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Junta-se a nós o Paulo Ferreira, especialista em assuntos económicos, integra o painel das manhãs 360 da Rádio Observador. Paulo, boa tarde. Que consequências para o bolso de cada um de nós decorre desta decisão do BCE?
Boa tarde, Miguel. As consequências vão ser a continuação daquilo que já temos vindo a sentir nos últimos meses. Subida genérica das taxas de juro, que vai, sobretudo, ao bolso das pessoas que têm créditos.
Do crédito à habitação, por exemplo?
Crédito à habitação, por exemplo, que estão na sua larga maioria ligados, indexados às taxas Euribor, e as taxas Euribor já têm subido nos últimos meses, precisamente a antecipar este movimento, que hoje se oficializa do Banco Central Europeu. Portanto, os mercados, por regra, antecipam aquilo que dão como certo e esta subida era dada como certa. É provável que o movimento de subida de juros agora acelere, porque havia muito esta dúvida sobre a amplitude da subida de juros do BCE de hoje, se era uma posição mais conservadora de 0,25 pontos ou de 0,5. Foi uma subida maior, o que significa que o BCE também está com receio, de facto, da inflação e quer atuar mais rapidamente. E é normal que agora os mercados ajustem mais ainda em função desta mexida do BCE e podemos contar nos próximos meses, porventura anos, com uma subida constante dos juros, que vai onerar as famílias que têm o crédito à habitação ou outro tipo de créditos indexados às taxas Euribor. Vai penalizar as empresas também, a maior parte dos contratos de empresas também estão indexados, e já está a pesar e vai continuar a pesar no custo de financiamento do Estado, que é uma das preocupações macroeconómicas que nós temos.
Paulo, tu já aqui falaste na inflação. De resto, esta medida tem sido apresentada como uma forma do BCE contribuir para controlar a inflação galopante. Uma pergunta de economia para totós: em que medida é que a subida da taxa de juro ajuda a controlar a inflação?
É relativamente simples. O juro torna o preço do dinheiro mais caro, é assim mesmo. O que é que acontece quando os juros sobem? As pessoas deixam de pedir tantos empréstimos porque não podem pagá-los ou então se pedem empréstimos, pedem montantes menores. Significa que vão consumir menos ou vão comprar menos casas, eventualmente, vão comprar menos automóveis. As empresas também vão investir menos, porque o dinheiro está mais caro e o custo de financiamento maior, e isso gera um abrandamento da procura de uma forma genérica. No fundo, as pessoas e as empresas procuram menos máquinas, menos produtos, menos serviços, menos casas, menos carros. Com menos procura, há uma tensão, se quisermos, uma pressão para a quebra de preços, porque as empresas vão tender a vender mais. Se há menos procura, a tendência será para não subir tantos preços ou até para baixar preços. E é este mecanismo de transmissão, se quisermos, das taxas de juro à economia. Digamos que as taxas de juro funcionam, deixa-me só uma imagem, funcionam para o banco central, um pouco como o travão e o acelerador. Quando é preciso acelerar a economia, dar-lhe gás e fomentar o crescimento económico e também os preços, os bancos centrais reduzem os juros e isso, no fundo, significa carregar no acelerador da economia. Quando a inflação está muito alta e eles querem, de alguma forma, arrefecer a economia para fazer baixar preços, dão uns toquezinhos no travão, que podem ser mais intensos, de 0,5% ou 0,75%, como aconteceu nos Estados Unidos, ou então um cheirinho mais leve na casa do 0,25. E é isso que os bancos centrais estão a fazer agora, a carregar um pouco no travão para ver se baixam os preços.
Paulo, e há aqui algum risco de recessão?
Há risco de recessão, obviamente, não só por causa das taxas de juro e desta subida das taxas de juro, mas por todo o contexto que nós temos vivido. Nós percebemos o impacto da pandemia, percebemos agora o impacto da guerra e, sobretudo, o grande clima de incerteza que paira sobre todos os agentes económicos na Europa toda e mais do que na Europa, até um pouco por todo o mundo. Isso significa que os agentes económicos ficam mais cautelosos, consomem menos, as empresas investem menos, têm mais cautela na produção, na contratação de pessoas e tudo isso são forças, de alguma maneira, que levam a um abrandamento da economia. Se esse abrandamento vai ser negativo, chegando então à recessão, é a grande incógnita neste momento. Para já, o que temos assistido é que aquilo que eram as perspetivas de crescimento de há uns meses, são agora menores, isto é, vamos continuar a crescer, mas vamos continuar a crescer menos do que pensávamos há uns meses. A grande questão é saber se vamos ao negativo. Agora, a subida de juros, obviamente, é mais uma força, se quisermos, é mais um dado que nós temos para esse caminho, de alguma maneira, para eventualmente algumas economias entrarem em recessão. Vamos ver. É tudo muito incerto e nós não conseguimos, neste momento, há um grande nevoeiro por causa da incerteza. É muito difícil estar a garantir que neste momento vai haver recessões ou não vai haver recessões.
Paulo, também já aqui fizeste referência aos eventuais impactos que esta decisão do BCE vai ter nos juros da dívida pública portuguesa. Portugal, e julgo que também Espanha, particularmente os países do sul da Europa, estão mais expostos a esta subida dos juros da dívida. Haverá algum mecanismo para procurar compensar esta consequência?
Sim, o BCE vai divulgar daqui a 45 minutos, mais ou menos, o tal mecanismo anti fragmentação, que é como lhe chamam, que vai ter o nome oficial de Instrumento de Proteção da Transmissão. Isto é tudo muito complicado. Qual é a ideia do BCE? A ideia do BCE não é travar a subida de juros, porque os juros da dívida pública estão a subir, porque o BCE também está a subir juros, faz parte do processo. O grande receio do BCE é que os juros nos países do euro da dívida pública subam de forma muito assimétrica, como aconteceu há 10, 11 anos ou há 12 anos, com a crise das dívidas, isto é, esses países do sul que referiste e que são os mais expostos porque têm níveis de dívida pública mais elevados, portanto, mais difícil de pagar, que esses países comecem a ter dívidas relativamente insustentáveis para as suas finanças públicas e que se afastem muito do grande referencial da zona euro, que é a Alemanha. Portanto, a questão não é a subida de juros, a questão é a subida diferenciada e assimétrica. Só para dar uma ideia, ontem à noite, as taxas de juro da Itália estavam em 3,7%, taxa de juro do Estado a 10 anos. Ou melhor, estão em 3,7% agora, ontem à noite estavam nos 3,4. Para Portugal também já aumentaram, entre ontem à noite e agora, de 2,4 para 2,55%, taxa do Estado a 10 anos. Isto parecem umas décimas e são apenas umas décimas, de facto, mas em poucas horas é muito. E é esta a tensão que o BCE vai ter, não quer basicamente que haja uma grande dispersão de juros e para isso vai anunciar daqui a pouco esse tal mecanismo anti fragmentação. Não se sabe muito bem o que é, mas deverá passar por um programa de compra de dívida pública, no fundo, indiretamente empréstimos aos Estados, sem o montante pré-definido. Vamos ver se os mercados, no fundo, dão credibilidade a esse programa ou se vão testar o BCE e vão, de alguma forma, começar a vender títulos de dívida pública dos países que eles consideram de maior risco e essa venda de dívida pública faz subir os juros, de alguma maneira. Vamos ter novidades disso na próxima meia hora, 45 minutos, e vamos ter que ficar atentos a isso.