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Antes de mais, o resultado. O que destaco é que foi uma grande vitória de Trump e dos republicanos. E é muito importante referir também os republicanos. Neste caso, não é só Trump.
Foi uma vitória toda a linha, não é?
E foi uma vitória porque Trump ganhou em todos os chamados swing states, aqueles estados onde havia dúvidas entre quem ganharia e que seriam decisivos para o resultado final, Trump ganhou em todos. Em muitos condados, mesmo em estados onde perdeu, onde tradicionalmente os democratas têm grandes maiorias, ele aumentou a votação. Parece-me que em nenhum condado, de todos os estados americanos, Kamala Harris conseguiu ter um resultado melhor do que Biden há quatro anos. Além disso, os republicanos ganharam o Senado. A Câmara dos Representantes, a última vez que eu vi ainda não era absolutamente certo, mas parecia ser os favoritos, não sei se já está confirmado ou não. Entretanto, tive que trabalhar o resto do dia e ainda não vi, mas isto é uma grande vitória dos republicanos, do partido e sobretudo do movimento de Trump que conquistou o Partido Republicano nos últimos anos. E esta vitória, politicamente, é diferente da vitória de 2016 e vai ter, na minha opinião, implicações mais sérias, quer para os Estados Unidos, quer para a política externa norte-americana. Em 2016, podemos argumentar que a vitória de Trump foi quase acidental. Foi muito mais uma rejeição de Hillary Clinton, por várias razões. Fez uma campanha fraca, já tinha sido derrotada nas primárias do Partido Democrata por Obama. Era a mulher de um antigo presidente, coisa que os americanos não gostam, de voltar a ter uma pessoa na Casa Branca que já lá esteve como mulher de um antigo presidente. Tudo jogou contra Hillary Clinton e Trump, nessa altura, foi mais uma vitória dele próprio, porque era o opositor de Clinton. Foi uma rejeição de Hillary Clinton, uma vitória de Trump, mas não havia um movimento político tão organizado, com tanta substância como há agora. E de certo modo, Trump, aliás, as figuras à volta dele eram figuras do Partido Republicano tradicional, enquanto agora são figuras que se identificam muito mais com o movimento político criado à volta de Trump, em que Trump está longe de ser o principal ideólogo desse movimento político. Portanto, parece-me que esta vitória tem um significado político mais profundo, mais elevado do que em 2016. Em segundo lugar, é uma grande derrota do Partido Democrata.
Era aí que eu ia te perguntar precisamente se houve aqui também, de certa forma, um erro de cálculo por parte dos democratas ao não terem avançado desde logo com um candidato e terem apresentado Joe Biden, em primeira instância, para ser o candidato democrata.
Ninguém sabe. Pode ter sido esse o erro, como o erro pode ter sido não ter deixado Joe Biden até o fim. A verdade é que há quatro anos Joe Biden derrotou Trump e agora Kamala Harris perdeu com Trump. É muito mais do que um erro de cálculo. É um erro profundíssimo, porque o que o Partido Democrata fez foi basicamente uma fraude política. Eu disse isso na altura, porque vamos nos recordar. Em março deste ano, o Partido Democrata votou maioritariamente com mais de 90% a favor da recandidatura de Biden à Casa Branca. Esta história agora está a ser criada essa narrativa que Biden recusou sair ou que ele forçou a sua recandidatura ao partido. Não é verdade. O partido votou nele, ele não forçou nada. Depois, Biden teve um mau debate televisivo com Trump, obviamente ligado a problemas visíveis que tinham a ver com a sua idade, e o partido entrou em pânico e fez um golpe contra Biden, não há outro nome. Depois de o ter aprovado uns meses antes, três meses antes, escolheu Kamala Harris sem qualquer processo democrático. Se calhar as coisas tinham corrido melhor se o partido tivesse pensado antes de apoiar a recandidatura de Biden, que possivelmente Biden não estava em condições de se recandidatar, e que se teria que fazer um processo democrático legítimo, com vários candidatos, com primárias, porque ganhavam uma legitimidade política que Kamala Harris nunca ganhou. Kamala Harris foi sempre vista como a substituta de última hora a Biden. E depois tentou-se criar uma biografia de Kamala Harris com exageros, quase um culto de personalidade, uma biografia que ela era uma espécie de Obama feminina, com Obama a participar quase todos os dias, todas as semanas na campanha dela, o que foi desde logo um sinal de fraqueza, porque percebeu-se que ela sozinha não era capaz de ganhar a eleição, precisava ter sempre Obama ao lado ou a participar na campanha. E portanto, isto acabou também por ser uma grande derrota para Obama. E eu acho que ele cometeu um erro em ter se envolvido tanto na campanha. E portanto, tudo isto correu mal ao Partido Democrata. Os americanos perceberam que havia aqui uma fraude política e que não era uma candidatura genuína. E depois foi uma candidatura errática, que nunca teve temas centrais. Numa campanha eleitoral é fundamental ter temas centrais e insistir neles durante toda a campanha até o fim. Para o bem ou para o mal, Trump tinha dois grandes temas: a economia e a imigração. E foi à volta desses temas que eles fizeram toda a campanha eleitoral. Trump, o vice-presidente, os candidatos ao Senado e os candidatos à Câmara dos Representantes. Isso não aconteceu do lado do Partido Democrata. São essas duas razões por que perderam.
João, e temos três minutinhos para terminar, como é que antevês este que será o segundo mandato de Donald Trump? Será muito diferente do primeiro? O contexto é diferente, naturalmente, mas a forma de estar na Casa Branca de Donald Trump nesse segundo mandato será diferente?
Não sei. Para ser muito sincero, não sei. E mais, acho que nem Trump sabe. É impossível saber. Como eu disse, parece-me que há uma consolidação ideológica que não existia em 2016. Há uma visão para os Estados Unidos mais definida, mais clara, independentemente de concordarmos ou não, há muitas coisas das quais eu discordo, mas parece haver uma visão mais clara, uma estratégia mais clara. Por outro lado, há também sinais de que Trump pode querer vingar-se de adversários, quer políticos, quer judiciais. Ele tem dado sinais nisso. Você vê que Trump é uma pessoa vingativa. Eu acho que isso será negativo, se ele usar o seu poder para se vingar, mas é o mais provável, apesar de ser negativo. Há aqui dois pontos que eu acho que é muito importante sublinhar para mostrar a imprevisibilidade do que será o segundo mandato de Trump como presidente. Um deles é: uma coisa é fazer campanha e estar na oposição, outra coisa é ser presidente dos Estados Unidos. Como em qualquer país, uma coisa é estar na oposição, outra coisa é estar no poder. E quando se está no poder, tem-se uma visão diferente das coisas, temos perspetivas diferentes. Por exemplo, Trump agora vai ter que pensar no interesse nacional norte-americano e não vai apenas pensar no seu interesse particular, porque ele sabe que uma derrota na política externa, por exemplo, para os Estados Unidos, é uma derrota para ele. Este é um exemplo. O segundo exemplo de que as coisas são imprevisíveis é que ninguém consegue prever o que é que vai acontecer no mundo nos próximos quatro anos. Se alguém em 2020 tivesse dito a Biden que a Rússia ia invadir a Ucrânia, que ia haver uma guerra no Médio Oriente como resultado de um ataque do Hamas ao território de Israel, coisa que nunca tinha acontecido, que havia tropas da Coreia do Norte a combater na Ucrânia. Era impossível Biden prever isto. É impossível prever, porque o mundo está complicado e nem Trump sabe o que é que vai ter que enfrentar. Agora, eu espero que Trump não coloque a vingança como seu principal objetivo, porque isso não é bom, é mau para todos, e acho que é mau para ele e é mau para os Estados Unidos. E vamos ver na política externa, e acho que há aqui dois grandes desafios para a Europa, e aqui já falo como português e europeu, dois grandes desafios para a União Europeia, que são as relações comerciais entre os Estados Unidos e a União Europeia, saber se Trump vai para a frente com o aumento de tarifas em relação à importação de bens europeus para os Estados Unidos, e a posição de Trump, obviamente, na guerra da Ucrânia. São duas questões absolutamente essenciais para a Europa, mas que é impossível também sabermos o que Trump vai fazer, porque ele é imprevisível. Nem ele sabe neste momento.