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Chamo, por isso, o Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Miguel, Nuno Melo tem o partido na mão neste momento. Conseguiu resultados expressivos em todos os órgãos.
Sim, na realidade, não havia grande concorrência. Ontem houve uma série de moções que foram sendo retiradas à medida que os seus proponentes iam lendo os sinais. Um deles disse expressamente ali do palco que tinha estado a ler os sinais e que, portanto, não valia a pena levar a moção a votos e o partido fica agora completamente nas mãos de Nuno Melo. Vamos ver agora quais são os planos de Nuno Melo para o futuro, porque esta é a parte fácil. Esta é a parte em que estão aqui as televisões, os jornais, as rádios, está cá o representante do Presidente da República, está cá uma ministra, estão cá representantes de vários partidos, mas daqui a um bocadinho as luzes vão se apagar e o CDS vai ter que arranjar maneira de continuar a aparecer. E não tendo deputados na Assembleia da República, isso vai ser um bocadinho complicado.
Vai ser preciso alguma originalidade.
Vai ser preciso. O CDS vai ter que mostrar que continua a ser relevante, vai ter que convencer as pessoas que continua a ser relevante e vai ter que arranjar uma forma de falar com o país, falar com os eleitores, sendo que as próximas eleições legislativas serão daqui a quatro anos e sete meses. É que nem sequer são quatro anos. O supremo azar do CDS é que tem uma legislatura especialmente grande, portanto serão quatro anos e sete meses até às próximas eleições legislativas. Pelo meio haverá as europeias e Nuno Melo terá aí a primeira oportunidade de mostrar que o partido continua a ser relevante, se o CDS conseguir manter o lugar. Atenção, vamos matizar isto um bocadinho. Só para dar também alguma esperança às pessoas que vieram aqui para Guimarães. O CDS teve, nas eleições, 89 mil votos e não elegeu nenhum deputado.
Teve até mais do que o PAN e que o Livre.
Precisamente. O PAN teve 88 mil votos, portanto menos mil votos do que o CDS, e elegeu um deputado, e o Livre teve 71 mil votos, portanto teve quase menos 20 mil votos do que o CDS e elegeu um deputado. Simplesmente, os votos destes partidos estavam concentrados num círculo eleitoral, estavam concentrados em Lisboa, o que permitiu eleger um deputado, enquanto os votos do CDS estavam dispersos e por isso não foram suficientes para eleger ninguém. Olhando para a atual Assembleia da República, o CDS tem mais votos do que dois partidos que conseguiram eleger. Só para dar aqui um bocadinho de esperança e não parecer também que o partido não tem propriamente eleitores, que desapareceram todos. Não desapareceram todos, mas desapareceram muitos. E também é verdade que nós assistimos nos últimos anos a dois partidos que não tinham representação parlamentar e que estavam à direita, o Chega e a Iniciativa Liberal, a conseguirem furar o muro que existe à volta dos partidos que não têm representação parlamentar e conseguiu convencer um número suficiente de eleitores a darem-lhes um deputado primeiro, e agora o Chega tem 12 deputados e a Iniciativa Liberal tem oito. Por isso, não é propriamente como se vá ser impossível ao CDS conseguir fazer-se ouvir, até porque tem pessoas conhecidas, tem pessoas que têm maior facilidade em aparecer na comunicação social, são pessoas que têm maior facilidade em falar com os eleitores, porque não têm propriamente que estar a dizer o nome antes de começarem a falar, o que é uma vantagem.
Mas será que isto pode fazer o CDS concentrar-se essencialmente em Lisboa e esquecer também aquelas outras causas do interior, a que está associado muitas vezes, e do mundo rural e do Portugal esquecido. Há esse risco também, que se descaracterize até por isso também, pelo fato de ter que se concentrar nos grandes centros para conseguir eleger deputados nas próximas eleições?
Nuno Melo vai ter que arranjar duas ou três, e se calhar duas ou três já são muitas, causas. Vai ter que escolher. Vamos ouvir agora neste discurso, tentar perceber o que está na cabeça de Nuno Melo. Os discursos que ele fez até agora no Congresso, se os juntarmos à moção de estratégia que ele apresentou, vemos que o CDS continua a comportar-se como se fosse um partido a lutar para chegar ao governo. Tem soluções para todas as áreas do país, o que mostra seguramente competência e uma equipa, mas falta ali um rumo. O CDS tem que arranjar uma causa, uma bandeira que o distinga dos outros partidos. E ainda não foi possível perceber que bandeira vai ser essa. Vai ter oportunidades. Por exemplo, tudo indica que o governo pretende ter um referendo sobre a regionalização. Será que essa é uma oportunidade? Vai ser uma oportunidade para o CDS? Não sabemos quem vai ser a próxima liderança do PSD e que posição terá sobre isso, mas se nós chegarmos a um ponto em que Praticamente todos os partidos são a favor da regionalização e o CDS consegue agarrar essa causa para mobilizar algum eleitorado. Pode ser um exemplo, mas acima de tudo, a Iniciativa Liberal tinha uma ideia: liberalismo. O Chega tinha uma ideia: descontentamento. Qual é a ideia que o CDS tem para mobilizar as pessoas?
E se estás a perguntar é porque provavelmente não ficou muito claro nos dois discursos que Nuno Melo fez.
Não ficou nada claro, porque ele continua, como eu estava a dizer, a comportar-se como se estivesse a concorrer para o governo. Ele tem ideias para os agricultores, para os comerciantes, para as indústrias, para os gestores, para os trabalhadores, para o SNS, para as escolas, para os impostos. Ele tem ideias para tudo, mas esta é uma outra fase do CDS. Esta não é a fase em que o CDS tem que ter soluções para todos os problemas do país, porque pode ser chamado para o governo ou está a concorrer para, em coligação com o PSD, chegar ao governo. Não, isto é uma fase diferente, é uma luta diferente. O CDS agora tem que evitar desaparecer quando este congresso acabar. E para isso, tem que ter alguma coisa que o distinga.
E olhando para estes resultados, é expectável que a oposição interna fique resignada ou que continuem a haver estas lutas internas no partido que temos ouvido nos últimos meses?
Vamos ver. Se a anterior direção, tendo o partido na mão, estando a mandar no partido, se queixava de não se conseguir fazer ouvir, era uma das grandes queixas de Francisco Rodrigues dos Santos: "Nós não conseguimos entrar na comunicação social, não conseguimos que nos chamem. As únicas pessoas que são ouvidas na comunicação social é o antigo CDS." Portanto, se quando mandavam no partido não conseguiam ter acesso a esses palcos, duvido muito que seja agora que vão conseguir. Até pode haver, eventualmente, problemas internos nas estruturas internas do partido, e essas coisas há sempre. Agora, não vai existir uma contracorrente em público, nos meios de comunicação social, da anterior direção, porque se tivessem essa capacidade e haviam de se poder, já o teriam feito antes. Não me parece que o Nuno Melo vá ter problemas nesse ponto. O grande problema vai ser, de facto, tentar convencer as pessoas de que a sua opinião é relevante. O que nós vemos é, por exemplo, da última vez que o presidente da República chamou os vários partidos para os ouvir sobre uma decisão importante, não chamou ninguém do CDS, porque o CDS já não tinha relevância nenhuma. Não tendo uma presença parlamentar, já não tem relevância nenhuma, já não tem que ser ouvido. Claro, o CDS tem António Lobo Xavier no Conselho de Estado. Sim, tem seis presidentes de câmara. Um dos presidentes de câmara até é da Câmara de Velas, em São Jorge, nos Açores, onde neste momento está a haver este problema com a crise sismovulcânica. E tem, acima de tudo isso, Nuno Melo em Bruxelas. Quando foi o último congresso do CDS, uma das razões que Nuno Melo apresentou para não se candidatar, abrindo espaço a João Almeida, que foi contra Francisco Rodrigues dos Santos, foi: o líder do CDS tem que ser um deputado, eu sou o eurodeputado, estou longe e, portanto, não iria ser um bom líder. João Almeida era deputado na altura. Neste momento, já estamos numa espécie de círculo exterior, em que tudo é mais difícil, porque agora a grande vantagem do Nuno Melo é ser eurodeputado. Portanto, aquilo que era uma desvantagem por estar no estrangeiro, agora é o que resta.
E de facto é uma vantagem, porque é o único palco que o CDS tem neste momento, tirando a autarca, que como falávamos. Mas é de facto uma vantagem. Evidentemente, temos ouvido falar mais na Europa nos últimos tempos, até por causa da guerra na Ucrânia. Mas a verdade é que, por exemplo, as eleições legislativas são as eleições com uma abstenção maior, ou seja, têm menos interesse por parte das pessoas.
É, mas aí Nuno Melo tem. Acho que as condições na Europa e no mundo favorecem Nuno Melo. Por um lado, precisamente a questão da guerra na Ucrânia, que não vai acabar hoje nem amanhã, fez com que as pessoas em Portugal olhassem para a União Europeia como um polo de estabilidade, defesa e de segurança. Quando eu digo segurança, não é no sentido militar, mas no sentido de se sentirem seguras por pertencerem à União Europeia e olharem para a União Europeia como algo de positivo. E, portanto, isso fará com que falemos mais da União Europeia. E depois, repara, hoje em dia, a política interna em Portugal passa muitas vezes pela União Europeia. Basta ver que António Costa teve que ir negociar a Bruxelas a possibilidade de mexer nos combustíveis e na energia. Por isso, a política portuguesa passa por ali, de facto, mas os eurodeputados portugueses não são propriamente aqueles que são mais ouvidos nessas alturas. Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, sempre foi muito hábil em trazer para Portugal as suas intervenções no Parlamento Europeu e sempre fez intervenções no Parlamento Europeu em que se colocava em oposição ao governo português. Portanto, não estava a falar de assuntos estritamente europeus e estava sempre a tentar trazer as discussões que havia em Bruxelas para o plano português e aproveitar a sua posição em Bruxelas para atacar o governo do PS. Paulo Rangel sempre fez isso com relativa eficácia.
Pode ser um exemplo a seguir.
Pode ser um exemplo a seguir. Temos que ver, mas já se está a notar alguma adaptação de Nuno Melo. Esta ideia que Nuno Melo ainda não concretizou muito bem, de dizer que quer que o CDS seja em Portugal aquilo que o PPE é lá fora, e que faz lembrar um bocadinho o discurso de Rui Tavares num livro, quando estava sempre a dizer: "Nós somos os únicos representantes em Portugal do movimento verde, europeísta, que não tem representação nenhuma em Portugal." Rui Tavares fez a sua campanha para as legislativas muito assente nesta ideia de ser o representante em Portugal de um movimento europeu e Nuno Melo parece estar a seguir um bocadinho o mesmo caminho quando diz que ele quer ser em Portugal o que o PPE é lá fora. O PPE é o grupo do Parlamento Europeu onde estão reunidos a esmagadora maioria, o maior partido, claro, e onde estão reunidos partidos do centro à direita na Europa e, portanto, é a tal grande casa dos liberais democratas cristãos e conservadores de que Nuno Melo fala. Agora, isso concretiza-se em quê? Porque isso dito assim é uma frase. Agora, na realidade, isso vai se traduzir em quê? O que isso vai mudar aqui no CDS? Vão ser uns anos complicados.