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E para analisar os resultados desta primeira volta das eleições brasileiras, está agora conosco a colunista do Observador, Raquel Lucas. Bom dia, Raquel. Obrigada por estar conosco a esta hora. Aqui temos mais uma vez as sondagens não apontarem para aquilo que aconteceu no Brasil, com o Bolsonaro mais próximo de Lula da Silva do que esses estudos indicavam. Como olhas para estes resultados?
Bom dia, Carla. Eu acho que cada vez mais as sondagens parecem demonstrar aquilo que é a vontade de uma opinião publicada muito mais do que aquilo que é a realidade. Eu diria que estas sondagens e que estes resultados trazem uma surpresa ao resultado eleitoral da primeira volta no Brasil, quase tão grande como aquela que aqui há um ano tivemos, quando depois de um empate e de um grande desafio nas eleições portuguesas, acabamos no dia seguinte com uma maioria absoluta do Partido Socialista. De facto, a derrota anunciada de Bolsonaro com uma diferença tão grande para Lula da Silva, com uma quase certeza que não iria haver a segunda volta, é tudo aquilo que não aconteceu neste resultado eleitoral. E eu acho que mesmo com o voto envergonhado, parece-me que é muito difícil que isto, tecnicamente, não pudesse ter sido detectado nas muitas sondagens que foram publicadas no Brasil e, portanto, eu acho que em todo o globo era muito bom que as empresas de sondagens fizessem um refresh, mudassem os seus métodos. Qualquer coisa não está a funcionar definitivamente nas sondagens um pouco por todo o mundo e sobretudo em lugares onde as eleições se radicalizam muito, como foi agora o caso no Brasil. Finalmente, em relação a este resultado, eu acho que o Brasil acorda completamente dividido. Acho que vamos para uma segunda volta em que eu temo que o ambiente quente que já se viveu neste primeiro ato eleitoral, ou nesta primeira campanha eleitoral, se venha a agravar um pouco, porque, de facto, a margem e a diferença entre os dois candidatos é muito pequena. E eu diria que a história pesa alguma coisa e não há história de que um candidato que tenha ficado em segundo lugar numa primeira volta venha a ganhar depois numa segunda volta. Mas os últimos anos e os últimos tempos também nos têm mostrado que a história não é tudo e que às vezes a história se inverte. E, portanto, eu não apostaria nada, à partida, em relação aos resultados da segunda volta, sobretudo porque acho que também, curiosamente e sintomaticamente, os dois candidatos que ficaram em terceiro e quarto lugar não quiseram anunciar já quem é que apoiam na segunda volta.
O que isso pode querer dizer?
Eu acho que eles querem fazer contas à vida. Aliás, eu acho que foi Simone Tebet que disse que esperava também por ouvir aquilo que era a opinião dos outros partidos. Portanto, eu acho que aquele à vontade com que parecia que todos se pendiam para o lado de Lula e deixavam Bolsonaro isolado, com este resultado, esse à vontade desapareceu. Eu, por acaso, curiosamente, ontem estive a almoçar com um brasileiro que estava aqui em Portugal, um brasileiro que vive em Washington, e que falava um pouco do cenário que se vivia no Brasil. E que dizia em relação ao terceiro e ao quarto lugar, que tanto Simone Tebet como Ciro Gomes poderiam integrar um governo de um dos dois candidatos que ganhasse as eleições, mas não distinguia claramente. Ou seja, havia muito quem no Brasil pensasse que votar em Simone Tebet e Ciro Gomes nesta primeira volta valeria a pena para que eles depois pudessem integrar um qualquer governo que viesse a sair das eleições. E, portanto, eu acho que neste momento eles estão cautelosamente a perceber o que é que será a melhor estratégia, embora já tenham dito que vão apoiar um dos lados, o que eu acho que, apesar de tudo, é um bom sinal para esta segunda volta.