou conosco e respondeu-nos que o reconhecimento do trabalho dos eleitos é um fator importante nas eleições. E, portanto, se em 2017 a coisa não resultou assim tão bem, o PCP tem motivos para acreditar que agora apostando em pessoas já com o trabalho feito e com provas dadas, pode fazer frente ao PS numa batalha que depois tem sempre leituras nacionais. Porque sendo o PCP e o PS os partidos em causa e sendo que o PS tem de ter algum cuidado a gerir a relação com o PCP, porque é um apoio que pode ser muito importante para o próximo orçamento do Estado.

A pensar, portanto, como dizias, no próximo orçamento. Há também esse medir para já muito bem de tudo aquilo que se faz no caminho para essas autárquicas, a pensar naquilo que pode ser depois também a negociação no Parlamento para outros palcos, neste caso, para o orçamento para 2022.

Exatamente. Não há nenhum pacto de não agressão. Os dirigentes do PS o que nos dizem é: não há limitações, isto é um mito que se criou de que nós não podíamos ir contra o PCP, mas há alguns cuidados. Há quem pense, por exemplo, que a hipótese que tem sido avançada da líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, avançar para Setúbal, seria um risco desnecessário, por um lado, por questões internas do PS e porque não a interessar tirá-la do xadrez parlamentar para a colocar aqui. Por outro, porque isso sim, podia ser interpretado como um ato de especial hostilidade, teres a líder parlamentar, que é uma figura de primeira linha do partido, numa capital de distrito, num distrito em que o PCP perdeu muito e tem medo de perder mais e está a lutar, obviamente, contra isso. E, portanto, há alguns cuidados, mesmo que não seja propriamente uma ordem para não atacar o PCP.