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Voltamos a ter números muito semelhantes aos de sexta-feira. Sexta-feira foram 451 casos novos, hoje 457, ou seja, acima de 450. Os piores números desde 8 de maio. Portanto, seis, sete e 8 de maio tínhamos tido números tão elevados, acima dos 500 casos nessa altura, 480 e 530 nesses dias. Nunca tínhamos voltado a esses números tão altos. Voltamos sexta-feira com 451 casos e este domingo com 450 novos casos, o que é muito estranho. Não sexta-feira, mas sobretudo hoje. Sexta-feira tinha sido uma subida abrupta. Hoje, ao domingo, é ainda mais estranha esta subida, uma vez que ao domingo e à segunda-feira os números descem, uma vez que se trata do fim de semana. Normalmente os dados baixam, uma vez que não são inseridos tantos dados no sistema. Portanto, números tão altos fazem temer o pior, não para amanhã, que é segunda-feira e normalmente os números também baixam, por regra, mas sobretudo para terça-feira. Se isto se mantiver desta forma, eu temo que possamos vir a ter terça e quarta-feira números ainda bastante mais elevados. Espero que não seja assim, espero que não seja eu a ser pessimista, mas o meu pessimismo, infelizmente, nos últimos tempos tem se confirmado. Não sou uma pessimista militante, sou infelizmente uma pessimista cujo pessimismo se confirma.
Filomena, e uma vez mais, estes novos casos de infecção, esta subida volta a acontecer principalmente na região de Lisboa e Vale do Tejo. Estamos a falar de 85% dos novos casos.
É verdade, houve uma altura em que, nesta região de Lisboa e Vale do Tejo, os casos andavam a descer, estavam assentados ali entre 75% e 80% dos casos. Voltaram a subir nos últimos dias, passaram para 85%, 87%. É outra vez uma subida e é uma subida importante. Significa que as coisas estão menos controladas, ou seja, apesar de haver medidas mais restritivas, sabemos que elas estão mais restritivas. Sabemos também que a partir da próxima dia um, ainda vão ser mais restritivas, mas também vão ser menos restritivas no resto do país, ou seja, mais restritivas em algumas, ou pelo menos mais aplicadas, mais vigilâncias, chamemos assim, por parte das autoridades em 19 freguesias da região da Grande Lisboa e Vale do Tejo, sobretudo da Grande Lisboa, mantendo-se multas por parte das autoridades de segurança em todo o país. Mas a verdade é que nós todos os dias, ainda hoje, temos notícias de que as festas se mantêm, que há festas e que a polícia e GNR são chamadas a dispersar festas. Grândola ainda continua a fazer casos, a fazer subir o número de casos. Há festas que se notam em várias zonas do país e isso a acontecer, mesmo que as autoridades comecem a aplicar mais multas ou ter uma mão mais dura, chamemos assim. Era esta a expressão que eu queria encontrar e não chegava lá. Não sei se isto vai surtir efeito, uma vez que parece estar a ser uma coisa mais global, ou seja, a generalizar-se. E não sei se isto vai ser assim tão fácil agora voltar atrás. Mas eu queria aqui salientar uma outra história, que é: olhando para o mapa de hoje e mesmo vendo que os tais 85,5% dos casos sejam na região de Lisboa, ou seja, 391 dos tais 457 que hoje se registaram ou que se registaram até à meia-noite ontem, há aqui dados que são importantes. Olhando para o mapa, que é manterem-se a norte muitos casos novos, 31. Manterem-se sul e centro também novos casos a aparecerem, quando praticamente já estavam, sobretudo a centro, quase zero, e a norte também. Houve semanas com cinco, quatro, zero casos, quer a norte, quer a centro. Depois da Festa de Lagos começaram a surgir a sul vários. Tem também a ver com as tais festas que eu estava a referir. Hoje são 17 novos casos, mas depois aqui na zona do Alentejo, hoje aparecem apenas mais quatro novos casos, quando nós sabemos que, por exemplo, a região de Reguengos está com um surto enorme, onde já houve 131 novos casos confirmados. Estes 131 não estão aqui refletidos ainda neste mapa, aparecerão seguramente refletidos nos próximos dias. Há uma nova morte no Alentejo já confirmada, essa sim, mas das três, duas são na região de Lisboa e esta outra no Alentejo. Mas os casos não estão aqui refletidos, nem estes de Reguengos, não só de Monsaraz, mas de Reguengos também, porque a situação já se estendeu a Reguengos. Estendeu-se também a Évora, onde foi esta morte confirmada, foi no hospital de Évora. Há também focos que já foram referidos pela própria ministra em Campo Maior, em Elvas. Há o foco de Grândola, agora está este foco em Évora e toda a região está a estender-se. Parece-me que estes focos novos, ou seja, leva-me a crer que estes novos focos que estão a aparecer em todo o país terão muito a ver, e eu disse-o aqui naquela altura, com aquela semana dos feriados em que as pessoas, umas foram para a praia, foram para o campo, outras aproveitaram para tirar uns dias de descanso nesses dias. Outras aproveitaram também esses dias que permitiram os tais dias de ponte ou de feriados das férias para visitar familiares, nomeadamente em lares, onde estão a aparecer estes surtos e aproveitaram para passar uns dias em família. E isso levou a que o vírus viajasse desta forma. Por outro lado, estão também a começar a chegar alguns turistas a Portugal e há notícias, e tu também as ouviste de certeza absoluta, de que as pessoas estão a entrar no país sem muito controle, para não dizer sem controle nenhum. E isso fará com que alguns destes casos, por exemplo, no Algarve, possam estar a surgir e se calhar também na zona de Lisboa, porque o controle neste momento ainda não está a acontecer. E nós estamos a ter notícias todos os dias de que Há pessoas a chegar quer nos aeroportos do sul, nos de Faro, quer no de Lisboa, sem controle disso não estar a acontecer. Depois, tudo isso faz com que acabe por se tornar numa, chamar-lhe-ia roleta, mas não vamos por aí, numa bola de neve em que está tudo a mexer. E eu já não olho só para a zona de Lisboa, que é claramente o caso mais preocupante, quero olhar também para o mapa geral do país e perceber que também está a mexer alguma coisa no resto do mapa do país e que há muitos dias que a notícia positiva era termos mais recuperados que novos casos, e isso não está a acontecer. E hoje, ainda por cima, registra-se uma coisa bastante importante, que é o número de pessoas internadas subiu pela primeira vez em muito tempo, bastante, quer nos novos internados em enfermaria, são mais de seis, quer nos internados em cuidados intensivos, que são mais cinco. Portanto, uma pressão hospitalar está também aqui a fazer-se sentir. Isto quando há notícias hoje, quer do Bastonário dos Médicos, quer dos hospitais, que falam em falta de coordenação e dizem que há problemas, de facto, na região de Lisboa, nos hospitais da região de Lisboa, em termos de internamento dos doentes com Covid, que obviamente afetam todo o resto das doenças.
Apesar das garantias do governo de que neste momento há capacidade hospitalar, tudo estará pronto para eventuais novos casos. Filomena, queria aqui voltar a Lisboa só porque ainda esta manhã ouvimos aqui na Rádio Observador o porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública, Jorge Torgal. Ele, que na altura do estado de emergência, foi uma das vozes principais que defendia que as escolas não deveriam fechar. E hoje, ouvido pela Rádio Observador, ele dizia que este aumento de novos casos de Covid-19 na região de Lisboa não é particularmente relevante, comparava inclusivamente com aquilo que aconteceu na região Norte no início da pandemia no país, em março, os números eram muito altos e agora este especialista diz que está aqui a acontecer uma espécie de dramatização com a situação em Lisboa. Estes 85% de casos novos que vimos aparecer neste boletim são de alguma forma motivo de alarme ou, de facto, isto está a estender-se de uma maneira mais generalizada, como dizias, em todo o país e, portanto, em breve vamos ver estas subidas noutras regiões também?
Eu diria que isto há sempre dois lados, a história do copo meio cheio ou meio vazio. Eu acho que estamos, nos últimos tempos, sobretudo nas últimas duas semanas, a ver dois discursos completamente diferentes: um de desvalorização e de otimismo, e outro de pessimismo. Eu gostaria que as pessoas fossem muito realistas e muito objetivas a analisar dados. E eu gostava que olhassem, e choca-me, por exemplo, ouvir o Bastonário dos Médicos dizer que os médicos não têm sido ouvidos. Se nós tivemos tanta preocupação com os médicos que fomos aplaudi-los às janelas e às varandas durante um determinado tempo, que agora lhe oferecemos a vinda da Liga dos Campeões para Portugal, quando conseguimos esse feito, que não deixa de ser um feito de conseguir trazer para Portugal a final eight da Champions para o nosso país, a realização de um evento desportivo que capta a atenção de milhões de telespectadores no mundo inteiro. E tudo isso, não ouvir os médicos quando falamos desta doença e do que esta provoca. Custa-me também ouvir que os hospitais falam em falta de coordenação para onde devem levar os doentes quando já não têm camas disponíveis para eles. Isto é um discurso que me preocupa, porque são as pessoas que estão no terreno. Tenho lido relatos de pessoas no terreno, de médicos no terreno, médicos do Amadora-Sintra, médicos do Beatriz Ângelo, a contarem de tais histórias que me preocupam. Depois que hajam autoridades, que são as pessoas que estão no governo, sentadas nos seus gabinetes, que digam: "Está tranquilo". Eu percebo a tentativa de tranquilizar a população, mas também percebo e gosto de ler as pessoas que estão no terreno a lidar com os casos. E entre as duas, entre os dois, está a verdade. Entre as pessoas que nos tentam tranquilizar, e que eu percebo que haja uma necessidade de nos tranquilizar, e as pessoas que estão no terreno, está aqui a verdade. E entre os casos que nós estamos a ver, e nós estamos a ver que o surto em Requengos está longe de estancar, estamos a ver que os números estão a subir, quer em Lisboa, quer em todo o país. Estamos a perceber que há claramente problemas a resolver nos hospitais, uma vez que são factuais. Estamos a ver que começam a surgir focos da doença em vários lares, na zona Centro, na zona Norte, na zona do Alentejo. Começamos a perceber, na zona de Lisboa, porque há os lares de Canéssas também, aqui há o Hospital de Torres Vedras, que estamos a ouvir os médicos, quer o Bastonário, quer outros, a dizerem que há problemas. Estamos a dizer que Inglaterra se pode juntar a vários outros países e barrar-nos o turismo corrente, não nos abrindo um corredor, o que pode, obviamente, ser muito grave para o turismo nacional. Estamos aqui a perceber que há várias questões ainda em aberto para isto. Ouvirmos alguém dizer: "Não é preocupante, não têm que se preocupar", é algo que me preocupa a mim mais, porque isso fará e levará muita gente a dizer: "Ok, estamos aqui a dizer que não nos preocupamos, está tudo controlado". O primeiro-ministro dá entrevistas a dizer que está tudo controlado. Ainda hoje há outra entrevista.
Uma entrevista à La Vanguardia.
À La Vanguardia.
À La Vanguardia. E aqui o António Costa, o primeiro-ministro, primeiro afasta a possibilidade da prova vir a ser cancelada e dá aqui uma garantia de que o que está a acontecer em Lisboa, no centro, na região de Lisboa, não está relacionado com o centro da cidade. Inclusivamente, ele diz que as medidas extraordinárias vão aplicar-se apenas a 19 freguesias das mais de 3 mil que Portugal tem e reforça que os novos casos não estão a aparecer em Lisboa, mas em bairros de municípios vizinhos. Isto vai dar aqui alguma tranquilidade a quem virá para a Champions?
Eu acho que é exatamente essa a mensagem Eu acho que as autoridades não estão a perceber que está a passar para a população em geral. Quem lê isso e quem virá a ler isso, eu ousaria dizer que obviamente há a equipa espanhola na final da Liga dos Campeões. Uma delas tem o João Félix, só para começar, que é uma das estrelas em ascensão no futebol português, senão a maior estrela em ascensão do futebol português. Portanto, pensar que não vão estar em Portugal, ainda não se sabe se a prova não vai ter espectadores, espero que não vá nenhum a ter. Mas basta ver o que aconteceu com a festa do Liverpool agora que foi campeão Inglaterra ou com a festa do Napoli que ganhou a taça italiana, para perceber que independentemente do que acontecer, e as fronteiras com Espanha vão abrir recorde dia um, com festa e com o Presidente da República lá presente, para imaginar ou para pensar que não vão estar adeptos das equipas portuguesas presentes em Portugal e que não vão festejar nas ruas de Lisboa. Depois, é quase impossível, ou alguém não conhece a realidade portuguesa, ou alguém não conhece a realidade de Lisboa para achar que as pessoas dessas 19 freguesias, e uma delas é em Lisboa, Santa Clara, das 19 freguesias realmente dos arredores de Lisboa, não são pessoas que trabalham em Lisboa. É exatamente isso que eu acho que as autoridades portuguesas nunca perceberam. Não vivem no país real. Exatamente isso aconteceu nessas freguesias. Claro que aconteceu. Era óbvio que tinha acontecido. São pessoas mais jovens, sim, que não têm tantos sintomas, sim, mas que não precisam normalmente de ser hospitalizadas ou não precisavam, sim, e que não foi preciso recorrer aos hospitais. Certo. Mas têm o vírus, estão contagiadas, são novos casos. Onde é que essas pessoas vivem? Em bairros, e por isso foi criado agora o programa dos bairros, cujas casas não têm a habitabilidade e condições de habitabilidade necessárias. E essas pessoas vivem com outras mais velhas. E essas pessoas vivem principalmente com outras ainda mais velhas, porque vivem com pais e avós em casas sem condições para habitabilidade e viajam em transportes públicos. Muitas dessas pessoas trabalham em Lisboa, são aquelas pessoas que fazem limpezas de manhã, vivem com os avós ou visitam os avós nas sítios onde eles estão. Todas essas pessoas se contagiaram em família dentro desses bairros, viajaram em transportes públicos que agora já vão mais cheios. Essas pessoas viajam normalmente para o centro de Lisboa para fazer limpezas de manhã, infelizmente, ou nunca deixaram de trabalhar, porque até não puderam deixar de trabalhar, ou trabalham nas tais obras de construção civil em trabalho temporário. Infelizmente, são essas pessoas mais pobres que agora estão a contagiar todas as outras mais velhas. Primeiro foram as mais jovens, agora são as mais velhas. E isto está se a refletir nos números de Lisboa. Acreditar que essas pessoas não vão para o centro de Lisboa é acreditar no Pai Natal.