Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"A insustentável preguiça sonolenta de 27 desunidos países". A frase é escrita por Maria João Avelãs, num artigo que assina esta quarta-feira no site do Observador, e que é sobre o lugar da Ucrânia nas negociações para pôr termo à guerra na Ucrânia. Bem-vinda, Maria João.

Olá, agradeço muito. Tudo bem?

Tudo bem. Temos um bloco comunitário reativo e mesmo assim a reagir mal. Eu lhe pergunto porque critica no artigo a reunião convocada à pressa pelo presidente francês, só com alguns dos 27, e até vem aí outra reunião agora com os bálticos, que Portugal, afinal, também é convidado.

Exatamente. É como ir para o segundo balcão. Peço desculpa, mas quando eu escrevi ainda não tinha a informação que se seguiria essa segunda reunião. O que eu acho, e também escrevi, é que uma reunião convocada com quase 24 horas ou 48 de antecedência, não pode. Estas reuniões são preparadas. As reuniões graves, importantes, onde se decide o presente e o futuro de coisas que determinarão as nossas vidas e as dos nossos filhos e netos, são convocadas com antecedência, são convocadas com uma preparação prévia. Ora, uma reunião convocada, mesmo estando eu consciente que vivemos um momento em que tudo se alterou, em que o mundo mudou em poucas horas. Mas seria impossível que aqueles líderes, menos unidos do que aquilo que aparentam, já aparentam pouco, pudessem ter tido tempo para digerir aquilo que está a mudar a uma velocidade estonteante, para ponderarem a reação a ter a isso, para produzirem umas linhas que confortassem ou que pelo menos sinalizassem por onde estão a ir. Seria impossível. Portanto, não só foi convocada à pressa, como por ser à pressa e por ser curta, não permite uma grande ponderação. Pode ser que venha a haver no futuro, ou melhor, tem mesmo que vir a haver no futuro, uma resposta que mostre que é desta que a Europa aprendeu que não pode estar nesse tal sono vegetativo que eu descrevia, sonolento, meio preguiçoso, sem cuidar da inovação, sem cuidar, por exemplo, da própria União. Nós sabemos que a Hungria não quer o mesmo que a França, que não quer o mesmo que a Itália, que não quer o mesmo que a Alemanha, etc.

Sendo que esta reunião foi convocada como reação também à Conferência de Segurança de Munique. Foi lá o vice-presidente dos Estados Unidos e foi falar-

Eu sei, eu mesmo escrevi isso

Exatamente. Foi falar, como também diz a Maria João no artigo, de democracia e das democracias europeias, sendo que foi também falar de valores. Não foi longe demais J.D. Vance, tendo em conta que o tema era a segurança?

Não, eu acho que é talvez, se me permite, um pouco mais subtil, e depois nós podemos e devemos concordar ou discordar. Agora, foi mais subtil no sentido em que ele também propôs, se bem interpretei, a possibilidade de um grande debate. Não digo físico e com mesas, um debate mental, uma reflexão sobre as democracias. Ele estava-se a referir, evidentemente, a umas democracias de outros tempos, em que não tinha havido esta abertura aos costumes ou não tinha havido esta espécie de progresso no meio caminho entre o politicamente correto e o não assumir tantas responsabilidades ou um abandono de alguns valores. Estava a dar a sua interpretação de democracia, que provavelmente, não sei se é a sua ou a minha, não é certamente a posta neste momento em prática na União Europeia, ou é só por uns países e não é por outros.

Mas é por isso que a Maria João escreve que a guerra é ideológica ou não será? É porque está aqui em causa muito mais do que pôr fim ao conflito na Ucrânia.

Com certeza, isso foi um capítulo que ele abriu. Evidentemente, o tema recorrente, permanente, aflitivo e trágico, já não uso dramático, passei a usar trágico, da Ucrânia, trá-la para prioridade absoluta. Agora, Vance foi ali para dizer aquilo. Não é bem um lento parentes, mas foi mais um capítulo ou mais uma alínea daquela espécie de embaixada norte-americana que passou por ali. Isto seria objeto de uma conversa, com certeza, um bocadinho mais longa.

Exato. Se a guerra na Ucrânia acabar com as concessões que os Estados Unidos parecem estar dispostos a fazer à Rússia e com a exploração de recursos ucranianos pelos norte-americanos, isso não é a Ucrânia a capitular e uma humilhação também para a Europa?

Não, é uma vergonha, uma humilhação, é o fim de uma certa ideia da Europa, é o princípio não se sabe de quê, mas não será certamente uma coisa boa. O que eu acho é que, como é que eu hei de explicar, a forma e as palavras têm-nos assustado tanto que me parece impossível que amanhã ou daqui a uma semana Neste repensamento de tudo que a administração americana está a fazer, não haja lugar para uma pausa, um recuo, uma volta atrás. Custa-me a crer que seja como ouvi ontem e anteontem. Parece-me impossível. Mudou tudo tão depressa. Primeiro, não tenho competência em política externa, ou a competência que eu gostaria, mas não tenho nenhum dado que me diga, num cenário a mudar todos os dias, a própria administração americana a contradizer-se, já tomou umas posições, já abandonou outras, espantou o mundo com o que disse sobre a Ucrânia e horrorizou o mundo com as propostas que deixou em cima de uma mesa. Reuniu três potências, excluiu a Ucrânia e não se sentou à mesa, nem a Europa. É impressionante e grande demais. Nós não podemos sequer mensurar tudo o que está a acontecer. E eu admito que se falarmos daqui a três dias, já não seja exatamente isto que eu lhe disse hoje.

Mas há muitas perguntas que ficam no ar e até só para terminarmos, até porque o título do seu artigo é: "E Portugal?" Deixa no final do artigo algumas perguntas: Portugal está a engonhar ou não? Usando aqui um verbo que referiu.

Sim, porque Portugal engonha muito e então em política externa, tem engonhado nas últimas décadas de uma maneira um bocadinho impressionante. Não me consta que tenha havido grande diplomacia, mas neste momento tem que haver. Aí é que está, tem que haver. A Europa mostra agora que sabe o que há de fazer dela, para se voltar a tornar relevante, parceira, ouvida, ou não sei qual será o nosso futuro, entregues cada um a nós próprios e aos nossos pequenos dramas diários, que com certeza que há. Há pouco dinheiro em Portugal, é quase impossível chegar aos 3%, que agora já estão esquecidos os 2% para a defesa. Portanto, a minha esperança era que alguém que pensa a política, que pensa o país política, socialmente, economicamente e diplomaticamente, ou seja, internacionalmente, geoestrategicamente, esteja neste momento a deitar contas à vida e a pensar: o que é que vamos fazer, como é que podemos ser úteis, o que é que vamos dizer na Europa, o que é que vamos dizer na tal reunião, o que é que se segue. Não sei se estará.

Fica essa nota final de esperança.

Os génios, não sei que mais, não sei se estarão.

Fica essa nota final de esperança, apesar aqui também de algumas notas de pessimismo. Muito obrigada, Maria João Abilhés.

Nada, eu é que agradeço muito o convite.

Obrigada por ter sido a nossa colunista do dia.